Author: Márcio Rodrigues (page 1 of 63)

Fingir que está tudo bem

Acordar amanhã.
Pegar a marmita preparada na noite passada e colocar na mochila.
Colocar os fones.
Ouvir alguns refrões no longo caminho.
Algumas horas até chegar no trabalho.
Chegando lá chega também a síndrome do impostor: “eu nem sou tudo isso.”
Scroll em fotos nas pausas do dia.
Ver o dia acabar.
Voltar para casa.
Trocar o jantar por uma saudade para me alimentar.
E nem sei bem que saudade é essa.
Ou sei e to fazendo tipo. Tem essas.

Dias estranhos.
A rotina faz a gente entrar em mecanismos que a gente discorda.
A risada plastifica. Tipo, eu nem quero rir mas meio que devo. “Ha ha, legal”.
Entrar em assuntos com vontade de sair.
Contratos da vida adulta.

Aí a gente conhece alguém que parece ter vontade de ajudar.
Mas aí a vontade parece acabar.
Alguém assim anima a gente, pega o peso dos dias e diz: “deixa eu dividir com você”.
O problema é que não dá para começar sabendo como vai ter terminar. A gente vai descobrindo a fase desse alguém com o passar dos dias.
E os dias passam e, muitas vezes, passam por cima da gente.
E aquele alguém que estava aqui até ontem, hoje nem lembra meu nome.
“Momentos diferentes”.
Filme repetido. Coisas assim.
Pior que eu entendo. Falei uma dessas já.

Com a falta de ter a quem me apegar, me apego a ideias.
Gosto de pensar que a vida tem ciclos por mais infinitos que pareçam durar.
Nada de novo, né? Mas a gente esquece demais de lembrar do óbvio.
Eu então nem se fala.
Tempos atrás vivi dias tão legais. Ainda que não seja tudo igual, o que aconteceu de bom pode voltar a acontecer.
Mas, e se não?
Puts, e se não?
Se não tudo bem.
Eu invento alguma coisa nova para colocar na marmita.
Vai ser bom experimentar.
Fazer a mudança começar por mim.
Amanhã acordar.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

A primeira impressão não deve ficar

Em geral, a primeira impressão é só uma coincidência quando a pessoa se mostra de um jeito e, com o tempo, confirma que realmente é assim. 
Mas a primeira impressão não deve ficar e dá para pensarmos sobre. 

É bastante injusto você avaliar alguém com uma primeira impressão sobre como esse alguém se mostra. Acontece que essa pessoa pode ter mil e um motivos para ser como foi na primeira vez.

A fase pode ser ruim.
A noite passada foi uma merda.
Um problema pessoal pode estar existindo.
Ou a pessoa pode ser tímida. Ela pode ter receio de que enxerguem mais suas fraquezas do que suas fortalezas.

Por isso, me incomoda muito falar que “a pessoa impressão é a que fica”. Entendo que tem um peso grande, mas acho injusto que este seja o critério para definir como alguém é.

Se a gente leva meses para começar a conhecer alguém em um namoro, imagina cravar que alguém é x ou y por uma primeira impressão?

A primeira impressão pode ser uma merda, mas a segunda pode ser maravilhosa. E esse é o tipo de coisa que você só descobre quando se permite e para de levar a vida como oito ou oitenta. Não tem essa definição quando a gente fala de coração.

Toma cuidado com a sua primeira impressão sobre as pessoas. Priorize não confiar nela. É necessário ter uma recorrência de comportamento para que você perceba como, de fato, a pessoa é. Em uma relação de anos, por exemplo, a gente ainda não conhece alguém inteiramente – ou você nunca ouviu falar em decepção?

Tem gente que parece um nojo na primeira vez. E falo nojo no pior sentido da palavra, não do meme. Tem gente que parece insuportável, parece metida, parece até grossa. Tudo isso a gente fareja com uma primeira impressão por alguém, mas nada disso deve ser decisivo sobre como as pessoas são.

É só imaginar como seria se você com você.
Imagina aquele dia horrível na sua vida. Aquela fase ruim no trabalho, dinheiro faltando, a pele oleosa, roupas velhas e tudo mais que pode comprometer sua autoestima por dentro e por fora. E aí você, num evento qualquer com amigos que trouxeram outros amigos, acaba conhecendo uma pessoa sendo que você não está nos seus melhores dias e, naturalmente, não consegue disfarçar. Mas essa pessoa não sabe, afinal, ela não te conhece. E aí esse alguém comenta depois sem você saber: “Nossa, achei meio mala. Sei lá, a pessoa com cara fechada, total nojo”.

Essa foi a primeira impressão da pessoa por você. E eu tenho certeza que não acha justo.
A gente não precisa perseguir o amor à primeira vista até porque ele é uma exceção romântica, a gente precisa lembrar que a primeira impressão não deve ficar; a gente precisa lembrar que não é sobre escolher uma roupa, é sobre conhecer alguém. E me parece óbvio que isso demanda profundidade e interesse. 

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

imagem: Sergey Sus/Flickr

Essa pessoa está te destruindo

Isso não está bom. 
Você já não é feliz nessa história há muito tempo. 
A soma de fases ruins ultrapassou as boas. 
Dias estranhos. 
 
Como que agora é mais legal quando a pessoa vai embora do que quando ela chega? 

Que sensação estranha quando a notificação é da pessoa no celular.
Muita pergunta aparece na cabeça.  
Você passa a pensar que o problema é você – essa tendência horrível que temos. 
Algumas pessoas trocam o guarda-roupas, deixam de usar aquelas que gosta. Passam a medir as palavras. Com o disfarce em agradar o foco é evitar brigar.
Autoestima que já é mínima fica em migalhas.
E assim você já não é você e nem percebe.  
O foda é isso: não perceber o quanto a gente se perde. 
 
Essa pessoa está te destruindo. 
Aos poucos, mas há muito tempo. 
Pescar na memória um dia bom é quase impossível. 
As suas vontades são abreviadas com um discurso meticulosamente manipulador. 
Não dá mais vontade de opinar em nada porque o sentimento é de medo. 
O tom de voz faz as mãos transpirarem e o choro vem com a noite. 
Raramente existe diálogo. Você se vê coadjuvante da sua vida. 
No entanto, quando te perguntam sobre vocês a resposta decorada é muito mais rápida que a verdadeira: “Tá tudo bem sim! : )” 
Digita : ) querendo escrever : ‘( 
Mas falar que não tá bem para quê?
Nem todo mundo está pronto para ouvir que as coisas não estão bem.
 
Não tá nada bem, mas tudo pode voltar a ficar. 
Vai demandar um esforço e provavelmente um pedido de ajuda de alguém que vai ver de fora.
Alguém com preparo para te ouvir sem apontar o dedo.
Você não precisa saber todas as respostas. Tem gente especialista em analisar histórias como a sua. 
É um processo cuidadoso com um só objetivo: priorizar você.  
Decifrar como os nós foram feitos para saber como desatá-los.  
É também sobre tentar, um pouquinho por dia, olhar para si antes de olhar para qualquer pessoa. 
 
Essa pessoa está te destruindo mas isso não aconteceu ainda.
E muita, mas muita coisa boa foi vivida antes desse alguém aparecer.
É bom lembrar das coisas boas que já vivemos para nunca esquecer de como são possíveis de serem vividas novamente.
Tem gente próxima que diz que é uma questão de querer resolver. 
“No seu lugar, faria isso e aquilo”.  
Muita coisa parece fácil até acontecer com a gente.  
Vão continuar falando. 
Escuta: a notícia boa é que tem saída para isso.  
Toma cuidado em não se culpar. A última coisa que você precisa é atribuir à você a responsabilidade por alguém se transformar. 
 
Isso não está bom. 
Você já não é feliz nessa história há muito tempo.  Você tem clareza disso.
Respire. Procure ajuda. Fique perto de quem confia. 
Tudo vai se resolver e você vai confirmar que, pode até tropeçar, mas é preciso muito mais para te derrubar. 

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

A tendência em pensar que o problema somos nós

A pessoa não se interessou.
A pessoa até se envolveu, mas não a ponto de algo mais sério.
A pessoa ainda se abala pela história anterior.
Pode ser tudo isso antes, mas primeiro a gente vai pensar que o problema somos nós.
A gente sempre vai eleger a nós mesmos como responsáveis pelas coisas não saírem como o planejado. Essa é uma tendência para a vida, mas quando o assunto é coração a coisa piora. 

Fica muito difícil alguma coisa dar certo quando a pessoa que menos torce pra gente somos nós mesmos. 

Seria muita pretensão cravar aqui o que deve ser feito, mas dá pra gente pensar em algumas coisas.
Acho que, para começar, você precisa ser fã de você.
Você precisa se apegar a todas as coisas que gosta em você.
E é óbvio que são muitas. Mais de uma já pode ser chamado de muitas.
As pessoas percebem quando estamos bem com nós mesmos, sabe?
É muito louco verdadeiro. Quando você está bem com você, parece que o mundo gira numa velocidade que dá tempo de apreciar a paisagem – e não aquele giro louco que a gente tropeça na rua de graça.
Eu nem me refiro àquele papo todo de se amar, aqui é mais sobre você explorar as coisas que são legais demais e você. Se amar vem no paralelo.

A estatística é uma alavanca para que sejamos pessimistas com nós mesmos. Explico: fica muito difícil acreditar que o problema não somos nós quando nenhuma vez as coisas parecem engrenar, né? Se das últimas, sei lá, cinco experiências, todas deram “”””errado”””” é claro que a gente vai pensar que somos o grande problema do troço – nem que seja por um azar profissional.

Mas será?
Pode até ser sim. 
Vamos falar a verdade, né? 
Afinal, assim como você sabe as coisas legais que tem em si, você também sabe as coisas insuportáveis – mas se não souber identificar seus defeitos, recomendo um médico.

Agora, será mesmo que o problema vai ser a gente assim em tantas vezes como nosso coração nos faz pensar?
Será que a gente precisa mesmo nos colocar a frente de qualquer outra possibilidade?
Será que antes de você se considerar uma pessoa feia, a pessoa que não te quis só não te quis mesmo? Tipo assim: queria, pareceu querer, não quis mais. Por qualquer motivo do mundo e, por último e olhe lá, por culpa da sua beleza?

A gente não precisa acreditar no que não é falado. 
A gente até cria uns fantasmas aqui e ali, mas a gente precisa domesticá-los porque eles não podem aparecer aleatoriamente desgraçando a cabeça. Normalizar e oficializar impressões sobre as coisas é o caminho mais rápido de destruir a si mesmo. Se ninguém especificou que você é o motivo pelo qual não vai rolar mais ou nem vai começar a rolar, você não precisa fantasiar que você é justamente o motivo.
 

Será que é óbvio assim como parece quando a gente lê ou não?
Eu não sei.
Mas não dá para negar o quanto faz sentido.
A tendência em pensar que o problema está na gente vem do quanto gastamos energia tentando mais entender as pessoas do que valorizando quem somos. A gente tem essa tendência porque somos sedentos por respostas, pelo AmaisB das coisas, pelo preto no branco e assim a gente esquece que, quando o assunto é coração, muitas das perguntas possuem uma mesma resposta:

SEI LÁ POR QUE.
As pessoas são assim. Elas não deixam claro as coisas e a gente fica sem entender.
Então, até que alguém te diga: OI, O PROBLEMA É VOCÊ, DO RG NÚMERO TAL E CPF NÚMERO TAL – o problema não é você – é um monte de outras coisas, muitas vezes ao mesmo tempo.

Muita coisa vai ser motivo antes de ser você.

Não assuma uma culpa que não é sua, principalmente se você dorme sempre sabendo tudo o que oferece de legal para alguém.

Troque a tendência em pensar que o problema é você pela certeza de que, pelo menos, não podem alegar que o problema é você.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
 

O que falta para esse rolo virar compromisso?

De cara a resposta pode ser: você querer.
E o pior é que é verdade.
Mas vamos dar um contexto para entender os fatos porque o coração não fala uma língua só.

Antes de qualquer coisa, um clichê: eu já estive na sua posição em outras histórias.
Já fui quem não queria “nada sério”, quem “estava com outros planos” e quem “recentemente terminou uma história” – para citar alguns exemplos. A minha estadia nesse mundo já me rendeu episódios muito parecidos com os seus.

E até até aí tudo bem.
Isso aqui está longe de ser uma competição sobre quem de nós viveu mais as mesmas coisas.

O negócio é que você me confunde e isso está começando e me incomodar.
Eu entendo a indireta sobre pegar leve e irmos devagar, mas quando não são os dias que passam e sim meses, fica complicado encontrar tanta paciência para administrar.

Pensa comigo: há alguns meses que temos preenchido os dias um do outro com mensagens carinhosas ou companhia em tardes de sábado. A gente passou da fase inicial de “se conhecer melhor”. Pelo menos os nossos momentos me fazem pensar isso. Pelo menos as coisas que você diz sobre mim me fazem pensar isso. A gente já conversou e já viveu tanta coisa que talvez muita gente não converse e viva em anos.

A nossa história demanda um tremendo esforço da minha parte.
Eu fico tentando ler os seus sinais, tentando antever seu comportamento para entender o que passa na sua cabeça e, especialmente, para entender como que a minha cabeça vai lidar com isso.

No começo é até divertido, mas depois começa a ficar chato. E eu me incomodo, principalmente, porque eu já passei da fase da vida de brincar de ter alguém; de namoricos passa-tempo ou de festinhas descompromissadas. Histórias passageiras colorem os dias, mas eu prefiro uma pintura emoldurada para inspirar minha vida. Eu só não sei se você precisa também – ou se eu sou essa pessoa e tudo bem eu não ser. Você não me deixa entender.

A pior parte disso tudo é que já pensei que, pior do que ter você de vez em quando, é não te ter mais.
Pensar assim me diminui e eu não quero.

As coisas andam complicadas para mim.
Toda a minha experiência nessa vida e aparente segurança sobre o que é certo caem por terra quando vejo que a mensagem é sua. Você capricha quando quer me envolver.

Mas eu, honestamente, gostaria de entender o que falta para esse rolo evoluir para um compromisso.
Eu entendo que, como disse lá em cima, pode só faltar você querer. Mas percebe quando a gente analisa o contexto o quanto você já deu sinais de querer? Percebe que estamos nessas há meses? Percebe que TODOS os nossos momentos foram bons? Que você não mede palavras para me elogiar quando estamos juntos? Que eu já demonstrei o quanto ter você me faz bem? Comprei a passagem dessa viagem juntos que você me ofereceu mas você parece ter desistido. E como eu fico?

Talvez eu não chegue em grandes conclusões. Acho, porém, que refletir sobre isso tudo já me faz bem para, pelo menos, entender meu lugar nessa história, o quanto estou me transformando coadjuvante dela e como isso é errado. Mas eu quero entender mais. Quero entender melhor você. Quero entender a sua visão sobre a gente e como projeta nossos próximos dias.

Quero entender nossa história para saber se na próxima vez que a gente se encontrar meu beijo vai ser na sua boca ou no rosto. Vê o tamanho do enrosco?

Me deixa saber: O que falta para esse rolo virar compromisso?
Ou, pelo menos, me deixa saber que papel eu tenho na sua vida para que eu possa decidir se quero ter ou não.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Você parou de me responder do nada

Acho que te assustei e ainda estou tentando entender.
As coisas pareciam bem.
A meu ver, a gente estava se conhecendo numa velocidade interessante.
As conversas eram boas – ou será que só pra mim?
Eu confiava bastante nos seus “hahaha”.
Você parecia gostar dos nossos assuntos.

A gente trocava muitas recomendações de séries.
Você comentava meus stories.
A gente mandava fotos um para o outro durante o dia.
Fotos dos pratos no restaurante PF mesmo.
E chegamos até a nos marcar em memes.
Sei lá, eu estava acreditando que alguma coisa boa estava aquecendo.
Mas aí a gente esfriou.

Você sumiu.
Passou a demorar para me responder.
Eu até te perguntei se o problema foi algo que eu tinha falado e você fez questão de dizer que não era nada disso. Acreditei mas ficou ainda mais confuso.

Não é muito fácil eu me aproximar de alguém e com você eu senti que estava conseguindo – isso em nada tem a ver com jogar uma responsabilidade em você, é só um recorte pessoal.
Coleciono fissuras na autoestima ao longo de muitos anos. O mundo anda complicado.
Nada muito diferente de muita gente por aí, mas tudo muito profundo para me impedir de me envolver com frequência.

Eu fiquei pensando porque você deu essa esfriada nas nossas conversas e os motivos podem ser diversos.
Vai ver você conheceu uma pessoa nova.
Vai ver você está sem tempo mesmo.
Vai ver você voltou para a pessoa anterior.
Vai ver você ficou de saco cheio.
Vai ver um monte de coisa mas só a gente que não se viu.

E fica muito difícil acreditar que não foi algo que fiz.
Tenho tendência derrotista e eu sei que isso não me faz bem. É que a estatística não colabora. Já faz um tempo que ouço as pessoas reclamarem de pessoas renunciando conversas.
Muito louco pensar em como pode ser rápida a passagem de alguém na nossa vida, né?
É.
Vai ver você mostrou fotos minhas para os seus amigos que não me acharam “nada demais” – já descobri que aconteceu comigo antes.

Eu gostava de quando a gente conversava.
Você parecia gostar de ter alguém se importando com o seu dia.
E minutos antes do meu acabar, só havia a do meu celular com a nossa conversa aberta.
A gente era a última e a primeira coisa que eu fazia.

Talvez seja cedo para afirmar o que pode ter acontecido e você, quando reaparece, não justifica com nada específico.

Nessa incerteza do que a gente se transformou, eu sinto saudade do que a gente parecia ser.
Mas você parou de me responder do nada.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Comprometidos em fazer dar certo 

Então ok.
Houve um acordo e decidiram que daria para ver no que vai dar.
Agora é oficial.
A conversa vai ficar lá no topo do Whatsapp.
Os planos sozinhos vão ser naturalizados juntos. Coisa boa.
Dorme aqui em casa um dia que eu durmo na sua outro.
Eventos de amigos. Aniversário de fulano sábado que vem.
Um show pra ir e um filme novo no cinema.
Netflix então a 1.000 por hora de uso – fazendo valer a pena.
Começa a marcação em vídeos de cachorros fofos. 

Isso tudo acontece e sempre vai acontecer, mas nada disso é tudo isso assim se as duas pessoas não se engajarem na mesma história. É isso o que muita gente esquece e argumenta que nem percebe. Há quem diga, por exemplo, que “sempre foi assim” quando quer justificar uma diminuição de interesse perto do que já houve um dia.

Existe uma linha muito fininha entre normalizar e mal acostumar. Em geral, a rotina faz a gente normalizar as coisas, ao passo que a gente também pode ser ver mal acostumado e com os mesmos vícios na história – e nem sempre alguém vai levantar a mão e alertar que isso está estranho, por isso a gente precisa ter em mente o valor do comprometimento em funcionar bem para os dois.
Muita gente esquece que a história com alguém é uma história de interesse e reciprocidade.
Não adianta você estar preenchendo as caixinhas de padrões com uma pessoa se você não se posiciona como alguém com vontade de fazer essa história ser realmente de verdade. Isso significa que em nada adianta, por exemplo, postar fotos juntos, fazer comentários bonitos, demonstrar para todo mundo lá fora o quanto gosta se dentro de vocês não existe uma certeza assim.

A gente precisa de comprometimento em fazer dar certo. 
Eu preciso saber que eu realmente posso contar com você ao passo que você não precisa pensar duas vezes para confiar em mim. O comprometimento em fazer dar certo está diretamente relacionado a pilares centrais em uma relação, dentre os quais: 1) confiança; 2) engajamento e 3) reciprocidade e, no assunto aqui, é sobre o engajamento.

Me conte a sua opinião quando eu te pedir – ou me contribua sem que eu fale nada.
Me fale o que você pensa ainda que você imagine que eu vou pensar diferente.
Me deixe dormir sabendo que a gente se acertou e que vou acordar bem para falar qualquer coisa com você.
Me explique as coisas que te incomodam para que eu possa refletir como fazer diferente se é para o nosso bem.

Para o nosso bem. É tudo sobre isso. O comprometimento em fazer dar certo é sobre abrir mão de protagonismo na história para permitir com que ela se fortaleça. A gente não precisa estar certo sempre, a gente não precisa transformar tudo em competição, a gente só precisa convencer a pessoa que está ao nosso lado de que estamos realmente bem-intencionados com que essa história não conheça um ponto final tão cedo. 

É por isso que se acomodar é o perigo, que pensamentos como “eu sou assim mesmo” ou a reatividade do “você quer estar sempre com razão” destroem mais do que constroem. 

Comprometidos em fazer dar certo. Se isso já é unânime entre as duas pessoas, metade da história feliz já foi conquistada. 

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Tudo bem você não querer mais

Esse assunto precisa ser pacificado.
Um dia a gente vai querer alguém.
E vamos querer tanto esse alguém que vamos falar umas coisas bonitas; se bobear até vamos prometer algumas coisas.
E aí o mundo vai acabar se alinhando e a pessoa vai querer a gente também.
Que coisa boa.
Fotos no instagram, dias de sol e sábados de séries e filmes.
Delicinha.
Status de relacionamento.
A história pode ser recente ou já acontecer há um bom tempo.
Mas aí pode ser que você não queira mais.
E  talvez nem exista um outro nome ocupando um lugar na sua mente.
Tipo, não é sobre outra pessoa. É sobre você sendo você diferente.
Não é que pintou alguém, é só que este alguém não colore mais os dias.
Que merda, se desse para escolher não seria assim, mas insistir em funcionar é um erro.
Tem horas que a máquina para.

E você vai se ver naquele lugar que sempre odiou: o lugar de quem quer falar o que a outra pessoa não quer ouvir.
Lembra como aconteceu outras vezes?
Você ouviu tudo e teve que sair fingindo costume. A casa caiu tão pesado que caiu em cima de você.
Dias ruins.
Agora você tá lá, sendo quem não quer mais pelo motivo que for.
Eventual e terrivelmente até mesmo sem motivo. Você assume o papel carrasco de interromper os planos de outra pessoa.
Desde que você não seja uma pessoa idiota com outra, tá tudo bem você não querer mais.
Todo dia tem gente querendo gente e gente não querendo mais. Você pode também.

Tira esse peso da sua cabeça se aquele rolinho recente não tem mais tanta graça.
Sei lá as coisas se descombinam por mil razões.
Harmonizar corações não é tarefa fácil.
Ou se a história de meses parece não te excitar mais – e isso não tem a ver com a pós paixão de começo de história.
Você pode ter sido a maior intensidade da sua vida no começo e depois a coisa passa a esfriar.

A verdade é uma só:

Acontece.

Acho que o problema principal disso tudo é fingir querer.
Porque é uma merda quando alguém percebe que o outro alguém está, digamos, suportando a gente.
A gente dá sinais quando não queremos mais.
Só que a gente acha que não, né?
A gente dá sim.

Olha, tudo bem você não querer mais.
Mas deixa a pessoa saber disso. Não enrola, não ganhe tempo, não cave oportunidades.
Na hora de transar você entendeu como fazer, não dá para relativizar quando a conversa é outra também.
A gente precisa se colocar no lugar das pessoas. Olha que clichê.
As verdades viram clichês porque a gente nunca para de errar em como fazer.
Tudo bem você não querer mais.
Só não use esse sentimento para justificar alguma atitude horrível sua.
Porque as histórias acabam, mas as marcas a gente leva pra sempre.
E o mundo, gente, o mundo dá tanta volta que a gente até se enrosca em algumas delas.
Toma cuidado.
Ok não querer.
Péssimo não esclarecer.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

E a risadinha quando vejo que a mensagem é sua?

Quando estou em casa vendo um filme.
Um dia qualquer.
Durante a semana depois do trabalho, por exemplo.
Na primeira hora da manhã pode ser também.
Um filme rapidinho antes de acabar o fim de semana.
E aí o celular acende no escuro.
Pausa na tv.
É mais uma mensagem sua sobre qualquer assunto.
O assunto, aliás, é o que menos importa.

Na volta pra casa.
Na viagem do meu fone de ouvido no ônibus ou metrô.
Pego o celular para trocar de música.
E aí desce uma notificação com o seu nome.
E aí espero chegar em casa para te responder com calma.

Ou até mesmo no meio do dia.
Um dia de rotina. Nada de novo.
Celular perto do computador no trabalho, em geral ali com carregador ligado.
E rouba a minha atenção uma notificação na tela.
Uma visita sua com uma mensagem.

E a risadinha quando vejo que a mensagem é sua?
E como que fica minha cara?
E eu pensando que ninguém ao meu redor percebe?
Porque já aconteceu de eu responder, guardar o celular, me ver rindo sozinho e ver estranhos olhando a minha cara no metrô.

Hehe.
Que vergonha.
Ninguém entende nada.
Nem eu também, porque eu nem consigo controlar.

Se eu começar a falar das coisas que a gente fala eu passaria horas aqui.
Mas nem é esse o ponto agora.
É que eu me peguei percebendo a risadinha que dou toda vez que vejo que a mensagem é sua.
Muitas vezes a tal mensagem é só um oi.
Ou um meme.
Ou uma figurinha engraçada que agora tá de monte no Whatsapp.
Mas eu gosto de ver que é você mandando alguma coisa.
Me faz bem saber que, em meio a tantas pessoas que você poderia mandar, eu estou ali no topo da sua caixa de mensagem.
E não tô nem aí se também manda para outras pessoas – de repente a mesma coisa que manda pra mim, inclusive.
O meu sentimento diz mais sobre mim do que você.
Eu gosto dessa minha versão.
Gosto de como fico quando vejo que a mensagem é pra mim.
Mas eu seria hipócrita em não assumir que é melhor ainda saber que é sua.
Se vou receber mais vezes é outra história.
Tô preservando o que acontece hoje para valorizar o que pode acontecer amanhã.

Eu acho que todo mundo poderia se permitir sentir mais essas coisas que a gente finge que não percebe, sabe?
Tá tudo bem eu ficar bobo com a sua mensagem e amanhã a gente nem se falar direito.
É triste mas acontece.
Eu já vivi isso antes.
Já fui quem mandava a mensagem e quem recebe – tipo agora de novo.
O que mais importa, no fundo, é como a gente se sente no instante em que as coisas acontecem.
E hoje eu me sinto especial no instante que eu vejo em que a mensagem é sua.
Eu paro tudo para ver.
Isso que eu chamo de chamar a atenção.
Eu dou até uma risadinha.
🙂

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Não acredite no amor romântico

Teve um dia que alguém começou a contar histórias sobre um casal enlouquecidamente apaixonado.
Até aí tudo bem. Tem dias assim.
O problema nasceu quando essas histórias começaram a ser tão repetidas que passaram a se tornar ideal do que é ter uma história com alguém.
As novelas, os filmes, refrões, os livros e, mais recentemente, os textos de internet começaram a se apoiar na ideia de felicidade com alguém por meio de um amor inexplicável, recheado de demonstrações incríveis, pétalas de rosas e juras infinitas.

“Juras de amor”. Puts, quem inventou isso?

A não ser que você seja algum tipo de entidade com autoridade no assunto, a gente não pode afirmar o que é o amor, mas a gente consegue viver experiências que nos mostram como ele não é – e ponto de partida é simples: se te faz mal, não é amor.

Eu obviamente não sou contra o amor, mas eu me preocupo com o impacto da ideia de um amor perfeito e inalcançável na vida das pessoas. É que pensa assim, uma vez que a história com alguém não for parecida como a novela das nove mostra, a sua cabeça vai começar a pensar que a sua história não é tudo isso. E aí você vai começar a se prender mais nas falhas do que nos feitos e os defeitos vão pesar mais que as qualidades.

Isso quer dizer que tudo bem se, por exemplo, a pessoa não souber falar uma palavra bonita ou não fazer alguma demonstração apaixonada de que “vocês são para sempre”, na real, dane-se isso, o que importa e sempre vai importar é se a pessoa se importa com você, se te faz bem e se você sente que ela faz bem a você também.

Amor romântico é uma muleta criada por sei lá quem pra gente se apoiar, mas que, como toda muleta, pode quebrar e te machucar.

O amor tem dias ruins.
Uma história com alguém pode ter um monte de capítulo péssimo e ainda assim ser uma história linda. Você pode conhecer uma pessoa com vários defeitos, mas que ainda assim pode ser a melhor pessoa que já conheceu na vida. A vida real é isso.

O amor romântico não existe porque na rotina de segunda a segunda o buraco é bem mais embaixo do que no refrão da música que fala do amor incrível.
A gente precisa sempre ter clareza de que não é só de notícia boa que a vida é feita, mas que isso não significa que a vida seja ruim.

Estou conseguindo me explicar? Você pode discordar, mas eu gostaria que refletisse um pouco sobre isso comigo.

Andei lendo também alguns textos do tipo: “namore alguém que”.
Eu fico pensando: como alguém pode abrir o computador e escrever como é a pessoa que eu devo namorar?

Gente. Sério. Como assim?
Tá vendo o papo do amor romântico sendo projetado para todos nós? Estímulos como os de textos que disse acima, projetam na nossa cabeça a ideia do que é alguém ideal pra gente.

Namore quem você quer e também te quer.
Ou nem namore.
E tudo bem.

Discordar da ideia do amor romântico não faz de ninguém como alguém insensível. Uma coisa em nada tem a ver com a outra. O ponto principal aqui é não alimentar esse papo de perfeição, declarações românticas, frases lindas, flores infinitas, tatuagens juntos, fotos iguais nos perfis das redes sociais e por aí vai. É perigoso acreditar que são esses os índices que demonstram que uma pessoa gosta da gente.

O amor é muito do caralho. Viver uma história com alguém que te faz bem é uma das coisas mais gostosas desse mundo, mas isso não pode ser de um tamanho maior do que é. Viver com alguém é estar bem com um compromisso de ser a sua melhor versão para outra pessoa; é estar bem em aceitar desculpas e admitir que também erra e erra muito; é harmonizar os prós e contras e acreditar que sempre dá para melhorar. Você pode até discordar, mas no mínimo faz sentido.

O amor pode ser muita coisa, mas só não é esse céu azul infinito limpinho e cheio de passarinhos branquinhos cantando, sei lá, Djavan. Acho especial a gente se inspirar com esses exemplos perfeitos, mas acho completamente responsável a gente entender que dias assim não são o padrão. Setar isso na nossa cabeça é importante pra gente não se machucar e, principalmente, não deixar que nos machuquem.

Tá tudo bem amar alguém, só toma cuidado para não jogar uma responsabilidade nesse amor a ponto de estragar tudo.

Não acredite no amor romântico.
O que existe é uma história com alguém em que entre lápis quebrados e folhas rasgadas, a gente consegue ter sabedoria e sensibilidade para virar a página e continuar escrevendo.

E, é importante frisar, neste exato momento pode existir alguém tentando escrever uma história com você que você não deixa.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

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