Ainda bem que você existe

Tem sido difícil acordar. 
O desanimo nasce com as primeiras notícias do dia. 
Como assim isolamento? Por quanto tempo? 
Planos sem previsão para retomar. 
Vaidade escoa pelo ralo durante o banho. 
Dias difíceis demais. 
Mas ainda bem que você existe. 
O problema é que talvez eu não esteja sendo tão legal com você ultimamente. 
Pelo menos não como merece.  
Por isso e por qualquer outra implicância minha, quero me desculpar. 
E dizer que eu não sei como seria sem você aqui para me equilibrar. 
A cabeça de todos deu um nó. Sumiram os parafusos que pouco existiam. 
Encontrar lado positivo em tudo isso é privilégio demais. 
E o meu é ter a sua companhia. 
Sua companhia para eu despejar as frustrações do trabalho e a minha síndrome de impostor. 
Aquela que me faz acreditar que eu não sou bom em nada. 
Te alugo contando as mesmas histórias em dias diferentes. 
E você sempre me ouve atentamente, foca em se colocar no meu lugar e me lembrar que talvez eu esteja sendo injusto comigo. 
Eu esqueço dessa possibilidade. 
Puts. 
Ainda bem que você existe. 
Esse ano me ensinou duas coisas até agora: 
1. O que é quarentena – e não gostei de aprender. 
2. A importância de agradecer. 
A segunda lição é onde estou tentando focar. 
Preciso respirar mais – respirar faz muito bem – e não deixar de te agradecer por todas as vezes que me perguntou se estou bem, como foi meu dia e se eu preciso de alguma coisa. 
Andei pensando que preciso colaborar mais comigo, e assim, com você. 
Preciso aprender a escolher melhor onde colocar minha energia. 
Gasto tempo demais falando sobre coisas e pessoas que não vão fazer a minha vida melhor. 
Tempo demais gastando tempo com coisas que só me desgastam. 
Scrolls por feeds infinitos, para exemplificar. 
Ando me alimentando do que me faz mal e, em tempos como esses, é decisivo entender o que nos alimenta. 
Ainda bem que você existe. 
Para jogar meus olhos para outros lugares, outras coisas, outras pessoas e, todas elas, capazes de me manter de pé. 
Desculpe por te incomodar, por alguma impaciência ou qualquer outra coisa que não te fez bem. 
Seria tolice usar desses tempos que vivemos para justificar. Eu percebi que venho errando. Este é o ponto. 
Mas, para a minha sorte, ainda bem que você existe. 
Este isolamento tem impedido o sol de encontrar a minha pele, mas sua companhia não me deixa esfriar.

//
por Márcio Rodrigues.
@umtravesseiroparadois (textos exclusivos)
umtravesseiroparadois@gmail.com

Coração em isolamento emocional

“Esse filme é bom mesmo? Ouvi muita gente falar mal”. 
Semanas passaram e a resposta nunca veio. 
Foi só mais uma mensagem não respondida, apesar de visualizada. 
Me leva a crer, desse modo, que acabei sendo só mais uma mensagem para você ler com cara de “puts, que preguiça”. 
Acabou por aqui minha entrada na sua história pelos seus stories. 
Pra mim foi mais uma vez que enfrentei o inimigo da autoestima e me expus ao tentar um diálogo. 
Já devia ter me acostumado. 
É que tem tanta gente falando sobre novo normal. 
 

Esses tempos tem me revelado a importância de cuidar melhor do meu tempo. 
Sem poder ir à rua eu não me exponho tanto. É uma vantagem para quem tem autoestima como inimiga. Na segunda fala com alguém que não conheço eu já acho que falei algo errado. Mas o tempo precisa cuidar de mim também para o bem-estar funcionar. 
 
E tanto tempo dentro de casa, administrando a inércia dos momentos de ociosidade, percebi que tenho ficado mais imerso no celular, e assim, apesar de não encontrar ninguém fisicamente para conversar, ainda é possível me machucar com trocas de mensagens e, principalmente, com a falta delas; com os fins que nem chegaram a começar. 
 
Nasce, portanto, uma oportunidade de me proteger.
Isolar não só o meu corpo como o meu sentir. Rever minha relação com as minhas interações, as motivações da minha ansiedade (esperar resposta?) e toda manifestação que me faz sentir em dívida, em prejuízo e que colabora com a destruição da minha confiança. Essa reflexão tem me acalmado, não a ponto de me sentir seguro, mas o bastante para que eu possa pegar mais leve comigo. 

Resetar a mania de perseguição que tenho a mim mesmo.  
Sem poder sair para qualquer atividade social, acabo retomando grande parte do controle do meu coração e isso me parece uma oportunidade para blindá-lo aos poucos. 
A vida social escancara feridas que ainda ardem. Ir a um show é também aumentar a chance de encontrar alguém que já me fez mal. Pegar o ônibus para o trabalho é também passar perto dos lugares que eu fui antes com alguém – reservando aqui o privilégio de não precisar sair de casa para trabalhar. 
 
A verdade é que nosso coração também se isolou. 
E quando menciono retomar o controle, é saber que as horas nas timelines é de responsabilidade exclusivamente nossa. Se o que há de contato hoje é virtual, que seja evitado aqueles que possam dar gatilhos e fazer mal. Este isolamento forçou a importância de cuidarmos da gente.  
 
Esta rotina com a presença, exclusivamente em vídeo, de poucos alguéns, provoca um aspecto sensível que vamos aprender a lidar aos poucos ao final de tudo isso, mas tem um lado positivo sobre o resgate de nós mesmos, a reflexão sobre equilíbrio sentimental e, acima de tudo, proteção. Como é importante gostar da nossa própria companhia antes de qualquer outra.
 
Ninguém gostaria que nada disso existisse, mas agora que é uma realidade, cabe à gente encontrar maneiras diferentes de fazer os dias menos piores. Ficar em casa. Isolar. Cuidar. São alguns termos e palavras que num contexto de cuidado pessoal estendem os benefícios da saúde para o nosso coração.
 
Quanto ao filme, nem é tudo isso. Assisti e não recomendo.  


por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

(aos que chegaram agora: assim como a maioria dos textos deste blog, este texto não reproduz a minha vida pessoal; eventualmente pode ser inspirado em algum momento, mas a maior parte do conteúdo é fictícia)

A cobrança em estar bem

Dias cinzas demais. 
Autoestima perecível rumo a esfarelar. 
Como que a gente fica bem? 
A gente se isolou. 
Mas nada mudou para quem já se isolava de si. 
Se mudou, foi para pior. Muita coisa piorou. 
Difícil demais colocar outra cor no sorriso que não seja amarelo.  
É só mais um dia. Outro. Mais um. 
Uma vitória por cada manhã vivida, tarde passada e dia finalizado. 
Gangorra emocional até o próximo despertar. 
Poucas horas de lazer infectadas por ideias que não deviam estar aqui. 
É ok não ficar bem, dizem. 
Dias de introspecção são armaduras até o próximo: “tá tudo bem?”  
Na obrigação de assumir os boletos sem fim a gente fantasia uma versão de quem somos. 
Queria fazer qualquer outra coisa, mas o meu querer está tão longe do poder. 
Então a gente disfarça. 
– Que bom que você tá bem 🙂 
Respostas que comprovam a alegoria do bem estar. 
Não quero contar muitos detalhes, é que nem eu os suporto. 
Vou te convencer que estou bem só pra gente mudar de assunto rápido e voltar a falar sobre coisas que não me animam, mas parecem tão apaixonantes para você. 
Dias cinzas demais. 
Difícil buscar nova perspectiva em dias tão iguais.  
Se viver é uma viagem a vista de toda manhã no meu espelho não inspira. 
Mas é preciso produzir. Falar com pessoas. Interagir com outras. Descontrair com algumas. 
Socializar, é o que dizem. 
Fim de mais uma reunião de vídeo e um grito de alívio. 
Pior que ainda assim, motivos para agradecer – com o abuso da pieguice. 
Um teto para proteger. Comida para aquecer. Prazeres para entreter. Pets para adormecer. 
As coisas não iam muito bem, hoje já nem sei mais para onde vão.
Sigo com as que restaram até aqui. 
Há, porém, um fiapo teimoso que evita o rebentar da corda que a gente segura e que, se voz tivesse, falaria: 
– Já passou por outras. É só mais uma. 
Há razão. Odeio dar uma fatal razão porque o sofrer, muitas vezes, conforta mais que o vão do otimismo. 
Mas esta é uma razão insuportavelmente verdadeira. Passamos por outras. 
Ano passado é um exemplo. Puts. Achei que não conseguiria. 
A gente aprende a desenvolver a habilidade de renovar limites a cada dia.
Passei por outras.
É só mais uma.


por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Os perigos do amor incondicional

Você deve amar. 
A gente deve amar. 
Amar de um jeito que nem os filmes contam. 
Como se nunca tivesse amado antes. 
E como se nunca mais fosse amar de novo. 
Você deve amar. 
 
Mas você deve ter critério com o seu amor – e isso é uma coisa que uma vez aprendida jamais é esquecida, ou pelo menos deveria. 
Quando a gente se vê envolvido demais numa história, leva tempo para o cérebro funcionar. A perda da razão é abismo. 
O amor destrava uma série de sentimentos que a gente não controla. E ainda bem. 
Alguém que até ontem era ninguém passa a ser, praticamente, a principal pessoa da nossa vida. 
E é assim que problemas começam também. 
O maior perigo é a gente se perder e bradar por aí coisas como: “Te amo mais que eu”. 
Aí não. 
Aí tem alguma coisa de errado acontecendo. 
 
Já escrevi outras vezes sobre como o amor romântico é uma armadilha, uma vez que é desenhada a ideia de um amor quase sempre impossível por reunir ingredientes que a vida real afasta: dias só de alegria, declarações impactantes e provações em níveis cinematográficos. O amor romântico é uma promessa injusta até mesmo com o próprio amor que, como a vida, é cheio de dias bons e outros nem tanto, mas ainda assim é amor.  
 
Penso que amar incondicionalmente funciona apenas para a família – e, muitas vezes, nem com ela. Essa é a verdade.
A ideia de tentar convencer outra pessoa que o amor que você sente é único, vigoroso e eterno aponta para um disfarce de perda de amor próprio. Essa dinâmica confunde o quanto a gente gosta da gente, já que colocamos outra pessoa à frente de tudo o que vivemos e viveremos. A vida fica dependente. 

As pessoas vem e vão e você sempre ficará.
A gente não calibra o quanto ama, a gente só ama.
Mas a gente pode refletir sobre o significado do nosso amor.
E avaliar como queremos que seja vivido.

Em outras palavras, desista do discurso de amar incondicionalmente. Não perca você de você mesmo. Não faça do seu amor uma competição que premia alguém.  
 
É para amar. É para amar num nível que, puts, você vai pensar: “eu já senti isso antes?” E, provavelmente, concluirá que não e isso vai ser mágico. É para amar num nível que você vai se pegar dando risada sozinho lembrando da pessoa; num nível que você vai se ver cada vez mais animado com a ideia de viver dias e fazer planos. Um amor profundo, mas sem deixar de ser pé no chão. Essa paradoxo é o casamento da razão e emoção. Amor alimentado só de emoção é ilusão.
 
Isso não é uma ode contra o amor. Isso é um alerta sobre os cuidados com seus critérios para amar; um alerta para que avalie o tamanho do mergulho. Isso é, acima de tudo, um apelo a favor do amor real. O amor que se equilibra entre dias bons e ruins, que pode ter desentendimentos, mas é resolvido com muito entendimento e respeito. O amor que melhora a gente. Ter outra pessoa acompanhando a nossa vida para trocar energia e nos fazer aprender e ensinar é amor revigorante. 
 
Você deve amar.  
A gente deve amar. 
Mas antes de qualquer pessoa tem você. 
E você determina condições para que seu amor seja experimentado, transformado e compartilhado. 
Isso é sobre cuidar do seu coração e não esperar que alguém o faça.

—-
por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees
@umtravesseiroparadois

A gente pode começar de novo?

Quero te fazer um convite. 
E, claro, todo convite é possível de ser negado. 
Queria te convidar a ver nós dois de um outro jeito. 
Não o jeito que a gente estava se vendo no fim, mas do jeito do começo. 
 
Lembra? 
Um jeito que a gente ia se descobrindo aos pouquinhos. 
Eu te ouvindo falar enquanto meus olhos investigavam cada pedacinho do seu rosto e o jeito que você separava parte do cabelo por trás da orelha. Você me contando cada pedaço seu que eu não queria interromper: suas músicas preferidas, os shows inesquecíveis (lembra que a gente foi no mesmo antes da gente ser a gente?), suas séries e livros, tudo de você. 
Eu lembro. 
 
Por isso que da mesma forma que a gente já funcionou um dia eu queria te convidar a pensar como poderia ser se a gente começasse de novo. 
Eu não estou dizendo que a gente precisa apagar as coisas que não foram legais, muito pelo contrário. A maior vantagem, caso a gente recomece é que, o eu de hoje, sabe exatamente cada lição que foi necessária aprender com todo o fim – e acho que a mesma lógica funciona para você. 
 
É que lembrando das coisas boas senti saudade do que a gente era. 
A gente curtia muita a gente, né? 
Esse tempo longe me fez organizar cada um dos nossos dias, e o saldo é que sempre tinha um momento bom que eu gostava de viver e talvez eu nem percebesse direito enquanto vivia. 
Toda essa minha fala pode parecer qualquer clichê do tipo “só dá valor quando perde” e coisas do tipo, eu não me importo, me importo em te deixar claro que, a depender de mim, gostaria que gente começasse de novo. 
 
Senti sua falta todos os dias depois daquele último. 
Não sei se demorei em te procurar, mas também senti medo de atrapalhar de alguma maneira, de parecer grude e todas aquelas coisas que colocam na nossa cabeça desde adolescente e que nos impedem de tomar qualquer atitude. Pensei que eu seria melhor para você se te respeitasse ao me afastar e te dar tempo.  
E estou te procurando agora porque não saberia viver bem sabendo que guardei a chance de te perguntar: a gente pode começar de novo? 
 
Você não precisa responder agora. Não precisa responder amanhã. Leve o tempo que precisar para pensar se faz sentido. Pense se o que a gente sentia juntos a gente pode sentir de novo. É que, da minha parte, eu confio que sim. Confio que a gente melhorar o que a gente vivia de bom e superar o que não era tão bom assim. 
Queria voltar para a nossa rotina e os planos que a gente tinha. 
 
Eu lembro de todos. 
E sei que você também. 
Acho que é meio que isso. Esta é a hora que talvez eu esqueça de dizer alguma coisa importante, bem, é possível, acho que tinham outras coisas para falar, mas tudo seria reforço para uma única pergunta: a gente pode começar de novo? 
 
 
por Márcio Rodrigues. 
umtravesseiroparadois@gmail.com

Sobre as vontades que a gente segura

Eu queria dizer que sinto saudade sua.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que queria que a gente voltasse.
Mas acho melhor não.
Eu queria te chamar para sair.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que adorei ontem.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que não quero mais.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que você me faz sentir bem.
Mas acho que melhor não.
Eu queria dizer que aceito.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que me arrependi.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que estou a fim.
Mas acho melhor não.
Eu queria dizer que você estava certa.
Mas acho melhor não.

Em geral:

-Acho melhor não falar nada porque tenho medo da reação.

É uma lógica sobre o que não existe. Medo do que possa acontecer sem ter a garantia de que acontecerá. Medo refém do histórico de já ter vivido algo parecido antes. Medo de um futuro em que uma única possibilidade é cogitada: dar errado. Um espiral que destrói a nossa confiança.

Essas vontades que a gente segura nos deixam mais longe das coisas que a gente quer viver. Uma vez que não há como saber o que virá, fazer algo pelo agora é por onde tudo pode começar. Na prática:

-Eu não sei como vai reagir, mas preciso dizer que queria a gente de volta.

A gente precisa libertar nossas vontades, inclusive aquelas que podem levar alguma tristeza para alguém. Por exemplo, é necessário revelar que não quer mais nada com alguém. Esse alguém precisa saber disso. É justo e responsável.

Agora, especialmente, a gente precisa revelar as boas vontades.
Tudo o que alimenta a gente apodrece se guardado por muito tempo.
E assim é com os nossos sentimentos. Sequestrar uma revelação de arrependimento, por exemplo, pode causar sequelas sem ponto final. Deixar de contar que, entre todos os sentimentos possíveis, o que você sente é VONTADE DE FICAR COM A PESSOA HOJE E POR VÁRIOS OUTROS HOJES, por assim dizer, é autorizar que a sua vida estacione e enguice.
A gente não deve segurar nossas vontades.
Conta que você gosta. Que sente falta. Que quer algo a mais. Que gostou de ontem. Que errou. Conta.

A gente nunca vai saber o que vai acontecer, mas a nossa motivação nunca deve ser a reação que a gente quer. Você não deve dizer nada esperando um sim ou não. Você deve dizer porque não deve guardar para você. O futuro é longe demais pra gente colocar nas mãos dele o jeito que a nossa vida acontece.

Coragem é atalho para o amor.
Coragem é energia para a vida.
Coragem é carinho com você – para que encontre um novo você a cada vez que conta o que sente, a cada vontade que liberta.

Segura na mão do coração para viver.
Não dá para cobrar o lado bom da vida sem permitir que ela aconteça.
Ser livre para expressar uma vontade prepara a gente para a dificuldade e a felicidade.

No mínimo, você vai desocupar seu peito para que outro sentimento bom possa chegar.

Depois comenta aqui embaixo o que aconteceu.
Um beijo.


Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Não vou poder te esperar

Você gostaria de ouvir outra coisa mas seria injusto.
Não vou poder te esperar.
Não vou conseguir evoluir a já pouca paciência que tenho.
Não vou poder te esperar.
Você não se decide.
Ou se decide não tem coragem para assumir.
Toda a minha certeza pareceu te incomodar.
Desde o começo eu sabia o que queria, mas você não. E não que devesse também ter a mesma clareza que eu. Você não pareceu se importar.
Me cozinhou tanto que fervi de raiva.
Me vi te esperando sem perceber.
Esperando você decidir se havia um espaço para mim na sua rotina – e olha que nem falei na sua vida.
Mais mensagens recebidas que respondidas.
Fui me adaptando. Hoje não, amanhã sim. Vivendo assim.
Não vou poder te esperar.

Tive uma conversa com a minha autoestima.
Ora, reclamo tanto de mim e sou quem mais me prejudica.
A baixa capacidade de impor limites e anunciar nãos me asfixia e não é de hoje.
Você se aproveitou disso, ainda que eu não possa afirmar que foi de um jeito meticulosamente prejudicial.
Enquanto parecia informal eu não ligava tanto, mas não dá para levar uma informalidade por meses. Pelo menos eu acho que não.
E sou eu quem deve achar as coisas que fazem bem ou não para mim.
Você deixou de fazer.
Não vou poder te esperar.
Você abusou da minha compreensão ao renovar nossos dias com uma noite dormindo comigo e quinhentas outras não.
Provavelmente essa dinâmica nem passou pela sua cabeça.
Essa pauta é antiga nas nossas conversas que você sempre se esquiva.

Mergulhar demais em um sentimento aumentam as chances de se afogar.
Por isso que estou colocando a cabeça pra fora para respirar. Ver diferente.
Não vi que fazia tanta diferença assim para você.
E nem te obrigo a me considerar especial, por isso que a iniciativa é minha.
Não vou poder te esperar.
Não consigo me posicionar como um cardápio na sua vida.
Cheguei a transformar suas migalhas de atenção em passeios de fins de semana.
Olha que situação.
Aquele refrão que amo você pode devolver com o tempo.
Não consigo mais. O lado bom disso tudo não me satisfaz mais.
Não planejo te excluir da minha vida, mas dos planos que eu tenho você não faz mais parte.
Não vou poder te esperar.
Você gostaria de ouvir outra coisa mas seria injusto com você e cruel demais comigo.
Não.


por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com









Uma autoestima em colapso

Primeiras horas da manhã e som do celular.
Procura na mesa de cabeceira com os olhos praticamente ainda fechados – isso quando ele não dorme na cama.
Acorda e uma olhada no Instagram.
O que será que de tão interessante foi vivido e postado em plena madrugada?
Você não sabe.
Mas você quer ver.
É uma vontade acelerada.

Nem percebe que atualizar-se sobre a vida de outras pessoas é a primeira coisa que você faz da sua. Todas as manhãs.

Uns memes trazem sorrisos de canto.
Uma scrollada e fotos profundamente tratadas não te tratam bem.
E você fica mal.
Essa não é a sua vida.
Esse estilo de vida não lembra o seu.
É preciso levantar.

Procura o chinelo no chão.
Vai ao banheiro, apoia as mãos na pia e olha para si.
Uma careta.
Essa espinha não estava aqui até ontem.
Esse cabelo também não colabora.
O que vê no espelho não te faz bem.
Ainda ressoa na lembrança a foto de qualquer pessoa vista momentos atrás.
Não dá nem para comparar. Pensa.
Mas precisa? Pensar, sim. Mas comparar?
Não há tempo para questionar.
Virou rotina. Faz parte da sua vida.

A forma com que nos protegemos define a dor dos machucados.
Você sabe que é uma boa pessoa.
Mas a internet te lembra que é preciso ser mais para gostar si.
Não é padrão, é exceção de beleza o verdadeiro nome que se dá àqueles corpos de revista.
Aquela cor de cabelo.
E corte.
E diversas viagens.
Tem sido foda.
As fotos que você tira não ficam iguais daquela pessoa que você segue.
Talvez porque você não seja a mesma pessoa.
Não há tempo para questionar.
As poses que você faz seguem disfarçadas de espontaneidade seguem a linha das fotos mais curtidas.
Seus amigos já ocupam a profissão fotógraf@ a cada vez que se encontram.
Mas o algorítimo não revela o tempo que você levou para fazer aquela pose.
E o like não vem, né? Tampouco daquela pessoa desejada.
Não há tempo para questionar.
Com toda a sua independência para viver, você está tentando representar.
Uma pessoa que não é e que, no fim, talvez nem gostaria de ser.
É que não há tempo para questionar. É preciso ser atual acima de tudo.
Nas fotos a gente não consegue ouvir o som da risada.
Mas parecer rir já é saber viver.

Isso não é um manifesto de moda passada sobre ser contra as redes sociais.
Ficou mais fácil se conectar com as pessoas.
E se desconectar da gente.
Nossa autoestima está em erupção.
Precisamos cuidar da gente. Esperar isso de alguém é prisão.

Primeiras horas da manhã e som do celular.
Procura na mesa de cabeceira com os olhos praticamente ainda fechados.
Acorda e um tempo para pensar nas próximas horas do dia.
Inspirar e respirar.
O que será que de tão interessante é possível viver ao longo do meu dia?
Você pensa.
Tem um amigo que você enrola há dias para marcar alguma coisa.
E vai com essa roupa mesmo.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

E vamos de me apegar a alguém de novo

É isso.
Agora parece que complicou.
Achei que estava conseguindo disfarçar.
Meus amigos já perceberam.
Quando eu falo de você eu mando “Ahhh haha”.
Primeiro que eu tenho falado de você para os meus amigos.
Segundo que eu falo de coisas aleatórias.
Sinais. A gente sempre dá.
Comecei a elogiar coisas suas totalmente aleatórias.
“Ahhh haha ela é demais, ah, e gosta de séries de suspense e tal”
Tipo. E daí, né?
Mas eu me conheço.
A gente finge que não, teima a aceitar, mas no fundo sabemos quando estamos envolvidos, né?
E acho que a gente teima porque a cada recomeço volta um medo monstruoso de reviver dias tristes, né?

Mas eu já me apeguei a você.
A gente já entrou na fase do boa noite e bom dia.
Puts. Que fase.
Disso para rolê casal no shopping de mãos dadas é questão de dias.
Comecei a ouvir repetidamente umas músicas que você manda e procurar outras para te mandar.
Aquele processo de conquista; de demonstrar que somos pessoas interessantes.
Não forçado. Natural e sensivelmente.
Mas, quer saber?
Eu não tenho vergonha.
Me apeguei. Estou gostando das nossas conversas e planejo coisas pra gente fazer.
O dia que me apegar for um problema eu não vou me reconhecer mais.
O problema nunca vai ser se apegar a alguém, o problema é acreditar que a única possibilidade é a pessoa se apegar também. Essa é uma, jamais a única.
Já me apeguei sozinho muitas vezes. (Na verdade esse é meio que o padrão.)
E sei que já se apegaram por mim também. Que merda não ser recíproco.

Então é isso, Brasil: logo eu que ‘nossa não quero me apegar a alguém tão cedo’ etc, veja bem, estou aqui com o filme pausado há minutos porque não quero que você para de falar.
Estou oficializando tudo isso para mim para que eu consiga me entregar.
Saber onde tudo isso vai dar eu não faço ideia, mas também não gosto de assistir filme sabendo o fim. Eu assisto com atenção e cuidado para encontrar algo que eu goste.
Você já tem tanta coisa que eu gosto. Filme bom de ver desde o começo.
Só não listo aqui tudo de bom que já vi em você porque aí já não é mais apego, é outra coisa. Preciso me proteger por enquanto. Pelo menos até ter claro o que você sente também.
Eu gosto disso nosso, seja lá que nome isso tenha.
Me apegar a você e estar bem com isso é sinal que eu prefiro focar mais na parte boa das pessoas do que nas ruim. E sempre vai ser mais alegre uma vida dedicada a priorizar o lado bom das pessoas – sem ignorar que existem outros.

Como eu já vivi outros apegos antes de você, meio que me sinto na melhor fase para colocar em prática tudo o que já aprendi, e assim, tentar acertar mais do que errar e, ao mesmo tempo, conseguir ter claro o que me faz bem e mal e meu limite quanto isso.
Só não quero limites para você me marcar em memes.
Ou me dizer que gostou de ontem.
Disso eu quero mais.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Uma coleção de dias ruins

Não foi um.
Não foram dois.
Tampouco três.
Foram tantos até aqui.
Um deles deixou cicatriz, outro saudade.
Cada dia com alguém diferente mas sempre com o mesmo eu.
Sentindo cada sabor.
Quando eu me desacostumava com a ideia, lá vinha outra.

Foram tantos desses dias que até viraram coleção.
Daquelas que a gente tira poeira para mostrar para as visitas.

“Teve esse dia aqui ó, apesar de toda a sintonia em todos aqueles meses, ela disse que vivia outra fase”
“Teve esse outro dia que ela simplesmente parou de responder”
“Lembrando aqui, teve esse dia em que eu me senti um lixo mesmo. Esse eu sempre reencontro”

Entre todas as possíveis perspectivas sobre essa minha coleção, a que mais me identifico – apesar de esquecer – é que, apesar de tudo, eu cheguei até aqui.

Esse olhar configura um papo motivacional? É que são fatos.

Cheguei até aqui.
Acho isso louco.

É que a cada novo item que eu colocava na minha prateleira, era mais uma certeza de que ela não ia resistir, e assim, desmoronar.

Só que eu me enganei. Bom demais não estar certo sempre.
Me vi empilhando novos dias ruins. Literalmente em cima um do outro mesmo e a prateleira, apesar de trincado, seguia lá: resistindo.

Só que ao invés de pensar que eu não suportava mais, comecei a perceber que eu era forte pra caralho. Desculpe o termo.
A cada novo dia a minha barra estava mais alta e teria que ser algo mais poderoso para me derrubar. Isso não fazia sentido no começo quando eu olhava um dia isolado, mas quando passei a ver o calendário, pensei: “Teve muito dia ruim mas eu aguentei a cada um deles”.

Eu aguentei. E a cada novo eu sigo aguentando. Será que o mesmo eu de anos atrás aguentaria as últimas coisas que vivi? O que será que meu eu de hoje acharia do peso das primeiras dores que lembro viver?

Passou a ser boa a sensação de olhar mais pelo lado da força que da dor.
Uma vida inteira de dores superadas.
A prova disso é que estou aqui. Um pouco machucado sim, mas o tempo ajuda a curar.
Saber que posso suportar me dá mais vontade de aproveitar os dias bons.

Porra, os dias bons.
A gente vive como se houvesse apenas uma prateleira para preencher.
Um dia comigo, meus livros, minhas músicas e filmes é um baita de um bom dia.
Enquanto empilhava os dias ruins, os bons já ocupavam um armário.
Difícil demais viver nessa gangorra de interpretações da vida, é bem verdade, mas saber que tem uma forma positiva de viver me aquece o peito.

Essa coleção continua aqui.
Sem me esforçar tanto, vou lembrar exatamente da cada momento; me transportar para exatamente o segundo em que escureci por dentro e rezei para ser invisível em cada um dos itens que completam essa coleção.

Eu não preciso ignorar os dias ruins. Tentei tanto. Me apeguei tanto.
Mas posso tentar focar nos dias bons. Outra prateleira para colocar.
Isso é o outro lado da gangorra, sabe? Nela, quando a gente desce a única certeza é que a próxima vez é subir.

Eu cheguei até aqui.
Meu eu de seis meses atrás não imaginaria.
Aguentei.
A gente pode aguentar.
Um, dois, três e tantos outros dias ruins: eu estou aqui. E a cada cair na noite que finda um dia mais forte fico. O problema é de vocês.
Eu posso aguentar.
A gente pode aguentar.
—–
por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

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