Um abraço.
Um abraço não é só um abraço. Não só braços entrelaçados. Um abraço é uma autorização que uma pessoa dá para uma outra pessoa chegar o mais perto possível do coração. E corações perto ajudam um ao outro. Corações perto cuidam um do outro. Corações perto aliviam o peso dos passos depois dos abraços. Um abraço é bem mais que só um abraço. Um abraço é o momento de combinar as energias e transformar as duas pessoas em uma só – mesmo que seja rapidinho e tudo bem.

E existem vários tipo de abraço. Tem gente que abraça com os braços por cima dos ombros; tem gente que prefere por baixo. Tem abraço que a gente encosta a cabeça no peito da pessoa. Tem abraço que a gente encosta o nariz na pele. Tem abraço que a gente entra no cabelo da pessoa. Existem vários tipos de abraços para a gente escolher qual delas a gente vai usar mais.

A gente costuma abraçar quando as coisas não vão bem.
A gente abraça como se falássemos que tudo vai melhorar. Falar é legal mas abraçar fala mais. A gente abraça e deita nos ombros sem vontade de desabraçar. E ali a gente quer ficar abraçado só para pegar emprestada uma força para completar a nossa que parece se esgotar. A gente abraça os amigos, a família e alguém especial.

E quando o abraço é em alguém especial, a gente abraça e enrosca nosso corpo no da pessoa. Pressiona com força o peito um ao outro, faz movimentos de vai-e-vem com a ponta dos dedos nas costas de quem está abraçando e fecha os olhos para a visão não distrair o coração. A gente beija delicadamente alguns centímetros do pescoço. Às vezes a gente sorri e no frio a gente suspira pelo quentinho.

Quando o abraço é em alguém que a gente gosta o nosso corpo parece dar risada. O abraço de “oi, que bom te ver”, por exemplo, parece ser tão genérico e corriqueiro, né? Mas é aí que a vida nos ensina novamente: não se trata da duração, mas do coração. Um abraço de “oi” em quem a gente gosta é o momento que o nosso sangue parece correr ainda mais rápido; a pele fica mais sensível, os sentidos mais apurados e conseguimos mergulhar no cheiro que a pessoa tem. O abraço de “tchau” em quem a gente gosta, por sua vez, é um abraço de “quero voltar”. É um abraço que deixamos um pedaço da nossa vida na pessoa e que levamos dela também – ainda que ela não saiba. É um abraço de saudade. Um abraço de querer mais. Um abraço de “conta comigo”. É um abraço que dá vontade de morar nele e que faz a gente chegar em casa com um pouco do cheiro da pessoa.

A gente devia abraçar mais. A gente devia somar mais as energias e acreditar mais no poder que um abraço tem. O poder do consolo, do carinho “vai ficar tudo bem” e da celebração do “que bom é ter você”. A gente devia abraçar mais para deixar que abraços curem as feridas que outras pessoas deixaram na nossa vida. A gente tem muitas feridas, né?

O abraço é melhor curativo que um coração machucado pode ter.

Porque é ali, naqueles rápidos segundos de um abraço simples, que mora a vitalidade que pode ajudar os nossos dias a serem mais leves e terem mais sabor. É naquele abraço rapidinho que a gente recicla os sentimentos chatos dentro da gente para que se tornem em sentimentos novos. É no abraço mais longo de inverno que a gente sente vontade de ficar no quentinho do corpo da outra pessoa. É no abraço curtinho de verão que a gente liga nosso corpo em outra pessoa para preencher a barrinha de energia.

Pense mais no abraço que você dá. Naqueles rotineiros no pessoal do trabalho. Pense mais na frequência com que abraça sua família e seus amigos. Pense em dar o seu melhor abraço em quem te faz se sentir melhor. Pode acontecer da pessoa querer sair do abraço e se constranger por você querer ficar um pouco mais, mas isso não é um problema e ela vai perceber que não há nada que um abraço não possa explicar ainda que não fale nada. É só um abraço porque faz bem para a gente ter outro corpo perto do nosso. Na conchinha da madrugada, no “oi”, no “tchau” e na vida.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
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