Você não se ajuda

Eu sei que talvez as coisas não estejam acontecendo como gostaria. Sei que, inclusive, quando parece funcionar, do nada não funciona mais. Tudo isso tem te cansado tanto, eu sei. E só sei porque essa história é mais repetida do que parece.

É que a vida tem mesmo dessas. Parece que ela dá uma rasteiras na gente pra ver se a gente acorda e faz alguma coisa. E é sobre isso que eu queria falar com você.

É que tenho te visto reclamar tanto sobre tudo, mas tenho te visto tão pouco fazer alguma coisa para mudar. A definição é simples e conhecida por todos: você não se ajuda.

Você não se ajuda mas deposita nos ombros do destino toda a responsabilidade para as coisas darem certo. Você cobra que a vida bata na sua porta trazendo todas as suas oportunidades – ou até mesmo que a vida te traga um novo amor. Você exige mais do que a vida te oferece. Você agradece pouco quando a vida te privilegia. Você percebe tudo isso?

Você percebe que não se ajuda? Que quando aparece alguém legal você insistir em cavar defeito? Percebe as portas que fecha para tudo na sua vida? Percebe que os dias só parecem tão longos assim porque você não consegue aproveitá-los? Percebe que metade das coisas que deseja viver depende de você? Se não percebeu ainda, é bom que comece.

Eu gostaria de te convidar para colocar a mão na consciência e refletir sobre si mesmo; refletir sobre suas atitudes, refletir sobre sua dedicação para ter as coisas que deseja, refletir sobre o que deseja colher versus o que tem plantado e refletir também sobre seus erros, excessos e formas de ver. A gente sempre pode melhorar.

Acho que todos os problemas já estão super claros. Acho que já deu para entender que essa não é a vida que você deseja ter. E acho que já deu para diagnosticar cada um dos problemas que fazem parte dos seus dias. E, por isso tudo, eu acho que já deu de reclamar para então começar a fazer alguma coisa.

Chegou a hora de se ajudar. Chegou a hora de amar a si mesmo antes de querer amar alguém. Chegou a hora de ter a si mesmo antes de ter qualquer coisa nesse mundo. Chegou a hora de fazer alguma coisa, mudar a rotina, cortar caminhos, movimentar as coisas. Chegou a hora de você parar de deixar a o mundo viver em você e começar a viver nele. E chegou a hora de parar de atrair para você coisas e pessoas que não te fazem bem.

Você não se ajudou tanto até hoje, mas que isso seja passado então. Quando essas palavras chegarem nos seus olhos, eu gostaria que fechasse os olhos e pensasse um pouco em você. Suas respostas não estão em algo ou alguém, mas sim em você. Todas elas. E isso é bom, porque isso significa que você é responsável pelo que vive e pelo que deseja viver.

Chegou a hora de você perceber que não precisa esperar ajuda de ninguém se você conseguir acordar todo dia se ajudando a viver melhor.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

Quando a gente dá tchau com vontade de ver de novo

Tem pessoas que marcam a nossa vida. E só quero falar das marcas boas. Pessoas que fazem a gente voltar pra casa olhando nosso reflexo no vidro do metrô pensando: “como é bom conhecer alguém legal”. A todo momento podemos conhecer pessoas, mas não é sempre que alguém quer conhecer a gente também.

É aí que as coisas mudam.

É quando a gente sente que tem alguém com a mão na maçaneta da porta da nossa vida, isso quando não entram sem avisar, como se conhecesse toda a bagunça que somos.

Quando a gente conhece alguém bacana a gente não quer parar de ouvir esse alguém falar. A gente quer congelar as horas e ficar lá ouvindo e por vezes falando. É um revezamento de assuntos que vai preenchendo nosso peito. Ora a pessoa expondo um ponto de vista, ora somos nós também. E o mais mágico é quando essa união se faz completa, isto é, quando esse alguém termina a frase que a gente começa. E a gente até conta para os amigos mais próximos de tão impressionados como ficamos. Não é sobre paixão, poxa, é sobre atenção, sobre alguém gostar de ouvir o que a gente pensa sobre qualquer coisa do mundo.

Esse é um alguém que a gente da tchau com vontade de ver de novo, sabe? É alguém que a gente se despede com um sentimento curioso como se falasse: “queria te ver amanhã!” mas sem saber se vai acontecer. É um alguém que depois de um “a gente se fala” começa uma contagem regressiva para encontrar de novo e trocar mais opiniões qualquer coisa que faça sentido – ou não.

E aí a gente volta pra casa com uma dúvida se tudo o que aconteceu foi real mesmo, se realmente é real que esse alguém completa a risada que a gente dá, se realmente é real que esse alguém parece ter gostado da gente também. É que os machucados da vida ardem demais pra gente aceitar que também somos o interesse de alguém, que também podemos ser alguém que outro alguém vai gostar de ouvir e vai dar tchau com vontade de ver de novo. A gente duvida, a gente não quer acreditar: “Como assim me ver de novo?”, “É sério mesmo?”, “Jura que ontem não foi só ontem e que para você tudo bem a gente se ver hoje?”.

A vontade de ver alguém de novo é só uma vontade de viver momentos legais outra vez. É loucura dizer que isso já é sobre amor e também não é só sobre sexo, não tem nada disso, é sobre ficar perto e ter uma mão para acompanhar a nossa no caminhar da rua e sobre continuar aquele assunto, é sobre a vontade de ver alguém de novo para saber mais desse alguém, para derramar nossa verdade, para conhecer os sonhos, descobrir os medos, pra gente se sentir especial de alguma maneira.

Quando a gente da tchau com vontade de ver de novo é quando a gente pensa que talvez seja a nossa vez de ter alguém para nos fazer bem também. Nem que seja só por algumas horas e tudo bem.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

Amor se constrói aos poucos

Pode acontecer de você não estar tão afim assim de alguém que está super afim de você agora. Pode acontecer. Também pode acontecer de você estar super afim de alguém que não parece estar tão afim assim de você. Isso pode acontecer. Mas esses dois momentos não são assim tão definitivos quanto parecem.

O que era para ser só mais um beijo na sua vida, mais uma distração, pode se tornar o único beijo que deseja ter pra sempre. Você pode amanhecer querendo ficar ao lado daquela pessoa todos os dias. Aquela pessoa pode amanhecer querendo ficar ao seu lado todos os dias. É tudo sobre possibilidades e sobre o quanto a gente faz a nossa parte para viver o que queremos.

Esse seu rolo pode virar amor, só não dá para garantir, muito menos dizer quando. Só que pode ser. Você pode passar a prestar atenção em quem se esforça para te fazer bem, especialmente se lembrar de todo mundo que não mediu esforço para te fazer mal.

Não tenha pressa em amar alguém. Não tenha pressa em se apaixonar. Não exija também só ficar com alguém se sentir algo forte. Não pense que o amor é uma escolha. Não se cobre que toda boca que beijar seja um contrato de amor. Pode acontecer ou não. Tenha calma, amor se constrói.

Amor é regar uma plantinha de alegria para ver se floresce felicidade.
Amor e impaciência não combinam.

Construir amor é ver a pessoa um dia, ver de novo em outro e continuar vendo na semana e quando quiser enquanto te faz bem até perceber que deixou de só fazer bem para ser amor.

O mais irônico é que o amor é a única construção do mundo que não tem fim, mas que também ninguém espera que acabe. É uma obra infinita que a gente aproveita todos os dias.

Amor pode ser furacão e te invadir inesperadamente, mas também se constrói aos poucos. Se constrói ao retribuir a atenção de quem te dá, se constrói ao ser agradável com quem é com você, se constrói ao valorizar as coisas boas que alguém te fala, se constrói ao se dar chance para ter a sua vez de sentir o sabor da felicidade. E, tudo isso, só porque são exatamente as mesmas coisas que você gostaria que fizessem com você. Amor é você não perceber e só sentir que já construiu, é você se dar conta que ontem era um alguém tanto faz mas que hoje é um alguém fundamental.

Então, neste ano novo e para sempre em sua vida, lembre-se sempre que amor se constrói. Lembre-se principalmente nos momentos em que se sentir sem ninguém, lembre-se nos momentos em que estiver com alguém que cuida um pouco de você.

Todo o amor que deseja viver depende do quanto você deixa ele existir em você. E toda história é um terreno onde dá para construir amor, mas é necessário ter calma para colocar um tijolinho por dia.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

Ganhei nós dois de Natal

Ganhei nós dois porque além de ser você eu encontrei a mim em nós. Quando a gente conhece alguém que nos faz bem, a gente se conhece melhor. Acho que antes de você as minhas expectativas estavam realmente baixas. Eu não esperava mais das pessoas, mas também pudera, foi tanta frustração, tantas vezes que eu chamei de nós o que era eu sozinho, mas passou.

Neste Natal eu ganhei nós dois.
Ganhei a sua companhia colorindo dias que eu nem reparava na cor. Ganhei o som da sua risada que dou repeat naqueles áudios no Whatsapp.

Ganhei sua preocupação comigo, sua fiscalização para que eu tome os remédios quando necessário, sua atenção para me ouvir falar sobre o que não tem a ver com você, tipo as reclamações de mais um dia normal de trabalho.

A gente não pode depositar nossa felicidade em algo ou alguém e, por isso, eu não posso dizer que ganhei um novo sentido na vida com você, mas digo que ganhei você para acompanhar o meu caminho. O que eu acho muito melhor.

Falando nisso, eu nunca quis alguém para me mostrar o caminho da vida, mas sim alguém para andar comigo e desviarmos para o nosso. Como a gente fez esse ano.

Hoje não me sinto mais sozinho. Hoje tropeço nas pessoas digitando mensagens para te mandar no metrô. Hoje compro os chocolates que gosta para te dar quando te ver. Hoje te vejo dormir no meio do filme e te cubro para os pernilongos não se aproveitarem. Hoje a gente coloca luzes na árvore pra tentar imitar a luz que faz quando você sorri. Hoje penso como foi bom você ter aparecido e como foi melhor ainda ganhar nós dois neste Natal.

Acho que o presente realmente tem a ver com o que a gente fez no passado. Apesar dos dias tristes em tantas histórias, eu sempre fui quem eu gostaria de ter e aí acho que o mundo se organizou pra gente se encontrar na mesma volta entre tantas que ele dá. Você aparecer para mim tem a ver com eu me sentir merecedor de também viver bons dias. E mais ainda com eu gostar tanto de fazer bem, tipo como posso fazer a você agora.

Eu não sei como vai ser daqui pra frente, mas só de lembrar como foi daqui pra trás, eu já me sinto feliz demais. Ano passado eu andava perdido e neste ano eu andei com você. As coisas sempre podem melhorar.

Ganhei nós dois de Natal e a felicidade é o melhor presente pra gente no final.

por Márcio Rodrigues
@marciorodriguees

Pelo menos a gente pode tentar?

Tá, eu não sei mesmo no que vai dar. Eu não faço ideia se isso vai dar em algo, apesar de nem saber o que significa esse algo direito. É que pode ser uma coisa para mim e outra para você. O padrão seria a gente namorar e prometer ficar juntos pra sempre? Pode ser que sim, mas eu não queria pensar nisso, sei lá, não agora. Vivi tantas histórias na minha vida planejando o que nunca aconteceu e isso me frustrou muito. Me baseava em talvez. A minha ansiedade toda era desenhar sonhos que nunca aconteceram. Eu já tinha escolhido o nome dos filhos. Já tinha escolhido onde morar. Já tinha planejado viagens e pesquisado preços. Essas coisas. Eu já pensei em tudo isso em vezes passadas.

Só que eu agora eu só queria tentar a gente.
Sei lá, tentar. Tentar ficar com você. Tentar que a gente fique juntos sem saber até quando. Eu não sei até quando, eu não quero te prometer nada, mas eu também não vejo nada que nos impeça de pelo menos tentar alguma coisa.

Também lembro das suas histórias e dores, lembro dos seus amores e de como, diferente de mim, alguns dos seus planos até foram verdade. O que também não significa algo tão bom assim pois você acumulou frustração parecida com a minha. Você me contou, não esqueço.

É por isso que andei pensando se a gente só poderia andar de mãos dadas. Dia após dia devagar. Alimentando um ao outro com jantares legais e risadas gostosas ao invés de expectativas e ansiedades. Ironicamente, apesar de não querer planejar nós dois, isso me parece um bom plano.

Pelo menos a gente pode tentar?
Se tentar ser feliz significa algo grande demais para esse nosso momento, pelo menos a gente pode tentar fazer bem um ao outro? Eu te perguntando do seu dia, você me abraçando sem pressa quando me ver. Essas coisas e todas as outras que podem construir algo que a gente nem faz ideia do que pode ser.

Vê que impreciso? Mas precisa ser preciso? A gente não pode só precisar um do outro?

Eu quero viver mais com você do que só planejar. Quero te fazer mais bem que só te prometer. Quero te beijar mais do que só querer. Se a gente não se quiser mais amanhã alguém vai ficar triste, mas é no hoje que eu quero me focar e depositar minha energia.

Hoje eu quero que a gente viva bem pra gente querer viver bem amanhã de novo.

Pelo menos a gente pode tentar.

Márcio Rodrigues, 
@marciorodriguees

Sobre dar atenção a quem não se importa com você

É que existe um negócio assim: por algum motivo, tem gente que não gosta quando tem alguém dando atenção, ou melhor, até gosta mas usa isso só a seu próprio favor. Esse é o tipo de gente que usa da nossa atenção só para preencher um buraco na vida que ninguém consegue preencher. Parece confuso? Vamos falar mais.

Normalmente, essa pessoa é aquela que deixa você falando sozinho no Whatsapp e só responde quando ela tem o interesse em algo. Em geral, o diálogo recomeça com a desculpa de “nossa, eu nem vi, tá tudo tão corrido”. Essa é uma pessoa que sabe muito bem o quanto você não gosta de brincar ao demonstrar que gosta, mas ela usa isso só para fazer bem ao ego dela. Essa pessoa sabe bem que se rolasse um clima real a mais entre vocês, pelo menos da sua parte, rolaria uma historinha. E, exatamente por saber disso, ela faz e acontece com a atenção que você dá a ela.

E aí ela some. Vai viver outras coisas, conhecer outras pessoas e, depois de um tempo, reaparece como se fosse só mais um dia normal. Essa pessoa é maquiavélica. Em um domingo qualquer, ela pega o celular, resgata o histórico de conversa e pensa: “bom, vou dar um mole aqui só para eu me divertir”.

Quanto mais atenção você dá, menos a pessoa se importa.

No fim, ela está realmente cagando para você e para o seu sentimento, a não ser que você diga alguma coisa bonita, algum elogio, consiga algum benefício – tipo um ingresso de show – ou alguma coisa que fará bem a ela, nesse caso, portanto, essa pessoa se interessa sim pelo que você sente.

Tempo e atenção são coisas cada vez mais raras e, exatamente por isso, é injusto que seja desperdiçado por quem faz tão pouco. E como fazer para reverter isso? Basicamente o mesmo que a pessoa faz quando não quer mais falar com você: sumir. Sei que é meio péssimo usar da mesma moeda, mas tem vezes que é importante. Deixar de estar presente na vida dela de todas as maneiras, na vida real e na virtual. Deixar de dar audiência, deixar de estar a disposição, deixar de “conte sempre comigo”. É horrível porque você acaba tendo que ser um pouco menos você, mas é necessário para que não seja feito de idiota e que sua atenção não seja só uma questão de estalar os dedos. A gente precisa cuidar da gente, ninguém vai fazer o mesmo. A gente precisa valorizar as nossas coisas boas e nossa atenção é uma das maiores, pois se trata de doar um tempo nosso para alguém, mas este alguém não pode pisar em cima disso. Presta atenção se há reciprocidade, presta atenção se a pessoa só te procura quando tem alguma merda na vida dela, presta atenção se você não está sendo manipulação ao invés de encanto. Só tenta prestar atenção.

Você não precisa deixar de ser quem é, só precisa ser quem é para quem merece.

por Márcio Rodrigues
@marciorodriguees

Quando a gente conversa

Eu já acordo com uma mensagem sua.
E quando não, é você quem acorda com uma mensagem minha.
E assim a gente vivendo todos os dias devagarzinho.

Passo as primeiras horas do dia já dividindo minha vida com a sua. Te conto do que assisto na TV, te conto do transporte público lotado, te conto das primeiras horas do trabalho. E tudo isso ouço de você também.

É bom saber mais de você. É bom saber se você vê a rotina do mesmo jeito que eu. E nem é sobre o jeito mais legal de ver, é sobre, sei lá, o nosso jeito de ver separados. Eu gosto de aprender com as pessoas e, por isso, confesso que passei a ouvir mais aquela banda que você gosta só para eu entender porque você gosta tanto. Acho que isso é bom,

Eu acho que estamos tendo uma conversa infinita. Não se trata de novas, se trata da mesma interrompida e continuada, sabe? Depois do trabalho a gente comenta um pouco um do dia do outro e a madrugada entra sem a gente perceber. Algumas reclamações iguais, alguns almoços em serlf-service de todo dia, nada muito diferente, mas tudo diferente depois que alguém passa a fazer parte da nossa vida. É por isso que estou gostando da gente. Minha vida virou um filme depois que você apareceu. É engraçado como tudo virou cena de seriado ao te contar, de uma pessoa escorregando no metrô a uma palavra engraçada que ouvi no dia, qualquer coisa que meus olhos veem vão direto para o seu coração e vice-versa. E isso tem me feito bem.

Eu não quero parar de falar com você. Não quero te ver indo embora mal tendo chegado.

É cedo demais para eu dizer que isso tudo vai dar em algo, mas já tem sido bom demais ter um brilho a mais na minha rotina. Sei que ultimamente tenho lido menos livros do que eu lia nos trajetos e horas livres, mas tem sido tão bom te ler um pouco mais também. Já decorei os emojis que usa, o jeito que ri e a hora que dorme me deixando falando sozinho. Acho que já te conheço um pouco.

Quando a gente conversa eu fico bem.
Me sinto a vontade para falar de tudo sobre mim. E me sinto ainda mais a vontade para responder suas perguntas. É tão bom ter alguém perguntando coisas sobre a gente.

A vida não é interessante, somos nós que criamos interesse em viver.

Você tem transformado meu dia a dia.
Rio sozinho no metrô e as pessoas percebem. Ouço seus áudios no whatsapp sem abaixar o volume e sua voz sai alta hahaha. Não te respondo também em áudios porque tenho vergonha em meio a tanta gente. Mas eu gosto de ouvir os seus, gosto de ouvir o jeito que você fala. Você fala bonitinho.

Quando a gente conversa é quando a gente conhece alguém. Não tem a ver com ser bom de lábia – o que é isso? -, tem a ver com ser bom de fazer bem a alguém, isto é, aquilo tudo o que somos, que nascemos aprendendo, mas que esquecemos de praticar. E fazer bem pode ser perguntar para a pessoa o que ela pensa sobre o brócolis e uva-passa no arroz. Fazer bem é tentar fazer o que nunca fizeram. Escrever capítulos inéditos da vida da pessoa.

É muito fácil fazer bem a alguém, a gente só precisa querer mais, nos interessar mais, ser mais quem gostamos de ser e quem gostaríamos de ter.

Quando a gente conversa eu tento te fazer bem do mesmo jeito que você me faz.

por Márcio Rodrigues
@marciorodriguees

Morar junto é casamento

E tudo bem, sabe? Tudo bem.
Não tem como distinguir morar junto de casamento. Como que se atenuam as regras? “Ah, isso você só pode me cobrar depois do casamento”, “Me deixa, parece que estamos casados!” Parece não, estão mesmo. Morar junto é estar casado, queira você ou não.

Morar junto é entrar na vida um do outro todos os dias um pouco mais. Morar junto é aprender, na marra – e no amor -, a ter paciência um com o outro. É descobrir coisas todos os dias e lidar com todas elas, boas ou ruins. Morar junto não é fácil, mas nenhum casamento é.

Engana-se você se pensa que só porque não carrega uma aliança na mão esquerda, só porque não teve cerimônia, só porque não teve os procedimentos e tudo mais, não pode se sentir casado. Isso é tudo coisa que inventaram ao longo dos anos para nos condicionar de que: “PRONTO, CASAMOS COM CERIMÔNIA E FESTA, AGORA É SÉRIO” – sendo que NUNCA deixou de ser sérios só porque não eram casados “segundo as regras”.

Mas é preciso tomar cuidado, pois: se você decidiu morar junto com alguém para “não se sentir sozinho” ou para “sair logo de casa” ou quem sabe “dividir as pesadas contas de um ap sozinho”, você está fazendo isso errado. É como se estivesse morando com alguém pra alguém ajudar a SUA vida a ser melhor, não para construir uma vida melhor JUNTOS. O tempo – e as brigas – vão contestar sua escolha. É na dificuldade do morar junto que você entende que resolver não é só desligar o telefone ou um “cansei, vou voltar pra casa dos meus pais” – todas as suas coisas estão na casa com quem você mora. Tudo mudou, você casou e nem percebeu. E tudo bem também, tá?

Morar junto é casamento sim. É colocar aquele quadro que representa algo dos dois. É ter rotina, é ter que ir ao supermercado, é descobrir o preço do detergente. Morar junto é casamento sim e você vai precisar sim dar satisfação dos seus dias para aquele com quem divide o teto, os dias e a vida.

Não faz sentido o quanto morar junto é um casamento?

Mas isso está longe de significar algo ruim.
Morar junto pode ser sim aquele passo a mais para a vida ficar mais gostosa para os dois. Pode ser uma atitude para deixar os corações mais pertinho e acordar com preguiça de levantar. É preparar um jantar em casa e chamar os amigos. É rir preparando o almoço. É comprar um iogurte que aquela pessoa gosta e deixar na geladeira para que ela perceba. É combinar que a louça do almoço é minha, mas do jantar é sua. É emendar seriados no fim de semana em um cantinho só nosso. É fazer um bico aqui ou ali para conseguir um dinheiro a mais e aliviar as contas. É varrer o chão e encontrar cueca roupa limpa embaixo da cama. É o elogio ao se arrumar em frente ao espelho. É planejar uma viagem e deixar o cachorro com um amigo. Morar junto não é ruim, mas é preciso lembrar que não é mais só um namoro, porque o erro está em interpretar o morar junto só com uma simples e fria divisão de contas para pagar.

Morar junto é escolher fazer alguém feliz todos os dias apesar de nem todos os dias serem felizes.

E, olha só, assim como aqueles casamentos de 50 anos que acabam, se você não conseguir mais morar junto, você para e recomeça.

Amor não é um contrato.
Só morar junto que é um casamento.
E viver com alguém é especial e bonito.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

O problema é a timidez

Esse é o tipo de coisa que só quem passa sabe como explicar.
Aos olhos de fora, daquele grupo dos bem resolvidos consigo mesmo, é muito fácil apontar o dedo e dizer: “mas é tão fácil: é só falar o que sente”

E o desafio é justamente esse: SÓ falar o que sente.

As coisas não são assim SÓ FALAR O QUE SENTE. Isso é algo muito sério e muito profundo. Talvez seja esse o problema das relações descartáveis; é tudo muito simples, muito prático e muito mecânico: “é só falar o que sente” até mesmo sem pensar muito, só falar mesmo.

É claro que os tímidos sofrem muito também por levarem a sério demais algo que realmente é simples. Responder uma mensagem, por exemplo. O ponto é: só os tímidos sabem como é ser o que são. Se para você é simples dar uma cantada em alguém, para o tímido é o desafio da vida.

Existe uma divisão entre as pessoas: há aquelas que arriscam tudo em falar com alguém, que inclusive encontram na bebida toda a coragem que não possuem; e há aquelas que guardam tudo dentro do coração que, por sua vez, transborda medo.

Sim, medo.

Medo de tocar num assunto que é tão bonito, mas é medo. Medo de falar que está gostando de alguém e esse alguém não entender. Medo de ficar constrangido com uma resposta negativa. Medo de ser mal interpretado. Medo de arriscar um beijo sem ter certeza que a pessoa quer. No mundo dos tímidos é muito difícil existir o verbo arriscar. Esse negócio de tentar sem saber no que vai dar não funciona muito para os tímidos, porque eles param no tentar.

Eles sentem e sentem até demais, sentem tanto que se afogam em tudo o que sentem. Cheios de sentimentos, dentro dos tímidos só tem vontade de fazer bem também.

Ninguém ESCOLHE ser tímido: “ah nossa, a partir de agora vou falar menos, principalmente se eu tiver a fim de alguém”. Isso não é engraçado. Muita gente SOFRE TODO DIA O DIA TODO por não conseguir colocar pra fora as coisas que sente. É um processo silencioso e doloroso.

E a timidez é um problema que vai além das relações sentimentais.
Há, por exemplo, quem seja tímido para socializar no trabalho e acaba passando uma imagem que não é pretendida, afinal, como você pode explicar para quem não te conhece que você é mais fechado porque é tímido? Não há como conhecer alguém e alertar: “oi, é bom que saiba que eu sou muito tímido, não liga não, tá?”

A timidez é algo tão sério que atrapalha até quando não é sobre o tímido ter iniciativa, ou seja, os tímidos sofrem até quando alguém revela a eles o que sente. Tímidos sabem muito menos como lidar com elogios, tímidos sabem muito menos como lidar com pessoas interessadas neles, tímidos sabem muito menos identificar quando estão sendo flertados. Da para entender que é difícil dos dois lados? Em dizer o que sente e em ouvir o que sentem.

Eu quero dar dois recados. O primeiro é para os não-tímidos:
As pessoas não são iguais. O que é fácil para você não significa ser para o outro. Tudo pode intimidar alguém, até revelar um sentimento bonito. A pessoa pode simplesmente não saber como agir, muito menos responder, por mais estranho que isso pareça. Não julgue a falta de atitudes, converse e seja alguém atencioso. E entenda: pode ter uma incrível pessoa tímida interessada em você mas sem saber o que fazer para te mostrar isso. Quanta abertura você dá para esse tipo de coisa?

Agora para os tímidos:
Vocês não são piores que ninguém. A timidez que possuem pode ser transformada numa qualidade. Explico: uma pessoa tímida tende a ser uma pessoa charmosa – é claro que depende do quanto é. A timidez pode ser um recurso de sinceridade, de desviar o olhar sim, mas falar a verdade, abrir o coração. Eu sei que sua timidez já te fez sofrer muito, que você até se pergunta das coisas que teria acontecido se tivesse sido menos tímido, mas talvez seja a hora de você parar de deixar o cérebro comandar 100% das suas ações e deixar o coração tomar um pouco de conta. Talvez seja a hora de ser um pouco menos racional e mais emocional – assim, do jeitinho que você sabe ser. O valor maior está na tentativa não nos resultados. Se a pessoa não quiser você? Tudo bem, outra vai. Se a pessoa não aceitar seu beijo? Tudo bem, outra vai. Se a pessoa não responder o que você gostaria? Tudo bem, nem sempre isso acontece mesmo – mas uma hora rola.

A gente sabe que a timidez faz sofrer, mas o que rima com felicidade é a nossa força de vontade. Você vai sentir o sangue correr mais rápido nas veias quando conseguir tomar a primeira atitude que sua timidez sempre impediu. Sem esperar resposta. Sem esperar reciprocidade. Sem esperar nada. Uma atitude sua por você. Teu coração vai bater de uma forma gostosa e teu sono vai ser melhor. Você vai ser muito mais feliz quando se importar mais em falar o que sente do que no que vão dizer sobre o que você sente. Entende? Não se cobre, não coloque metas e nem seja quem não é, mas lembre-se: a maior parte da sua felicidade depende de você enfrentar aquilo que te impede de ser feliz, isto é, você mesmo.

Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

Quando alguém é interessante

Quando alguém é interessante a nossa risada fica solta. A gente passa a se amarrar em mergulhar dentro da pessoa e cada pedacinho mais que conhecemos é um pedacinho excitante.

Quando alguém é interessante a gente se empolga e não para de falar. A gente entra na madrugada e parece que são três da tarde. A gente conversa sem saber o que a pessoa vai responder. A gente consegue falar de qualquer assunto e, quando não existe assunto, a gente inventa.

Quando alguém é interessante é quando esse alguém é ele mesmo e não alguém para nos impressionar, sabe? É que tem gente que encara um personagem só para chamar a atenção quando, na verdade, o que impressiona mesmo é o quanto esse alguém é real, seus valores e o modo que ele vê a vida. Alguém interessante é alguém que a gente gosta. Não precisa ter faculdade, saber a banda do momento, não precisa conhecer o mundo, não precisa falar sete línguas, não precisa ser todas aquelas cópias de pessoas. Não precisa um monte de coisa. Alguém interessante é alguém que sabe o que quer da vida, que ouve a música que gosta, que sonha viver o mundo de um jeito próprio, que fala a língua da verdade e que gosta, acima de tudo, de ser alguém especial para alguém.

A gente se interessa (ou deveria) por quem não é interessado unicamente em si mesmo.

Quando alguém é interessante a gente só quer encontrar uma maneira de falar ainda mais com esse alguém. Respondemos escondido no trabalho, vamos ao banheiro para ouvir o áudio no Whatsapp. Aproveitamos a volta para casa digitando em todos os lugares: caminhando, sentado e até esmagado no metrô digitando com uma mão só.

Quando alguém é interessante a gente não quer que esse alguém perca o interesse na gente também.

Quando alguém é interessante a gente começa e mencionar essa pessoa para os nossos amigos. Confidenciamos para aquele mais próximo: “preciso falar com você sobre alguém”. A gente se encanta e vem sorriso sem sorrir de canto. A gente quer saber dos sonhos da pessoa, da rotina dela, do que ela ama e do que odeia.  Tudo é assunto. “Me conta o que comeu hoje”. Tudo é assunto.

Quando alguém é interessante a gente quer saber tudo e tudo ainda é muito pouco.

Mas, afinal, como é alguém interessante?
A primeira coisa é que todos somos, mas muita vezes não mostramos tudo o que somos.
É um monte de coisa, mas é simplesmente alguém de verdade. Alguém que não usa o recurso da mentira só para nos chamar atenção. Alguém que até erra e comete algumas gafes, mas é alguém que tem senso de humor para relevar. Senso de humor conta muito. É alguém que não te julga e não joga na sua cara as próprias conquistas. É alguém que vê a vida do jeito que ela é, totalmente imperfeita, mas constrói formas de vivê-la de um jeito mais legal. É tipo alguém que te explica porque gosta de sopa no calor, sabe? Alguém interessante não necessariamente é alguém com talentos, que saiba tocar violão, cantar bem ou desenhar.

A maior habilidade de alguém interessante é nos fazer sentir vivos.

Alguém interessante, sobretudo, é alguém que se interessa pela gente também exatamente do jeito que somos.

Alguém interessante é alguém que ouve a gente e diz o que sente. Não é sobre beleza, nem sobre o dinheiro na carteira, mas é sobre os olhos, aqueles da visão na atenção que nos dá e aqueles do coração que se entra para nós só no tocar da nossa mão.

Será que você não está desperdiçando alguém interessante?

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

 

 

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