O problema foi você mesmo

Precisei passar por muitas coisas antes de você para que pudesse ser mais fácil entender os motivos pelos quais a gente terminou. 
É que o meu eu de antes, tranquilamente, colocaria toda a culpa em mim. 
Puts. Tantas vezes. E, sim, em algumas delas foi mesmo.
Mas a gente tem uma tendência a quase torcer contra nós mesmos. 
Dessa vez não, dessa vez está bem claro: o problema foi você mesmo.  

Você não se deu bem com o que mais gosto em mim. 

E eu, basicamente, não posso fazer nada a não ser respeitar.  
Veja, antes de ter toda essa certeza, avaliei para entender se era algum excesso e, mais que isso, se era alguma coisa de fato prejudicial no pior sentido intencional da palavra, mas depois de um, dois, três, vários episódios, é tudo sobre uma questão de afinidade. Algumas das coisas que mais gosto em mim simplesmente não combinam com você. 

Parece que te assustava, por exemplo, meu jeito de tomar iniciativa. Entenda, antes de você, eu era quem esperava muita das pessoas e toda essa espera sempre me fez mais mal do que bem. Por isso que não espero mais. É bem chato ter uma relação burocrática onde a gente tem que medir os passos porque a outra pessoa pode se sentir acoada. Eu sempre quis fazer tudo com você, mas você parecia querer as coisas só no seu tempo. E isso é injusto.  

Outro exemplo, meu jeito de cuidar. Eu gosto de me colocar à disposição para ajudar, gosto de dar alternativas para resolver as coisas, gosto de perguntar se está tudo bem. Mas, aparentemente, tudo isso parecia algum tipo de perseguição a você; sei lá, parecia que, de alguma forma, violava sua privacidade – pelo menos é o que você demonstrava quando reagia com rispidez. Ou seja, se pra mim é uma gentileza mandar uma mensagem para saber se precisa de alguma coisa que eu posso ajudar, e você não reage bem a isso, é um sinal de desarmonia.  
 
E em todas as vezes que precisamos conversar sobre a gente? Ou você fugia ou ironizava: “tá bom, tá bom, vamos falar então sobre a gente, tá feliz agora?” E a gente só precisava conversar. Ouvir e falar sobre o que não está indo bem e que podemos melhorar. A gente só precisava se alinhar. Você nunca gostou de falar sobre a gente. 

E ainda tem uma coisa que parece detalhe, mas só parece: você não gostava muito de curtir minhas vitórias. Sempre deixei claro o quanto gosto de celebrar uma boa notícia, um dia bom, uma boa surpresa. E o celebrar é só sobre comer em algum lugar diferente ou algo do tipo. Tentei algumas vezes, mas você sempre torcia o nariz. “Precisa mesmo?” Perguntava. Tudo parecia um trabalho grande; um grande esforço. E é esquisito porque era sobre uma notícia boa, um momento bom. 
 
Sabe, nada disso significa que estou sempre com razão. Eu falo disso aqui recortando um pedaço da nossa rotina. Percebi aos poucos que o desalinhamento ficava agudo justamente quando eu fazia as coisas que mais gosto: me preocupar com você, tentar te ajudar, te chamar para comemorar comigo e por aí vai. E, justamente essas coisas, eu não quero mudar – a não ser que alguém me diga que faz mal, o que nunca aconteceu. 
 
Já me culpei demais por coisas que eu simplesmente não tinha culpa. Essa dor eu não vivo mais. Você não se deu bem com algumas das coisas que mais gosto em mim. Este é o fato. E tudo bem, mas vou continuar dando o meu melhor para fazer bem a quem estiver comigo. Com você não funcionou. 

//
por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Percebi você desistindo da gente

Havia uma corda. 
Fixada de maneira forte o bastante para aguentar qualquer mudança de clima. 
Dias de sol e outros de temporal. 
Ela se mantinha lá. 
Até que ela foi se fragilizando. Ela cedia um pouco por dia por um lado. 
O lado em que estava você. 
No outro estava eu tentando segurar. 
 
Você foi me dando sinais que só me fizeram sentido quando os olhei de forma única. 
Primeiro, parecia impaciente até com as minhas piadas. 
A gente não dava mais risada um com o outro. 
Não havia mais série pra gente assistir juntos. 
E eu tentava te surpreender, mas o que antes era incrível para você passou a ser ok. 
 
Passou, também, a demorar para responder minhas mensagens. 
Muitas vezes nem sequer respondia. 
– “Dia corrido” 
Os emojis e figurinhas foram extintos. 
E o “eu também” se tornou protocolar. 
– “Saudades” 
– “Eu também” 
Apesar de tudo, lá estava eu sempre com um “tudo bem” ao alcance do bolso. 
Pouco a pouco fui colecionando exemplos de como você não queria mais ser a gente. 
 
Mais de uma vez, perguntei o que estava acontecendo, mas você que já não gostava de conversar, passou a rejeitar meu acesso. Maldita percepção negativa que criaram para os diálogos sobre as relações. 
Tentei te contornar. Não me cabe a ideia de não tentar tudo até que nada mais funcionasse. 
Você não reagia. 
Marcar de ver meus amigos te parecia a pior a notícia. 
E quando a gente estava com os seus eu parecia não estar no mesmo lugar. 
A gente parou de funcionar, mas eu não queria. 
Todo dia aparecia um novo furo na canoa e eu tentava tampá-los para não afundar. 
Percebi, então, duas coisas: 
1. Você, de verdade, estava desistindo da gente; 
2. Eu estava com uma vontade incompatível com a sua; 
 
Queria continuar, mas não queria o trabalho todo. 
A nossa parceria se transformou em uma empresa pra gente administrar. 
Almoços familiares. Aniversários inadiáveis. A gente participava, mas a sua vontade passou a ser obrigação. Você não dizia, mas também não precisava. 
Sentia falta do carinho mínimo. 
Suas pernas enroscando com as minhas no sofá. 
– Vou fazer pipoca, pausa o filme? 
Essas coisas. 
A gente foi se despedindo sem conversar. 
 
E o que era a gente passou a ser você e eu, com nome e sobrenome. 
Seus sinais se mostraram reais e sua parte da corda caiu no chão. 
2. Eu estava com uma vontade incompatível com a sua; 
E ela permanece aqui. Uma vontade de me revisar, repensar meus erros, me reinventar, tentar ser um eu diferente, conversar, buscar maneiras para ficar tudo bem, maneiras para melhorar o que é bom. 
Uma vontade de continuar. 
Agora não mais com você. 
Que deixou espaço para outra pessoa chegar. 
Ainda há uma corda.


por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
 
 
 

Quando a gente se conhecer

Termina assim: 
Chega um dia que um beijo é o último. 
E aí a pessoa sai da nossa vida. 
E o sofá fica grande para um. 
A risada vira perseguição. 
Quando a rotina vira evento a gente vira vento. 
Desprendidos do sentir. Um grande tanto faz. 
É isso. Outro fim. 
 
Eu já vivi tantos outros assim. 
Não sei quantificar e é menos sobre a quantidade. 
A gente se acostuma. A dor é terna.  
Mas eu cansei do antes porque me anima demais o que virá. 

Fico pensando como vai ser quando a gente se conhecer. 
Ando me descobrindo um pouco mais por dia. 
Precisava melhorar, estava puxado ser do mesmo jeito.
Mas o plano é pegar leve comigo.
Eu nem te conheço ainda mas fico pensando:
Será que você vai gostar de mim?
 
Vivo uma ansiedade boa de sentir. 
É a ansiedade para mergulhar em uma vida diferente da nossa; de trocar as experiências e as lições que a gente aprendeu. 
Por exemplo, aprendi a demonstrar. 
Porque antes eu não o fazia. Tinha tanto medo de parecer grudento demais. 
Ouvi gente dizer que eu deveria “jogar o jogo” mas eu nunca entendi. 
Sinal que sempre perdi. 
Hoje eu não me importo não; talvez, se a gente se der bem e rápido, você se afaste de mim caso eu decida te contar o quanto me faz bem. Tem gente que transforma boa notícia em ruim. Quando a gente pode só conversar. 
Desse medo eu não morro mais. 
Quando a gente se conhecer você não vai ter dúvidas das coisas que eu sinto. 
Do que eu não gostar ou do que amar, você vai saber. 
 
Já senti muita falta de ser ouvido. 
Me envolvi com gente que não queria se envolver de tanto que falava de si. 
Não havia espaço para perguntas de tantas respostas que apareciam. 
A gente não se descobria.  
Abreviado, percebi que era uma história entre duas pessoas vivida por uma. 
Teve outras vezes também que vivi sozinho. Já gostei demais por dois. 
Quando a gente se conhecer eu quero te contar sobre mim, como penso e como quero saber a sua opinião sobre as coisas.
Qualquer coisa. A gente não precisa concordar. 
Desde que seja evidente que lugar do arroz é embaixo do feijão.
 
Você ainda não é verdade.
Eu sou vontade.
A gente é um plano.
Mas estou empolgado demais com a possibilidade do futuro ser bom.

Começa assim: 
Chega um dia que um beijo é o primeiro. 
E aí a pessoa entra na nossa vida 
E o sofá fica pequeno para dois. 
A risada vira refrão. 
Quando a rotina vira vento viver junto vira alento. 
Empolgados em sentir. Um grande tão bem que faz. 
É bom isso. Outro sim. 
Quando a gente se conhecer. 

///
por Márcio Rodrigues
marciorodriguees@gmail.com

Ainda bem que você existe

Tem sido difícil acordar. 
O desanimo nasce com as primeiras notícias do dia. 
Como assim isolamento? Por quanto tempo? 
Planos sem previsão para retomar. 
Vaidade escoa pelo ralo durante o banho. 
Dias difíceis demais. 
Mas ainda bem que você existe. 
O problema é que talvez eu não esteja sendo tão legal com você ultimamente. 
Pelo menos não como merece.  
Por isso e por qualquer outra implicância minha, quero me desculpar. 
E dizer que eu não sei como seria sem você aqui para me equilibrar. 
A cabeça de todos deu um nó. Sumiram os parafusos que pouco existiam. 
Encontrar lado positivo em tudo isso é privilégio demais. 
E o meu é ter a sua companhia. 
Sua companhia para eu despejar as frustrações do trabalho e a minha síndrome de impostor. 
Aquela que me faz acreditar que eu não sou bom em nada. 
Te alugo contando as mesmas histórias em dias diferentes. 
E você sempre me ouve atentamente, foca em se colocar no meu lugar e me lembrar que talvez eu esteja sendo injusto comigo. 
Eu esqueço dessa possibilidade. 
Puts. 
Ainda bem que você existe. 
Esse ano me ensinou duas coisas até agora: 
1. O que é quarentena – e não gostei de aprender. 
2. A importância de agradecer. 
A segunda lição é onde estou tentando focar. 
Preciso respirar mais – respirar faz muito bem – e não deixar de te agradecer por todas as vezes que me perguntou se estou bem, como foi meu dia e se eu preciso de alguma coisa. 
Andei pensando que preciso colaborar mais comigo, e assim, com você. 
Preciso aprender a escolher melhor onde colocar minha energia. 
Gasto tempo demais falando sobre coisas e pessoas que não vão fazer a minha vida melhor. 
Tempo demais gastando tempo com coisas que só me desgastam. 
Scrolls por feeds infinitos, para exemplificar. 
Ando me alimentando do que me faz mal e, em tempos como esses, é decisivo entender o que nos alimenta. 
Ainda bem que você existe. 
Para jogar meus olhos para outros lugares, outras coisas, outras pessoas e, todas elas, capazes de me manter de pé. 
Desculpe por te incomodar, por alguma impaciência ou qualquer outra coisa que não te fez bem. 
Seria tolice usar desses tempos que vivemos para justificar. Eu percebi que venho errando. Este é o ponto. 
Mas, para a minha sorte, ainda bem que você existe. 
Este isolamento tem impedido o sol de encontrar a minha pele, mas sua companhia não me deixa esfriar.

//
por Márcio Rodrigues.
@umtravesseiroparadois (textos exclusivos)
umtravesseiroparadois@gmail.com

Coração em isolamento emocional

“Esse filme é bom mesmo? Ouvi muita gente falar mal”. 
Semanas passaram e a resposta nunca veio. 
Foi só mais uma mensagem não respondida, apesar de visualizada. 
Me leva a crer, desse modo, que acabei sendo só mais uma mensagem para você ler com cara de “puts, que preguiça”. 
Acabou por aqui minha entrada na sua história pelos seus stories. 
Pra mim foi mais uma vez que enfrentei o inimigo da autoestima e me expus ao tentar um diálogo. 
Já devia ter me acostumado. 
É que tem tanta gente falando sobre novo normal. 
 

Esses tempos tem me revelado a importância de cuidar melhor do meu tempo. 
Sem poder ir à rua eu não me exponho tanto. É uma vantagem para quem tem autoestima como inimiga. Na segunda fala com alguém que não conheço eu já acho que falei algo errado. Mas o tempo precisa cuidar de mim também para o bem-estar funcionar. 
 
E tanto tempo dentro de casa, administrando a inércia dos momentos de ociosidade, percebi que tenho ficado mais imerso no celular, e assim, apesar de não encontrar ninguém fisicamente para conversar, ainda é possível me machucar com trocas de mensagens e, principalmente, com a falta delas; com os fins que nem chegaram a começar. 
 
Nasce, portanto, uma oportunidade de me proteger.
Isolar não só o meu corpo como o meu sentir. Rever minha relação com as minhas interações, as motivações da minha ansiedade (esperar resposta?) e toda manifestação que me faz sentir em dívida, em prejuízo e que colabora com a destruição da minha confiança. Essa reflexão tem me acalmado, não a ponto de me sentir seguro, mas o bastante para que eu possa pegar mais leve comigo. 

Resetar a mania de perseguição que tenho a mim mesmo.  
Sem poder sair para qualquer atividade social, acabo retomando grande parte do controle do meu coração e isso me parece uma oportunidade para blindá-lo aos poucos. 
A vida social escancara feridas que ainda ardem. Ir a um show é também aumentar a chance de encontrar alguém que já me fez mal. Pegar o ônibus para o trabalho é também passar perto dos lugares que eu fui antes com alguém – reservando aqui o privilégio de não precisar sair de casa para trabalhar. 
 
A verdade é que nosso coração também se isolou. 
E quando menciono retomar o controle, é saber que as horas nas timelines é de responsabilidade exclusivamente nossa. Se o que há de contato hoje é virtual, que seja evitado aqueles que possam dar gatilhos e fazer mal. Este isolamento forçou a importância de cuidarmos da gente.  
 
Esta rotina com a presença, exclusivamente em vídeo, de poucos alguéns, provoca um aspecto sensível que vamos aprender a lidar aos poucos ao final de tudo isso, mas tem um lado positivo sobre o resgate de nós mesmos, a reflexão sobre equilíbrio sentimental e, acima de tudo, proteção. Como é importante gostar da nossa própria companhia antes de qualquer outra.
 
Ninguém gostaria que nada disso existisse, mas agora que é uma realidade, cabe à gente encontrar maneiras diferentes de fazer os dias menos piores. Ficar em casa. Isolar. Cuidar. São alguns termos e palavras que num contexto de cuidado pessoal estendem os benefícios da saúde para o nosso coração.
 
Quanto ao filme, nem é tudo isso. Assisti e não recomendo.  


por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

(aos que chegaram agora: assim como a maioria dos textos deste blog, este texto não reproduz a minha vida pessoal; eventualmente pode ser inspirado em algum momento, mas a maior parte do conteúdo é fictícia)

A cobrança em estar bem

Dias cinzas demais. 
Autoestima perecível rumo a esfarelar. 
Como que a gente fica bem? 
A gente se isolou. 
Mas nada mudou para quem já se isolava de si. 
Se mudou, foi para pior. Muita coisa piorou. 
Difícil demais colocar outra cor no sorriso que não seja amarelo.  
É só mais um dia. Outro. Mais um. 
Uma vitória por cada manhã vivida, tarde passada e dia finalizado. 
Gangorra emocional até o próximo despertar. 
Poucas horas de lazer infectadas por ideias que não deviam estar aqui. 
É ok não ficar bem, dizem. 
Dias de introspecção são armaduras até o próximo: “tá tudo bem?”  
Na obrigação de assumir os boletos sem fim a gente fantasia uma versão de quem somos. 
Queria fazer qualquer outra coisa, mas o meu querer está tão longe do poder. 
Então a gente disfarça. 
– Que bom que você tá bem 🙂 
Respostas que comprovam a alegoria do bem estar. 
Não quero contar muitos detalhes, é que nem eu os suporto. 
Vou te convencer que estou bem só pra gente mudar de assunto rápido e voltar a falar sobre coisas que não me animam, mas parecem tão apaixonantes para você. 
Dias cinzas demais. 
Difícil buscar nova perspectiva em dias tão iguais.  
Se viver é uma viagem a vista de toda manhã no meu espelho não inspira. 
Mas é preciso produzir. Falar com pessoas. Interagir com outras. Descontrair com algumas. 
Socializar, é o que dizem. 
Fim de mais uma reunião de vídeo e um grito de alívio. 
Pior que ainda assim, motivos para agradecer – com o abuso da pieguice. 
Um teto para proteger. Comida para aquecer. Prazeres para entreter. Pets para adormecer. 
As coisas não iam muito bem, hoje já nem sei mais para onde vão.
Sigo com as que restaram até aqui. 
Há, porém, um fiapo teimoso que evita o rebentar da corda que a gente segura e que, se voz tivesse, falaria: 
– Já passou por outras. É só mais uma. 
Há razão. Odeio dar uma fatal razão porque o sofrer, muitas vezes, conforta mais que o vão do otimismo. 
Mas esta é uma razão insuportavelmente verdadeira. Passamos por outras. 
Ano passado é um exemplo. Puts. Achei que não conseguiria. 
A gente aprende a desenvolver a habilidade de renovar limites a cada dia.
Passei por outras.
É só mais uma.


por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Os perigos do amor incondicional

Você deve amar. 
A gente deve amar. 
Amar de um jeito que nem os filmes contam. 
Como se nunca tivesse amado antes. 
E como se nunca mais fosse amar de novo. 
Você deve amar. 
 
Mas você deve ter critério com o seu amor – e isso é uma coisa que uma vez aprendida jamais é esquecida, ou pelo menos deveria. 
Quando a gente se vê envolvido demais numa história, leva tempo para o cérebro funcionar. A perda da razão é abismo. 
O amor destrava uma série de sentimentos que a gente não controla. E ainda bem. 
Alguém que até ontem era ninguém passa a ser, praticamente, a principal pessoa da nossa vida. 
E é assim que problemas começam também. 
O maior perigo é a gente se perder e bradar por aí coisas como: “Te amo mais que eu”. 
Aí não. 
Aí tem alguma coisa de errado acontecendo. 
 
Já escrevi outras vezes sobre como o amor romântico é uma armadilha, uma vez que é desenhada a ideia de um amor quase sempre impossível por reunir ingredientes que a vida real afasta: dias só de alegria, declarações impactantes e provações em níveis cinematográficos. O amor romântico é uma promessa injusta até mesmo com o próprio amor que, como a vida, é cheio de dias bons e outros nem tanto, mas ainda assim é amor.  
 
Penso que amar incondicionalmente funciona apenas para a família – e, muitas vezes, nem com ela. Essa é a verdade.
A ideia de tentar convencer outra pessoa que o amor que você sente é único, vigoroso e eterno aponta para um disfarce de perda de amor próprio. Essa dinâmica confunde o quanto a gente gosta da gente, já que colocamos outra pessoa à frente de tudo o que vivemos e viveremos. A vida fica dependente. 

As pessoas vem e vão e você sempre ficará.
A gente não calibra o quanto ama, a gente só ama.
Mas a gente pode refletir sobre o significado do nosso amor.
E avaliar como queremos que seja vivido.

Em outras palavras, desista do discurso de amar incondicionalmente. Não perca você de você mesmo. Não faça do seu amor uma competição que premia alguém.  
 
É para amar. É para amar num nível que, puts, você vai pensar: “eu já senti isso antes?” E, provavelmente, concluirá que não e isso vai ser mágico. É para amar num nível que você vai se pegar dando risada sozinho lembrando da pessoa; num nível que você vai se ver cada vez mais animado com a ideia de viver dias e fazer planos. Um amor profundo, mas sem deixar de ser pé no chão. Essa paradoxo é o casamento da razão e emoção. Amor alimentado só de emoção é ilusão.
 
Isso não é uma ode contra o amor. Isso é um alerta sobre os cuidados com seus critérios para amar; um alerta para que avalie o tamanho do mergulho. Isso é, acima de tudo, um apelo a favor do amor real. O amor que se equilibra entre dias bons e ruins, que pode ter desentendimentos, mas é resolvido com muito entendimento e respeito. O amor que melhora a gente. Ter outra pessoa acompanhando a nossa vida para trocar energia e nos fazer aprender e ensinar é amor revigorante. 
 
Você deve amar.  
A gente deve amar. 
Mas antes de qualquer pessoa tem você. 
E você determina condições para que seu amor seja experimentado, transformado e compartilhado. 
Isso é sobre cuidar do seu coração e não esperar que alguém o faça.

—-
por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees
@umtravesseiroparadois

A gente pode começar de novo?

Quero te fazer um convite. 
E, claro, todo convite é possível de ser negado. 
Queria te convidar a ver nós dois de um outro jeito. 
Não o jeito que a gente estava se vendo no fim, mas do jeito do começo. 
 
Lembra? 
Um jeito que a gente ia se descobrindo aos pouquinhos. 
Eu te ouvindo falar enquanto meus olhos investigavam cada pedacinho do seu rosto e o jeito que você separava parte do cabelo por trás da orelha. Você me contando cada pedaço seu que eu não queria interromper: suas músicas preferidas, os shows inesquecíveis (lembra que a gente foi no mesmo antes da gente ser a gente?), suas séries e livros, tudo de você. 
Eu lembro. 
 
Por isso que da mesma forma que a gente já funcionou um dia eu queria te convidar a pensar como poderia ser se a gente começasse de novo. 
Eu não estou dizendo que a gente precisa apagar as coisas que não foram legais, muito pelo contrário. A maior vantagem, caso a gente recomece é que, o eu de hoje, sabe exatamente cada lição que foi necessária aprender com todo o fim – e acho que a mesma lógica funciona para você. 
 
É que lembrando das coisas boas senti saudade do que a gente era. 
A gente curtia muita a gente, né? 
Esse tempo longe me fez organizar cada um dos nossos dias, e o saldo é que sempre tinha um momento bom que eu gostava de viver e talvez eu nem percebesse direito enquanto vivia. 
Toda essa minha fala pode parecer qualquer clichê do tipo “só dá valor quando perde” e coisas do tipo, eu não me importo, me importo em te deixar claro que, a depender de mim, gostaria que gente começasse de novo. 
 
Senti sua falta todos os dias depois daquele último. 
Não sei se demorei em te procurar, mas também senti medo de atrapalhar de alguma maneira, de parecer grude e todas aquelas coisas que colocam na nossa cabeça desde adolescente e que nos impedem de tomar qualquer atitude. Pensei que eu seria melhor para você se te respeitasse ao me afastar e te dar tempo.  
E estou te procurando agora porque não saberia viver bem sabendo que guardei a chance de te perguntar: a gente pode começar de novo? 
 
Você não precisa responder agora. Não precisa responder amanhã. Leve o tempo que precisar para pensar se faz sentido. Pense se o que a gente sentia juntos a gente pode sentir de novo. É que, da minha parte, eu confio que sim. Confio que a gente melhorar o que a gente vivia de bom e superar o que não era tão bom assim. 
Queria voltar para a nossa rotina e os planos que a gente tinha. 
 
Eu lembro de todos. 
E sei que você também. 
Acho que é meio que isso. Esta é a hora que talvez eu esqueça de dizer alguma coisa importante, bem, é possível, acho que tinham outras coisas para falar, mas tudo seria reforço para uma única pergunta: a gente pode começar de novo? 
 
 
por Márcio Rodrigues. 
umtravesseiroparadois@gmail.com

Sobre as vontades que a gente segura

Eu queria dizer que sinto saudade sua.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que queria que a gente voltasse.
Mas acho melhor não.
Eu queria te chamar para sair.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que adorei ontem.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que não quero mais.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que você me faz sentir bem.
Mas acho que melhor não.
Eu queria dizer que aceito.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que me arrependi.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que estou a fim.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que você estava certa.
Mas acho melhor não.

Em geral:

-Acho melhor não falar nada porque tenho medo da reação.

É uma lógica sobre o que não existe. Medo do que possa acontecer sem ter a garantia de que acontecerá. Medo refém do histórico de já ter vivido algo parecido antes. Medo de um futuro em que uma única possibilidade é cogitada: dar errado. Um espiral que destrói a nossa confiança.

Essas vontades que a gente segura nos deixam mais longe das coisas que a gente quer viver. Uma vez que não há como saber o que virá, fazer algo pelo agora é por onde tudo pode começar. Na prática:

-Eu não sei como vai reagir, mas preciso dizer que queria a gente de volta.

A gente precisa libertar nossas vontades, inclusive aquelas que podem levar alguma tristeza para alguém. Por exemplo, é necessário revelar que não quer mais nada com alguém. Esse alguém precisa saber disso. É justo e responsável.

Agora, especialmente, a gente precisa revelar as boas vontades.
Tudo o que alimenta a gente apodrece se guardado por muito tempo.
E assim é com os nossos sentimentos. Sequestrar uma revelação de arrependimento, por exemplo, pode causar sequelas sem ponto final. Deixar de contar que, entre todos os sentimentos possíveis, o que você sente é VONTADE DE FICAR COM A PESSOA HOJE E POR VÁRIOS OUTROS HOJES, por assim dizer, é autorizar que a sua vida estacione e enguice.
A gente não deve segurar nossas vontades.
Conta que você gosta. Que sente falta. Que quer algo a mais. Que gostou de ontem. Que errou. Conta.

A gente nunca vai saber o que vai acontecer, mas a nossa motivação nunca deve ser a reação que a gente quer. Você não deve dizer nada esperando um sim ou não. Você deve dizer porque não deve guardar para você. O futuro é longe demais pra gente colocar nas mãos dele o jeito que a nossa vida acontece.

Coragem é atalho para o amor.
Coragem é energia para a vida.
Coragem é carinho com você – para que encontre um novo você a cada vez que conta o que sente, a cada vontade que liberta.

Segura na mão do coração para viver.
Não dá para cobrar o lado bom da vida sem permitir que ela aconteça.
Ser livre para expressar uma vontade prepara a gente para a dificuldade e a felicidade.

No mínimo, você vai desocupar seu peito para que outro sentimento bom possa chegar.

Depois comenta aqui embaixo o que aconteceu.
Um beijo.


Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Não vou poder te esperar

Você gostaria de ouvir outra coisa mas seria injusto.
Não vou poder te esperar.
Não vou conseguir evoluir a já pouca paciência que tenho.
Não vou poder te esperar.
Você não se decide.
Ou se decide não tem coragem para assumir.
Toda a minha certeza pareceu te incomodar.
Desde o começo eu sabia o que queria, mas você não. E não que devesse também ter a mesma clareza que eu. Você não pareceu se importar.
Me cozinhou tanto que fervi de raiva.
Me vi te esperando sem perceber.
Esperando você decidir se havia um espaço para mim na sua rotina – e olha que nem falei na sua vida.
Mais mensagens recebidas que respondidas.
Fui me adaptando. Hoje não, amanhã sim. Vivendo assim.
Não vou poder te esperar.

Tive uma conversa com a minha autoestima.
Ora, reclamo tanto de mim e sou quem mais me prejudica.
A baixa capacidade de impor limites e anunciar nãos me asfixia e não é de hoje.
Você se aproveitou disso, ainda que eu não possa afirmar que foi de um jeito meticulosamente prejudicial.
Enquanto parecia informal eu não ligava tanto, mas não dá para levar uma informalidade por meses. Pelo menos eu acho que não.
E sou eu quem deve achar as coisas que fazem bem ou não para mim.
Você deixou de fazer.
Não vou poder te esperar.
Você abusou da minha compreensão ao renovar nossos dias com uma noite dormindo comigo e quinhentas outras não.
Provavelmente essa dinâmica nem passou pela sua cabeça.
Essa pauta é antiga nas nossas conversas que você sempre se esquiva.

Mergulhar demais em um sentimento aumentam as chances de se afogar.
Por isso que estou colocando a cabeça pra fora para respirar. Ver diferente.
Não vi que fazia tanta diferença assim para você.
E nem te obrigo a me considerar especial, por isso que a iniciativa é minha.
Não vou poder te esperar.
Não consigo me posicionar como um cardápio na sua vida.
Cheguei a transformar suas migalhas de atenção em passeios de fins de semana.
Olha que situação.
Aquele refrão que amo você pode devolver com o tempo.
Não consigo mais. O lado bom disso tudo não me satisfaz mais.
Não planejo te excluir da minha vida, mas dos planos que eu tenho você não faz mais parte.
Não vou poder te esperar.
Você gostaria de ouvir outra coisa mas seria injusto com você e cruel demais comigo.
Não.


por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com









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