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E vamos de me apegar a alguém de novo

É isso.
Agora parece que complicou.
Achei que estava conseguindo disfarçar.
Meus amigos já perceberam.
Quando eu falo de você eu mando “Ahhh haha”.
Primeiro que eu tenho falado de você para os meus amigos.
Segundo que eu falo de coisas aleatórias.
Sinais. A gente sempre dá.
Comecei a elogiar coisas suas totalmente aleatórias.
“Ahhh haha ela é demais, ah, e gosta de séries de suspense e tal”
Tipo. E daí, né?
Mas eu me conheço.
A gente finge que não, teima a aceitar, mas no fundo sabemos quando estamos envolvidos, né?
E acho que a gente teima porque a cada recomeço volta um medo monstruoso de reviver dias tristes, né?

Mas eu já me apeguei a você.
A gente já entrou na fase do boa noite e bom dia.
Puts. Que fase.
Disso para rolê casal no shopping de mãos dadas é questão de dias.
Comecei a ouvir repetidamente umas músicas que você manda e procurar outras para te mandar.
Aquele processo de conquista; de demonstrar que somos pessoas interessantes.
Não forçado. Natural e sensivelmente.
Mas, quer saber?
Eu não tenho vergonha.
Me apeguei. Estou gostando das nossas conversas e planejo coisas pra gente fazer.
O dia que me apegar for um problema eu não vou me reconhecer mais.
O problema nunca vai ser se apegar a alguém, o problema é acreditar que a única possibilidade é a pessoa se apegar também. Essa é uma, jamais a única.
Já me apeguei sozinho muitas vezes. (Na verdade esse é meio que o padrão.)
E sei que já se apegaram por mim também. Que merda não ser recíproco.

Então é isso, Brasil: logo eu que ‘nossa não quero me apegar a alguém tão cedo’ etc, veja bem, estou aqui com o filme pausado há minutos porque não quero que você para de falar.
Estou oficializando tudo isso para mim para que eu consiga me entregar.
Saber onde tudo isso vai dar eu não faço ideia, mas também não gosto de assistir filme sabendo o fim. Eu assisto com atenção e cuidado para encontrar algo que eu goste.
Você já tem tanta coisa que eu gosto. Filme bom de ver desde o começo.
Só não listo aqui tudo de bom que já vi em você porque aí já não é mais apego, é outra coisa. Preciso me proteger por enquanto. Pelo menos até ter claro o que você sente também.
Eu gosto disso nosso, seja lá que nome isso tenha.
Me apegar a você e estar bem com isso é sinal que eu prefiro focar mais na parte boa das pessoas do que nas ruim. E sempre vai ser mais alegre uma vida dedicada a priorizar o lado bom das pessoas – sem ignorar que existem outros.

Como eu já vivi outros apegos antes de você, meio que me sinto na melhor fase para colocar em prática tudo o que já aprendi, e assim, tentar acertar mais do que errar e, ao mesmo tempo, conseguir ter claro o que me faz bem e mal e meu limite quanto isso.
Só não quero limites para você me marcar em memes.
Ou me dizer que gostou de ontem.
Disso eu quero mais.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Uma coleção de dias ruins

Não foi um.
Não foram dois.
Tampouco três.
Foram tantos até aqui.
Um deles deixou cicatriz, outro saudade.
Cada dia com alguém diferente mas sempre com o mesmo eu.
Sentindo cada sabor.
Quando eu me desacostumava com a ideia, lá vinha outra.

Foram tantos desses dias que até viraram coleção.
Daquelas que a gente tira poeira para mostrar para as visitas.

“Teve esse dia aqui ó, apesar de toda a sintonia em todos aqueles meses, ela disse que vivia outra fase”
“Teve esse outro dia que ela simplesmente parou de responder”
“Lembrando aqui, teve esse dia em que eu me senti um lixo mesmo. Esse eu sempre reencontro”

Entre todas as possíveis perspectivas sobre essa minha coleção, a que mais me identifico – apesar de esquecer – é que, apesar de tudo, eu cheguei até aqui.

Esse olhar configura um papo motivacional? É que são fatos.

Cheguei até aqui.
Acho isso louco.

É que a cada novo item que eu colocava na minha prateleira, era mais uma certeza de que ela não ia resistir, e assim, desmoronar.

Só que eu me enganei. Bom demais não estar certo sempre.
Me vi empilhando novos dias ruins. Literalmente em cima um do outro mesmo e a prateleira, apesar de trincado, seguia lá: resistindo.

Só que ao invés de pensar que eu não suportava mais, comecei a perceber que eu era forte pra caralho. Desculpe o termo.
A cada novo dia a minha barra estava mais alta e teria que ser algo mais poderoso para me derrubar. Isso não fazia sentido no começo quando eu olhava um dia isolado, mas quando passei a ver o calendário, pensei: “Teve muito dia ruim mas eu aguentei a cada um deles”.

Eu aguentei. E a cada novo eu sigo aguentando. Será que o mesmo eu de anos atrás aguentaria as últimas coisas que vivi? O que será que meu eu de hoje acharia do peso das primeiras dores que lembro viver?

Passou a ser boa a sensação de olhar mais pelo lado da força que da dor.
Uma vida inteira de dores superadas.
A prova disso é que estou aqui. Um pouco machucado sim, mas o tempo ajuda a curar.
Saber que posso suportar me dá mais vontade de aproveitar os dias bons.

Porra, os dias bons.
A gente vive como se houvesse apenas uma prateleira para preencher.
Um dia comigo, meus livros, minhas músicas e filmes é um baita de um bom dia.
Enquanto empilhava os dias ruins, os bons já ocupavam um armário.
Difícil demais viver nessa gangorra de interpretações da vida, é bem verdade, mas saber que tem uma forma positiva de viver me aquece o peito.

Essa coleção continua aqui.
Sem me esforçar tanto, vou lembrar exatamente da cada momento; me transportar para exatamente o segundo em que escureci por dentro e rezei para ser invisível em cada um dos itens que completam essa coleção.

Eu não preciso ignorar os dias ruins. Tentei tanto. Me apeguei tanto.
Mas posso tentar focar nos dias bons. Outra prateleira para colocar.
Isso é o outro lado da gangorra, sabe? Nela, quando a gente desce a única certeza é que a próxima vez é subir.

Eu cheguei até aqui.
Meu eu de seis meses atrás não imaginaria.
Aguentei.
A gente pode aguentar.
Um, dois, três e tantos outros dias ruins: eu estou aqui. E a cada cair na noite que finda um dia mais forte fico. O problema é de vocês.
Eu posso aguentar.
A gente pode aguentar.
—–
por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

O que sobrou depois que você foi embora

Poderia dizer que quase nada. 
Dizer que me apeguei muito ao que fomos para hoje me sentir tão pouco. 
Poderia dizer que não sou mais o mesmo. Que as coisas quase não têm mais graça. 
Essas coisas. Bem que eu poderia. 
Mas o que sobrou foi o que havia antes de você chegar. 
E, por essa, eu não esperava. 
 
Naquelas de mergulhar demais nas pessoas, a gente esquece do que existia antes de saltar. 
Tenho pensando nisso. 
Aí começou a fazer sentido pensar que, apesar da sua contribuição na minha vida, a sua ida me fez voltar para quem eu sou – agora de um jeitinho diferente. 
É por isso que você sempre vai ocupar um lugar bom aqui. Nossa história me acrescentou. 
 
Eu voltei para mim. 
Com um olhar mais sensível para o que sou, fica mais fácil entender os prós e contras de você ir embora. E, no saldo, os contras não pesam tanto assim. Você foi e deixou tristeza sim, mas eu já tinha sentido algo parecido antes, com outra pessoa, em outra fase da mesma vida. 
 
Acho que o tempo vai ensinando pra gente que cada pessoa desempenha um papel na nossa vida com um limite. Ninguém vai ser tudo. Ninguém vai ser nada. Sempre serão alguma coisa que a gente vai administrando até onde.  
 
O que muda depois de cada fim é o jeito que a gente faz isso virar um recomeço. 

 
Jamais cairia na conversa de te julgar como alguém horrível. Isso seria desonesto comigo mesmo. 
O ponto é que a sua participação na minha vida foi vendaval que agora me faz recolher as roupas caídas do varal. E o negócio é que faz parte. Feliz por não ter tido desrespeito e ofensas. Está tudo bem. Outro fim. Todo mundo já foi vendaval de alguém – ou ainda vai ser. Eu também. 
 
A sua ida me fez voltar para mim. 
Será que soa infantil falar assim? 
Autoajuda demais? 
Mas se eu não me ajudar quem vai no meu lugar? 
 
Você foi e eu fiquei. Logo mais chega outro alguém. E se não for agora, de novo: tá tudo bem. 
Talvez a gente precise olhar as coisas com um carinho mais racional.  
Emoção demais desequilibra a gente. 
Voltei para as coisas que gosto, para a mesma risada, os mesmos amigos, as mesmas preferências, mesmos livros e refrões, mesmos fins de semana, séries preferidas e toda e qualquer outra coisa que sempre fez parte de mim.

O que sobrou depois que você foi embora foi exatamente o que você encontrou quando chegou: eu mesmo. Olha que legal. 

—-
por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Gostar da gente antes de gostar de alguém

A gente tem o nosso tempo. 
Mas a gente sempre quer mais rápido. 
Mais rápido que alguém vá embora. 
Mais rápido que alguém apareça. 
Mais rápido que a dor passe. 
Mais rápido que o amor volte. 
Só que a gente tem o nosso tempo. 

É impossível não afirmar que tem a ver com uma questão de idade.  
Mais jovens, menos responsabilidades e menor a paciência. 
A gente só quer que as coisas aconteçam. 
Mais velhos, com uma responsabilidade nova por dia, a gente se vê sem alternativa a não ser entender o valor do tempo. Ou pelo menos a gente deveria, porque no fim das contas a gente segue querendo tudo depressa até que a chave vire. E a notícia boa é que a gente é quem vira essa chave.  

Ficar em casa passa a ser uma necessidade maior que ficar com alguém. 
Confirmar que anda tudo bem com a saúde é mais importante que ter alguém para andar junto. 
Saber como vai a família é mais valioso do que saber qual festa ir. 
E nenhuma das segundas coisas acima são irrelevantes, o problema é fazer com que elas sejam fundamentais. 
Isso tem a ver com a jornada do amor próprio e o quanto este deve ser o amor perseguido. 

Gostar da gente. A gente não cuida muito da gente. E, nas poucas vezes que sim, perceba, é mirando agradar alguém. Comprar roupas para novas posts. Praticar exercício para novos corpos. É tudo sobre uma busca de aprovação de alguém, sem que esse alguém, muitas vezes, sequer exista.  

“Eu acho horrível almoçar sozinha” – ouvi uma vez de uma amiga. Essa sentença jamais saiu da minha cabeça e relembro a cada vez que almoço sozinho. Parei para pensar na quantidade de gente que deve pensar parecido e que, no fundo, não tolera a própria companhia, seja para saborear um prato de comida ou para aproveitar a si mesmo e refrescar os pensamentos. 

Se a sua rotina é condicionada em ter alguém para fazer coisas com você, é um sinal claro de que existe algo grave acontecendo. Há quem diga, inclusive, que é uma derrota ir ao cinema sozinho. “Total deprê” – e nem vou entrar no mérito de reduzir uma doença a uma gíria. 

A gente precisa gostar mais da gente pela gente. Comprar uma roupa que faz a gente se curtir ao olhar no espelho ainda que ninguém curta se virar post. Praticar atividade física porque nosso corpo é o nosso templo e não a exibição para outra pessoa. Acho que isso tudo tem a ver com inversão de prioridades, isto é, eleger como principal motivação para cada coisa que fazemos com a nossa vida o bem-estar de nós mesmos, antes de também agradar alguém. 

Gostar da gente começando por apreciar a nossa companhia. Desligar a música na volta do trabalho para ouvir a cidade. Chegar mais tarde em casa por escolher o cinema numa segunda-feira. Telefonar para alguém que não conversa faz tempo. Ouvir mais as pessoas. Falar mais sobre o sente. Cuidar de si como prioridade e não como opção.  

Antes de encontrar alguém, a gente deve evitar perder a gente. 

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por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Você ainda não superou

As coisas andam complicadas. 
Já faz um tempo desde que o fim chegou, mas você ainda não sentiu que passou. 
Vocês já não são mais uma verdade. 
A conversa desceu entre as outras no celular. 
Não chega mais notificação. 
Não há mais marcação em memes. 
Não há mais posts – você parou de seguir. 
Não história para acompanhar pelo story. 
Houve um rompimento. 
Vocês eram. Hoje não são mais. 
E você ainda não superou. 

E tudo bem. 
Quem que te determina a velocidade com que a nossa vida deve passar? 
Não há autoajuda que acelere o relógio e é difícil acreditar em simpatias. 
Acontece que você ainda não está bem. 
O que já foi dor hoje é uma saudade que aperta.  

Se te afeta tanto é porque te marcou muito. E que sorte a sua por viver uma história para lembrar. Hoje em dia as pessoas não fazem muito para serem lembradas. A sensação é que todo mundo é meio igual e preguiçoso. Que bom que você conseguiu viver algo bom o bastante para ser difícil de guardar e não olhar mais. 

Você chegou a se permitir conhecer pessoas novas, né? 
Um beijo aqui. Uma noite com alguém ali. Mas o dia seguinte sempre chegou com a notícia de que não é a mesma coisa – é que também não é a mesma pessoa. 
Você fez bem em se permitir, mas pensa se não fará melhor em se proteger. 
As pessoas não sabem como são vulneráveis até que a segunda dor apareça. 
Na primeira é tudo uma questão de “puts, a vida é assim mesmo”, na segunda a gente vê que machuca muito e sorriso amarela na rotina.  

Você não erra em tocar a vida, mas talvez se precipite em esperar recomeçar rápido. 
E talvez. Porque de repente você tem feito o certo. 
Os dias não tem manual de instruções. 
Você ainda não superou. 
As séries começadas juntos serão terminadas separadas. 
Ficar ou não na timeline não apaga as fotos da sua cabeça.  
E não há problema nenhum nisso. 
É que você ainda não superou e tudo fica meio confuso. 
Para melhorar, alguns amigos conseguem piorar: 
“Você não colabora”, “Você não fala em outra coisa” e por aí. Todos bem intencionados. 

Respira um pouco. Deixa o tempo cuidar de você e cuide do seu tempo. 
Você ainda não superou. E não importa as notícias que chegarem da outra pessoa. 
Você tem o seu ritmo de viver. 
Vocês foram um episódio, mas sua vida é a sua história. 
Vai passar. 
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Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Eu me arrependo

Há anos que refrões e textos famosos ecoam: “Só me arrependo do que não fiz”. Essa mensagem é uma ideia verdadeira que leva alívio emocional a nossa vida recheada de decisões e iniciativas que nunca sabemos serem as melhores.  

Está tudo certo com a frase, mas é que, na prática, eu me arrependo sim. 
De várias coisas. Pessoas então, vish. Quem nunca?
Olhar para os arrependimentos com tranquilidade é um gesto de carinho comigo. É muito perigosa a ideia de se prender a frases de efeito que nem sempre causas algum efeito. 

O arrependimento está tradicionalmente associado a uma ideia de culpa. Eu concordo. Mas vejamos por outro lado, é também refletindo sobre o que nos arrependemos que podemos mudar quando a próxima vez chegar. É tolice não acreditar que outras vezes mais nos arrependeremos na vida. 

A verdade é que me arrependo de muitas coisas em vários momentos da minha vida e, se possível fosse, com a cabeça que tenho hoje, tanto eu quanto você, faríamos tudo diferente. Ainda bem, né? Sinal que a gente passou de fase. Essa reflexão é valiosa.

Queria, por exemplo, ter dito outras coisas no lugar das que eu disse. 
No fundo, eu já estava gostando de você. Pouco a pouco eu me convencia de que valeria fazer da nossa história algo mais especial, mas preferi te abreviar da minha vida e continuar me aventurando em outras bocas movido por um instinto de “preciso viver isso”, “não posso perder a chance de sair com essa pessoa porque isso pode nunca mais acontecer”. 

Queria ter me desculpado. 
Me afundei num orgulho mirim só para vencer a olimpíada de quem estava mais certo. Nunca percebi que, de nós, só eu levava a vida como competição. 

Queria ter sido alguém diferente também. 
Não me toquei, mas no fim das contas já cheguei a atuar exatamente da mesma maneira pela qual eu repudiava outras pessoas, isto é, na maré de “pessoas lixo” que, por diversos motivos, cruzam a nossa vida, acabei sendo mais uma entre elas. Eu estraguei os dias de alguém e tenho plena consciência disso. Criei os mesmos jogos em que eu reclamava ser inserido. Ignorei as mesmas mensagens que já mandei – e foram tantas. Na época tudo fazia sentido, mas a minha ingenuidade reside exatamente no fato de acreditar que tudo faz sentido. Nunca que tudo fará sentido. A noção de “fazer sentido” é pessoal. Para mim pode fazer, para você não. Me arrependo. 

Guardei tanta saudade que apodreceu. 
Queria ter dito cada palavra do que sentia, mas o que eu faria com o receio de parecer infantil, desesperado, grude ou outra e qualquer coisa do tipo? 

Grude. Este é um ponto importante. 
Como eu gostaria de ter sido mais eu. 
Depois de alguns capotes na vida, a gente acaba se adaptando a dinâmica de como as coisas foram condicionadas a funcionar. É algo como: “acho que se eu demostrar interesse a pessoa vai se assustar comigo”. Assim, renunciei ao meu desejo bom por alguém por um modo de operar a vida que eu discordo completamente.  

O que eu queria ter dito: 
“Escuta, não sei para você, mas para mim a gente está funcionando de um jeito que tem me feito muito bem. Sei lá o que vai pensar de mim ao falar isso agora, mas não vou guardar algo bom comigo se tem a ver com você. O fato é que gostaria de prolongar por anos tudo isso que a gente tem vivido. Um pouquinho por dia você tem se tornado mais especial. Tirando as palavras bonitas: Você é maravilhosa e precisa ser lembrada disso todos os dias – gostaria que fosse eu a fazer isso”. 

O que eu disse: 
“Hahaha que legal” 

Queria ter permitido que o fim florescesse. 
A gente precisava terminar, mas eu não queria acreditar nisso. Daí fui empurrando a gente um dia por vez. Gostava da ideia de ter você – ou de ter alguém? Vai saber. Mas o fim precisava existir, eu que não me dava conta que a gente já não se fazia tão bem assim. 

Eu me arrependo. 
De várias coisas e pessoas. 
E tá tudo bem eu me arrepender das coisas que fiz – o não fazer consciente é fazer também. 
Que bom que estou por aqui hoje. Que bom as folhas do calendário viraram. 
A importância em refletir sobre o que a gente se arrepende resulta no exercício diário de olhar de forma mais generosa para a imperfeição que somos. 

Uma das principais lições da revisão de arrependimento é a certeza de que a gente não vai acertar sempre. A cobrança por minuto que fazemos sobre nós mesmos fica até mais barata vendo por esse lado. 

Eu me arrependo de algumas coisas e só por isso que eu posso continuar tentando mudar para melhor.

por Márcio Rodrigues. 
umtravesseiroparadois@gmail.com 
@marciorodrigues

Você só me procura quando não encontra ninguém

Fim de um dia de trabalho. 
Oi para os gatos, tiro o tênis, largo a mochila e corro para a cozinha para preparar algo para comer. 

– Vou fazer um stories desse tomate picado. 

Dois minutos depois uma notificação do Instagram me avisa que há uma nova direct. 
De avental, com uma faca na mão e a tábua de legumes com uma cebola pela metade, não consigo me conter e vou dar uma checada rápida: 

– Hmm parece que vai sair coisa boa daí, hein? 

É você me escrevendo. 
Congelo quinze segundos do tempo na dúvida entre responder ou não. 
Largo o celular de lado e volto para o meu jantar. 

O problema é que é assim toda vez. Não eu cozinhando todo dia, mas você vindo puxar assunto do nada depois de desaparecer. No começo isso me animava porque dali nasceria um novo encontro e gosto de quando saímos, o problema é que é cada vez mais óbvio que você só me procura quando não encontra mais ninguém. 

E eu não quero esse papel na sua vida. 
Tampouco quero te cobrar algum tipo de relação que beire a suspeita de compromisso, o ponto não é este. É que cansa a gente sentir que ocupa o último lugar na fila de prioridades. Até mesmo para responder se está tudo bem.

Usando toda a empatia possível, vai ver você até queira mesmo encontrar a mim, talvez seja algo especial de você pela gente, mas você nunca me convence disso. Toda essa possibilidade se faz remota quando depois do nosso tchau você passa a demorar dias para me responder – quando responde -, quando você ignora minhas interações nos seus stories e quando passam semanas sem dar qualquer sinal. Quando estou te esquecendo você volta para atravessar meus dias. 

Já faz tempo que não me faz bem. Nas horas em que você e eu somos nós é sempre incrível, mas tudo vira nada depois que a gente se despede. Se é essa a dinâmica que você prefere para ter algo comigo, isso poderia ser dito e eu escolheria aceitar ou não. A gente precisa contar nossas intenções quando elas envolvem outra pessoa. É que você se esquiva sempre que toco no assunto – e fica impossível eu não me sentir descartável. 

Então, depois que me fez sentido que sempre sou a sua opção quando todas as outras estão indisponíveis, tenho mudado o meu jeito de interpretar você. Meu mundo não vai mais parar para encontrar o seu.

Ainda que insista no mesmo modelo de só me procurar de vez em nunca, no dia que eu sentir vontade da gente você vai saber, do contrário, sua mensagem vai ser só uma nova mensagem.  

Ficou mais claro, porém, o fato de que esse dia pode nunca mais chegar e, nessa sua próxima mensagem ainda que seja para um legítimo oi, outra pessoa pode estar me ajudando fazer o jantar. 

por Márcio Rodrigues. 
umtravesseiroparadois@gmail.com

A gente foi um quase

Esses dias você me visitou. 
Era uma terça-feira como a da semana passada. 
Pela manhã, após o banho, fui ao guarda-roupas escolher uma camiseta para trabalhar.  
 
– Essa usei anteontem. 
– Essa parece uma que usei ontem. 
– Essa já tá bem cansada. 
 
– Nossa, esta. 
 
Peguei, sentei na borda da cama ainda de toalha e, sem querer, rebobinei o filme da minha vida até o nosso primeiro dia. 
 
Voltei para a primeira vez que a gente saiu e você entrou na minha vida. 
Comprei aquela camiseta no intervalo entre a sua mensagem de “confirmado” sobre o que fazer no dia seguinte e o próprio dia seguinte. 
 
Engraçado como um encontro esconde detalhes, né? Ninguém faz ideia do quanto a outra pessoa se prepara para um encontro. Mas também pudera, é praticamente a chance única de deixar uma boa impressão capaz de garantir um segundo, terceiro e vários outros encontros. 
 
Como foi o nosso caso. Aquela nossa primeira vez ficou tão distante da última. 
A gente se viu tanto. A gente saiu tantas outras. 
 
No Whatsapp, a nossa conversa reinou todo o tempo lá no topo. A biblioteca de imagens passou rápido das mil fotos. Memes, pratos feios de almoços gostosos e prints diversos preenchiam nossa rotina. Sinal de que a gente se dava bem. 
 
Eu gostava. 
Quanto tempo a gente aconteceu? 
Se fosse um livro, a gente seria aqueles mais longos ou mais curtos? 
Um filme de três horas ou um episódio de série? 
Livros curtos e episódios de séries não significam histórias para esquecer. 
Talvez tenha faltado a gente ler a trilogia ou assistir à temporada completa. 
Mas foi quase, né. 
A gente foi um quase. 
 
Aquela camiseta não era exatamente especial, mas o significado que ela ganhou sim. 
Inclusive, com a camiseta esticada nas minhas pernas enquanto pensava nisso tudo, lembrei que você disse ter gostado dela. Nunca vou esquecer como meu coração se fez réveillon. 
 
Você fez isso comigo. Desde o comecinho. O que aconteceu com a gente me apresentou uma versão minha diferente; uma versão que virou minha preferida. Gostava das nossas conversas, mas é menos sobre os assuntos e mais sobre o jeito que a gente conversava. Você me convencia que estava interessada nas coisas que eu tinha para dizer, ainda que fosse a minha opinião sobre pastel. Percebi que ganhava mais quando te deixava falar sem minhas interrupções ansiosas. Era por texto. Era pessoalmente ou por olhares. A gente tinha uma ligação que eu vibrava. 

Na época, tão excitado pelo começo, fiquei arrasado com o fim. 
Fiquei pensando se tiramos o celular da tomada antes de apontar cem porcento da bateria recarregada. E talvez eu pense nisso muitas outras vezes. Todo quase gera uma dúvida que a gente vai administrando a cada lembrança. 
Hoje entendo como fomos a página que a gente precisava na história um do outro. Algumas histórias precisam acontecer de alguma maneira, nem sempre da maneira que a gente quer. Talvez a gente tenha sido um quase porque a gente buscava se completar um com o outro, quando a gente já deveria ser completo sozinhos. Um monte de talvez. 
 
Esses dias você me visitou. 
Naquela terça, por meio daquela camiseta, eu voltei no tempo para o exato momento em que toda a minha atenção do mundo estava voltada a você. 
Essa visita no passado abriu uma pasta no meu coração para você chamar de casa. Você fica lá e tá tudo bem. 
Mas, acima de tudo, essa volta praquela nossa fase, praquela versão minha que floresceu com você, me fez pensar que se já senti uma vez, nada impede de me sentir bem de novo como você me fez, como a gente se fez, como eu me fiz. 
 
A gente foi um quase. 
Todo esse tempo depois, hoje gosto de me sentir completo o bastante para somar com outra pessoa e assim transbordar juntos.  
E aquela camiseta eu vou continuar usando. 
Mas não foi a escolhida naquele dia.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com


Uma chance para mim

Peguei pesado demais comigo nos últimos tempos.
Foi foda.
Dá até agonia só de pensar.
Com exceção de quem faz terapia, a gente não costuma muito refletir sobre nós mesmos, né?
E quando a gente o faz é para criticar. Quase sempre.
Já percebeu isso?
É como se fôssemos a pior torcida para nós mesmos.
As coisas podem estar bem, mas se não estarem como gostaríamos, não estão bem o bastante.
Isso sem contar que a gente rejeita quando alguém fala as menores coisas boas sobre a gente. É o elogio que dizemos “não saber receber” sem sequer agradecer; é a roupa que a gente diminui dizendo que foi baratinha ainda que nem tenha existido a pergunta sobre preço.

Me vi reclamando de tanta coisa sem perceber que o fato de já reclamar tanto não ajudava a melhorar.
O trânsito irritou demais. Motoristas confusos quase me fizeram gritar. O trem era muito devagar. A segunda-feira chegou muito rápido. O almoço não foi no lugar que eu gosto.

E quantas pessoas passaram por mim sem que eu deixasse ficar.
Engrossei o coro de que ninguém presta nesse mundo.
Mas eu mesmo não me atentava quando alguém prestava atenção em mim.
Rejeitei a menor aproximação e, quando não pior, atuei em joguinhos de amor que sempre critiquei. Sim, fui quem não respondia por birra. Sim, fui quem dizia que “tava tudo bem” sem estar. Sim, fui quem provocava ciúmes para me sentir especial.

Olha, vou te falar: eu não colaborei comigo.
Me profissionalizei na arte de me apegar à parte ruim das coisas.

A gente fica mais longe daquilo que desejamos a cada vez que não aproveitamos o que a vida oferece – ou que, pelo menos, não conseguimos olhar o que de bom tem nisso.

O bom de virar o ano é que a gente pode revirar a vida.
E eu estou bem nessas.
Já deu.
Preciso dar uma chance para mim.
Abrir mais olhos e menos o celular.

Não acompanho a viagem daqueles que celebram que a vida é cem porcento linda, todo dia que o sol nasce é um dia lindo e todos esses discursos motivacionais que, apesar de honestos, perigam a desenhar uma ideia do perfeito viver. Esse pensamento não inclui boletos nem dias que a gente acorda se sentindo um lixo. Respeito, contudo, a legião de pessoas que pensam assim, mas eu sou muito sensível a necessidade de encontrar equilíbrio entre dias bons e outros nem tantos. Porque eles sempre vão existir. Ignorar a instabilidade da vida é escolher sofrer.

O fato é: vou dar um jeito de cuidar de mim.
Não posso negativar minha energia com gatilhos tão pequenos como uma buzinada no trânsito ou uma pessoa que, sabe-se lá por qual motivação, prefere passar dias sem responder minha mensagem. Nada disso tem a ver comigo e é por isso que eu não devo me contaminar.

Com a plena consciência de como a vida real é, cheia de oportunidades e dias ruins pra caramba, vou me colocar como protagonista dos meus dias e buscar calma entre as horas. Ter calma antes de ter outras coisas.

Neste ano quero aprender a me proteger.

—–
por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
@umtravesseiroparadois
umtravesseiroparadois@gmail.com






Estou me acostumando a gostar de novo

Aquele último fim pareceu ter levado um pedaço de mim. 
E aí eu comecei a desconfiar de muita coisa e muita gente. 
Isso tudo dificultou me aproximar de novas pessoas. 
No primeiro sinal de alguém tentando chamar minha atenção, eu me escondia. 
 
“Hoje não dá.” 
“A vida está corrida.” 
“Ando sem tempo.” 
“Fim de semana tenho compromisso.”  
 
Fugia das pessoas e me escondia em mim. 
Nas longas horas do fim de semana. 
 
É por isso que estou me acostumando a gostar de novo e isso está acontecendo com você. 
Estou relembrando o gosto bom de sentir que alguém se preocupa com a gente. 
Assim. Bem na raiz do gostar. 
 
Quando a gente vive muitos fins fica difícil acreditar em novos começos. 
 
Parece que estou reaprendendo a acreditar que as coisas também podem funcionar para mim.  
Olha que louco o efeito que alguém que vai embora da nossa vida causa na gente, né? 
 
Acho que vai ser um erro buscar uma garantia de história feliz para cada pessoa que eu conhecer. Esse tipo de coisa vai fazendo sentindo aos poucos na nossa cabeça. Levei um tempo acreditando que o problema era eu e agora gosto da ideia de pensar que a solução sou eu.  
Aquela última pessoa que passou pela minha vida, hoje passa pela vida de outra pessoa e o que eu posso fazer por mim? Me apegar na dor não vai fazer eu sentir amor mais rápido. 
 
Por isso estou me acostumando. 
Um passinho por dia.  
Uma mensagem sua que me tira o stress e coloca um sorriso de canto. 
Uma por vez. 
Um dia que a gente sai. 
Outro que a gente combina de sair mais. 
 
A diferença do mesmo eu de antes para o eu de agora é que eu estou entendo que quem controla a minha vida sou eu, não alguém que passou por ela. 

Estou cuidando de mim para cuidar melhor de você que agora está por aqui comigo. 

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

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