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Vamos sim

Vamos pra onde você quiser.  Me chama que vamos. Te chamo e vamos se puder.
Vamos sim! Se tem uma coisa que vamos essa coisa é vamos. E pra qualquer lugar.

Vamos. Me chama que eu vou sim. Onde e que horas te encontro?
E não me importa o lugar, me importa se a gente vai ir juntos.

Vamos sim.
Vamos e vamos mais de uma vez se a gente quiser. Vamos porque pode ser legal e mesmo que for uma bosta, vamos estar juntos – o que sempre é maravilhoso. Vamos porque eu parei com aquela história de falar não e de colocar problemas na frente das soluções. E vamos porque eu senti que você não é desse tipo também.

Vamos porque tem muita coisa na vida que a gente poder perder se a gente não for. Vamos porque é pra frente que se anda sempre. Vamos sim. Se chover a gente pega uma capa de chuva. Se fizer sol a gente passa protetor solar. Se esfriar e a gente não estiver de blusa a gente se abraça. Vamos porque a gente dá um jeito de melhorar se não estiver muito bom.

Vamos porque nas possibilidades ruins da gente ir eu nem me apego tanto assim. Já faz um tempo que parei de ver a parte ruim das coisas.

Vamos porque a gente vai se acompanhar. A gente vai estar perto para fazer qualquer coisa. Vamos sim. Me chama, vou te chamar que também. Que bom que você aceita quando te chamo. Que delícia é quando a gente vive com gente mais do sim do que não. Pode me chamar sempre, não importa pra onde, eu vou dar um jeito de ir e só não vou se realmente eu não puder. Vamos porque eu amo ir com você em lugares que você sugere.

Vamos porque faz bem pra caramba participar da felicidade de alguém.

Vamos sim. Vamos nos ver mais vezes sim.
Vamos fazer algo amanhã sim. Vamos discutir o fim de semana sim. Vamos naquele lugar sim. E se for naquele outro? E se formos nos dois? Vamos.

Vamos fazer nada?
Vamos também. Que série para assistir? Nenhuma?
Vamos ficar deitado no chão da sala esperando a noite cair?
Vamos deixar uma playlist tocando até repetir?
Vamos dormir por aqui só pra ver as primeiras horas do dia? Vamos?
E se a gente sair para um café as 3 da manhã? Vamos?

Vamos! E vamos muito.

Vamos sim. Pode ser hoje. Pode ser mais tarde. Pode ser amanhã também. Depois de amanhã eu tenho compromisso, mas a gente pode se ver depois. A gente se encaixa na programação um do outro.

Eu deixei tanto de ir que hoje eu quero ir sempre e pra sempre eu vou gostar se eu for sempre com você.

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por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
umtravesseiroparadois@gmail.com

Dorme bem, boa noite

Mesmo depois que a gente se despede eu ainda penso um pouco na gente.
Engraçado você ser a última pessoa com quem eu converso antes de pegar o sono. A gente se despede e eu deixo o celular apoiado na mesa ao lado da cama. Levo um tempinho para dormir e, neste tempinho, eu penso na gente e dou umas risadas no escuro. Aí eu durmo, acordo, vou checar o celular e o primeiro app é o Whatsapp pra saber se alguém falou algo nos grupos que silenciei. E aí a nossa conversa tá lá no topo com a despedida da noite passada. E isso me faz bem.

Tem dias que eu abro as nossas mídias que enviamos um ao outro.
Tem cada foto, né? E os áudios? E aqueles gigantes às vezes?
A gente manda coisas dos momentinhos que mais rotineiros do nosso dia. É foto do almoço do metrô lotado, do trânsito, da leitura do dia, várias fotos e memes. A gente ama memes. Tem também alguns prints de música com recomendações “escuta essa banda”; alguns prints de conversa com reações de outras pessoas quando falamos sobre a gente, alguns pedacinhos de mim e de você que constróem o nós.

Parece que o dia não termina se eu não ler seu boa noite. Olha que bobagem minha, né? Não que eu te cobre, é só que eu gosto de ler e que faz parte da gente.
Mas não adianta, todo mundo tem um pouco disso numa fase dessa, né? São uns detalhezinhos que compõem uma história. E eu gosto tanto de detalhes. Eu já percebi, por exemplo, quais são seus emojis preferidos. Já confirmei que quando você acha algo engraçado mesmo você digita HAHAHAHAHA mas quando você acha algo só divertido é hahahaha. É sobre o seu jeito.

Gosto de sentir que estamos participando da vida um do outro e não me incomoda saber a parte não legal dos seus dias. Não me incomoda quando conta que acordou de mau humor ou que teve um dia chato no trabalho. Não me incomoda porque a minha sensação de pertencimento é maior; a sensação de você me convidar pra fazer parte da sua rotina é maior.

E me faz falta quando a gente fica um tempo sem se falar por qualquer que seja o motivo. Não é uma tristeza, é uma saudade. Uma saudade boa que se tivesse voz falaria “ah, cadê você?”. E, ao mesmo tempo que essa saudade vem, vem também uma alegria secreta e que ilumina meu rosto quando vejo que a notificação é sua. Eu já me acostumei com o seu nome na tela do celular.

Nossos dias são tão nossos.
Ainda não é hora de falar de futuro, mas sim de celebrar o presente.

Dorme bem, boa noite.
Mesmo depois que a gente se despede eu ainda penso um pouco na gente.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
umtravesseiroparadois@gmail.com

Você estava aqui o tempo todo

 

Leia ouvindo:

Mas eu nunca te vi.
Pelo menos não com olhos novos.
Mas também, pudera, as circunstâncias não eram favoráveis para te ver diferente. A gente vivia voltas completamente diferentes do mesmo mundo e o lugar que poderíamos ocupar na vida um do outro não ultrapassava o limite de trocar algumas verdades sobre dias bosta e dias ruins, especialmente envolvendo pessoas que se envolviam nos nossos sentimentos. Em outras palavras, a gente entendeu que funcionávamos bem ajudando um ao outro a desenroscar os nós da vida.

Todo mundo tem um lugar na vida de alguém.

Eu tinha um lugar muito meu na sua e você um bem seu na minha. Bons lugares. Um quentinho que dava segurança quando algum de nós chamava o outro para alguma atualização da rotina sentimental – e assim seguíamos. Tudo parecia bem. Tudo parecia normal.

Começou a mudar quando comecei a sentir um coisa nova com seu nome aparecendo na notificação Whatsapp no celular. Uma coisa nova bem difícil de explicar. No começo, confesso, preferi me afastar um pouco para confirmar se era mais uma vez um problema meu de tradução com o meu coração ou se, dessa vez, era ele sendo objetivo para me impressionar.

Nosso coração fala sozinho, não adianta querer puxar conversa. Uma hora ele toca no assunto e começa a fazer a gente pensar.

E eu comecei a pensar. Comecei a pensar no quebra-cabeça da sua vida e eu como eu tenho peças para te ajudar a completar. E nessas de começar a pensar veio esse novo olhar meu sobre você. Comecei a te perceber. Você sempre esteve ali, eu sempre estive aqui só que estava difícil da gente se encontrar.

Eu sempre te via, mas nunca te olhava.
E e este olhar é um passear timidamente pelo seu rosto. Esse sorriso, por exemplo, sempre esteve aí mesmo? Você tem certeza? Como que eu não via assim antes? E as pessoas que estavam mais perto dele do que eu? Elas falavam sobre o que ele faz a gente sentir? Deixa eu falar um pouco disso?

É que eu percebi que seu sorriso é o farol do seu coração.
E não é a toa que ele é tão bonito.

É um pedacinho do que há de melhor ainda mais dentro de você. É um feixo de luz tipo aquele de sol de outono que invade o quarto nas tardes pela cortina. Pela primeira vez eu percebi seu sorriso e até revi umas fotos para confirmar. E, de vez em quando, esse seu sorriso aparece sem sorrir, tipo esticam-se os lábios mas sem mostrar os dentes.

Entre aneis, pulseiras e chokers, não foi somente no cuidado com a escolha dos acessórios que comecei a te olhar. Eu percebi como a sua risada emendava a minha e vice-versa. Mas será que sempre foi assim e eu não via? Será que eu já tive sinais assim antes e ignorei todos? É bem estranho tanta coisa fazer algum sentido hoje sendo que antes eu nem dava atenção.

Eu comecei a analisar seu jeito. O jeito de amarrar o cabelo, a combinação da meia calça ora com shorts ora com saia. Comecei a entender os momentos que você coloca um gíria no meio de uma frase – e comecei a ver graça nisso tudo. É que talvez tenha sido eu encontrando em você coisas que eu só enxergava em mim ou, além disso, talvez tenha sido e esteja sendo eu encontrado em você coisas que eu não encontrava em nenhum lugar. Sei lá, tipo o seu cuidado em comentar as coisas que te digo só para não me deixar com a sensação de que falta uma resposta. Isso não é normal. As pessoas não se importam.

Por favor, não se assuste com essas coisas que estou te contando. As pessoas boas precisam saber o quanto elas são. E eu não trouxe nenhum contrato para você assinar, mas trouxe uma visão minha sobre coisas em você que talvez não saiba o quanto são bonitas.

A luta pelo seu sonho começou a fazer sentido pra mim; o espírito de liderança e zelo com sua família parecem sincronizar com o que estou desenvolvendo aqui em casa. Percebi que você mudou. Percebi que você escolheu sofrer menos uma dor e optou por deixar acontecer ou como diz a música gotta let it happen. Parece que a nossa consciência – ou pelo menos a minha – resolveu perguntar: “Vocês já perceberam o quanto buscam as mesmas coisas em pessoas que não conhecem enquanto essas coisas estão em vocês dois?”

Dá um medo, né? Como é que ontem a gente era uma coisa e hoje a gente meio que fala na possibilidade de ser outra? Meu medo só não é maior porque eu tenho confiança de quem você é de como seu coração ainda carrega os mesmos curativos que o meu. A gente sabe o que passou. E essa confiança me faz relaxar para, por exemplo, encaixar uma conchinha em você tipo aquele dia – apesar de tudo meio novo e inesperado, lembra?

Eu confio no que eu conheço de você e me empolgo com tudo o que ainda não sei. É uma empolgação que não é sobre encontrar semelhanças, mas sobre combinar nossas diferenças e temperar nossos dias com um sentimento ao nosso gosto – que eu nem sei o nome que vai ser.

Eu gostei de visitar o seu abraço, mas e se eu quiser morar nos seus braços?
O seu cheiro de futuro bom harmoniza com o meu desejo de proporcionar e dividir felicidade.

Apesar da gente poder passear esse mundo inteiro se a gente quiser, eu não vim a esse mundo a passeio. A verdade é que pra mim felicidade é coisa séria; é a dedicação que eu gosto de ter para fazer alguém verdadeiramente feliz; é cruzar nossos sonhos e planos e encontrar rotas para percorrer acompanhados um pelo outro. E aí eu provoco: e se esse alguém for você que estava aqui o tempo todo? E se o seu alguém agora for eu? E se o nosso nós for a gente?

Você estava aqui o tempo todo.
Mas eu nunca te vi.
E agora não quero parar de te olhar.

 

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
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Não é amor, é vício por alguém

Isso acontece.
Algumas relações passam da fase do amar alguém e entram para aquela de depender desse alguém. É sobre não enxergar mais defeitos e desgastes – ou fingir não enxergar – e atropelar o amor próprio só pelo amor que sente por outra pessoa.

O amor não existe para ser algo ruim. Amor não é uma meta, é um caminho. É o caminho do compromisso, do carinho, admiração, do gostar de ficar junto mas, sobretudo, do respeito. De novo: O amor não existe para ser algo ruim.

O amor passa a ser vício quando uma pessoa passa a não existir mais sem a outra. É quando elas se tornam indissociáveis uma da outra. E tem mais gente do que a gente imagina vivendo assim.

Ter um vício já é ruim em qualquer circunstância, agora, ter vício por alguém é pior ainda. Vício por alguém é quando você não liga mais para si em prol da outra pessoa. É quando você vê que as coisas não avançam, mas você parece não acreditar e continua empurrando com a barriga. É quando, portanto, a pessoa oficialmente passa a te fazer sofrer mas você não consegue terminar essa relação.

O vício por alguém não se manifesta assim muito claramente justamente porque pode ser confundido com um amor super intenso. A linha é bem fininha, mas dá para enxergar diferente.

O amor é sobre união e gostar de somar as coisas que não se parecem muito numa relação. É construir uma casinha sólida com um tijolinho por dia. Agora, o vício por alguém, é basicamente você encontrar qualquer desculpa para justificar os dias de bosta que tem vivido com uma pessoa. É enganar a si, é fantasiar que é uma fase – apesar dessa fase já durar meses, algumas vezes até anos.

A gente sabe que muitas vezes é automático, mas você não pode ser o plano B da sua própria vida e nenhuma relação é justa quando um dos envolvidos se sente assim. Este é um pequeno indício de que algo não está normal e, se você não consegue avançar para resolver, pode significar que talvez você seja uma pessoa viciada em outra pessoa. E este vício se manifesta naquele sapo gigante que você engole só para não brigar, naquela grosseria que não precisa se submeter, no perdido que a pessoa te dá mas que você sorri antes de encontrar, no jeito de aceitar pedidos abusivos de alguém, em como você se afasta de pessoas que sempre gostou só porque a pessoa que está com você não gosta assim delas. Uma pessoa viciada em outra pessoa é alguém que gosta de dizer que ama profundamente, de um jeito especial e proprietário mas que esquece do próprio amor.

Presta atenção. Tenta refletir se talvez você não consegue, por exemplo, terminar com a pessoa porque você já está viciada nela e nos costumes que criaram juntos, apesar de, lá no fundo, você não sentir mais como sentiu um dia, você não conseguir mais se animar tanto e, quando não é o pior, você passar a sofrer consistentemente a cada dia.

Pode parecer que é, mas o que você sente não é amor, é vício por esse alguém.

E todo vício mata aos pouquinhos enquanto o amor deveria construir.

Lá no fundo, você sabe que ultimamente nada tem sido construído.
Isso acontece.

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por Márcio Rodrigues.
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Quando a solução é partir para outra

Demorou mas agora a ficha caiu.
O que está claro para mim hoje é que nunca fui para você nem perto do que eu te considerava para mim. O problema é que quando estamos envolvidos com alguém, completamente mergulhados no que sentimos, fica muito difícil colocar a cabeça para fora e enxergar a vida acontecendo exatamente como é. E, desse modo, a gente tende a enxergar as coisas que queremos viver, ou seja, eu passei muito tempo te enxergando ao meu lado mas isso era mais o meu desejo do que a verdade sendo real.

Eu só consigo perceber agora que por muito tempo fui eu tentando chamar sua atenção enquanto você mal sabia chamar meu nome. Eu só consigo perceber agora que você ignorou exatamente todos os meus convites pra gente fazer algo, só que a minha cabeça mentia para mim dizendo que você parecia realmente estar ocupada.

Ninguém é tão ocupado assim. Eu é que nunca fui relevante assim para você.

E isso explica também todas as vezes que me ignorou e sequer me respondeu uma mensagem. É só abrir o histórico das nossas conversas e você vai ver o quanto era eu puxando assunto com você, e você, ao invés de me esclarecer que não ia acontecer nada, do nada aparecia feito fantasma desgraçando a minha cabeça e me fazendo acreditar em alguma coisa – sendo que essa coisa nunca existiu. Vê a bosta?

Quando a solução é partir para outra.
Quando a solução é partir para outra é quando alguém parte nosso coração. É quando a gente deve recolher os pedaços desse coração e deixar que o tempo os una novamente. O tempo e alguém que aparecer com vontade de ajudar a curar os machucados que os cacos fizeram. O tempo, alguém e nós mesmos, sempre nós mesmos.

A solução é partir para outra quando fica claro que a gente parece remar em uma canoa furada; quando a gente parece querer viver a dois uma história que alguém quer viver sozinho – ou não com a gente; quando a gente vê que dá para escrever uma novela das 9 em todos os papeis de trouxa que fizemos. Em momentos como estes a solução é partir para outra. Seguir em frente. Sair do lugar. Sacodir a poeira. Parar de fazer perguntar, esperar respostas e apontar culpados. Partir para outra.

A solução é partir para outra quando nada do que a gente fizer vai fazer alguém ficar com a gente. Não é sobre a gente. Não é sobre nossos defeitos. É sobre não dar certo. É sobre nem tudo sair como o planejado, nem tudo acontecer como esperamos. A solução é partir para outra quando fica claro para você que já fez tudo o que podia e nem mesmo tudo feito foi o bastante.

E é isso que eu vou fazer.
Vou partir para outra história, começando e terminando em mim e não mais em alguém como cheguei a pensar, não mais em você como cheguei a pensar, não mais em algo que nem existe que eu sozinho quis acreditar. Não mais.


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por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
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Quando alguém está emocionalmente indisponível

Apesar da delícia da vida ser o jeito surpreendente com que ela se apresenta pra gente, há momentos em que não estamos tão propensos a viver essas surpresas. Isso é estar emocionalmente indisponível.

Estamos sujeitos, por exemplo, a nos apaixonar a qualquer momento. Isso pode acontecer. Só que nem sempre estamos em um momento que privilegia isso acontecer, ou seja, nem sempre estamos facilitando, nem sempre estamos dando abertura e nem sempre conseguimos ser recíprocos. Isso é estar emocionalmente indisponível.

É meio louco porque pode aparecer a pessoa mais perfeita para você na sua frente, mas você não se empolga como pensa que deveria. Você simplesmente não consegue. O seu momento simplesmente é outro e a gente precisa respeitar os momentos da vida.

Quando estamos emocionalmente indisponíveis é quando não estamos conseguindo lidar nem com as nossas emoções imagina então com a de outra pessoa para viver uma história? É meio injusto sim porque tem a ver com a possível entrada de outra pessoa na nossa vida para somar muitas coisas boas, mas, é algo inexplicável. Não dá para reagir aquela mensagem, não dá para confirmar que vamos combinar de fazer algo mesmo, não dá para ser tão profundo como sempre fomos em outra fase.  É injusto também porque isso bate de frente com a ideia de se permitir e tentar algo, mas tem mais a ver que essa indisponibilidade emocional simplesmente bloqueia a pré-disposição, isto é, quando o momento é esse não dá para forçar viver outra coisa. Agora, neste momento, não vai rolar.

Muita gente, porém, é bem covarde nessas horas. É quando essas pessoas acabam começando histórias sabendo que, lá no fundo, elas não estão tão empolgadas assim. Pensando bem, talvez seja exagerado chamar de covardia porque pode ter a ver com a pessoa tentar mudar e isso é bom. O problema começa a aparecer quando a pessoa sabe que está fria, sabe que não está normal, faz aquela cara de bode quando chega mensagem no whatsapp, isso quando não beija sem tanta vontade, mas prende a gente ao lado dela! Isso é covardia! O processo de entender que o momento é emocionalmente indisponível leva um tempo, mas não precisa levar outra pessoa a loucura com tanta estranheza numa história.

Talvez você esteja vivendo algo assim e não se deu conta. A culpa não é do mundo, é que você talvez esteja se forçando a viver coisas que simplesmente não consegue agora. Talvez sim você precise ficar mais em casa na companhia do Netflix do que sair para arranjar outra companhia. Talvez você precise ficar com você agora, não com outra pessoa. Talvez precise cuidar melhor das suas feridas passadas. Talvez precise de mais dias de pijama do que dias de shopping.

Talvez você esteja vivendo algo assim com outra pessoa. Talvez essa pessoa esteja tentando fazer dar certo mas vivendo uma fase confusa; mas você tem apenas a leitura de que ela está estranha, isso quando não começa a pirar procurando culpa em você para as coisas não irem bem. Talvez nem a pessoa mesmo saiba porque está estranha e não consegue lidar bem isso nem ser clara nas respostas das suas perguntas. Talvez a pessoa esteja perdida demais para a vida dela encontrar a sua. Talvez você precise deixá-la ir para que ela possa voltar – se é que ela precise voltar. Talvez você possa se acalmar ao pensar que isso tem mais a ver com ela do que você e que, de certa maneira, é até bom saber disso para que você possa partir para outra história.

Penso que o estado emocionalmente indisponível não é uma escolha, mas uma condição da vida. Difícil demais explicar que você conheceu uma pessoa incrível mas não consegue se entregar para viver algo com ela. Difícil demais saber que você é uma pessoa incrível mas a pessoa não consegue se entregar para viver algo com você. Difícil demais é viver porque o papel que você ocupa hoje, amanhã outra pessoa estará ocupando em um história com você. Mas nunca falaram que a vida era fácil, né?

Vai ficar tudo bem. Da mesma forma que aparece o momento emocionalmente indisponível vai aparecer o ansiosamente disponível. Não dá para dizer se há certo ou errado, o que dá para ter certeza é que a gente precisa respeitar a fase que vivemos ao invés de forçar viver outra coisa.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
umtravesseiroparadois@gmail.com

 

 

Deixa a pessoa saber que você sente algo diferente

Você pode pensar:
“Ah tá, vou falar que gosto da pessoa pra ela falar que não gosta de mim”?
E o fato é que sim: vai fazer isso sim. Porque você vai falar que gosta mas não esperando que a pessoa goste também, mas para que ela fique sabendo disso.

Muitas vezes a gente perde oportunidades só com medo do resultado das nossas ações não serem como esperamos. E isso é louco porque, veja só, muitas vezes também é justamente a partir do momento que alguém sabe algo do tipo de você que alguma coisa pode acontecer – ou não, temos que ser honestos.

Não dá para garantir, mas as possibilidades são grandes de alguém virar a chavinha e perceber interesse em você quando você conta que há interesse por esse alguém.

O problema é você guardar isso só para você. Não precisa disso.
Dá para entender que suas experiências anteriores nesse sentido também não colaboram para você se sentir a vontade de revelar que gosta de alguém, afinal, tem gente que fica sabendo disso e começa a se achar a última bolacha do pacote, né? Sem contar as pessoas que ficam sabendo de algo assim e começam a achar a pessoa que revelou alguém “fácil demais” (isso é até meio nojento de pensar, na real). Dá para entender e faz sentido. O ponto é que AS EXPERIÊNCIAS ANTERIORES NÃO PODEM COMPROMETER AS PRÓXIMAS.

Espera a hora, mas conta que você gosta.
Espera a hora porque você precisa pensar com carinho sobre isso. Vai que é só um fogo? Vai que é só um sentimento doido que aparece do nada? Não quero dizer também que tem que esperar para saber se É AMOR, claro que não, mas é só para você ponderar e não falar uma coisa dessas sem pensar. Espera a hora para você se avaliar e não se expor demais e, na pior hipótese, se arrepender depois, sabe? Mas, depois de fazer isso e entender que rola sim um sentimento, digamos, diferente, DEIXA A PESSOA SABER DISSO.

Conta! Arranja uma maneira, mas conta. Toma cuidado para não jogar a expectativa nas alturas e, eventualmente, se frustrar com a resposta, mas conta. Dane-se a reação dela, se vai se assustar, se vai ser recíproco ou não, mas deixa ela saber que você sente uma coisa diferente, uma coisa especial, um algo a mais ou qualquer outro nome que você quiser dar.

O fundamental, porém, é você só se proteger. Conta sabendo que um “infelizmente não sinto o mesmo”, “infelizmente não te vejo assim”, etc, pode vir. Estou insitindo nessa possibilidade porque ela é bem real mesmo. Temos que tomar cuidado para idealizar menos e vivenciar mais. PORÉM, a possibilidade da pessoa passar a te ver diferente também, da pessoa também já sentir algo de antes e se encorajar para te contar, a possibilidade da pessoa perceber que, no fundo, ela também te via de um jeito que não conseguia explicar e só entender depois que você contou, todas essas possibilidades são muito reais também. E como descobrir? Só depois que você contar.

Deixa a pessoa saber que você sente algo diferente.
Se ela não sentir o mesmo, respire e não esquenta, esta certamente não foi a primeira pessoa que você sentiu algo assim e não será a última. Seu coração vai continuar batendo.

Você pode pensar:
“Ah tá, vou falar que gosto da pessoa pra ela falar que não gosta de mim”?

Ou pode pensar:
“Vou contar o que sinto porque é uma coisa boa e coisas boas não podem ser guardadas. Não é sobre o resultado é sobre a iniciativa”.

Faça a sua escolha e faça feliz a si antes de esperar que alguém faça.

por Márcio Rodrigues
@marciorodriguees
umtravesseiroparadois@gmail.com

 

“Não tenho muito ciúmes, só o normal”

 

Você ainda não percebeu, mas teu ciúmes está te matando.
Mas antes disso vamos falar sobre o dito “ciúmes normal”. Veja bem, o normal para a pessoa A pode ser completamente diferente da pessoa B. Então essa qualificação não é tão precisa. Não tem problema você admitir que tem ciúmes, o problema é você não saber controlá-lo. Então esqueça esse papo de “tenho ciúmes normal”, mas sim reflita se você é alguém que consegue controlar seu ciúmes. E aí que a dúvida nasce: você é esse alguém?

O ciúme incontrolável não mata só a você, mas a relação que você tenta manter.
O ciúme é um problema que se manifesta de formas diferentes. Nem sempre é apenas sobre interrogatórios do tipo “quem é aquela pessoa?”, muitas vezes é sobre “vamos embora logo?” O ciúme também se manifesta em forma de possessividade, quando um dos dois em uma relação não admite que vivam com outras pessoas em nenhum outro momento que não os obrigatórios, tais quais aniversários, por exemplo. Ou só quando alguém não faz nada sem a companhia de outro alguém; quando alguém precise ter por perto, saber onde está, fazendo o que e com quem.

Se você é do tipo de gente que fica de olho no celular de quem você vive uma história só para saber com quem a pessoa está falando, você é alguém completo em ciúmes. Se você fiscaliza as fotos que a pessoa curte, você é alguém complete em ciúmes. Se você é do tipo de gente que sempre pergunta tudo o que a pessoa conversou com alguém, você é alguém completo em ciúmes. Se você é do tipo de gente que não sabe respeitar o espaço e individualidade entre você e a pessoa com quem vive uma história, você é alguém complete em ciúmes. E você me parece também alguém completamente perdido.

Ciúme também está relacionado a um gigante problema de insegurança. Há quem diga que os traumas do passado são as justificativas do ciúme do presente; é algo sobre o medo de ser deixado para trás como foi outrora, é algo sobre como se esforçar para não viver tudo de ruim que viveu com alguém antes. E aqui temos outro problema: os traumas do passado não podem comprometer os dias do futuro. Portanto, este papo não é bacana. É como se você obrigasse alguém a aceitar todo o seu ciúme, afinal, VOCÊ passou por coisas ruins antes. É um grande egoísmo sentimental.

Ciúme todo mundo tem. O problema não é esse. O problema é quando ele começa a ser maior que qualquer outro sentimento, especialmente, a confiança. Alguém que confia em alguém é alguém que sabe controlar o ciúme. Ao mesmo tempo que, alguém que não dá motivos de desconfiança para alguém, é alguém que colabora para não haver ciúme na relação. À parte desses exemplos, é profundamente perigosa uma relação possessiva onde alguém da história manipula o coração de outra pessoa, confundindo o cérebro, para que esta outra pessoa deixe de ser si mesmo para agradar ambos. É bem sério quando alguém pede para alguém parar de falar com outro alguém só porque, por exemplo, “não foi com a cara”. É ainda mais sério quando alguém pede para alguém ACABAR COM A AMIZADE que já existia antes só porque “não bateu o santo” ou coisa do tipo. Esta é uma relação abusiva disfarçada de relação sincera. Relacionamentos não são contratos cheios de cláusulas para cumprir.

Reflita sobre o seu ciúme. Reflita se talvez você não esteja sendo uma pessoa sentimentalmente manipuladora e que faz uso do sentimento construído entre vocês dois para satisfazer seus desejos. Reflita se majotariamente a preocupação é sempre sobre você e nunca sobre a pessoa. Reflita se a pessoa com quem você vive uma história está feliz de verdade como ela te responde que sim quando você pergunta. Reflita se ela não está só evitando aumentar problemas. Reflita se o teu ciúmes saiu do seu controle de tal forma que até parece normal hoje em dia.

Você ainda não percebeu, mas teu ciúmes está te matando. Mas você pode perceber.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
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Quando o perfume da pessoa fica na nossa roupa

Vocês combinaram e saíram.
Inclusive saíram daquele papo de “vamos combinar um dia” e realmente combinaram.
Marcaram de fazer algo que os dois gostassem.
Tudo correu bem, tudo foi muito bom.
Uma despedida. “Adorei hoje”, “eu também”. E aí você voltou para casa.
E, no caminho de volta, percebeu que não estava sozinho. Havia uma novidade te acompanhando nessa volta solitária e cheia de pensamentos que não paravam de nascer. E você não percebeu essa novidade intencionalmente, foi algo que te surpreendeu e te deu até algum susto. Havia um cheiro novo em você. Um cheiro que não estava com você na ida mas estava fazendo parte da sua volta. Você puxou um pouco sua roupa e lá estava ele: o perfume da pessoa. E você sorriu meio sem graça. Forçou com a memória para tentar lembrar-se de qual momento em que esse perfume saiu do corpo da pessoa para fazer parte da sua roupa. E não conseguiu lembrar direito. Era uma sensação estranha, boa, mas estranha, sei lá, engraçada. Parecia que a pessoa estava voltando para casa com você. Era como se um pouco dela fosse dormir com você. Era aquele mesmo perfume que te roubou a atenção logo no primeiro oi. Lembra?

Você chegou em casa. Escolheu não tomar banho. Deixou sua roupa na cama e o mais louco aconteceu ao colocar a roupa de dormir: o perfume da pessoa ainda estava muito presente, ainda estava ali completamente e você se deu conta então que aquele perfume não estava só na sua roupa, mas sim na sua pele. O perfume se agarrou ao seu corpo feito abraços no inverno. E perceber isso te levou de volta para aquelas horas atrás, aqueles momentos, todo o passeio e tudo o que houve. O perfume da pessoa te levou até ela novamente.

Não é só um perfume na roupa. É a pessoa toda.
Não é só um perfume. É um resgate de lembranças tão recentes, logo ali de antes do “me avisa quando chegar em casa?”. É voltar para os bons momentos de horas atrás. É vir a mente de novo o jeito que a pessoa dá risada e a opinião dela sobre as coisas, das pequenas às maiores. Não é só um perfume. É imaginar o momento em que essa pessoa fez o perfume beijar a própria pele. É pensar que, pelo menos durante o simples abraço de oi ou de tchau, você foi a pessoa mais perto dessa pessoa no mundo, você e o perfume dela se tornaram uma coisa só entre os braços. É um pouco dessa pessoa ficando na gente também. É a gente ficando bem com esse perfume que ficou. Não é só um perfume. É a escolha do perfume que essa pessoa fez pra encontrar com a gente, por mais que seja o perfume de sempre – por quê não ver o normal também como algo diferente? E aí a gente até pensa: “Será que mando ou não uma mensagem contando que todo esse perfume ficou em mim?”

Quando a gente sorri ao perceber que o perfume da pessoa ficou na nossa roupa, a gente também pode começar a perceber que talvez sejamos nós querendo ficar na vida dessa pessoa.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
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Obrigado

Leia ouvindo:

Eu tenho uma lembrança muito especial da gente assisitindo pica-pau juntos no SBT. “Vai começar pica-pau” você me avisava. Mas tenho outras memórias também. Lembro de você cortar o bife em 456 pedaços só para eu ter o mínimo trabalho de praticamente só engolir – fico pensando se te decepcionei quando me tornei vegetariano aos 14 anos. Acho que não. Eu lembro de quando cortava minha franja que já entrava nos olhos. Ficava de cócoras no banheiro e passava a tesoura. Ficava meio torto sim, mas eu não me importava muito. Teve aquela vez que você me ajudou a tirar o dente de leite. Eu chorava tanto. E o meu bigode? Apesar dos meninos na escola começarem a me zoar com aquela penugem, você avisava que era melhor eu não tirar porque se não eu teria que tirar sempre a partir dali. Mas teve um dia que tirei sim – estava muito feio! Inclusive quando me dava bronca você apontava para o bigode como um sinal de quem sabia do que estava falando, um sinal de respeito, um sinal de “me obedeça”. Que via pensava que era durão, mas nem era. Na rua, quando eu jogava bola com meus amigos, você assobiava no portão e lá de longe eu ouvia. Era o sinal para eu entrar em casa e, provavelmente, jantar. Teve uma vez que a gente foi comprar um chuteira nova pra eu ir pro treino de futebol na época. Tiveram esses e outros momentos que a gente viveu.

E teve toda a parte difícil também. Teve uma parte só minha toda difícil que ninguém faz ideia. Ninguém faz ideia. Teve a parte de eu chegar na rua de casa e ouvir vocês brigando. Aí eu sentava na calçada em frente o portão e chorava esperando acabar a briga pra entrar em casa. Uma vez eu ouvi a briga de longe e fui até o supermercado do bairro ficar dando voltas pra passar o tempo. Você não sabe, ninguém sabe, mas eu mesmo causava os meus espirros na madrugada só pra vocês pararem de brigar entre vocês e começarem a brigar comigo. Essas brigas me deixavam muito triste. Ver vocês assim me fazia muito mal só que eu não podia fazer muita coisa na época. E pelo menos vocês sempre se respeitaram e não houve episódios mais sérios. Ser filho único é bem complicado em momentos como esses. Ser filho único, de família minúscula, sem conhecer os avós, sem ter uma casa da tia na vizinhança. É muito difícil. Foi muito difícil. E foi aí que eu tive uma primeira grande lição na minha vida: foi vendo toda a parte ruim dessa convivência que, dia após dia, fui colocando uma vontade na cabeça de viver totalmente o contrário. Em teoria era para eu ser mais um a reproduzir todo o stress de vocês assim que eu crescesse, mas eu fui pelo contrário. Foi vendo cada dia de briga, cada noite mal dormida, cada dia que vocês mal se falavam – eu nunca vi um beijo de vocês – foi vendo tudo isso que hoje, aos 30 anos, eu tenho certeza de que sei fazer bem a alguém, tenho certeza de que o próximo beijo que eu der em alguém vai ser eu 100% de verdade ali querendo fazer bem a esse alguém; para a próxima namorada que eu tiver, noiva, esposa, tenho total certeza que sei fazer bem a alguém sempre que eu tiver essa chance. E só sei disso porque tive em casa muitos dias de duas pessoas se fazendo mal, onde eu me confundia sobre o que significava amor e fazer bem a alguém. E hoje vejo que amor é tudo o que eu sou nesse mundo e, por outro lado, eu sou amor porque vocês me criaram orientando sempre pelo certo da vida, formando meu caráter para que eu conseguisse vencer como vocês entendiam que não conseguiram. E apesar de tudo isso, você em especial, sempre me inspirou muito. Nunca vi faltar em um dia de trabalho por mais doente que estivesse. Dobrava o turno, fazia tudo, mas sempre estava lá: trabalhando dignamente e consquitando seu salário. Isso sempre foi muito incrível pra mim e lembro sempre! Pena que você gastava seu suado salário com outras coisas que não as contas em casa. E aí você passou a gostar de beber. E beber mais. Beber tanto e ajudar tão pouco que o melhor para vocês dois em casa foi mesmo se separar. Hoje eu não bebo. Eu não cresci com o referencial de que bebida é celebração. Não há exatamente um trauma clínico, mas eu não faço questão de beber, eu não vejo graça e não sinto vontade, mas respeito muito todos que gostam e apreciam, inclusive parte da nossa família, muitos dos meus amigos, minhas ex-namoradas e etc. Ou seja, veja você, além de vegetariano há 17 anos, eu não bebo álcool nem uso nenhum tipo de droga. Não foi algo que eu parei e pensei: “não quero beber” como fiz quando me tornei vegetariano, mas foi algo que não fazia sentido pra mim, daí eu só fui ignorando as possibilidades e não me arrependo. Ainda sobre lição mesmo sem ser a intenção, foi ao te ver bebendo tanto com as contas em casa pensando ainda mais, que eu fui pelo caminho contrário. Todas as contas podem pesar na minha vida sempre, mas não vai ser porque estou gastando o dinheiro com bebida.

Deixa eu te contar uma coisa aleatória que me disseram.
Conversando com uma garota uma vez, ela me falou que não sairia com um cara que não bebe. Eu ri e ela continuou: “gente, imagina? vou num bar beber uma cerveja e o cara bebe o quê? um suco?” Pois é. As pessoas tem dessas. Está difícil agradar e ser interessante. Parece que, nesse exemplo, para algumas pessoas é impossível ser legal se você não beber. Louco, né?

Retomando a história e dando um salto de anos entre traumas e pouquíssimo contato depois que você saiu de casa, nesses últimos meses eu tive a oportunidade de cuidar e me reaproximar de você, apesar do motivo não ser bom. Você estava muito doente. A bebida machucou nossa família, mas machucou ainda mais você por dentro e por fora. As pessoas não te reconheciam mais. Sua aparência mudou. Aquela sua energia vital de trabalhar por horas pareceu esgotar. E eu senti que devia passar por cima de qualquer sentimento ruim que eu pudesse ter sobre você por todas as coisas que passei – e passamos aqui em casa. Todas as noites minhas chorando secretamente. Todas as vezes que senti o clima péssimo. E todas as vezes que esfreguei o cobertor no nariz pra vocês brigarem comigo e pararem de brigar entre vocês. Eu nunca fui de guardar coisas ruins das pessoas, não seria assim com você. Mais do que sentir que eu queria fazer algo, percebi que eu devia fazer alguma coisa por você agora, tipo como você cortava o bife para eu comer. E não hesitei, não pensei duas vezes. Então a gente ficou mais perto. A gente começou a conversar mais e tentei cuidar de você o máximo que eu pude, entre documentos novos e remédios. Passeamos de carro, apesar do destino ser o hospital – você nem sabia que eu tinha carro. Nas despedidas eu beijava a sua testa e falava “fica bem”. Depois de algum tempo, encontrei um lugarzinho muito bacana, com muita gente do bem, silencioso e bonito para você se tratar e melhorar aos poucos. Eu sabia que qualquer melhora levaria meses ou anos. Na primeira visita, te perguntei se gostava de lá e você falou que sim. “Aqui tem cinco refeições”, comemorava. Você parecia estar melhor. Eu me sentia melhor. A nossa família se sentia melhor por saber onde você estava, diferente das vezes que nos perguntávamos do seu destino. Eu me sentia bem em te fazer bem – lembra da lição lá do começo? Me sentia bem em receber fotos suas. E, principalmente, me sentia grato pela oportunidade da gente se reproximar depois de tantos anos e de eu poder te ajudar. Parecia que eu passei esses anos todos me preparando para poder cuidar de você nesses últimos meses. Apesar de toda a sua dor e sofrimento pela saúde, tudo corria bem e com uma pequena melhora constante, até que nessa semana seu corpo não conseguiu resistir mais a tanto desgaste por causa da bebida e você partiu para descansar lá no céu, perto do vô e da vó – aqueles que eu nem cheguei a conhecer. Eu chorei com a notícia. Chorei muito. Chorei na frente das pessoas, chorei sozinho. Chorava, mas no fundo, por um lado, eu chorava pela gratidão de poder me reaproximar de você, de poder fazer alguma coisa para te fazer bem, chorava pelo alívio de uma vida sem remorsos ou mágoas entre nós dois, chorava porque eu sabia que você estava feliz por estar perto de mim de novo, tipo como quando respondeu agradecendo em áudio pelo seu aniversário mês passado.

Pai, você me ensinou muita coisa, até mesmo sem querer. Seus defeitos me ensinaram a aperfeiçoar minhas qualidades. Suas qualidades me ensinaram a melhorar meus defeitos. Eu sinto que o senhor está bem agora, que está descansando depois de passar tanta coisa nessa vida. Eu te agradeço por me dar a vida, te agradeço pela mulher que escolheu pra ser minha mãe, essa guerreira que veio com o senhor lá do interior do Piauí para vencer aos poucos aqui em São Paulo e segurar a minha mão todos os dias. O senhor tem um ótimo gosto para mulheres, sabia? (Outra lição aqui, viu? Também tenho bom gosto. Eu sou um privilegiado porque 100% das mulheres que já me relacionei na vida, em compromisso ou não, são mulheres maravilhosas!) Eu não guardo nada de ruim da gente, eu só guardo a sua imagem rindo sem os dentes da frente comendo o bolo que a tia te levou na primeira e única visita que pudemos te fazer. Você era um grande cara, com um coração gigante e que, ironicamente, justamente por toda essa grandeza que se perdeu na escolha de ser mais bondoso para desconhecidos em balcões de bar do que para a nossa família em casa com comida quente. Mas tudo bem, pai. Eu realmente não guardo nada de ruim, mas acho importante falar sobre coisas difíceis em detalhes pra gente saber que elas existem e que a vida não é colorida todos os dias. Hoje falo com tranquilidade sobre o que passamos, sobre o que passei por todos esses anos e últimos meses. É como se a minha vontade de ajudar a melhorar fosse maior que qualquer julgamento sobre seus erros. E, afinal, quem sou eu para julgar? Jamais.

Pai – e que delícia escrever “pai” sobre você depois de tantos anos -, de novo, te agradeço por tudo. Desculpe se falhei em não ser um filho perfeito, desculpe por jogar desodorante naquela carne descongelando na pia quando eu tinha 10 anos; nunca te falei mas fiz isso porque o senhor não me deixou jogar bola na rua, poxa. Seus netos um dia vão saber disso, viu?

E acredite em mim quando digo que acordo todos os dias tentando vencer na vida para honrar o seu “Rodrigues” do meu nome, a sua quarta série incompleta e hoje, mais do que nunca, acordo todos os dias para manter um sorriso no rosto da mulher que você escolheu para ser a mãe do seu único filho – e também da minha tia que mora com a gente que eu tanto amo.  Quando a gente tiver nossa casa própria eu te mostro, tá?
Aliás, essa nossa foto é de um aniversário meu na primeira casa que vocês moraram quando vieram do Piauí pra São Paulo e depois eu nasci.

Tô feliz que o senhor está em paz e descansando agora.
Eu só não vou sentir mais saudades suas porque eu sempre te levarei comigo.
Um dia a gente vai assistir pica-pau de novo.

Com todo o amor que eu posso sentir no meu coração,
do seu filho,

Márcio Rodrigues.

ps: fica bem e obrigado pela vida, eu cuido da mãe.

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