Author: Márcio Rodrigues (page 2 of 66)

Gostar da gente antes de gostar de alguém

A gente tem o nosso tempo. 
Mas a gente sempre quer mais rápido. 
Mais rápido que alguém vá embora. 
Mais rápido que alguém apareça. 
Mais rápido que a dor passe. 
Mais rápido que o amor volte. 
Só que a gente tem o nosso tempo. 

É impossível não afirmar que tem a ver com uma questão de idade.  
Mais jovens, menos responsabilidades e menor a paciência. 
A gente só quer que as coisas aconteçam. 
Mais velhos, com uma responsabilidade nova por dia, a gente se vê sem alternativa a não ser entender o valor do tempo. Ou pelo menos a gente deveria, porque no fim das contas a gente segue querendo tudo depressa até que a chave vire. E a notícia boa é que a gente é quem vira essa chave.  

Ficar em casa passa a ser uma necessidade maior que ficar com alguém. 
Confirmar que anda tudo bem com a saúde é mais importante que ter alguém para andar junto. 
Saber como vai a família é mais valioso do que saber qual festa ir. 
E nenhuma das segundas coisas acima são irrelevantes, o problema é fazer com que elas sejam fundamentais. 
Isso tem a ver com a jornada do amor próprio e o quanto este deve ser o amor perseguido. 

Gostar da gente. A gente não cuida muito da gente. E, nas poucas vezes que sim, perceba, é mirando agradar alguém. Comprar roupas para novas posts. Praticar exercício para novos corpos. É tudo sobre uma busca de aprovação de alguém, sem que esse alguém, muitas vezes, sequer exista.  

“Eu acho horrível almoçar sozinha” – ouvi uma vez de uma amiga. Essa sentença jamais saiu da minha cabeça e relembro a cada vez que almoço sozinho. Parei para pensar na quantidade de gente que deve pensar parecido e que, no fundo, não tolera a própria companhia, seja para saborear um prato de comida ou para aproveitar a si mesmo e refrescar os pensamentos. 

Se a sua rotina é condicionada em ter alguém para fazer coisas com você, é um sinal claro de que existe algo grave acontecendo. Há quem diga, inclusive, que é uma derrota ir ao cinema sozinho. “Total deprê” – e nem vou entrar no mérito de reduzir uma doença a uma gíria. 

A gente precisa gostar mais da gente pela gente. Comprar uma roupa que faz a gente se curtir ao olhar no espelho ainda que ninguém curta se virar post. Praticar atividade física porque nosso corpo é o nosso templo e não a exibição para outra pessoa. Acho que isso tudo tem a ver com inversão de prioridades, isto é, eleger como principal motivação para cada coisa que fazemos com a nossa vida o bem-estar de nós mesmos, antes de também agradar alguém. 

Gostar da gente começando por apreciar a nossa companhia. Desligar a música na volta do trabalho para ouvir a cidade. Chegar mais tarde em casa por escolher o cinema numa segunda-feira. Telefonar para alguém que não conversa faz tempo. Ouvir mais as pessoas. Falar mais sobre o sente. Cuidar de si como prioridade e não como opção.  

Antes de encontrar alguém, a gente deve evitar perder a gente. 

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por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Você ainda não superou

As coisas andam complicadas. 
Já faz um tempo desde que o fim chegou, mas você ainda não sentiu que passou. 
Vocês já não são mais uma verdade. 
A conversa desceu entre as outras no celular. 
Não chega mais notificação. 
Não há mais marcação em memes. 
Não há mais posts – você parou de seguir. 
Não história para acompanhar pelo story. 
Houve um rompimento. 
Vocês eram. Hoje não são mais. 
E você ainda não superou. 

E tudo bem. 
Quem que te determina a velocidade com que a nossa vida deve passar? 
Não há autoajuda que acelere o relógio e é difícil acreditar em simpatias. 
Acontece que você ainda não está bem. 
O que já foi dor hoje é uma saudade que aperta.  

Se te afeta tanto é porque te marcou muito. E que sorte a sua por viver uma história para lembrar. Hoje em dia as pessoas não fazem muito para serem lembradas. A sensação é que todo mundo é meio igual e preguiçoso. Que bom que você conseguiu viver algo bom o bastante para ser difícil de guardar e não olhar mais. 

Você chegou a se permitir conhecer pessoas novas, né? 
Um beijo aqui. Uma noite com alguém ali. Mas o dia seguinte sempre chegou com a notícia de que não é a mesma coisa – é que também não é a mesma pessoa. 
Você fez bem em se permitir, mas pensa se não fará melhor em se proteger. 
As pessoas não sabem como são vulneráveis até que a segunda dor apareça. 
Na primeira é tudo uma questão de “puts, a vida é assim mesmo”, na segunda a gente vê que machuca muito e sorriso amarela na rotina.  

Você não erra em tocar a vida, mas talvez se precipite em esperar recomeçar rápido. 
E talvez. Porque de repente você tem feito o certo. 
Os dias não tem manual de instruções. 
Você ainda não superou. 
As séries começadas juntos serão terminadas separadas. 
Ficar ou não na timeline não apaga as fotos da sua cabeça.  
E não há problema nenhum nisso. 
É que você ainda não superou e tudo fica meio confuso. 
Para melhorar, alguns amigos conseguem piorar: 
“Você não colabora”, “Você não fala em outra coisa” e por aí. Todos bem intencionados. 

Respira um pouco. Deixa o tempo cuidar de você e cuide do seu tempo. 
Você ainda não superou. E não importa as notícias que chegarem da outra pessoa. 
Você tem o seu ritmo de viver. 
Vocês foram um episódio, mas sua vida é a sua história. 
Vai passar. 
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Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Eu me arrependo

Há anos que refrões e textos famosos ecoam: “Só me arrependo do que não fiz”. Essa mensagem é uma ideia verdadeira que leva alívio emocional a nossa vida recheada de decisões e iniciativas que nunca sabemos serem as melhores.  

Está tudo certo com a frase, mas é que, na prática, eu me arrependo sim. 
De várias coisas. Pessoas então, vish. Quem nunca?
Olhar para os arrependimentos com tranquilidade é um gesto de carinho comigo. É muito perigosa a ideia de se prender a frases de efeito que nem sempre causas algum efeito. 

O arrependimento está tradicionalmente associado a uma ideia de culpa. Eu concordo. Mas vejamos por outro lado, é também refletindo sobre o que nos arrependemos que podemos mudar quando a próxima vez chegar. É tolice não acreditar que outras vezes mais nos arrependeremos na vida. 

A verdade é que me arrependo de muitas coisas em vários momentos da minha vida e, se possível fosse, com a cabeça que tenho hoje, tanto eu quanto você, faríamos tudo diferente. Ainda bem, né? Sinal que a gente passou de fase. Essa reflexão é valiosa.

Queria, por exemplo, ter dito outras coisas no lugar das que eu disse. 
No fundo, eu já estava gostando de você. Pouco a pouco eu me convencia de que valeria fazer da nossa história algo mais especial, mas preferi te abreviar da minha vida e continuar me aventurando em outras bocas movido por um instinto de “preciso viver isso”, “não posso perder a chance de sair com essa pessoa porque isso pode nunca mais acontecer”. 

Queria ter me desculpado. 
Me afundei num orgulho mirim só para vencer a olimpíada de quem estava mais certo. Nunca percebi que, de nós, só eu levava a vida como competição. 

Queria ter sido alguém diferente também. 
Não me toquei, mas no fim das contas já cheguei a atuar exatamente da mesma maneira pela qual eu repudiava outras pessoas, isto é, na maré de “pessoas lixo” que, por diversos motivos, cruzam a nossa vida, acabei sendo mais uma entre elas. Eu estraguei os dias de alguém e tenho plena consciência disso. Criei os mesmos jogos em que eu reclamava ser inserido. Ignorei as mesmas mensagens que já mandei – e foram tantas. Na época tudo fazia sentido, mas a minha ingenuidade reside exatamente no fato de acreditar que tudo faz sentido. Nunca que tudo fará sentido. A noção de “fazer sentido” é pessoal. Para mim pode fazer, para você não. Me arrependo. 

Guardei tanta saudade que apodreceu. 
Queria ter dito cada palavra do que sentia, mas o que eu faria com o receio de parecer infantil, desesperado, grude ou outra e qualquer coisa do tipo? 

Grude. Este é um ponto importante. 
Como eu gostaria de ter sido mais eu. 
Depois de alguns capotes na vida, a gente acaba se adaptando a dinâmica de como as coisas foram condicionadas a funcionar. É algo como: “acho que se eu demostrar interesse a pessoa vai se assustar comigo”. Assim, renunciei ao meu desejo bom por alguém por um modo de operar a vida que eu discordo completamente.  

O que eu queria ter dito: 
“Escuta, não sei para você, mas para mim a gente está funcionando de um jeito que tem me feito muito bem. Sei lá o que vai pensar de mim ao falar isso agora, mas não vou guardar algo bom comigo se tem a ver com você. O fato é que gostaria de prolongar por anos tudo isso que a gente tem vivido. Um pouquinho por dia você tem se tornado mais especial. Tirando as palavras bonitas: Você é maravilhosa e precisa ser lembrada disso todos os dias – gostaria que fosse eu a fazer isso”. 

O que eu disse: 
“Hahaha que legal” 

Queria ter permitido que o fim florescesse. 
A gente precisava terminar, mas eu não queria acreditar nisso. Daí fui empurrando a gente um dia por vez. Gostava da ideia de ter você – ou de ter alguém? Vai saber. Mas o fim precisava existir, eu que não me dava conta que a gente já não se fazia tão bem assim. 

Eu me arrependo. 
De várias coisas e pessoas. 
E tá tudo bem eu me arrepender das coisas que fiz – o não fazer consciente é fazer também. 
Que bom que estou por aqui hoje. Que bom as folhas do calendário viraram. 
A importância em refletir sobre o que a gente se arrepende resulta no exercício diário de olhar de forma mais generosa para a imperfeição que somos. 

Uma das principais lições da revisão de arrependimento é a certeza de que a gente não vai acertar sempre. A cobrança por minuto que fazemos sobre nós mesmos fica até mais barata vendo por esse lado. 

Eu me arrependo de algumas coisas e só por isso que eu posso continuar tentando mudar para melhor.

por Márcio Rodrigues. 
umtravesseiroparadois@gmail.com 
@marciorodrigues

Você só me procura quando não encontra ninguém

Fim de um dia de trabalho. 
Oi para os gatos, tiro o tênis, largo a mochila e corro para a cozinha para preparar algo para comer. 

– Vou fazer um stories desse tomate picado. 

Dois minutos depois uma notificação do Instagram me avisa que há uma nova direct. 
De avental, com uma faca na mão e a tábua de legumes com uma cebola pela metade, não consigo me conter e vou dar uma checada rápida: 

– Hmm parece que vai sair coisa boa daí, hein? 

É você me escrevendo. 
Congelo quinze segundos do tempo na dúvida entre responder ou não. 
Largo o celular de lado e volto para o meu jantar. 

O problema é que é assim toda vez. Não eu cozinhando todo dia, mas você vindo puxar assunto do nada depois de desaparecer. No começo isso me animava porque dali nasceria um novo encontro e gosto de quando saímos, o problema é que é cada vez mais óbvio que você só me procura quando não encontra mais ninguém. 

E eu não quero esse papel na sua vida. 
Tampouco quero te cobrar algum tipo de relação que beire a suspeita de compromisso, o ponto não é este. É que cansa a gente sentir que ocupa o último lugar na fila de prioridades. Até mesmo para responder se está tudo bem.

Usando toda a empatia possível, vai ver você até queira mesmo encontrar a mim, talvez seja algo especial de você pela gente, mas você nunca me convence disso. Toda essa possibilidade se faz remota quando depois do nosso tchau você passa a demorar dias para me responder – quando responde -, quando você ignora minhas interações nos seus stories e quando passam semanas sem dar qualquer sinal. Quando estou te esquecendo você volta para atravessar meus dias. 

Já faz tempo que não me faz bem. Nas horas em que você e eu somos nós é sempre incrível, mas tudo vira nada depois que a gente se despede. Se é essa a dinâmica que você prefere para ter algo comigo, isso poderia ser dito e eu escolheria aceitar ou não. A gente precisa contar nossas intenções quando elas envolvem outra pessoa. É que você se esquiva sempre que toco no assunto – e fica impossível eu não me sentir descartável. 

Então, depois que me fez sentido que sempre sou a sua opção quando todas as outras estão indisponíveis, tenho mudado o meu jeito de interpretar você. Meu mundo não vai mais parar para encontrar o seu.

Ainda que insista no mesmo modelo de só me procurar de vez em nunca, no dia que eu sentir vontade da gente você vai saber, do contrário, sua mensagem vai ser só uma nova mensagem.  

Ficou mais claro, porém, o fato de que esse dia pode nunca mais chegar e, nessa sua próxima mensagem ainda que seja para um legítimo oi, outra pessoa pode estar me ajudando fazer o jantar. 

por Márcio Rodrigues. 
umtravesseiroparadois@gmail.com

A gente foi um quase

Esses dias você me visitou. 
Era uma terça-feira como a da semana passada. 
Pela manhã, após o banho, fui ao guarda-roupas escolher uma camiseta para trabalhar.  
 
– Essa usei anteontem. 
– Essa parece uma que usei ontem. 
– Essa já tá bem cansada. 
 
– Nossa, esta. 
 
Peguei, sentei na borda da cama ainda de toalha e, sem querer, rebobinei o filme da minha vida até o nosso primeiro dia. 
 
Voltei para a primeira vez que a gente saiu e você entrou na minha vida. 
Comprei aquela camiseta no intervalo entre a sua mensagem de “confirmado” sobre o que fazer no dia seguinte e o próprio dia seguinte. 
 
Engraçado como um encontro esconde detalhes, né? Ninguém faz ideia do quanto a outra pessoa se prepara para um encontro. Mas também pudera, é praticamente a chance única de deixar uma boa impressão capaz de garantir um segundo, terceiro e vários outros encontros. 
 
Como foi o nosso caso. Aquela nossa primeira vez ficou tão distante da última. 
A gente se viu tanto. A gente saiu tantas outras. 
 
No Whatsapp, a nossa conversa reinou todo o tempo lá no topo. A biblioteca de imagens passou rápido das mil fotos. Memes, pratos feios de almoços gostosos e prints diversos preenchiam nossa rotina. Sinal de que a gente se dava bem. 
 
Eu gostava. 
Quanto tempo a gente aconteceu? 
Se fosse um livro, a gente seria aqueles mais longos ou mais curtos? 
Um filme de três horas ou um episódio de série? 
Livros curtos e episódios de séries não significam histórias para esquecer. 
Talvez tenha faltado a gente ler a trilogia ou assistir à temporada completa. 
Mas foi quase, né. 
A gente foi um quase. 
 
Aquela camiseta não era exatamente especial, mas o significado que ela ganhou sim. 
Inclusive, com a camiseta esticada nas minhas pernas enquanto pensava nisso tudo, lembrei que você disse ter gostado dela. Nunca vou esquecer como meu coração se fez réveillon. 
 
Você fez isso comigo. Desde o comecinho. O que aconteceu com a gente me apresentou uma versão minha diferente; uma versão que virou minha preferida. Gostava das nossas conversas, mas é menos sobre os assuntos e mais sobre o jeito que a gente conversava. Você me convencia que estava interessada nas coisas que eu tinha para dizer, ainda que fosse a minha opinião sobre pastel. Percebi que ganhava mais quando te deixava falar sem minhas interrupções ansiosas. Era por texto. Era pessoalmente ou por olhares. A gente tinha uma ligação que eu vibrava. 

Na época, tão excitado pelo começo, fiquei arrasado com o fim. 
Fiquei pensando se tiramos o celular da tomada antes de apontar cem porcento da bateria recarregada. E talvez eu pense nisso muitas outras vezes. Todo quase gera uma dúvida que a gente vai administrando a cada lembrança. 
Hoje entendo como fomos a página que a gente precisava na história um do outro. Algumas histórias precisam acontecer de alguma maneira, nem sempre da maneira que a gente quer. Talvez a gente tenha sido um quase porque a gente buscava se completar um com o outro, quando a gente já deveria ser completo sozinhos. Um monte de talvez. 
 
Esses dias você me visitou. 
Naquela terça, por meio daquela camiseta, eu voltei no tempo para o exato momento em que toda a minha atenção do mundo estava voltada a você. 
Essa visita no passado abriu uma pasta no meu coração para você chamar de casa. Você fica lá e tá tudo bem. 
Mas, acima de tudo, essa volta praquela nossa fase, praquela versão minha que floresceu com você, me fez pensar que se já senti uma vez, nada impede de me sentir bem de novo como você me fez, como a gente se fez, como eu me fiz. 
 
A gente foi um quase. 
Todo esse tempo depois, hoje gosto de me sentir completo o bastante para somar com outra pessoa e assim transbordar juntos.  
E aquela camiseta eu vou continuar usando. 
Mas não foi a escolhida naquele dia.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com


Uma chance para mim

Peguei pesado demais comigo nos últimos tempos.
Foi foda.
Dá até agonia só de pensar.
Com exceção de quem faz terapia, a gente não costuma muito refletir sobre nós mesmos, né?
E quando a gente o faz é para criticar. Quase sempre.
Já percebeu isso?
É como se fôssemos a pior torcida para nós mesmos.
As coisas podem estar bem, mas se não estarem como gostaríamos, não estão bem o bastante.
Isso sem contar que a gente rejeita quando alguém fala as menores coisas boas sobre a gente. É o elogio que dizemos “não saber receber” sem sequer agradecer; é a roupa que a gente diminui dizendo que foi baratinha ainda que nem tenha existido a pergunta sobre preço.

Me vi reclamando de tanta coisa sem perceber que o fato de já reclamar tanto não ajudava a melhorar.
O trânsito irritou demais. Motoristas confusos quase me fizeram gritar. O trem era muito devagar. A segunda-feira chegou muito rápido. O almoço não foi no lugar que eu gosto.

E quantas pessoas passaram por mim sem que eu deixasse ficar.
Engrossei o coro de que ninguém presta nesse mundo.
Mas eu mesmo não me atentava quando alguém prestava atenção em mim.
Rejeitei a menor aproximação e, quando não pior, atuei em joguinhos de amor que sempre critiquei. Sim, fui quem não respondia por birra. Sim, fui quem dizia que “tava tudo bem” sem estar. Sim, fui quem provocava ciúmes para me sentir especial.

Olha, vou te falar: eu não colaborei comigo.
Me profissionalizei na arte de me apegar à parte ruim das coisas.

A gente fica mais longe daquilo que desejamos a cada vez que não aproveitamos o que a vida oferece – ou que, pelo menos, não conseguimos olhar o que de bom tem nisso.

O bom de virar o ano é que a gente pode revirar a vida.
E eu estou bem nessas.
Já deu.
Preciso dar uma chance para mim.
Abrir mais olhos e menos o celular.

Não acompanho a viagem daqueles que celebram que a vida é cem porcento linda, todo dia que o sol nasce é um dia lindo e todos esses discursos motivacionais que, apesar de honestos, perigam a desenhar uma ideia do perfeito viver. Esse pensamento não inclui boletos nem dias que a gente acorda se sentindo um lixo. Respeito, contudo, a legião de pessoas que pensam assim, mas eu sou muito sensível a necessidade de encontrar equilíbrio entre dias bons e outros nem tantos. Porque eles sempre vão existir. Ignorar a instabilidade da vida é escolher sofrer.

O fato é: vou dar um jeito de cuidar de mim.
Não posso negativar minha energia com gatilhos tão pequenos como uma buzinada no trânsito ou uma pessoa que, sabe-se lá por qual motivação, prefere passar dias sem responder minha mensagem. Nada disso tem a ver comigo e é por isso que eu não devo me contaminar.

Com a plena consciência de como a vida real é, cheia de oportunidades e dias ruins pra caramba, vou me colocar como protagonista dos meus dias e buscar calma entre as horas. Ter calma antes de ter outras coisas.

Neste ano quero aprender a me proteger.

—–
por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
@umtravesseiroparadois
umtravesseiroparadois@gmail.com






Estou me acostumando a gostar de novo

Aquele último fim pareceu ter levado um pedaço de mim. 
E aí eu comecei a desconfiar de muita coisa e muita gente. 
Isso tudo dificultou me aproximar de novas pessoas. 
No primeiro sinal de alguém tentando chamar minha atenção, eu me escondia. 
 
“Hoje não dá.” 
“A vida está corrida.” 
“Ando sem tempo.” 
“Fim de semana tenho compromisso.”  
 
Fugia das pessoas e me escondia em mim. 
Nas longas horas do fim de semana. 
 
É por isso que estou me acostumando a gostar de novo e isso está acontecendo com você. 
Estou relembrando o gosto bom de sentir que alguém se preocupa com a gente. 
Assim. Bem na raiz do gostar. 
 
Quando a gente vive muitos fins fica difícil acreditar em novos começos. 
 
Parece que estou reaprendendo a acreditar que as coisas também podem funcionar para mim.  
Olha que louco o efeito que alguém que vai embora da nossa vida causa na gente, né? 
 
Acho que vai ser um erro buscar uma garantia de história feliz para cada pessoa que eu conhecer. Esse tipo de coisa vai fazendo sentindo aos poucos na nossa cabeça. Levei um tempo acreditando que o problema era eu e agora gosto da ideia de pensar que a solução sou eu.  
Aquela última pessoa que passou pela minha vida, hoje passa pela vida de outra pessoa e o que eu posso fazer por mim? Me apegar na dor não vai fazer eu sentir amor mais rápido. 
 
Por isso estou me acostumando. 
Um passinho por dia.  
Uma mensagem sua que me tira o stress e coloca um sorriso de canto. 
Uma por vez. 
Um dia que a gente sai. 
Outro que a gente combina de sair mais. 
 
A diferença do mesmo eu de antes para o eu de agora é que eu estou entendo que quem controla a minha vida sou eu, não alguém que passou por ela. 

Estou cuidando de mim para cuidar melhor de você que agora está por aqui comigo. 

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Desculpa mandar áudio, mas é rapidinho

Pera, comecei péssimo.
Vou mandar de novo.

1 [ deleta clicando na lixeira ]
2 [ clica no microfone, arrasta para cima para manter gravando ]

Então, bom, antes de qualquer coisa, desculpa mandar áudio, mas os imprevistos estão fazendo a gente demorar para se encontrar e eu não consigo mais guardar isso pra mim. Pesado falando assim, né? Você vai entender. Espero não estar atrapalhando e não precisa ter pressa para responder.
Tá, então, porque esse áudio.
Eu nem lembro direito: você odeia áudios, né? hahaha comecei mal.
Nossa, minha voz tá estranha, não repara.
Bom, voltando, queria te falar algumas coisas mas posso já resumi-las em um sentimento: estou com saudade.
Vai ser difícil continuar falando sobre o que sinto por áudio porque esse treco é ao vivo né, então não vou a chance ter control+z – só para explicar caso eu me engasgue. Mas ok, vou retomar, você me conhece e sabe como me distraio.
Estou com saudade de você.
E depois estou com saudade da gente.
E depois estou com saudade de como eu sou quando nós somos a gente.
E tudo isso ao mesmo tempo.
Só que antes de falar sobre a saudade, eu quero falar sobre os erros.
Me desculpa.
Quero te pedir desculpas.
A gente, não eu e você, a gente como ser humano tem um problemasso em pedir desculpas sobre as coisas. E tá na cara que isso tem a ver com a nossa dificuldade em aceitar que erramos. Eu fui meio assim com você. Desculpa pelos meus excessos e minhas ausências porque eu sei que errei na mesma medida. Desculpa pelas vezes que te fiz sentir alguma coisa ruim.
Não acho que só esse pedido vai ser capaz de te fazer me desculpar, por isso, eu realmente quero que a gente se encontre, mas como todas as tentativas não deram certo até agora e logo você vai viajar, eu queria pelo menos te falar sobre o quanto pensei nessas coisas todas.
Eu sinto a sua falta. Sinto que sinto menos coisas boas quando você está longe. Parece que sempre está faltando alo. As coisas que a gente ri juntos não tem a mesma graça sem você. Eu, de verdade, sinto a sua falta. Sabe, – é estranho falar de algo assim por áudio mas vou continuar; sabe, é louco o que a gente sente no segundo seguinte que a gente fala sobre as coisas que a gente sente. Fica até mais fácil entender como terapia funciona. É que aqui, agora, te pedindo desculpas e falando sobre a minha saudade, sinto o quanto isso é forte em mim. Até me falta um pouco de ar hahaha estou ridículo, desculpa. Tá, não vou me prolongar muito mais, esse áudio é para ser uma introdução de algo que ainda quero te falar pessoalmente. Bom, tá, só terminando: foi você ficando longe que eu percebi como me fazia bem te ter por perto – que clichê, né? Mas é verdade. Eu sinto falta de tudo. E, por mais que, de repente, você não sinta nada disso, eu insisto sobre o quanto gostaria de falar isso pessoalmente por que é real. É que não quero parecer que estou me escondendo. Ainda que tudo que eu disser não te faça pensar a respeito, eu preciso te dizer que você foi a melhor notícia dos últimos tempos na minha vida; preciso te dizer que você me faz ter vontade de viver a minha vida de um jeito melhor e aproveitando cada minuto dela; preciso te dizer, ou melhor, preciso te agradecer por tudo o que você já me disse, por toda a companhia e por me fazer acreditar que eu sou uma boa pessoa, apesar do mundo todo tentar me destruir aos poucos. É por isso e muito mais que te peço desculpas e sinto tanta saudade de você. Eu, de cara, entendo totalmente se você não aceitar nada do que estou falando, mas estou sendo agora a pessoa que você me ensinou a ser: quem prefere contar o que sente do guardar e deixar apodrecer – é meio essa a frase, né? Não sei se o que falei em tudo aqui faz sentido, estou falando meio sem parar e sem prestar atenção nas pausas. Vai ser horrível ouvir tudo isso depois – porque eu sou desses. Puts. Olha o tamanho desse áudio, me desculpa, vou parar. Prometi que ia ser rapidinho, mas não consigo ser rápido na hora de falar sobre o bem e a falta que você me faz. Quero te ver.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com











Gosta de mim mas não para algo sério, né?

A gente funciona.
Ou a gente parece funcionar.
Uns gostos diferentes, mas todos os parecidos pesam mais.
Os mesmos planos individuais sobre o futuro, filmes preferidos e aqueles nem tão bons assim.
A noite parece terminar rápido demais.
Corpo selado de suór. Roupa no chão. Tantas vezes.
Dormir e acordar bem no encaixe da conchinha.

Tudo muito bem.
Mas.
Para algo mais sério, não.

Sem motivo aparente mas a minha insegurança imagina que seja a minha aparência. Esse mundo desequilibrado faz a gente se apegar a coisas pequenas demais – e a culpa não é minha.

A gente passa dias conversando.
Combinamos de sair na sexta.
Comer alguma coisa.
Ir para a casa de um de nós.
Se dar conta que o tempo passou e domingo chegou.
Fins de semana diferentes de roteiros iguais.

Mas.
Para algo mais sério, não.

Você nunca exatamente me disse que não.
Mas você não reage ao meu sinal de sim.
Inevitavelmente me vejo como um passa-tempo para te ocupar.
Eu existo até que alguém passe a existir.
Eu sou por enquanto enquanto você busca alguém para sempre.

Acredito na ideia de que conversar é sempre a melhor a saída, mas eu não sei o quanto puxar esse assunto com você só vai me expor a algo que eu já tenho percebido há muito tempo. E aí me vejo numa emboscada: gosto tanto que não quero correr o risco de acabar, mas não sei se quero continuar gostando só do jeito que eu gosto.

E o problema aumenta nas vezes que você diz gostar de mim.
Quando você me chama por apelidos.
Quando você me convida para ir a alguns lugares.
Quando me faz sentir ter um papel de verdade na sua vida.

Porque só eu sei o que sinto quando você manda mensagem dizendo estar com saudade. Eu só não faço ideia do que você sente ao escrever.

No final das contas, o que fica é a conclusão de que gosta de mim, mas não para algo mais sério. É só eu me aproximar de um assunto parecido, mencionar algum casal de amigos ou coisa do tipo que você se afasta; você parece ter encontrado um lugar para eu morar na sua vida mas esqueceu de perguntar se eu gostaria dessa ideia.

E aí, em uma das tantas noites que passamos juntos, eu me vejo te vendo dormir e pensando: “qual é o problema comigo?” Pior que nem sei se é comigo, pode ser só com você e nem você tem exatamente culpa, mas como que a gente administra essas fantasmas?

E nem sei direito se quero saber.
No fundo, eu quero. No fundo, eu preciso. Preciso saber o que pensa para eu saber se penso igual. Porque o tempo que gastamos juntos eu poderia estar aproveitando com quem quer como eu.

Acho que você me convenceu que te faço bem, mas você precisa ver sua cara quando eu falo que gostaria de fazer mais.

Você gosta de mim mas não o bastante para algo mais sério.
Né?
Repito isso pra mim a cada sim que respondo para um novo convite seu sobre fazer algo.


por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com







Você teria a mesma coragem pessoalmente?

Hoje ficou mais fácil.
Eu te mando uma mensagem, você responde. E o contrário igual.
A gente passa dias assim.
A gente vive profundas histórias assim.
Hoje é bem mais simples conversar.

O jeito de se comunicar mudou, mas as coisas que sentimos não.
Do ponto de vista sobre os comandos do nosso coração, tudo continua igual: a gente gosta do mesmo jeito que antes. A gente deixa de gostar do mesmo jeito que antes. A gente começa a sentir e deixamos de sentir.

O problema é que o que deveria ser uma solução, muitas vezes, é um disfarce. Essa facilidade em conversar desperta covardia em nós.

Será que a gente teria a mesma coragem de falar pessoalmente todas as coisas que a gente escreve e manda para alguém? Especialmente as coisas ruins?
É cada vez mais comum conhecer alguém que teve uma história terminada por Whatsapp.

“E vocês lá, como andam?”
“Não anda, terminamos”
“Como assim?”
“Assim: vou te mostrar a mensagem que recebi”



É um teclado na mão, emoji e bênção.

Esse fato acontece também sobre discussões entre família ou amigos.
E aí me vi pensando: você conseguiria falar tudo o que escreve também pessoalmente?

Alguma coisa me diz que seria 100% mais difícil e explico.
Acho que a gente não pensa no que escreve. A gente só escreve. E o teste para isso é contar para alguém o que você está sentindo antes de escrever e mandar para quem, na sua cabeça, precisa receber. Muito provavelmente, por ser uma conversa pessoalmente, você usaria uma estrutura de argumentação diferente daquela usada na escrita; haveria o ingrediente da reação instantânea da pessoa e, por isso, a chance de você refletir e concluir que seu “nem é tudo isso”, por exemplo, é gigante.

Ao meu ver isso acontece porque a gente foge de diálogos.
A gente foge de expor nossa fraqueza. A gente foge de ter um defeito ou erro nosso elucidado. A gente teme sermos vistos como inferiores em qualquer tópico na nossa vida. Quando falamos sobre relacionamentos, inclusive, o buraco fica mais embaixo porque tem uma pessoa que vai ouvir o que queremos dizer e ter que lidar com um sentimento. Não há quem gosta de expor as próprias fraquezas, mas a gente não precisa transformá-las em demônios.

Hoje ficou mais fácil.
Eu te mando uma mensagem, você responde.
Você me manda uma mensagem, eu respondo.
Mas será que se fosse um assunto mais difícil, eu falaria as mesmas coisas que escreveria para você?

O que fica no meio disso é um lembrete: quem vai ler o que você tem para escrever é uma pessoa igual a você, com fraquezas e fortalezas.

Então, por favor, pensa bem antes de acreditar que, em determinados assuntos, uma mensagem é o bastante. Pensa bem como você se sentira ao ler o que você planeja escrever.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com












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