Author: Márcio Rodrigues (page 1 of 61)

A gente continua se conhecendo

Já faz um tempo que deixamos de ser sós para sermos nós.
E, nesse tempo todo até aqui, apesar de mergulhos tão profundos um no outro, a gente continua se conhecendo um pouco mais a cada dia. A cada beijo de  “como foi o seu dia?” a gente se descobre um pouco mais.

Quem vê a gente de fora, porém, não sabe das coisas que a gente passou e passa.
Eu no lugar de todos também não imaginaria.
Dentro de um estereótipo, a gente carrega a imagem de um casal que deu certo. Nosso momento de vida e nossa posição profissional, contudo, não passam de adereços que ocultam as fissuras que uma vida normal que vivemos a cada dia que riscamos no calendário.
A gente não é perfeito como os olhos do mundo nos veem.
Eu, por exemplo, não sabia que ia encontrar em você força capaz de me equilibrar antes que eu pudesse cair. Hoje eu nem consigo me imaginar direito mais sem a sua voz calma para lembrar que tudo vai acabar bem. Você estende a mão no mar quando eu pareço me afogar.

No mesmo sentido, eu imagino que você saiba do prazer que sinto em ser sua companhia a cada dia.
Tem dias que nem eu mesmo me aguento, mas eu tento ao máximo separar as coisas para reservar energias, chegar em casa, preparar algo pra gente comer e atualizar as amenidades do dia antes de um play na Netflix. Tem dias que nem eu mesmo me aguento mas todos eles você está lá me aguentando.

A gente continua se conhecendo porque a gente se encontra nas exclamações que colocamos na nossa história. Seja em uma viagem organizada, uma bebida em uma noite de frio ou em um passeio com os cachorros, a gente se encontra na vivência do episódio recente combinado com a próxima página do livro que escrevemos juntos. A gente continua se conhecendo porque eu revejo nossas fotos e viajo de novo para aqueles momentos nossos, para o seu cheiro e para as coisas que você divide comigo. Que sorte a minha você estar por aqui comigo.

Sinto que ainda carrego alguns dos mesmos sonhos de antes de sermos esse tudo o que somos. O que mudou é que eu quero continuar com a sua mão ao lado da minha para me ajudar a enxergar a direção; não por medo de errar, mas pela certeza de que ter você aqui faz o caminho parecer mais curto. Você talvez nem saiba exata e profundamente o significado que a sua vida tem na minha e, talvez, eu jamais saberei explicar do jeito que eu gostaria mas, em momentos como esse, aqui enquanto reflito sobre nosso tempo juntos, eu aproveito para agradecer.

Já faz um tempo que deixamos de ser sós para sermos nós.
E cada um desses dias até aqui passaram que nem me dei conta de como mudei.
Tem gente que tem medo de alguém entrar na vida e acabar mudando a si, mas no meu caso cultivei uma melhora que eu nem tinha noção de acontecer. Você apareceu para me ensinar a amar as coisas em mim que antes eu só gostava. Você apareceu feito regador matando saudade das plantinhas em tardes de sol.

A gente continua se conhecendo.
Eu salvei numa pastinha da minha memória a primeira e a última vez que te olhei.
E toda vez que a gente se olha eu coloco uma foto nova nessa pasta.
É que no trânsito lento, na reunião interminável, no stress dos problemas e em todos os lugares que eu posso, eu acesso a lembrança que desenhamos juntos todos os dias, da hora que acordamos, até a que vamos dormir.
Que bom a gente continua.
Quanto coisa ainda quero saber.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroaparadois@gmail.com

É melhor a gente ficar longe

É melhor.
É melhor a gente se distanciar um pouco.
Colocar as coisas e, principalmente, a cabeça no lugar.
Essa proximidade não está me fazendo bem.
Já cheguei a pensar que fazia, mas pensei errado.
Por isso hoje eu acho que é melhor a gente ficar longe.

Eu não tenho exatamente uma coisa contra a você, mas é que do jeito que está também não consigo enxergar nada que seja exatamente a favor. E, pelo menos longe, a gente pode se machucar menos.

É que você sempre diz que não faz por mal e eu sempre digo o quanto me dói. A gente se enrosca em impasses. É uma teoria tentando convencer a outra. Uma batalha que não justifica tanto esforço.

Eu não sei a melhor maneira pra gente funcionar, mas eu sei que a melhor solução agora é a gente se afastar.

Nossa história está confusa demais. Não está muito claro quais os limites que temos que respeitar e quais podemos ultrapassar. Eu não consigo eleger quem é responsável por isso entre nós, eu só consigo dizer que não aguento mais.

Eu não aguento mais.
Eu não aguento mais toda a ansiedade que a nossa história tem me causado. Estou com problemas. Durmo e acordo esperando uma mensagem sua e, quando não pior, uma resposta sua de algo que falei dias atrás. Eu estou mal.

Quando estamos juntos somos pessoas completamente diferentes de quando estamos separados. Essa instabilidade tem tirado o meu ar e a minha autoestima está prejudicada. Eu não me cuido mais.

E talvez eu esteja fazendo algum mal para você também. Talvez a minha persistência em entender melhor o que a gente têm esteja te sufocando também. Acho que é oficial que, entre nós, não existe uma má intenção, mas eu queria esclarecer também que este fato não isenta os problemas que podemos causar uma na vida do outro.

É melhor a gente ficar longe.
Melhor a gente administrar nossas vida sem a presença de outra.
Eu não sei dizer por quanto tempo, eu não sei prever nada das coisas. A única coisa que sei é que a gente perto assim não está fazendo bem pra mim. As nossas interrogações tem pesado demais.

É meio que isso, sabe?
Não há porque teorizar muito. Eu só acho que é melhor a gente ficar longe.
Não estou conseguindo ser quem eu gosto e, quando tento, você não consegue gostar – por motivos seus.
Então eu prefiro frear do que acelerar demais e a gente bater.

Vai ficar tudo bem.
Mas fica tudo bem mais rápido se, agora, a gente ficar longe.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Eu queria te ver de novo

Gostei de ontem.
Mas como eu posso te falar que eu quero te ver de novo?
Não é só falar e simples assim. Quem pensa dessa maneira muito provavelmente nunca se viu nessa minha situação.
As pessoas são complicadas. Não dá para esperar que elas entendam nossas intenções como a gente gostaria.

Eu gostei de tudo o que a gente viveu mesmo que tudo nem tenha sido tanto assim para você.

Eu queria te ver de novo mas eu não queria te assustar.
Com outra pessoa antes de te conhecer, eu abri o jogo e ela sumiu. Eu não sei precisar o que ela entendeu, mas eu só consigo imaginar que ela imaginou que, entre meus planos, fazer mal a ela era o principal. É que essa pessoa só parou de me responder. A gente chegou a se falar no mesmo dia depois que cheguei em casa, mas ela não correspondeu mais as minhas interações. E eu me senti invadindo a vida dela.

O problema de uma relação sem transparência é que a gente passa a questionar coisas na gente que não cabem questionamento. Ou seja, o problema dessa pessoa não ter sido clara comigo ao invés de me ignorar e fugir, é que eu começo a duvidar de que estou sendo delicado e verdadeiro com as pessoas como acredito ser.

A gente nunca sabe direito da profundidade das sequelas que deixamos na vida das pessoas que não estão mais na nossa vida.

E é por outros exemplos que vivi como esse que te citei, que sinto meu sentimento por você abreviado.
Eu queria te ver de novo.
Antes de saber se eu vou gostar de você mesmo ou se você vai gostar de mim, eu só queria te ver de novo. Marcar outra coisa ou marcar a mesma outra vez.
A minha cabeça não para de me perguntar o que você acharia da ideia, o que você pensaria se eu te convidasse, afinal, eu devo considerar as outras pessoas que você conheceu antes de mim e a amostra não é boa.

Somos uma geração inteira de pessoas pisoteando o coração de outras onde fica praticamente impossível confiar que uma nova pessoa não vai fazer a mesma coisa.

E aí que eu me encontro.
Como que eu posso te provar que eu só queria te encontrar de novo pra gente ver até onde a gente daria? Mesmo que não desse em nada? Meu medo faz sentido, bem como a sua preguiça é legítima.

Eu queria te ver de novo.
Queria sentir aquela coisa boa que senti depois de ontem. Queria ter uma nova oportunidade para tentar te fazer sentir de um jeito positivamente inédito, nem que fosse sei lá, tomando um suco. Queria confirmar a impressão que tive de que você gostou de ontem tanto quanto eu. Queria voltar para aquele sentimento que eu tive momentos antes de te encontrar – você não sabe o quanto falei sozinho de nervosismo. Queria de novo o gosto que senti quando voltei pra casa pensando no que aconteceu e como aconteceu. Aquele instante foi meu e eu salvei numa pasta de fácil acesso na minha vida. No fundo, no fundo mesmo, real oficial, eu queria ter de novo aquele nosso beijo só para eu poder te beijar de um jeito diferente de ontem. Eu sei que, caso a gente se encontrasse, não necessariamente você ia querer de novo. Você poderia não se sentir a mesma coisa e a verdade é que nem eu também. .

Tem histórias que simplesmente não se encaixam, mas antes de ter certeza, eu queria te deixar com essa dúvida sobre a gente.

Eu queria te ver de novo.

Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Você pode conversar comigo?

Alguns sinais a gente não consegue perceber.
Depois que inventaram o termo “vida corrida” a gente passou a se esconder de muita coisa.
Mas o pior é que a vida fica corrida mesmo.
Quanto mais o tempo passa, menos tempo a gente tem – ou a nossa percepção de tempo que muda, né? Porque o relógio não começa a andar mais rápido, a gente é que parece desaprender a aproveitar o tempo. Que merda.

Bem, nesse cenário, a gente começa a postergar coisas.
Estudar coisas novas nem pensar, cuidar da saúde quando der e por aí vai.
O problema começa quando a gente começa a postergar pessoas.
De novo, chega uma fase da vida, em geral depois que você que teve o privilégio de cursar uma faculdade se forma, que o tempo parece ficar escasso mesmo.

O ponto é aqui é a primeira frase deste texto: alguns sinais a gente não consegue perceber – e aí, sem a menor maldade existente, a gente passa a esquecer de pessoas.
Mergulhados nas prioridades da nossa vida, a gente esquece de dar atenção a outras vidas que também importam pra gente. São nesses momentos que a gente vai se distanciando aos poucos.

A gente fica tão desligado que não percebe coisas que não precisam ser ditas para serem entendidas. Tem a ver sim com a organização de prioridade da nossa vida e o tempo que dedicamos a elas. A gente se enrola e esquecemos de dedicar energia a coisas que já dedicamos um dia, entre elas, por exemplo, nossos amigos.

Dificilmente alguém vai te dizer: “Você pode conversar comigo?” Esse, por exemplo, é o tipo de coisa que nem sempre precisa ser dita para ser compreendida. Dá para identificar alguma estranheza de comportamento antecipadamente e tentar reaver o tempo que passou. Dá, mas só se a gente quiser.

Vai ser muito difícil alguém verbalizar que precisa de ajuda. No mundo de aparências que a gente vive, demonstrar fraqueza é se expor – e ninguém gosta de expor seu lado mais frágil. Falar sobre problemas demanda muito de quem fala, mas mais ainda de quem ouve. E é esse ponto que eu quero destacar:

Não é sempre que pessoas vão dizer pra gente que precisam da nossa ajuda.
Não é sempre que pessoas vão dizer pra gente que precisam da nossa ajuda.
Não é sempre que pessoas vão dizer pra gente que precisam da nossa ajuda.

Não é sempre. E ninguém tem exatamente uma culpa. Bem complicada, inclusive, essa lógica de ter que apontar um responsável, afinal, nenhuma relação é uma competição. O esforço é necessário de todas as partes envolvidas em uma relação. É preciso sublinhar este ponto para que justiça seja feita.
Aquela pessoa que não fala o que está passando tem seus motivos, muitas vezes a legítima preocupação em não atrapalhar a vida das pessoas que gosta com problemas pessoais. Por outro lado, aquela pessoa que não percebe e não ouve, se enrola na sua própria vida e a organização do tempo que acaba deixando as coisas passarem despercebidas.

Tá tudo bem. A gente não vai acertar sempre.
Mas será que dá pra gente tentar perceber mais as coisas? Será que dá, por exemplo, pra gente puxar assunto com as pessoas que gostamos uma vez ou outra? Dar uma sondada para saber como anda a vida? Mesmo que um encontro não seja possível de marcar? Será que dá? Será que não vale pensar um pouquinho nisso? E isso tem a ver com amigos, família ou qualquer outra pessoa próxima da gente.

Tem pessoas perto da gente com problemas tão pesados que a nossa ajuda poderia aliviar. A nossa companhia, a nossa conversa, o nosso tempo.

A notícia boa é que não é necessário aprender nada novo, tampouco se considerar incapaz. O fundamental é apenas uma coisa: demonstrar interesse.

Interesse sobre a vida, sobre a saúde, sobre a família. E mostrar, sobretudo, que estamos lá sempre que alguma pessoa precisar de algo que possamos ajudar.

A gente pode até não curar a dor a de alguém, mas a gente pode ajudar a encontrar um atalho.

#setembroamarelo.

Um beijo,
Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Pega leve com você

Ei, calma um pouco.
Tenta prestar atenção um pouco mais na sua vida e no tamanho da expectativa que você tem colocado nas coisas. Calma um pouco. Pensa.
É que parece que você quer a vida a 1.000km por hora sempre quando, muitas vezes, ela é 20km. E tudo bem.

Qual foi o momento em que “estar tudo bem” começou a ser algo ruim?
A gente não aceita mais o “tudo bem” das coisas.
A gente quer o ótimo sempre. O incrível! A meta é o inexplicável!
Só que a gente não percebe o tamanho do buraco que cavamos ao depositar uma responsabilidade deste tamanho na nossa vida. Olha que merda.

A verdade é que a vida precisa sim de freio de mão.
Você precisa se acalmar. A gente precisa se acalmar.

Não é que o pavio está curto, ele simplesmente não existe mais para algumas coisas.
E fica muito difícil não atribuir isso ao tamanho da expectativa que a gente tem colocado em tudo.
A gente espera, por exemplo, que vamos acordar para ir trabalhar com a mesma alegria que sentimos quando a pessoa que gostamos revela gostar da gente também. A vida não é assim. Toda semana a gente sente uma raiva desgraçada do metrô lotado como se alguma semana ele fosse mudar – meio que a gente escolhe sentir essa raiva. Daí a gente vai trabalhar de carro e reclama do trânsito. Pronto: voltamos para o mesmo lugar. A gente começa uma dieta, entra na academia e tal, show de bola, mas não resistimos a um doce de sobremesa, comemos e ficamos decepcionados depois. O que é isso?  Tem gente, inclusive, que tem enfrentado problemas de aceitação ao fotografar um momento da VIDA, POSTAR num APP DE CELULAR e ter POUCAS PESSOAS CLICANDO NA FOTO PARA DEMONSTRAR QUE GOSTOU DAQUELE MOMENTO, daí a pessoa passa a emoldurar a vida em uma estratégia de fotos para que QUANDO AS PESSOAS ABRIREM SEUS APPS, VEJAM SUA FOTO E CLIQUEM NA TELA DEMONSTRANDO QUE GOSTOU DAQUELE MOMENTO TAMBÉM. As coisas andam estranhas.

Longe de mim querer entrar no mérito das superficialidades, afinal, cada pessoa tem a sua – inclusive eu.
O meu apelo aqui é pra gente pegar mais leve com nós mesmos.
Tem ficado cada vez mais difícil viver esse troço de felicidade pelo significado que a gente tem dado a ela. É estranho até responder o que é ser feliz pra gente, porque a gente pode cair na armadilha de dizer coisas que não seguimos, sabe? É óbvio que a gente falaria que ser feliz é aproveitar as pequenas coisas ou algo do tipo, mas será que a gente tem conseguido aproveitar as pequenas coisas mesmo? Eu não sei.

A gente quer encontrar paixão em tudo.
Tem uma parte nobre nisso que é uma busca pelo retorno do sentimento bom que a gente deposita. Mas isso carrega também um perigo enorme. Não é bem por aí.
Sabe o frio na barriga do primeiro amor?
Aquele sentimento escandaloso que atravessa nosso coração e faz a gente estremecer de ouvir o nome da pessoa? Veja, parece que a gente quer encontrar esse sentimento em basicamente tudo na nossa vida. Quando a gente acorda e o cabelo não está bom, PLAU, já um motivo do dia ser uma bosta. Se alguém demora para responder uma mensagem nossa então, deusmelivre. Se “””””não tem o que vestir hoje””””””””, se o time perde, se o ingresso é caro, se um monte de coisa. O que está acontecendo?

Eu quero te pedir para pegar leve com você.
Não vou me atrever a dizer como a vida deve ser vivida porque ninguém tem essa resposta, mas eu gostaria de pedir para que você tire um pouco o peso das suas próprias costas; quero pedir para que releve um pouco mais você de si mesm@. A gente tem invertido os valores da vida e as coisas andam confusas demais; os gatilhos para ansiedade são cada vez menores e acaba sendo natural a gente ter dias cada vez menos legais.

Toma cuidado com você. Vai ver a sua felicidade tem sido algo nem você mesmo conseguirá alcançar. Já parou para pensar nisso?

De novo e por favor: pega leve com você.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

Eternizando os momentos bons

Como é difícil encontrar uma pessoa nesse mundo na qual as ideias, ainda que diferentes, combinam com as nossas, né? Mais que isso, uma pessoa que fala o que a gente precisa ouvir, não o que a gente gostaria. Como é difícil encontrar uma pessoa que seja gratuitamente gentil com todas as outras; uma pessoa com tom de voz ameno e reconfortante. Como é difícil.

Você, meu amigo, era essa pessoa e talvez a pessoa mais pura e do bem que o meu coração teve o privilégio de encontrar. Mesmo me esforçando, eu não consigo identificar uma ocasião sequer em que você aumentou seu tom de voz, que você perdeu o controle, que desrespeitou alguém ou qualquer coisa do tipo. Eu tenho muita sorte de ser fã dos meus amigos como sou de você. Não conheço uma pessoa que te conheça e não tenha uma história boa ao seu lado. Olha o tamanho do efeito que você causou nesse mundo.

Você, porém, era meio enrolado com horários e roteiros do seu dia – mas até isso a gente achava fofo e não conseguia sentir exatamente raiva – porque você não fazia por mal. A palavra maldade nunca fez parte da sua vida. Quando você falava “vai se foder” era para se expressar por um refrão que você amava e me mandava para ouvir durante o dia. “Não consigo parar de ouvir! A gente poderia fazer umas músicas nessa onda, né?”. É.

Um “”””””defeito”””””” seu é minha maior inspiração: amar demais. Amar incondicionalmente. Provocar o coração a bater mais rápido e ser fiel às suas batidas. Amar tanto que não consegue enxergar os fatos. E, tirando toda a parte complicada em tanto amar, sempre ficava a minha admiração por ser alguém que gostava tanto de amar outro alguém.

Por essas e por outras que eu, na condição de amigo-filho-único-e-mais-velho, me via no papel de puxar suas orelhas. Você sempre me ouvia atentamente, argumentava e entendia. Sem me dar nenhuma aula, você me ensinou que me comunicar violentamente não me faria bem nenhum.

Nossa última conversa longa e franca foi para falar sobre mim. A gente trabalhava perto e eu fui de táxi te encontrar para almoçarmos juntos. Por ironia do destino, hoje eu trabalho ainda mais perto do seu trabalho. Fomos almoçar em um lugar bonito, à luz do sol, com saladas refrescantes e chá gostoso. “Aqui é único lugar com comida vegan que eu posso ir, então sempre venho” se justificava. Com baixa autoestima, fui te contar que andava triste porque “ser um cara legal” não estava me adiantando muito no que diz respeito a conhecer alguém especial. A gente se encontrava para falar sobre amor. Eu podia ter essas conversas com você, apesar do mundo esperar o contrário de homens. É que esse mesmo mundo ensinou a nós, homens, que ser sensível não é legal. A gente cresceu nos anos 90 com a obrigação de sermos durões, fortes e viris. A gente cresceu, por exemplo, com o pensamento de que o bacana era ostentar as garotas com quem saíamos como se fossem troféus. Só que a gente ignorou essas obrigações todas e conseguimos ser nós mesmos. A gente se encontrava para falar sobre amor. E, naquela ocasião em especial, você me falou o seguinte: “Mano, se você sabe que você é um cara legal, mas não se considera sei lá um cara atraente, porque você não foca primeiro em ser um cara legal? Tipo, porque você não coloca sua fortaleza a frente da sua fraqueza?” Eu me tornei absolutamente outra pessoa desde dia em diante. Você era inacreditável, meu amigo.

A gente se falava praticamente todos os dias, lembra?
Lembra das fotos de bulldog que a gente trocava? Que você chama o Teodoro de salame? E dos memes que a gente aplicava no grupo do Dina no Whatsapp e os caras não entendiam? É que só você e eu trabalhávamos num computador o dia todo, diferente dos outros dois. A gente ria junto do Peras ser um dedão de pastel digitando. A gente ria junto dos emojis diferentes que o Eric manda. O Peras me chama de “Cici”, o Eric de “Sinho” e você de “Zin” – sério, vocês são retardados. A gente se falava quase todos os dias e eu sempre chegava com ideias de posts para os canais da banda. “Vamos fazer um post assim e assado?” Dava meia hora e você aparecia com o post: “Te mandei 3 versões e vê qual você gosta e manda bala, beatcho”. Eu sempre te respondia “VSF AMEI TODAS E AGORA” e você ria. Nós fomos uma dupla e tanto, meu amigo.  Você na esquerda, eu na direita. Você Fender, eu Gibson. Você das imagens eu das palavras. Você vegan e eu vegetariano. Você destro e eu canhoto. Você lindo e eu legal (mas vsf você conseguia ser lindo e legal). Você era “nós somos” e eu “tudo o que temos”.

Nessa foto acima, em um fim de semana de show do Dinamite Club no Rio de Janeiro, a gente foi na festa Crush dos nossos amigos do Phone Trio e cantamos refrões que amamos – eu amo essa foto. Foi um dos dias mais legais de todos. Olha o que você ajudava a fazer: a gente foi fazer um show, mas alguns amigos nossos de São Paulo foram ao RJ só para passar um fim de semana com a gente também. Você ajudava a construir motivos para as pessoas se reunirem.

Você e eu filhos únicos sempre fomos irmãos.

Esse dia acima foi um dos melhores da nossa vida. Você lembra, né? Claro que lembra porque você achou a gráfica pra gente imprimir o banner do palco e eu fui buscar na hora do meu almoço – aliás não tinha uma mais perto, né?  Minha mãe foi a esse show, sua mãe também. Elas se conheceram. Nós dois, ambos filhos únicos, tocamos para as nossas mães. Isso foi mágico.
A gente correu tanto para organizar o que foi o show de lançamento do nosso disco novo. E tudo deu certo.
Que sorte que a Gabi (@gabrielaklein_) conseguiu registrar esse momento! E eu gostei tanto dessa foto que ela revelou e, carinhosamente, me deu em um quadro no meu aniversário. E eu dei para você depois que começou a se tratar. Essa foto explica muito de como eu me sentia com você. Um irmão mais velho, sempre checando se estava tudo bem, sempre querendo ficar pertinho e sempre ao seu lado nos palcos ou fora dele. A gente pulou muito pelos palcos desse Brasil. Nossa banda está longe de ser a melhor de todas, mas a gente sempre foi uma banda que se divertiu como nenhuma outra a cada palco que a gente subia. Foi como o Peras escreveu em “Puro”: “Quantas vezes eu me perguntei o que é que estava eu fazendo ali, só pra tocar pra meia-dúzia, só eu sei no que me envolvi.”

A gente nunca se importou com o tamanho do lugar e nem em quantas pessoas iam nos assistir, né? Sempre fizemos um show igual. Agitado, energético e, sobretudo, com muita, mas muita energia positiva para passar e tentar melhorar um pouco o dia de alguém que nos assistiria. No palco, você sempre foi meu porto seguro. Enquanto o Peras estava lá brilhando nos vocais e baixo ao mesmo tempo, o Eric sendo o melhor guitarrista baterista que a gente conhecia, a gente se olhava nas músicas e quase como um código pulávamos ao mesmo tempo. A gente se olhava e piscava um para o outro para garantir que o som tava bom e, se não estivesse, a gente se preocupava um com o outro. Você adorava os começos de show porque rolava um aquecimento enquanto o Peras cumprimentava o público, e aí você dava seus pulos e aqueles socos no ar que eu nunca soube fazer igual. Mano, você era demais tocando e eu sempre me sentia na melhor banda do mundo quando a gente estava fazendo um show. Ninguém poderia reclamar de falta de presença, de falta de entrega, de falta de amor a cada acorde. Meu amigo, nossa banda sempre fez um bem danado a nós e, com o tempo, especialmente nos últimos tempos, começou a fazer um bem incrível a outras pessoas.

Esta foto é muito emblemática.
Você tinha melhorado bastante no seu tratamento. A gente estava em plena tour com o Neck Deep pelo Brasil e você conseguiu participar do fim do show no Rio de Janeiro e do show todo em São Paulo (foto). Neste dia, eu usei a camiseta da minha banda preferida: Real Friends. E eles tem um bordão que eu amo: “Wow, what a great day”. Achei que combinava com a ocasião toda. Antes de tocarmos “Você é Maior”, você falou algumas palavras para aquele lugar lotado e, além de mim e os outros meninos da banda, pude ver lá de cima do palco, ao seu lado, muita gente emocionada com suas palavras e lições sobre otimismo e pensamento positivo. Cara, você era muito foda. Então, durante a “Você é Maior” eu me aproximei de você e, como essa foto registra, dividi o microfone no trecho: “Vai ter pressão, decepção, mas você é maior” – porque eu nunca imaginaria que essa letra que escrevi seria uma oração para você. E aqui, com a visão turva de tanto chorar escrevendo isso tudo (desculpa falar tanto mas você me conhece), eu fico parado olhando essa nossa foto e querendo voltar para este dia com você.

Hoje eu queria ouvir suas guitarras de novo. Queria você me chamando no Whatsapp para perguntar como eu estava, queria você me chamando assim “ow zin, se liga nesse som”. Queria você falando que tudo vai ficar bem e que era para eu ter paciência. Queria você perto, meu amigo.

Hoje você foi para um lugar diferente do nosso. Logo o mais enrolado de nós, foi o primeiro a ir. Por favor, checa se as tomadas são 110w para eu poder levar nossos amps?

Esses dias tem sido muito emocionantes. Muita gente escreveu coisas lindas sobre você e eu li tudo o que pude. As pessoas gostam da nossa banda, mano! As pessoas dizem que as músicas que fizemos melhoram a vida delas. Você tem ideia? Eu não sabia disso assim. As pessoas amam nossos shows! A tour com o The Story So Far e o Neck Deep fez muita gente se aproximar da gente. Como li por aí, você gostava tanto de pular que deu o pulo mais alto de todos. Eu sei que aí de cima você vai continuar pertinho da gente. Toda vez eu eu olhar para o céu eu vou encontrar um pulinho seu ou o começo daquela risada engraçada.

Obrigado por me ensinar tanto e até os seus minutos finais neste plano seguiu me ensinando. Você foi cura para muito dos meus dias. Você tem me feito pensar em muita coisa sobre meu jeito de levar minha vida. Eu reclamo demais de muita coisa pequena – a gente cai nessas, né? A rotina, o trânsito, o cansaço, o dinheiro que não sobra, o cabelo que não acorda bom, a série que termina, o show que é caro e por aí vai. E, você, nos últimos tempos, queria sei lá poder beber água… A gente faz questão de reclamar de tudo mas a gente nem percebe tanta reclamação. Você me ensinou que, mais do que isso estar errado, eu posso mudar isso para a minha vida e para as pessoas que amo. Eu te prometo honrar seu legado por aqui e tentar ser uma pessoa boa para outras assim como você era para todas. Vou levar para sempre comigo cada um dos abraços que a gente deu e dos soquinhos no palco antes de começarmos os shows. Eu vou cuidar do Peras e do Eric por aqui, tá? E entre eles vem todas as pessoas que sempre estavam com a gente. Vou ficar mais perto dos anjos que te cercaram durante toda essa fase. Obrigado por ser meu melhor amigo, meu parceiro, meu irmão e até o meu pai. Obrigado pela companhia, seja nos palcos, ensaios ou nos almoços corridos no meio do expediente. Você plantou tanta coisa boa neste mundo que cada pessoa que teve o privilégio de tocar em você carrega uma sementinha de amor puro e verdadeiro para colher em suas jornadas.

Você é o melhor, cara.

Como é difícil encontrar uma pessoa nesse mundo na qual as ideias, ainda que diferentes, combinam com as nossas, né? Ainda bem que te encontrei.

A você que leu tudo isso aqui, por favor, conte aos seus amigos o quantos os ama. Tente ficar perto deles. Cuide das pessoas que te fazem bem. Reveja sua prioridades e seus esforços.
A vida sempre vai estar correria mas a gente sempre pode dar um jeito de caminhar.

Eu te amo muito, Lele. E que bom que pude te falar isso muitas vezes.
Você é o maior. Você significa muito e nós sempre seremos tudo o que temos.

Com o maior amor que meu coração pode ter,
Márcio Rodrigues.
(ou “zin” para você).

ps: pensei em um post para o instagram do Dina, vou te mandar por e-mail.

 

O que os seus pés gelados me ensinam sobre a vida

Meia noite e trinta e três.
A gente resolve dormir.

“Vou ficar de lado, tá?”
“Tá, vou ficar na conchinha. Depois a gente reveza, hein?
“Tá”.

E aí vem você e esse seu pé gelado.
Gelado que chega a doer. Meu corpo até treme.
Eu poderia reclamar. Eu poderia te criticar.
Eu poderia sugerir colocar uma meia. Sugerir que se afastasse de mim.
Poderia protestar em tom de brincadeira.
Mas eu só os sinto e foco em te aquecer.
Você, antecipadamente, me adverte:

“Ai meu deus, meu pé tá muito gelado”
E eu: “tudo bem”.

Acho que dá pra gente aprender muita coisa na lógica dos pés gelados ao dormir.
Pensa comigo: é uma situação adversa e que não traz nenhum tipo de conforto.
É um confronto ao meu corpo, ou seja, algo que eu gostaria de rechaçar, me afastar.
E eu poderia fazer isso recorrentemente.
Como se seus pés gelados fossem um desejo seu.

Mas, entre tantos problemas que a vida já tem, eu não vou criar mais um ao reclamar dos seus pés gelados.
Eu escolho te aquecer. Fazer alguma coisa para isso.
Escolho dimensionar o tamanho do problema e não me apegar a ele.

Será que a gente não perde muito tempo reclamando dos problemas da vida ao invés de tomar alguma iniciativa para tentar resolvê-los? Será que não estamos transformando pés gelados em dias tristes? Será que entre as escolhas da vida a gente precisa mesmo priorizar as reclamações? Será que eu faço errado quando escolho colocar meus pés nos seus para te aquecer ao invés de reclamar de como eles estão frios?

Eu prefiro garantir a nossa noite juntos do que gastar nosso tempo para criticar seus pés.
Será que a gente não pode preferir conversar antes de virar discussão? Inclusive um pé aquecendo outro é, tecnicamente, um processo de conversa. Será que a gente não pode pensar antes de falar? E mais, ouvir mais do que só falar?

Todos os dias que a gente dorme são iguais: a gente se enrosca no edredom e começa a contagem regressiva dos seus pés de ALASCA chegando perto dos meus. Aí eu respiro, aceito e ao ouvir você se antecipar e reclamar de si, eu coloco meus pés no seu e foco na nossa noite juntos.

Talvez a gente esteja transformando simples pés gelados pela vida em problemas que tiram nossa noite de sono.

Isso tudo é só pra gente pensar nos motivos pelos quais temos tem gastado nossa energia e tempo.

Seus pés são gelados e eu vou aquecê-los.
É sobre isso.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

Eu não me entendo

A coisa que eu mais entendi na vida até hoje é que eu preciso começar a me entender.
Preciso que as minhas vontades sejam claras para mim antes de esperar que sejam para alguém.
Esses dias revi minhas histórias e comecei a enxergar melhor o meu papel nelas.
Antes eu mal conseguia entender de que maneira eu colaborava para as coisas que aconteciam comigo, e aí o que acontecia era que eu me apoiava nas pessoas que passavam pela minha vida e as usava como justificava para os fatos. Era sempre culpa delas.

Eu não fui o que posso chamar de uma pessoa justa. E estou começando a entender.
Lembro que questionei alguém por não manifestar saudade, mas quando a pessoa fazia eu sentia que ela estava grude demais. Em outra história, eu pedi mais espaço para as minhas próprias coisas, e aí quando tive eu fiquei mal pela pessoa ter se afastado de mim.

Eu não fazia sentido pra mim.
E como é que eu poderia esperar fazer para alguém?
Não enxergava como usava o argumento de que “esse é meu jeito”  como muleta para justificar o meus defeitos para as pessoas. Era como se eu me recusasse a mudar alguma coisa em mim para ser uma pessoa melhor.

Eu não me entendo. Ainda. Será que alguém se entende?
A pessoa mais difícil de conhecer no mundo somos nós mesmos. Criamos nossas próprias armadilhas e aumentamos o tamanho dos problema – inclusive, em algumas vezes, o problema somos nós.
Ainda me vejo escorregando sem me entender direito.
Me vejo fazendo cara de preguiça quando alguém puxa assunto comigo, a diferença é que hoje eu entro em parafuso por justamente reclamar de não ter uma pessoa, por exemplo. Também reclamo quando alguém que eu saio não me procura no outro dia, mas eu também não procuro ninguém. Tem vezes que sinto vontade de sair de novo com alguém que já saí um dia, mas acabo não falando nada, a pessoa acabando não sabendo de nada e a gente acaba não saindo mais nenhuma vez. Tipo, um dia eu quero, no outro não. Num dia é saudade, no outro é preguiça. Meus amigos falam, e com razão, que eu tenho deixado as pessoas loucas. Sempre discordei mas hoje esse tipo de coisa tem martelado minha cabeça.

Mudar não vai ser simples. Talvez eu nunca me entenda de fato, mas eu tenho me sentido melhor ao conseguir enxergar como eu era e, principalmente, ao conseguir imaginar como eu quero ser.

A gente sempre vai se cobrar. Eu sempre vou querer mais, mas agora, antes de querer alguma coisa eu começo parando para pensar. Pensar mais tem me feito entender melhor. Antes eu era muito oito ou oitenta mas o tempo – e alguns tapas da vida, é bem verdade – me fez ver que eu era quem mais perdia no fim.

A melhora vai ser constante.
Acho que ainda vou decepcionar. Acho que ainda vou me arrepender.
Mas hoje em dia eu tenho pensado nisso, não com a garantia de evitar, mas para refletir sobre a minha responsabilidade nos dias da minha vida, principalmente nos tristes.

Eu não me entendo, mas estou tentando começar.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

O problema não é o fim, mas sim o que sobra pra mim

[ CONVITE IMPORTANTE ANTES DE LER ]

Você de São Paulo, sábado que vem dia 04 de Agosto, que tal a gente se encontrar pessoalmente para conversar sobre os nossos sentimentos?
Acesse e saiba mais: https://www.facebook.com/events/390841801440130/

—– TEXTO NOVO ——

É que ninguém sabe o que sobra pra gente quando tudo termina.
Por isso que o problema não é terminar, porque eu sei que isso vai acontecer muitas vezes. O problema é tudo o que sobra pra mim depois que a pessoa vai embora da minha vida.

Ela volta aos dias normais dela antes de eu aparecer, já eu volto para os meus dias tentando remendar todo o buraco que a pessoa deixou. É um processo de reconstrução lento e doloroso.

O que sobra pra mim é a tentativa diária de tentar te encaixar na minha vida num lugar diferente daquele que ocupava. O que sobra pra mim é deletar as nossas fotos. É deixar de ouvir aquelas músicas que me ensinou a gostar. É evitar os filmes. É odiar o meu encontro com o seu perfume em outro alguém no metrô.

É óbvio que há muita coisa boa nisso tudo, muita coisa que me fez crescer e todo aquele papo, mas aqui eu me refiro a parte ruim e os problemas que vem com ela. Me refiro aqui aos episódios em que pessoas terminam com a gente, não o contrário – mas a reflexão serve para todos os nós.

Parece que não, mas toda essa parte ruim e dolorida que sobra pra mim se transforma em trava para eu começar uma nova história. A gente se vê sem chão.

Eu não sei lidar bem com o que me resta quando alguém vai embora.
Demoro demais para não te procurar mais e não ter a sua visita nos meus pensamentos em horários em que não preciso, afinal, você passa a não me procura mais só no vidro do metrô na volta pra casa, você me procura durante o trabalho, você tira a minha fome do almoço, você me faz dormir mal. A sua lembrança vai sugando minha energia se tornando uma batalha difícil demais de ganhar.

O que sobra pra mim depois do fim é a cilada que me encontro ao reler conversas nossas antigas. O Whatsapp vira uma arma terrível. Eu me vejo lá revendo nossas fotos das rotinas sem filtro, relendo nossas conversas e dá para perceber pelo fim dos envios de emojis quando as coisas mudaram.

Tudo o que sobra pra mim depois do fim é pesado demais para aguentar.
Eu não sei o que seria de mim se não fossem aqueles meus amigos que dizem as coisas que preciso ouvir, não as que eu gostaria. A gente fica cego sobre verdades e dormimos na esperança de acordar e tudo não passar de um mal entendido.

Sair da vida de alguém deixa marcas que talvez nunca saiam também.
E a gente vai sendo obrigado a ter que lidar com cada uma delas. É como se tentássemos parar de olhar tatuagens em lugares aparentes. Não dá. Eu acabo vendo você nas menores coisas das quais até um toque de de celular me faz lembrar como era o seu.

Isso tudo é para a gente ter mais cuidado ao entrar na vida de alguém.
Porque quando a gente entra, a gente não faz ideia do que vamos deixar depois de ir embora.
Muitas vezes, inclusive, a gente vai embora levando coisas que não são nossas.
E isso nunca vai ser bom.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois
@marciorodriguees

Nossa história não vai além do sexo

Passei um tempo pensando no porquê da gente não avançar.
Me questionei muito, afinal, a gente se dá muito bem e isso parece ser um bom componente para, pelo menos, tentar ver até onde a história vai dar. Acabou que eu entendi o porquê.

Nossa história não vai além do sexo.

O nosso sexo é o que nos une – pelo menos para a minha parte. E eu não quero que isso pareça algum tipo de joguinho, tendo em vista que ambos ganham com o sexo. Eu só refleti e cheguei a uma conclusão que fez sentido para mim sobre a gente – e você tem o direito de discordar.

A gente está nessa há tanto tempo porque quando a gente se encontra a gente se conecta. A gente se dá bem, especificamente na cama. Eu não sei o quão estranho parece eu falar isso dessa maneira, o quanto você pode me considerar uma pessoa fria, mas no fundo, a verdade é que a nossa história não vai além do sexo.

Não dá para forçar gostar de alguém. Eu tentei te ver de formas novas para não ser uma pessoa injusta, mas eu não consegui e isso começou a me machucar porque eu não entendia, no fim das contas, porque a gente ainda tinha alguma ligação. Mas tudo isso fez sentido depois que entendi que o nosso forte é o sexo.

Eu não estou dizendo que sexo é algo simples, tampouco reduzo que não o valorizo. O que estou dizendo é que entre todos os pilares que sustentam uma relação, eu só enxergo o sexo entre a gente capaz de dar alguma base. É claro que há respeito, claro que há carinho e afinidade, mas o que mais existe é tesão carnal. A gente conversa muito, só que a conversa fica melhor depois de transar. A gente troca conselhos e pontos de vista sobre vida, mas em geral, depois de transar. É quase como se a gente só funcionasse bem quando tiver sexo envolvido. E eu sei que isso não é uma coisa boa de ouvir, mas me parece uma grande verdade e difícil demais de segurar. Eu não consigo enxergar outra coisa para ainda estarmos “”””juntos”””” além da nossa vocação para transar.

Não quero que pense que isso é objetificação. Ninguém entre nós está usando um ou outro. As pessoas tem mania de relacionar o sexo com “alguém que usa alguém e se beneficia disso” quando nem sempre é assim, afinal, desde que nenhum sentimento além seja conscientemente cultivado sem ser correspondido, trata-se de duas pessoas que gostam de dormir juntas eventualmente. Talvez a gente precisa ser um pouco mais literal na vida para ver se as dores precisam doer tanto assim. Em outras palavras, um pouco de racionalidade é fundamental para saber proteger tudo o que é de emocional dentro da gente.

Então, entre a hipótese de haver amor ou algum outro tipo de atração afetiva, ficou mais clara pra mim a possibilidade da gente se dar bem porque a gente gosta muito do nosso sexo.

Isso não é uma despedida, não estou falando que vou embora ou te pedindo para me deixar, eu só estou dizendo tudo isso para que possamos ter posição sobre o que estamos vivendo, principalmente por estarmos saindo há tanto tempo e nos mesmos moldes: um chama o outro no  Whatsapp, um convite surge e uma noite muito boa acontece. Parece frio demais falando assim, mas eu vejo como algo alinhado e que faz bem para nós.

O mais importante nisso tudo é a gente saber a mesma coisa que ambos sentem e pensam. A gente precisa conversar sempre para entender que nome dar para os sentimentos e ninguém aqui se machucar. É claro que eu não sei exatamente o que você sente com isso tudo, mas estou contando a minha parte que é a outra metade fundamental para algo acontecer entre nós.

Eu não sei o que vai ser da nossa história amanhã, mas hoje eu sei que é sexo. Pelo menos pra mim.

E isso, desde que combinado, não significa algo exatamente ruim.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois
@marciorodriguees

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