Ontem estava tudo ok.
Não era bom, nem ruim, era ok.
Algumas implicações que de tanto desgastar já nem doem mais.
Você, como de costume, some.
E quando aparece demora para me responder.
Eu aprendi a me acostumar com seu jeito, mesmo falando o quanto doía em mim.
Você está no piloto automático e já me ignora sem nem perceber.

Os assuntos passaram a ficar doloridos por dias.
Você começou a dizer que eu gosto de brigar.
E eu comecei a perceber que você passou a gostar de continuar brigando.
E entre em uma reclamação ou outra assim, a gente passou a trocar palavras feias.
Elogios não nos visitavam mais.

Alguns planos se tornaram reais mas fazem tanto tempo.
Parece que focamos em parecer e não em ser.
Por quê que a gente se acostumou a desconhecer mesmo?

Hoje a gente vai postar uma foto nossa.
Vamos qualificar a nossa história entre tantas outras. Eu vou dizer que você é a melhor pessoa do mundo e você vai retribuir que outra pessoa igual a mim não existe.

A gente vai contabilizar likes e comentários nas nossas fotos.
“Olha quem curtiu”, “Olha quem comentou!”, “Quantos likes tem na sua?”
Talvez você reclame porque eu vou demorar para postar a foto.
Talvez reclame também pela foto que escolhi.

A gente vai trocar presentes.
Vou me descuidar e confundir o tamanho da roupa.
Você vai esquecer que daquela cor eu nem gosto.
O presente não vai ser celebrado.

Um sorriso amarelo e um beijo de canto na boca de “obrigado”.
Você vai demonstrar que esperava mais.
Eu vou riscar minhas adivinhações sobre o que me daria.
Mas a gente não vai falar disso. Não hoje.

Quando o dia acabar, a gente vai se encontrar e enfrentar alguma fila na cidade.
A gente vai se irritar com a demora. A gente vai reclamar da hora.
Vai ficar tarde e a gente vai escolher fazer o de sempre.
O mesmo sempre que, de tanto sempre, passou a nos fazer mal como nunca.

E aí a gente vai embora.
O relógio vai acelerar. A gente vai se agradecer por mais um dia.
Mas esse dia nem foi tão bom assim, mas pelo menos a gente viveu mais um deles.
Mudamos o filtro da foto de sempre. Um pouco menos de curtidas que o anual.
E a gente nem se curtiu assim no final.
Hoje a gente fez parte do todo e tudo fez a gente pertencer ao normal.
No fundo, a gente sabe que dificilmente seria como foi era no começo.
Mas a gente se acostumou a se esquecer.
Esse hoje logo acaba.
E amanhã a gente termina.

(cuida para comemorar não só o dia mas como a vida).

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees