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A gente foi um quase

Esses dias você me visitou. 
Era uma terça-feira como a da semana passada. 
Pela manhã, após o banho, fui ao guarda-roupas escolher uma camiseta para trabalhar.  
 
– Essa usei anteontem. 
– Essa parece uma que usei ontem. 
– Essa já tá bem cansada. 
 
– Nossa, esta. 
 
Peguei, sentei na borda da cama ainda de toalha e, sem querer, rebobinei o filme da minha vida até o nosso primeiro dia. 
 
Voltei para a primeira vez que a gente saiu e você entrou na minha vida. 
Comprei aquela camiseta no intervalo entre a sua mensagem de “confirmado” sobre o que fazer no dia seguinte e o próprio dia seguinte. 
 
Engraçado como um encontro esconde detalhes, né? Ninguém faz ideia do quanto a outra pessoa se prepara para um encontro. Mas também pudera, é praticamente a chance única de deixar uma boa impressão capaz de garantir um segundo, terceiro e vários outros encontros. 
 
Como foi o nosso caso. Aquela nossa primeira vez ficou tão distante da última. 
A gente se viu tanto. A gente saiu tantas outras. 
 
No Whatsapp, a nossa conversa reinou todo o tempo lá no topo. A biblioteca de imagens passou rápido das mil fotos. Memes, pratos feios de almoços gostosos e prints diversos preenchiam nossa rotina. Sinal de que a gente se dava bem. 
 
Eu gostava. 
Quanto tempo a gente aconteceu? 
Se fosse um livro, a gente seria aqueles mais longos ou mais curtos? 
Um filme de três horas ou um episódio de série? 
Livros curtos e episódios de séries não significam histórias para esquecer. 
Talvez tenha faltado a gente ler a trilogia ou assistir à temporada completa. 
Mas foi quase, né. 
A gente foi um quase. 
 
Aquela camiseta não era exatamente especial, mas o significado que ela ganhou sim. 
Inclusive, com a camiseta esticada nas minhas pernas enquanto pensava nisso tudo, lembrei que você disse ter gostado dela. Nunca vou esquecer como meu coração se fez réveillon. 
 
Você fez isso comigo. Desde o comecinho. O que aconteceu com a gente me apresentou uma versão minha diferente; uma versão que virou minha preferida. Gostava das nossas conversas, mas é menos sobre os assuntos e mais sobre o jeito que a gente conversava. Você me convencia que estava interessada nas coisas que eu tinha para dizer, ainda que fosse a minha opinião sobre pastel. Percebi que ganhava mais quando te deixava falar sem minhas interrupções ansiosas. Era por texto. Era pessoalmente ou por olhares. A gente tinha uma ligação que eu vibrava. 

Na época, tão excitado pelo começo, fiquei arrasado com o fim. 
Fiquei pensando se tiramos o celular da tomada antes de apontar cem porcento da bateria recarregada. E talvez eu pense nisso muitas outras vezes. Todo quase gera uma dúvida que a gente vai administrando a cada lembrança. 
Hoje entendo como fomos a página que a gente precisava na história um do outro. Algumas histórias precisam acontecer de alguma maneira, nem sempre da maneira que a gente quer. Talvez a gente tenha sido um quase porque a gente buscava se completar um com o outro, quando a gente já deveria ser completo sozinhos. Um monte de talvez. 
 
Esses dias você me visitou. 
Naquela terça, por meio daquela camiseta, eu voltei no tempo para o exato momento em que toda a minha atenção do mundo estava voltada a você. 
Essa visita no passado abriu uma pasta no meu coração para você chamar de casa. Você fica lá e tá tudo bem. 
Mas, acima de tudo, essa volta praquela nossa fase, praquela versão minha que floresceu com você, me fez pensar que se já senti uma vez, nada impede de me sentir bem de novo como você me fez, como a gente se fez, como eu me fiz. 
 
A gente foi um quase. 
Todo esse tempo depois, hoje gosto de me sentir completo o bastante para somar com outra pessoa e assim transbordar juntos.  
E aquela camiseta eu vou continuar usando. 
Mas não foi a escolhida naquele dia.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com


Uma chance para mim

Peguei pesado demais comigo nos últimos tempos.
Foi foda.
Dá até agonia só de pensar.
Com exceção de quem faz terapia, a gente não costuma muito refletir sobre nós mesmos, né?
E quando a gente o faz é para criticar. Quase sempre.
Já percebeu isso?
É como se fôssemos a pior torcida para nós mesmos.
As coisas podem estar bem, mas se não estarem como gostaríamos, não estão bem o bastante.
Isso sem contar que a gente rejeita quando alguém fala as menores coisas boas sobre a gente. É o elogio que dizemos “não saber receber” sem sequer agradecer; é a roupa que a gente diminui dizendo que foi baratinha ainda que nem tenha existido a pergunta sobre preço.

Me vi reclamando de tanta coisa sem perceber que o fato de já reclamar tanto não ajudava a melhorar.
O trânsito irritou demais. Motoristas confusos quase me fizeram gritar. O trem era muito devagar. A segunda-feira chegou muito rápido. O almoço não foi no lugar que eu gosto.

E quantas pessoas passaram por mim sem que eu deixasse ficar.
Engrossei o coro de que ninguém presta nesse mundo.
Mas eu mesmo não me atentava quando alguém prestava atenção em mim.
Rejeitei a menor aproximação e, quando não pior, atuei em joguinhos de amor que sempre critiquei. Sim, fui quem não respondia por birra. Sim, fui quem dizia que “tava tudo bem” sem estar. Sim, fui quem provocava ciúmes para me sentir especial.

Olha, vou te falar: eu não colaborei comigo.
Me profissionalizei na arte de me apegar à parte ruim das coisas.

A gente fica mais longe daquilo que desejamos a cada vez que não aproveitamos o que a vida oferece – ou que, pelo menos, não conseguimos olhar o que de bom tem nisso.

O bom de virar o ano é que a gente pode revirar a vida.
E eu estou bem nessas.
Já deu.
Preciso dar uma chance para mim.
Abrir mais olhos e menos o celular.

Não acompanho a viagem daqueles que celebram que a vida é cem porcento linda, todo dia que o sol nasce é um dia lindo e todos esses discursos motivacionais que, apesar de honestos, perigam a desenhar uma ideia do perfeito viver. Esse pensamento não inclui boletos nem dias que a gente acorda se sentindo um lixo. Respeito, contudo, a legião de pessoas que pensam assim, mas eu sou muito sensível a necessidade de encontrar equilíbrio entre dias bons e outros nem tantos. Porque eles sempre vão existir. Ignorar a instabilidade da vida é escolher sofrer.

O fato é: vou dar um jeito de cuidar de mim.
Não posso negativar minha energia com gatilhos tão pequenos como uma buzinada no trânsito ou uma pessoa que, sabe-se lá por qual motivação, prefere passar dias sem responder minha mensagem. Nada disso tem a ver comigo e é por isso que eu não devo me contaminar.

Com a plena consciência de como a vida real é, cheia de oportunidades e dias ruins pra caramba, vou me colocar como protagonista dos meus dias e buscar calma entre as horas. Ter calma antes de ter outras coisas.

Neste ano quero aprender a me proteger.

—–
por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
@umtravesseiroparadois
umtravesseiroparadois@gmail.com






Estou me acostumando a gostar de novo

Aquele último fim pareceu ter levado um pedaço de mim. 
E aí eu comecei a desconfiar de muita coisa e muita gente. 
Isso tudo dificultou me aproximar de novas pessoas. 
No primeiro sinal de alguém tentando chamar minha atenção, eu me escondia. 
 
“Hoje não dá.” 
“A vida está corrida.” 
“Ando sem tempo.” 
“Fim de semana tenho compromisso.”  
 
Fugia das pessoas e me escondia em mim. 
Nas longas horas do fim de semana. 
 
É por isso que estou me acostumando a gostar de novo e isso está acontecendo com você. 
Estou relembrando o gosto bom de sentir que alguém se preocupa com a gente. 
Assim. Bem na raiz do gostar. 
 
Quando a gente vive muitos fins fica difícil acreditar em novos começos. 
 
Parece que estou reaprendendo a acreditar que as coisas também podem funcionar para mim.  
Olha que louco o efeito que alguém que vai embora da nossa vida causa na gente, né? 
 
Acho que vai ser um erro buscar uma garantia de história feliz para cada pessoa que eu conhecer. Esse tipo de coisa vai fazendo sentindo aos poucos na nossa cabeça. Levei um tempo acreditando que o problema era eu e agora gosto da ideia de pensar que a solução sou eu.  
Aquela última pessoa que passou pela minha vida, hoje passa pela vida de outra pessoa e o que eu posso fazer por mim? Me apegar na dor não vai fazer eu sentir amor mais rápido. 
 
Por isso estou me acostumando. 
Um passinho por dia.  
Uma mensagem sua que me tira o stress e coloca um sorriso de canto. 
Uma por vez. 
Um dia que a gente sai. 
Outro que a gente combina de sair mais. 
 
A diferença do mesmo eu de antes para o eu de agora é que eu estou entendo que quem controla a minha vida sou eu, não alguém que passou por ela. 

Estou cuidando de mim para cuidar melhor de você que agora está por aqui comigo. 

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Desculpa mandar áudio, mas é rapidinho

Pera, comecei péssimo.
Vou mandar de novo.

1 [ deleta clicando na lixeira ]
2 [ clica no microfone, arrasta para cima para manter gravando ]

Então, bom, antes de qualquer coisa, desculpa mandar áudio, mas os imprevistos estão fazendo a gente demorar para se encontrar e eu não consigo mais guardar isso pra mim. Pesado falando assim, né? Você vai entender. Espero não estar atrapalhando e não precisa ter pressa para responder.
Tá, então, porque esse áudio.
Eu nem lembro direito: você odeia áudios, né? hahaha comecei mal.
Nossa, minha voz tá estranha, não repara.
Bom, voltando, queria te falar algumas coisas mas posso já resumi-las em um sentimento: estou com saudade.
Vai ser difícil continuar falando sobre o que sinto por áudio porque esse treco é ao vivo né, então não vou a chance ter control+z – só para explicar caso eu me engasgue. Mas ok, vou retomar, você me conhece e sabe como me distraio.
Estou com saudade de você.
E depois estou com saudade da gente.
E depois estou com saudade de como eu sou quando nós somos a gente.
E tudo isso ao mesmo tempo.
Só que antes de falar sobre a saudade, eu quero falar sobre os erros.
Me desculpa.
Quero te pedir desculpas.
A gente, não eu e você, a gente como ser humano tem um problemasso em pedir desculpas sobre as coisas. E tá na cara que isso tem a ver com a nossa dificuldade em aceitar que erramos. Eu fui meio assim com você. Desculpa pelos meus excessos e minhas ausências porque eu sei que errei na mesma medida. Desculpa pelas vezes que te fiz sentir alguma coisa ruim.
Não acho que só esse pedido vai ser capaz de te fazer me desculpar, por isso, eu realmente quero que a gente se encontre, mas como todas as tentativas não deram certo até agora e logo você vai viajar, eu queria pelo menos te falar sobre o quanto pensei nessas coisas todas.
Eu sinto a sua falta. Sinto que sinto menos coisas boas quando você está longe. Parece que sempre está faltando alo. As coisas que a gente ri juntos não tem a mesma graça sem você. Eu, de verdade, sinto a sua falta. Sabe, – é estranho falar de algo assim por áudio mas vou continuar; sabe, é louco o que a gente sente no segundo seguinte que a gente fala sobre as coisas que a gente sente. Fica até mais fácil entender como terapia funciona. É que aqui, agora, te pedindo desculpas e falando sobre a minha saudade, sinto o quanto isso é forte em mim. Até me falta um pouco de ar hahaha estou ridículo, desculpa. Tá, não vou me prolongar muito mais, esse áudio é para ser uma introdução de algo que ainda quero te falar pessoalmente. Bom, tá, só terminando: foi você ficando longe que eu percebi como me fazia bem te ter por perto – que clichê, né? Mas é verdade. Eu sinto falta de tudo. E, por mais que, de repente, você não sinta nada disso, eu insisto sobre o quanto gostaria de falar isso pessoalmente por que é real. É que não quero parecer que estou me escondendo. Ainda que tudo que eu disser não te faça pensar a respeito, eu preciso te dizer que você foi a melhor notícia dos últimos tempos na minha vida; preciso te dizer que você me faz ter vontade de viver a minha vida de um jeito melhor e aproveitando cada minuto dela; preciso te dizer, ou melhor, preciso te agradecer por tudo o que você já me disse, por toda a companhia e por me fazer acreditar que eu sou uma boa pessoa, apesar do mundo todo tentar me destruir aos poucos. É por isso e muito mais que te peço desculpas e sinto tanta saudade de você. Eu, de cara, entendo totalmente se você não aceitar nada do que estou falando, mas estou sendo agora a pessoa que você me ensinou a ser: quem prefere contar o que sente do guardar e deixar apodrecer – é meio essa a frase, né? Não sei se o que falei em tudo aqui faz sentido, estou falando meio sem parar e sem prestar atenção nas pausas. Vai ser horrível ouvir tudo isso depois – porque eu sou desses. Puts. Olha o tamanho desse áudio, me desculpa, vou parar. Prometi que ia ser rapidinho, mas não consigo ser rápido na hora de falar sobre o bem e a falta que você me faz. Quero te ver.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com











Gosta de mim mas não para algo sério, né?

A gente funciona.
Ou a gente parece funcionar.
Uns gostos diferentes, mas todos os parecidos pesam mais.
Os mesmos planos individuais sobre o futuro, filmes preferidos e aqueles nem tão bons assim.
A noite parece terminar rápido demais.
Corpo selado de suór. Roupa no chão. Tantas vezes.
Dormir e acordar bem no encaixe da conchinha.

Tudo muito bem.
Mas.
Para algo mais sério, não.

Sem motivo aparente mas a minha insegurança imagina que seja a minha aparência. Esse mundo desequilibrado faz a gente se apegar a coisas pequenas demais – e a culpa não é minha.

A gente passa dias conversando.
Combinamos de sair na sexta.
Comer alguma coisa.
Ir para a casa de um de nós.
Se dar conta que o tempo passou e domingo chegou.
Fins de semana diferentes de roteiros iguais.

Mas.
Para algo mais sério, não.

Você nunca exatamente me disse que não.
Mas você não reage ao meu sinal de sim.
Inevitavelmente me vejo como um passa-tempo para te ocupar.
Eu existo até que alguém passe a existir.
Eu sou por enquanto enquanto você busca alguém para sempre.

Acredito na ideia de que conversar é sempre a melhor a saída, mas eu não sei o quanto puxar esse assunto com você só vai me expor a algo que eu já tenho percebido há muito tempo. E aí me vejo numa emboscada: gosto tanto que não quero correr o risco de acabar, mas não sei se quero continuar gostando só do jeito que eu gosto.

E o problema aumenta nas vezes que você diz gostar de mim.
Quando você me chama por apelidos.
Quando você me convida para ir a alguns lugares.
Quando me faz sentir ter um papel de verdade na sua vida.

Porque só eu sei o que sinto quando você manda mensagem dizendo estar com saudade. Eu só não faço ideia do que você sente ao escrever.

No final das contas, o que fica é a conclusão de que gosta de mim, mas não para algo mais sério. É só eu me aproximar de um assunto parecido, mencionar algum casal de amigos ou coisa do tipo que você se afasta; você parece ter encontrado um lugar para eu morar na sua vida mas esqueceu de perguntar se eu gostaria dessa ideia.

E aí, em uma das tantas noites que passamos juntos, eu me vejo te vendo dormir e pensando: “qual é o problema comigo?” Pior que nem sei se é comigo, pode ser só com você e nem você tem exatamente culpa, mas como que a gente administra essas fantasmas?

E nem sei direito se quero saber.
No fundo, eu quero. No fundo, eu preciso. Preciso saber o que pensa para eu saber se penso igual. Porque o tempo que gastamos juntos eu poderia estar aproveitando com quem quer como eu.

Acho que você me convenceu que te faço bem, mas você precisa ver sua cara quando eu falo que gostaria de fazer mais.

Você gosta de mim mas não o bastante para algo mais sério.
Né?
Repito isso pra mim a cada sim que respondo para um novo convite seu sobre fazer algo.


por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com







Você teria a mesma coragem pessoalmente?

Hoje ficou mais fácil.
Eu te mando uma mensagem, você responde. E o contrário igual.
A gente passa dias assim.
A gente vive profundas histórias assim.
Hoje é bem mais simples conversar.

O jeito de se comunicar mudou, mas as coisas que sentimos não.
Do ponto de vista sobre os comandos do nosso coração, tudo continua igual: a gente gosta do mesmo jeito que antes. A gente deixa de gostar do mesmo jeito que antes. A gente começa a sentir e deixamos de sentir.

O problema é que o que deveria ser uma solução, muitas vezes, é um disfarce. Essa facilidade em conversar desperta covardia em nós.

Será que a gente teria a mesma coragem de falar pessoalmente todas as coisas que a gente escreve e manda para alguém? Especialmente as coisas ruins?
É cada vez mais comum conhecer alguém que teve uma história terminada por Whatsapp.

“E vocês lá, como andam?”
“Não anda, terminamos”
“Como assim?”
“Assim: vou te mostrar a mensagem que recebi”



É um teclado na mão, emoji e bênção.

Esse fato acontece também sobre discussões entre família ou amigos.
E aí me vi pensando: você conseguiria falar tudo o que escreve também pessoalmente?

Alguma coisa me diz que seria 100% mais difícil e explico.
Acho que a gente não pensa no que escreve. A gente só escreve. E o teste para isso é contar para alguém o que você está sentindo antes de escrever e mandar para quem, na sua cabeça, precisa receber. Muito provavelmente, por ser uma conversa pessoalmente, você usaria uma estrutura de argumentação diferente daquela usada na escrita; haveria o ingrediente da reação instantânea da pessoa e, por isso, a chance de você refletir e concluir que seu “nem é tudo isso”, por exemplo, é gigante.

Ao meu ver isso acontece porque a gente foge de diálogos.
A gente foge de expor nossa fraqueza. A gente foge de ter um defeito ou erro nosso elucidado. A gente teme sermos vistos como inferiores em qualquer tópico na nossa vida. Quando falamos sobre relacionamentos, inclusive, o buraco fica mais embaixo porque tem uma pessoa que vai ouvir o que queremos dizer e ter que lidar com um sentimento. Não há quem gosta de expor as próprias fraquezas, mas a gente não precisa transformá-las em demônios.

Hoje ficou mais fácil.
Eu te mando uma mensagem, você responde.
Você me manda uma mensagem, eu respondo.
Mas será que se fosse um assunto mais difícil, eu falaria as mesmas coisas que escreveria para você?

O que fica no meio disso é um lembrete: quem vai ler o que você tem para escrever é uma pessoa igual a você, com fraquezas e fortalezas.

Então, por favor, pensa bem antes de acreditar que, em determinados assuntos, uma mensagem é o bastante. Pensa bem como você se sentira ao ler o que você planeja escrever.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com












E se a gente se conhecer primeiro?

Aquele dia foi bom.
E é por isso que gostaria de sair mais vezes.
Quero viver outras coisas juntos.
Sem pressa para acabar.

Você contou o tipo de filme que gosta. Você viu que vai estrear um novo?
Vai ter um show daquela banda que eu te falei. Você topa ir comigo?

Eu não estou brincando com você, até porque não tenho tempo para jogos.
O ponto é que eu tenho medo.
Medo de mergulhar fundo demais e perder o ar.
Aconteceu tantas e tantas vezes antes que agora queria fazer diferente.
Queria experimentar nós dois.
Antes da gente ser amanhã, queria sentir mais do hoje.
Aprendi do pior jeito a falta que a calma faz.

Veja bem: não é nada contra você, é a favor de nós.
Eu, basicamente, quero que a gente se conheça antes de qualquer depois.
Acho que é um jeito cuidadoso nosso de viver nossa história.
Eu estou bem. As coisas estão funcionando. Gosto dessa rotina que já criamos. Parece que a minha vida tem cor agora. De novo: tá tudo bem – e é por isso que eu gostaria que a gente se conhecesse cada vez mais antes de um passo novo ser decidido.

Você, no entanto, obviamente tem a opção de recusar. Estou explicando um jeito que eu acho seguro da gente escrever a nossa história, mas se você tiver outro me avisa.

Em outras palavras: nada vai exatamente mudar, mas a gente vai poder ter tempo e autonomia para observar melhor.

A gente pode cultivar o sentimento bom dos dias para vermos se vamos colher saudade. E eu não quero matematizar as batidas que um coração pode dar; eu quero planejar um espaço bom e fértil para que ele possa florescer sem se preocupar.

A verdade é que eu quero ter mais certeza sobre a gente; se o que sinto é real, se o que sente também, se o que somos aquece meu peito ou é só adrenalina e, sobretudo, se conseguimos ser nós mesmos juntos sem medo de sermos alguém tentando impressionar alguém. A gente não vai se conhecer por inteiro assim, mas eu quero conhecer mais pedaços seus e te mostrar mais meus.

Não quero parecer alguém que freia o ritmo das coisas, mas prefiro que a gente estabeleça esse ritmo antes que algum de nós comece a remar a canoa sozinho – eu já fiz isso.

Eu quero o nosso futuro mas e se a gente conhecer primeiro?

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Queria dar certo com você

Você chegou.
Estou tão feliz.
Como é bom pode matar saudades que matam a gente.
Planejar o fim de semana.
Programar filmes.
Entrar um pouquinho por dia na vida um do outro.
Coisas simples.
Estou tão feliz.

A última pessoa que passou pela minha vida tinha tudo para ter sido a última mesmo, mas ela acabou sendo só mais uma. Fiquei mal. E acho que fiquei pior por pensar que talvez tenha sido, de novo, a minha intensidade metendo os pés pelas mãos e assustando alguém – ou a pessoa só não queria mesmo, ou só não era pra rolar mesmo. Ou esse monte de coisa ao mesmo tempo, mas a gente sempre acha que o problema somos nós, né? Mania besta.

A verdade é que, agora que você apareceu, gostaria muito que a gente desse certo. Um certo que tipo não precisássemos mais procurar um novo alguém de novo – mas eu não quero te prender na minha vida e é importante deixar isso claro, eu só quero dar motivos para que não precise sair dela.

Queria dar certo com você.
Que a gente conseguisse combinar nossos gostos. Que eu pudesse descobrir um eu diferente e que eu pudesse te ajudar nisso.

Eu nem vivi tantas histórias assim antes da nossa, mas acho que bom senso não demanda experiência. As coisas que eu gosto de sentir são as mesmas que eu tentaria fazer você sentir também. Este é o meu ponto de partida, mas a gente poderia fazer de um jeito nosso – o que, naturalmente, vai acontecer.

Queria dar certo com você porque não queria procurar outro alguém.
A gente se cansa dessa jornada.
Se interessar. Conhecer. Conhecer melhor. Acontecer. Terminar.

É que você chegou, sabe?
Queria dar certo com você.
Entender mais do que você gosta, me empenhar em fazer dos nossos momentos algo que seja bom. Te fazer perguntas. Ser a melhor parte de mim e não esconder a pior. Fazer a gente funcionar. Queria dar certo com você.

Enquanto somos nós, queria dar certo com você.
Contar que não sei muita coisa da vida mas que comigo você pode contar.
Você chegou e eu não queria te ver embora. Queria outro caminho para a nossa história. E esse tanto de “queria” só existe porque o medo alicerça o meu querer; medo de querer sozinho. Isso é algo que preciso melhorar.

Mas é isso.
Você chegou.
Estou tão feliz.
Você também parece gostar da ideia de eu fazer parte dos seus dias.
Queria dar certo com você e transformar meu medo pelo fim em motivação para começar.
O primeiro passo eu já tenho: você chegou.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
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beijo.

A gente aconteceu

Você poderia ter fugido.
Poderia ter dito que seria só aquele dia.
Só aquela vez.
Eu poderia ter feito o mesmo.
Poderia ter dito que estava vivendo outras coisas.
Ou que não me sentia preparado para uma nova história.
Essas coisas.
A gente poderia ter sido abreviação, mas a gente escolheu ser parágrafo e travessão.
E aí gente aconteceu.
Você do seu e eu do meu jeito. A gente aconteceu.
Eu falando sem parar, você parando para ouvir.

A gente aconteceu feito a surpresa do dia de sol depois de semanas de chuva.
Encontrei um espacinho na sua risada para encaixar a minha.
E você gostou da ideia de comer naqueles lugares estranhos que eu gosto.
Dentro de um abraço preguiçoso com massagem lenta e cabeça deitada no ombro, a gente morou por muitos minutos enquanto a gente acontecia.

E eis o ponto: a gente ainda acontece.
A gente acontece quando desejamos um bom dia um para o outro; quando perguntamos como foi o dito dia, quando desejamos juntos o próximo fim de semana, quando planejamos shows, filmes e eventos para ir; quando nos marcamos em memes e, a gente acontece quando, do nosso jeito, vamos escrevendo um presente bom para colorir no futuro.

A rotina da vida adulta pode levar a minha energia mas não o que sinto de bom ao ver, toda vez, que a notificação no celular é de uma mensagem sua. É a paz que a certeza traz de ser você dizendo qualquer coisa de uma forma delicada e preocupada que eu possa compreender.

Eu é que não te conto sempre, mas fico observando seu jeito para melhorar o meu. Anoto as lições que me dá em lugares em que só eu posso acessar, do jeito mais leve de conduzir o stress que eu coloco nas coisas, até o seu pragmatismo em esclarecer o que é fato ou fantasia na minha cabeça.

Que bom ter você aqui. Que bom que a gente acontece.
Que privilégio eu tenho de poder melhorar quem eu sou para estar aqui toda vez que precisar de alguém para equilibrar a gangorra da vida.

A gente aconteceu e cuidamos para acontecer um pouquinho mais por dia.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

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Gente, quero tentar organizar uma newsletter do blog. 🙂
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Por enquanto a gente tá só ficando

Nossa agenda já harmoniza.
Nas horas vagas da semana a gente dá um jeito de se encontrar – nem que seja rapidinho na catraca do metrô.
Combinamos na quinta o que vai ser do sábado e domingo.
Planejamos qual vai ser o filme da vez no cinema.
“Sábado a gente vê esse que você quer, mas eu sou o próximo a escolher. Tudo bem?”
Já visitamos exposições que, talvez, não visitaríamos sozinhos.
Mas, por enquanto, a gente tá só ficando.

Nossos amigos já se conhecem.
E faz um tempo já.
Aparecemos juntos em aniversários diferentes.
Já até fomos em shows juntos com os meus e seus amigos.
“Ah, então você é a famosa!”
“Ah, nossa, ela não para de falar você”
Em tempo: já fomos constrangidos pelos mesmos amigos.
Tem um emoji de coração ao lado do seu nome no meu Whatsapp.
Mas, por enquanto, a gente tá só ficando.

Numa ida ao supermercado a gente já comentou:
“Um dia eu faço esse prato aqui que eu adoro e você vai ver o que é comida boa!”
Este um dia, portanto, pode ser no próximo fim de semana ou pode ser daqui há 20 anos. Juntos.
Na fila do caixa, uma vez eu, outra você, pegamos um chocolatinho que o outro gosta.
Mas, por enquanto, a gente tá só ficando.

Quando conversamos com a nossa família, mencionar um e o outro é natural:
“Ah legal, aí eu busco ele e vamos depois, ok?”
“Nossa sim haha, isso é a cara dela!”
Mas, por enquanto, a gente tá só ficando.

A gente tá só ficando mas tá ficando cada vez mais difícil negar que estamos só ficando.
Eu não sei quando isso tudo vai mudar para outro nome, mas eu sei que eu quero. E o primeiro passo para que algo aconteça é a gente querer, né?

Feliz por ter você nos meus dias, não vejo a hora de ter você na minha vida.

Falando em hora, a gente combinou de passar na sua mãe, né? A gente tem que correr para não atrasar para o cinema – a gente sempre se enrola, você sabe.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com


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