Já faz um tempo que deixamos de ser sós para sermos nós.
E, nesse tempo todo até aqui, apesar de mergulhos tão profundos um no outro, a gente continua se conhecendo um pouco mais a cada dia. A cada beijo de  “como foi o seu dia?” a gente se descobre um pouco mais.

Quem vê a gente de fora, porém, não sabe das coisas que a gente passou e passa.
Eu no lugar de todos também não imaginaria.
Dentro de um estereótipo, a gente carrega a imagem de um casal que deu certo. Nosso momento de vida e nossa posição profissional, contudo, não passam de adereços que ocultam as fissuras que uma vida normal que vivemos a cada dia que riscamos no calendário.
A gente não é perfeito como os olhos do mundo nos veem.
Eu, por exemplo, não sabia que ia encontrar em você força capaz de me equilibrar antes que eu pudesse cair. Hoje eu nem consigo me imaginar direito mais sem a sua voz calma para lembrar que tudo vai acabar bem. Você estende a mão no mar quando eu pareço me afogar.

No mesmo sentido, eu imagino que você saiba do prazer que sinto em ser sua companhia a cada dia.
Tem dias que nem eu mesmo me aguento, mas eu tento ao máximo separar as coisas para reservar energias, chegar em casa, preparar algo pra gente comer e atualizar as amenidades do dia antes de um play na Netflix. Tem dias que nem eu mesmo me aguento mas todos eles você está lá me aguentando.

A gente continua se conhecendo porque a gente se encontra nas exclamações que colocamos na nossa história. Seja em uma viagem organizada, uma bebida em uma noite de frio ou em um passeio com os cachorros, a gente se encontra na vivência do episódio recente combinado com a próxima página do livro que escrevemos juntos. A gente continua se conhecendo porque eu revejo nossas fotos e viajo de novo para aqueles momentos nossos, para o seu cheiro e para as coisas que você divide comigo. Que sorte a minha você estar por aqui comigo.

Sinto que ainda carrego alguns dos mesmos sonhos de antes de sermos esse tudo o que somos. O que mudou é que eu quero continuar com a sua mão ao lado da minha para me ajudar a enxergar a direção; não por medo de errar, mas pela certeza de que ter você aqui faz o caminho parecer mais curto. Você talvez nem saiba exata e profundamente o significado que a sua vida tem na minha e, talvez, eu jamais saberei explicar do jeito que eu gostaria mas, em momentos como esse, aqui enquanto reflito sobre nosso tempo juntos, eu aproveito para agradecer.

Já faz um tempo que deixamos de ser sós para sermos nós.
E cada um desses dias até aqui passaram que nem me dei conta de como mudei.
Tem gente que tem medo de alguém entrar na vida e acabar mudando a si, mas no meu caso cultivei uma melhora que eu nem tinha noção de acontecer. Você apareceu para me ensinar a amar as coisas em mim que antes eu só gostava. Você apareceu feito regador matando saudade das plantinhas em tardes de sol.

A gente continua se conhecendo.
Eu salvei numa pastinha da minha memória a primeira e a última vez que te olhei.
E toda vez que a gente se olha eu coloco uma foto nova nessa pasta.
É que no trânsito lento, na reunião interminável, no stress dos problemas e em todos os lugares que eu posso, eu acesso a lembrança que desenhamos juntos todos os dias, da hora que acordamos, até a que vamos dormir.
Que bom a gente continua.
Quanta coisa ainda quero saber.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroaparadois@gmail.com