Author: Márcio Rodrigues (page 1 of 62)

Você prefere não resolver as coisas

Hoje eu ocupo um lugar estranho na sua vida.
Hoje eu sou aquela pessoa chata que insiste nas soluções.
É que eu não consigo, por exemplo, dormir brigados.
Já você, é impressionante, como as coisas parecem passar para você?

E isso tudo fico oficial quando você prefere terminar a conversa ao invés de avaliar se nos entendemos.
As coisas não andam bem pra mim e isso reflete na gente.

Eu não consigo ficar normal com uma conversa nossa que toda vez é abreviada por você.
Parece que te incomoda as coisas que te digo – e olha que eu nem chego perto de te desrespeitar.
Você simplesmente não gosta de falar sobre assuntos que a gente se desentende.
Eu não queria ter que falar das coisas que não estão dando certo, mas entendo que essa é a única maneira de fazê-las funcionar.

Você prefere fugir.
Você ignora e me despista.
“Ainda esse assunto?” você questiona.
Você constrói cenários para que tudo acabe rapidamente – como se eu não quisesse.
Se pudesse, você certamente aceleraria o ponteiro do relógio – como se eu não quisesse também pular para a parte boa. A diferença é que, apesar desses momentos também me desgastarem, eu prefiro que a gente se entenda.

É que você prefere não resolver as coisas.
Você me posiciona como alguém que gosta de brigar. Você me acusa de estragar tudo quando “o clima está bom”, mas então eu não consigo enxergar o mesmo clima que você. Eu não sei o que está acontecendo.

Entenda que para eu falar essas coisas é porque estou há muito tempo observando este comportamento.
Eu não faria o jogo aqui de relembrar cada uma das coisas que não se resolveram, mas eu preciso te dizer que para vir te falar é porque eu pensei muito antes.

E não é que a gente brigue todos os dias, que a gente não se dê mais bem como antes, não é isso. O que acontece é que enquanto eu tento trocar o tijolo para continuar construindo a parede, você simplesmente deixa a obra de lado e vai embora.

Quero melhorar as coisas e por isso vim te falar.
Você consegue se colocar no meu lugar quando digo que me dói ir dormir com uma tempestade acontecendo na minha cabeça?

É que se não existir conversa entre a gente, vai ser muito difícil a gente existir.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Tem muita gente te dizendo o que deve ser feito

É normal a gente encontrar pessoas distribuindo respostas para o nosso coração.
Sempre tem alguém que sabe exatamente o que devemos fazer.

“Amiga, faça o que eu te digo: ignora ele. Homem gosta de mulher difícil”.
“Cara, deixa ela correr atrás. Mulher adora uma competição”.

Eu sou favor das trocas de pontos de vista.
A gente pode ter vivido as mesmas coisas, mas temos visões diferentes sobre cada uma delas.
Ao meu ver, isso é legal pra caramba porque não nos coloca em uma posição de certeza sobre tudo.

O que eu acho problema, porém, é a forma que o ponto de vista é falado. A gente precisa ter muito cuidado.
A gente não pode interpretar a história de alguém pensando em uma iniciativa que a gente tomaria naquela posição.
É muito fácil opinar sobre o que deve ou não ser feito vivendo tudo de fora.
Nossos conselhos e opiniões precisam ser responsáveis.
É perigoso demais colocar tudo numa caixinha e falar: “faça isso”, “não faça aquilo”.
Além de perigoso é bastante prepotente, afinal, quem é que garante que o resultado do que eu indicar que deve ser feito, por exemplo, vai ser o mesmo de quando eu fiz? É impossível garantir.

É especial poder contar com pessoas que ajudam e chegarmos em conclusões sobre nossas histórias, mas a gente não pode ser refém disso. A gente não pode deixar que nossas decisões sejam tomadas por outras pessoas.

Tem muita gente te dizendo o que deve ser feito.
Tem gente que diz para você não responder a mensagem.
Tem gente que diz para responder sim.
Tem gente que fala para você não perdoar.
Tem gente que fala que é melhor perdoar para não perder a pessoa.

Como que a nossa cabeça fica com esse monte de jeito de ver a vida?
Entendo que, em tese, toda e qualquer opinião que você pede para alguém que estima vai ser embasada num bem maior: te fazer ficar bem. As pessoas tendem a falar coisas que nos façam bem e que nos abrevie algum tipo de angústia e, em geral, essas pessoas se baseiam nas próprias experiências.

Eu não sou contra a coleção de opiniões das pessoas que gostamos. Esta é uma premissa da amizade.

Me manifesto contra, quando você não percebe que suas decisões só são tomadas após a influência de outras opiniões. É necessário ter o controle da própria vida e assumir os riscos de carregar um coração dentro do peito. Muita gente vai continuar te dizendo o que deve ou não ser feito e você pode ouvir a todos, mas a decisão final deve ser a que, exatamente, o seu coração te orientar.

Nenhum outro alívio é maior do que o de seguir o que o coração diz para fazer.
E isso não quer dizer que ele vai acertar sempre, mas ele é quem te conhece melhor.
E aí, feito isso, aquelas mesmas pessoas ainda vão se reunir para te falar coisas como: “eu te avisei” e aí você vai poder respirar e dizer:

“Me avisou, mas eu senti vontade de fazer outra coisa.” E tudo bem.

“Amiga, faça o que eu te digo: ignora ele. Homem gosta de mulher difícil”.
Você também pode, simplesmente, escolher não ignorar, puxar um assunto e continuar a conversa para ver até onde vai dar.
“Cara, deixa ela correr atrás. Mulher adora uma competição”.
Você pode, simplesmente, procurá-la também e demonstrar como tem gostado da conversa.

por Márcio Rodrigues
@umtravesseiroparadois

A gente pode se acertar

A gente funcionou por um tempo.
Aí a gente parou de funcionar.
Foi o que aconteceu.
E é mais fácil enxergar assim do que tentar teorizar o que houve.
A gente só não funcionava mais. Era isso.
A gente parecia não se encaixar direito e, geralmente, quando isso acontece o pavio fica cada vez mais curto.

Eu, por exemplo, não gostava do jeito que você falava e você, por sua vez, não tinha paciência para o meu jeito.
Isso é bem mais do que definir certo ou errado.

A soma dos episódios ruins da nossa história se transformou em uma temporada péssima.
Eu não queria nada parecido e sei que você muito menos.
Que merda ver tudo chegar a esse ponto.

Mas eu tenho pensado em algumas coisas esses dias e queria te falar sobre.
Você já parou para pensar que a gente ainda pode se acertar?
Isso, acertar mesmo?
Voltar a funcionar?

Eu tenho pensado nisso.
É que assim, eu não estou dizendo que a gente vai conseguir desfazer os dias ruins, os nossos excessos e todas as coisas que nos fizeram parar de funcionar – não é por aí. O que estou dizendo é que, mesmo considerando toda a parte ruim, a gente funcionou em muita coisa boa que ainda pode voltar a funcionar. Foi pensando nos nossos bons momentos que me vi imaginando a gente vivendo momentos ainda melhores. E você pode até discordar, mas não tenho certeza se podemos dizer que isso é impossível.

O que será que a gente ainda pode fazer pela gente? Será que existe algo?
Ou será que realmente já fizemos tudo o que poderíamos ter feito por tudo de bom que já vivemos?
Eu não tenho exatamente respostas para essas coisas. A diferença é que antes as certezas moravam na minha cabeça, mas hoje eu me permito à possibilidade da dúvida. Queria saber o que você pensa disso.

Se a gente recolher tudo o que já vivemos, todas as coisas, e colocarmos todas em uma balança: qual é o saldo no fim? Eu tenho a impressão que vivemos mais coisas boas do que ruins e, me apegando a essa interpretação, penso se lembrarmos disso não seria o combustível que poderia nos completar novamente e dar uma nova chance não para mim, nem para você, mas para a gente.

Isso tudo faz sentido? No mínimo, faz sentido?

Eu queria tentar a gente de novo.
Queria ouvir de você cada uma das coisas que não gostava tanto da gente. Queria te contar como eu vejo o que aconteceu também. Queria conversar. Queria pensar juntos.

É que talvez a gente possa se acertar. Eu acredito que a gente pode se acertar.
E, apesar da sensibilidade dessa história, eu preferi tocar nesse assunto do que viver com tudo isso engasgado comigo. Eu acredito que a gente pode se entender e tentar ver se temos mesmo mais energia para continuar.

Eu não tenho respostas de como seria, tampouco poderia te garantir alguma coisa sobre futuro, mas eu gostaria de te convidar a pensar nisso com o mesmo carinho que tenho pensado.

Não há certeza de que poderíamos voltar a dar dando certo, mas talvez também seja precipitado afirmar que já fomos tudo de bom que poderíamos ser.

Sabe?

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

Você vai se ver comigo

Não que eu vá me vingar.
Eu não sou esse tipo de pessoa.
Não que eu vá te fazer passar pelas coisas que me fez passar e ainda debochava na minha cara.
Fazer algo parecido seria escolher ser para você exatamente como foi pra mim – e esse tempo eu não tenho.

Você vai se ver comigo.
Mas vai ver de um jeito diferente.
Você vai se ver comigo quando a banda que te mostrei,  aquela que se apaixonou, anunciar show no Brasil – ou até mesmos nos refrões que tocarem nos seus fones. Vai se ver comigo naquele lugar que a gente sempre comia. Vai se ver comigo na temporada nova daquela série que a gente maratonou. Vai se ver comigo em tantos lugares.

Eu não quero que isso pareça uma maldição minha, porque, de fato, não é.
Mas isso é o que acontece quando a gente simplesmente ignora a vida da outra pessoa que vive uma história com a gente. Você optou por me descartar da sua vida e o troco disso vai ser a minha presença nos seus dias sem ser ter um convite.

Quando lembro de como foi o fim, começo a me questionar porque começamos.
Pareceu que você jogou no lixo o significado das coisas que vivemos. Eu não te conhecia mais – ou nunca te conheci direito mesmo.

Você vai se ver comigo.
Mesmo longe estarei em cada um dos seus passos.
Vai ser comigo no som de uma risada que lembrar a minha, vai se ver comigo quando perceber o meu perfume em outra pele no metrô.

Não dá para esquecer alguém, a gente só aprende a não lembrar tanto.
A diferença, no seu caso, é que como você tanto fez pela minha reação, a minha indignação e o meu questionamento sobre as razões pelas quais você me tratava, que isso vai me fazer viver na sua vida por mais tempo que o planejado. Eu não entendi direito a partir de qual momento eu passei a ser seu inimigo e você simplesmente CAGAR para mim – com a licença do termo.

É por isso que eu tenho certeza que você vai rezar para me esquecer mas isso vai demorar para acontecer – se for mesmo. Você vai se ver comigo naquele flagrante de momento em que sentir injustiça para você; vai se ver comigo quando procurar alguém que não vai te retornar; vai se ver comigo quando pedir para conversar e, simplesmente, te ignorarem. Você vai se ver comigo em cada uma das coisas que fez para mim e julgava ser normal, ou dizia que eu “tava viajando”, ou que eu estava cobrando demais por querer entender e todo o resto. Só de lembrar a minha energia se esvai.

Eu estou administrando o que fomos para entender que lugar da minha vida eu vou escolher para você ficar. Enquanto não decido, nada me tira a certeza de que você vai se ver comigo em cada um dos bons momentos que viver e em cada um dos momentos não tão legais assim que viver com alguém – e eu até espero que não precise de muitos para entender como foi pra mim.

Quando a gente termina histórias sem a empatia de que outra vida está envolvida com a nossa, as histórias não terminam dentro da gente. Hoje eu sou uma história em cada passo seu.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois.@gmail.com

Vai dar muito errado sim

 

 

A gente faz merda.
A gente faz muita merda.
Algumas vezes, felizmente, a gente percebe.
Outras tantas, porém, a gente nem se dá conta.

Tem algumas – muitas – vezes que fazem merda com a gente.
Tem gente que hoje diz que gosta para amanhã não ter tanta certeza assim.
Tem gente que sempre reforçou não gostar da gente até que um dia se arrepende – e, via de regra, isso acontece quando uma pessoa nova entra na nossa vida.

Vai dar muito errado sim.
Esse papo das coisas darem sempre certo é uma roubada. É escolher acreditar numa idealização ingênua e até utópica. O otimismo é um grande aliado para encarar a vida, mas ignorar a chance das coisas darem errado é ser sommelier de sofrimento.

Entenda: você não precisa sair por aí acreditando que tudo vai dar errado. O problema é você acreditar demais no contrário, isto é, acreditar nas novelas e filmes que assiste, nas músicas que ouve ou nos textos que lê.

Tem muita gente te transformando em uma pessoa ansiosa.
É cada demonstração de amor incrível que fica difícil acreditar ser possível viver algo parecido. Tá puxado. As novelas, músicas e textos, principalmente na ~internet da felicidade~, disparam gatilhos que a gente não prevê a sequela. Cegos pela ideação de felicidade, a gente repete que acima de qualquer outra coisa “o importante é ser feliz”.

Porra. O que é ser feliz? Quem é que determina isso? E esses padrões que a gente vê? Eles estão certos?
Quem é que consegue ser feliz todos os dias?

Vai dar muito errado. Vai dar errado, desculpe, para caralho.
E dar errado é muito importante. Ignorar a dor não faz o amor chegar mais rápido.

Você não vai gostar de alguém que diz gostar de você.
Já deve ter acontecido isso.
Alguém não vai gostar de você da mesma forma que você.
Isso então nem se fala.

Você vai se sentir um lixo por estar gostando de alguém que, em tese, não devia gostar.
Vão te fazer se sentir horrível com uma traição.
Vai se ver chorando feito idiota por alguém que não merece um segundo de atenção.
Vai até perder a fome, se bobear, de tanta saudade.
Que papelão a gente passa, né?
Vai dar muto errado sim.
Você vai prometer amar para sempre até amar alguém de novo.

É sério: vai dar muito errado sim.
Essas fotos que você dá like são fotos que você clicou numa tela do celular.
É bom a gente se lembrar disso para mantermos nossos pés no chão.
Esqueça esse papo de felicidade acima de tudo, do importante é ser feliz e tudo mais.
Este é mais um texto de internet sim, mas é um texto onde, tranquilamente, você pode discordar.
Este texto, sobretudo, é um alerta que você pode escolher entre interpretá-lo como um despertar para a vida real ou um monte de baboseira negativa escrita.

Não vai dar certo sempre.
E tudo bem.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

O combinado era ser não ser nada sério

Eu disse que não estava pronto.
E disse pra mim antes de dizer para você.
Lembra?

Te contei de onde vinha, por onde meu coração tinha passado antes de você aparecer na minha vida. E te contei tudo para me proteger e proteger você. O plano era simples como o que a gente vivia: não nos envolvermos muito, estabelecer limites e preservar a calma.

Você, por coincidência, dizia viver o mesmo momento.
Por isso, tudo parecia bem alinhado: a gente levando isso tudo como lazer do que como futuro.

A minha cabeça estava uma bagunça.
A pessoa que passou por mim antes de você foi embora e deixou a porta aberta. O vento jogou tudo para o alto e eu me esforçava para organizar minhas prateleiras novamente. Que fase.

Exatamente por isso eu preferi te contar detalhes do meu momento. Eu não queria ser covarde e te fazer investir em algo que não teria retorno – eu já fiz isso antes, já fizeram isso comigo antes, eu já entendi. Reproduzir um erro é flertar com a tragédia.

O problema foi eu ter certeza demais.
Não dá pra gente calcular as batidas que o coração dá.
Não dá para eu dizer: “ei, não passe deste ponto”.
E o que aconteceu é que me vejo aqui, feito idiota, ansioso por uma nova mensagem sua e enfiado no jogo horroroso, justamente o jogo que eu temia, entre saber se eu acerto ao te procurar ou é melhor esperar por horas alguma mensagem sua puxando qualquer tipo de assunto.

Hoje, olha a minha cara caindo no chão, hoje eu sou tomado por ansiedade antes da gente se ver e fico triste quando a gente se despede. Eu tentei negar por muito tempo, mas eu já vi esse filme antes então posso cravar: estou envolvido.

Revisitei fotos que trocamos pelo Whatsapp. Mais de uma vez ouvi as músicas que mandou. Assisti os filmes que indicou. Comprei os livros que tão bem falou. Quando me dei conta já estava querendo entender mais do jeito que você vê o mundo para eu poder enxergar uma porta e pode entrar.

Essas coisas a gente não escolhe.
Meu erro foi acreditar tanto na teoria dos limites e nos papos batidos de não querer me envolver. Falei isso como se eu não me conhecesse; como se eu não soubesse que de tão bem que você passou a me fazer aos poucos, era natural eu querer que me fizesse ainda melhor cada vez mais.

Hoje eu estou aqui pagando a língua. Eu nem sei se notou diferença na minha postura. Não foi nada de mais eu brincar de onde a gente poderia morar quando a gente casasse… O pessoal enxerga cada coisa, viu? Eu só brinquei.

O combinado era não ser nada sério.
Eu só esqueci que meu coração não costuma levar combinados muito a sério.
E me enganar nem sempre é ruim.

Pode ser Júlia sim o nome da segunda filha.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

A gente continua se conhecendo

Já faz um tempo que deixamos de ser sós para sermos nós.
E, nesse tempo todo até aqui, apesar de mergulhos tão profundos um no outro, a gente continua se conhecendo um pouco mais a cada dia. A cada beijo de  “como foi o seu dia?” a gente se descobre um pouco mais.

Quem vê a gente de fora, porém, não sabe das coisas que a gente passou e passa.
Eu no lugar de todos também não imaginaria.
Dentro de um estereótipo, a gente carrega a imagem de um casal que deu certo. Nosso momento de vida e nossa posição profissional, contudo, não passam de adereços que ocultam as fissuras que uma vida normal que vivemos a cada dia que riscamos no calendário.
A gente não é perfeito como os olhos do mundo nos veem.
Eu, por exemplo, não sabia que ia encontrar em você força capaz de me equilibrar antes que eu pudesse cair. Hoje eu nem consigo me imaginar direito mais sem a sua voz calma para lembrar que tudo vai acabar bem. Você estende a mão no mar quando eu pareço me afogar.

No mesmo sentido, eu imagino que você saiba do prazer que sinto em ser sua companhia a cada dia.
Tem dias que nem eu mesmo me aguento, mas eu tento ao máximo separar as coisas para reservar energias, chegar em casa, preparar algo pra gente comer e atualizar as amenidades do dia antes de um play na Netflix. Tem dias que nem eu mesmo me aguento mas todos eles você está lá me aguentando.

A gente continua se conhecendo porque a gente se encontra nas exclamações que colocamos na nossa história. Seja em uma viagem organizada, uma bebida em uma noite de frio ou em um passeio com os cachorros, a gente se encontra na vivência do episódio recente combinado com a próxima página do livro que escrevemos juntos. A gente continua se conhecendo porque eu revejo nossas fotos e viajo de novo para aqueles momentos nossos, para o seu cheiro e para as coisas que você divide comigo. Que sorte a minha você estar por aqui comigo.

Sinto que ainda carrego alguns dos mesmos sonhos de antes de sermos esse tudo o que somos. O que mudou é que eu quero continuar com a sua mão ao lado da minha para me ajudar a enxergar a direção; não por medo de errar, mas pela certeza de que ter você aqui faz o caminho parecer mais curto. Você talvez nem saiba exata e profundamente o significado que a sua vida tem na minha e, talvez, eu jamais saberei explicar do jeito que eu gostaria mas, em momentos como esse, aqui enquanto reflito sobre nosso tempo juntos, eu aproveito para agradecer.

Já faz um tempo que deixamos de ser sós para sermos nós.
E cada um desses dias até aqui passaram que nem me dei conta de como mudei.
Tem gente que tem medo de alguém entrar na vida e acabar mudando a si, mas no meu caso cultivei uma melhora que eu nem tinha noção de acontecer. Você apareceu para me ensinar a amar as coisas em mim que antes eu só gostava. Você apareceu feito regador matando saudade das plantinhas em tardes de sol.

A gente continua se conhecendo.
Eu salvei numa pastinha da minha memória a primeira e a última vez que te olhei.
E toda vez que a gente se olha eu coloco uma foto nova nessa pasta.
É que no trânsito lento, na reunião interminável, no stress dos problemas e em todos os lugares que eu posso, eu acesso a lembrança que desenhamos juntos todos os dias, da hora que acordamos, até a que vamos dormir.
Que bom a gente continua.
Quanta coisa ainda quero saber.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroaparadois@gmail.com

É melhor a gente ficar longe

É melhor.
É melhor a gente se distanciar um pouco.
Colocar as coisas e, principalmente, a cabeça no lugar.
Essa proximidade não está me fazendo bem.
Já cheguei a pensar que fazia, mas pensei errado.
Por isso hoje eu acho que é melhor a gente ficar longe.

Eu não tenho exatamente uma coisa contra a você, mas é que do jeito que está também não consigo enxergar nada que seja exatamente a favor. E, pelo menos longe, a gente pode se machucar menos.

É que você sempre diz que não faz por mal e eu sempre digo o quanto me dói. A gente se enrosca em impasses. É uma teoria tentando convencer a outra. Uma batalha que não justifica tanto esforço.

Eu não sei a melhor maneira pra gente funcionar, mas eu sei que a melhor solução agora é a gente se afastar.

Nossa história está confusa demais. Não está muito claro quais os limites que temos que respeitar e quais podemos ultrapassar. Eu não consigo eleger quem é responsável por isso entre nós, eu só consigo dizer que não aguento mais.

Eu não aguento mais.
Eu não aguento mais toda a ansiedade que a nossa história tem me causado. Estou com problemas. Durmo e acordo esperando uma mensagem sua e, quando não pior, uma resposta sua de algo que falei dias atrás. Eu estou mal.

Quando estamos juntos somos pessoas completamente diferentes de quando estamos separados. Essa instabilidade tem tirado o meu ar e a minha autoestima está prejudicada. Eu não me cuido mais.

E talvez eu esteja fazendo algum mal para você também. Talvez a minha persistência em entender melhor o que a gente têm esteja te sufocando também. Acho que é oficial que, entre nós, não existe uma má intenção, mas eu queria esclarecer também que este fato não isenta os problemas que podemos causar uma na vida do outro.

É melhor a gente ficar longe.
Melhor a gente administrar nossas vida sem a presença de outra.
Eu não sei dizer por quanto tempo, eu não sei prever nada das coisas. A única coisa que sei é que a gente perto assim não está fazendo bem pra mim. As nossas interrogações tem pesado demais.

É meio que isso, sabe?
Não há porque teorizar muito. Eu só acho que é melhor a gente ficar longe.
Não estou conseguindo ser quem eu gosto e, quando tento, você não consegue gostar – por motivos seus.
Então eu prefiro frear do que acelerar demais e a gente bater.

Vai ficar tudo bem.
Mas fica tudo bem mais rápido se, agora, a gente ficar longe.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Eu queria te ver de novo

Gostei de ontem.
Mas como eu posso te falar que eu quero te ver de novo?
Não é só falar e simples assim. Quem pensa dessa maneira muito provavelmente nunca se viu nessa minha situação.
As pessoas são complicadas. Não dá para esperar que elas entendam nossas intenções como a gente gostaria.

Eu gostei de tudo o que a gente viveu mesmo que tudo nem tenha sido tanto assim para você.

Eu queria te ver de novo mas eu não queria te assustar.
Com outra pessoa antes de te conhecer, eu abri o jogo e ela sumiu. Eu não sei precisar o que ela entendeu, mas eu só consigo imaginar que ela imaginou que, entre meus planos, fazer mal a ela era o principal. É que essa pessoa só parou de me responder. A gente chegou a se falar no mesmo dia depois que cheguei em casa, mas ela não correspondeu mais as minhas interações. E eu me senti invadindo a vida dela.

O problema de uma relação sem transparência é que a gente passa a questionar coisas na gente que não cabem questionamento. Ou seja, o problema dessa pessoa não ter sido clara comigo ao invés de me ignorar e fugir, é que eu começo a duvidar de que estou sendo delicado e verdadeiro com as pessoas como acredito ser.

A gente nunca sabe direito da profundidade das sequelas que deixamos na vida das pessoas que não estão mais na nossa vida.

E é por outros exemplos que vivi como esse que te citei, que sinto meu sentimento por você abreviado.
Eu queria te ver de novo.
Antes de saber se eu vou gostar de você mesmo ou se você vai gostar de mim, eu só queria te ver de novo. Marcar outra coisa ou marcar a mesma outra vez.
A minha cabeça não para de me perguntar o que você acharia da ideia, o que você pensaria se eu te convidasse, afinal, eu devo considerar as outras pessoas que você conheceu antes de mim e a amostra não é boa.

Somos uma geração inteira de pessoas pisoteando o coração de outras onde fica praticamente impossível confiar que uma nova pessoa não vai fazer a mesma coisa.

E aí que eu me encontro.
Como que eu posso te provar que eu só queria te encontrar de novo pra gente ver até onde a gente daria? Mesmo que não desse em nada? Meu medo faz sentido, bem como a sua preguiça é legítima.

Eu queria te ver de novo.
Queria sentir aquela coisa boa que senti depois de ontem. Queria ter uma nova oportunidade para tentar te fazer sentir de um jeito positivamente inédito, nem que fosse sei lá, tomando um suco. Queria confirmar a impressão que tive de que você gostou de ontem tanto quanto eu. Queria voltar para aquele sentimento que eu tive momentos antes de te encontrar – você não sabe o quanto falei sozinho de nervosismo. Queria de novo o gosto que senti quando voltei pra casa pensando no que aconteceu e como aconteceu. Aquele instante foi meu e eu salvei numa pasta de fácil acesso na minha vida. No fundo, no fundo mesmo, real oficial, eu queria ter de novo aquele nosso beijo só para eu poder te beijar de um jeito diferente de ontem. Eu sei que, caso a gente se encontrasse, não necessariamente você ia querer de novo. Você poderia não se sentir a mesma coisa e a verdade é que nem eu também. .

Tem histórias que simplesmente não se encaixam, mas antes de ter certeza, eu queria te deixar com essa dúvida sobre a gente.

Eu queria te ver de novo.

Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Você pode conversar comigo?

Alguns sinais a gente não consegue perceber.
Depois que inventaram o termo “vida corrida” a gente passou a se esconder de muita coisa.
Mas o pior é que a vida fica corrida mesmo.
Quanto mais o tempo passa, menos tempo a gente tem – ou a nossa percepção de tempo que muda, né? Porque o relógio não começa a andar mais rápido, a gente é que parece desaprender a aproveitar o tempo. Que merda.

Bem, nesse cenário, a gente começa a postergar coisas.
Estudar coisas novas nem pensar, cuidar da saúde quando der e por aí vai.
O problema começa quando a gente começa a postergar pessoas.
De novo, chega uma fase da vida, em geral depois que você que teve o privilégio de cursar uma faculdade se forma, que o tempo parece ficar escasso mesmo.

O ponto é aqui é a primeira frase deste texto: alguns sinais a gente não consegue perceber – e aí, sem a menor maldade existente, a gente passa a esquecer de pessoas.
Mergulhados nas prioridades da nossa vida, a gente esquece de dar atenção a outras vidas que também importam pra gente. São nesses momentos que a gente vai se distanciando aos poucos.

A gente fica tão desligado que não percebe coisas que não precisam ser ditas para serem entendidas. Tem a ver sim com a organização de prioridade da nossa vida e o tempo que dedicamos a elas. A gente se enrola e esquecemos de dedicar energia a coisas que já dedicamos um dia, entre elas, por exemplo, nossos amigos.

Dificilmente alguém vai te dizer: “Você pode conversar comigo?” Esse, por exemplo, é o tipo de coisa que nem sempre precisa ser dita para ser compreendida. Dá para identificar alguma estranheza de comportamento antecipadamente e tentar reaver o tempo que passou. Dá, mas só se a gente quiser.

Vai ser muito difícil alguém verbalizar que precisa de ajuda. No mundo de aparências que a gente vive, demonstrar fraqueza é se expor – e ninguém gosta de expor seu lado mais frágil. Falar sobre problemas demanda muito de quem fala, mas mais ainda de quem ouve. E é esse ponto que eu quero destacar:

Não é sempre que pessoas vão dizer pra gente que precisam da nossa ajuda.
Não é sempre que pessoas vão dizer pra gente que precisam da nossa ajuda.
Não é sempre que pessoas vão dizer pra gente que precisam da nossa ajuda.

Não é sempre. E ninguém tem exatamente uma culpa. Bem complicada, inclusive, essa lógica de ter que apontar um responsável, afinal, nenhuma relação é uma competição. O esforço é necessário de todas as partes envolvidas em uma relação. É preciso sublinhar este ponto para que justiça seja feita.
Aquela pessoa que não fala o que está passando tem seus motivos, muitas vezes a legítima preocupação em não atrapalhar a vida das pessoas que gosta com problemas pessoais. Por outro lado, aquela pessoa que não percebe e não ouve, se enrola na sua própria vida e a organização do tempo que acaba deixando as coisas passarem despercebidas.

Tá tudo bem. A gente não vai acertar sempre.
Mas será que dá pra gente tentar perceber mais as coisas? Será que dá, por exemplo, pra gente puxar assunto com as pessoas que gostamos uma vez ou outra? Dar uma sondada para saber como anda a vida? Mesmo que um encontro não seja possível de marcar? Será que dá? Será que não vale pensar um pouquinho nisso? E isso tem a ver com amigos, família ou qualquer outra pessoa próxima da gente.

Tem pessoas perto da gente com problemas tão pesados que a nossa ajuda poderia aliviar. A nossa companhia, a nossa conversa, o nosso tempo.

A notícia boa é que não é necessário aprender nada novo, tampouco se considerar incapaz. O fundamental é apenas uma coisa: demonstrar interesse.

Interesse sobre a vida, sobre a saúde, sobre a família. E mostrar, sobretudo, que estamos lá sempre que alguma pessoa precisar de algo que possamos ajudar.

A gente pode até não curar a dor a de alguém, mas a gente pode ajudar a encontrar um atalho.

#setembroamarelo.

Um beijo,
Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

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