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Pega leve com você

Ei, calma um pouco.
Tenta prestar atenção um pouco mais na sua vida e no tamanho da expectativa que você tem colocado nas coisas. Calma um pouco. Pensa.
É que parece que você quer a vida a 1.000km por hora sempre quando, muitas vezes, ela é 20km. E tudo bem.

Qual foi o momento em que “estar tudo bem” começou a ser algo ruim?
A gente não aceita mais o “tudo bem” das coisas.
A gente quer o ótimo sempre. O incrível! A meta é o inexplicável!
Só que a gente não percebe o tamanho do buraco que cavamos ao depositar uma responsabilidade deste tamanho na nossa vida. Olha que merda.

A verdade é que a vida precisa sim de freio de mão.
Você precisa se acalmar. A gente precisa se acalmar.

Não é que o pavio está curto, ele simplesmente não existe mais para algumas coisas.
E fica muito difícil não atribuir isso ao tamanho da expectativa que a gente tem colocado em tudo.
A gente espera, por exemplo, que vamos acordar para ir trabalhar com a mesma alegria que sentimos quando a pessoa que gostamos revela gostar da gente também. A vida não é assim. Toda semana a gente sente uma raiva desgraçada do metrô lotado como se alguma semana ele fosse mudar – meio que a gente escolhe sentir essa raiva. Daí a gente vai trabalhar de carro e reclama do trânsito. Pronto: voltamos para o mesmo lugar. A gente começa uma dieta, entra na academia e tal, show de bola, mas não resistimos a um doce de sobremesa, comemos e ficamos decepcionados depois. O que é isso?  Tem gente, inclusive, que tem enfrentado problemas de aceitação ao fotografar um momento da VIDA, POSTAR num APP DE CELULAR e ter POUCAS PESSOAS CLICANDO NA FOTO PARA DEMONSTRAR QUE GOSTOU DAQUELE MOMENTO, daí a pessoa passa a emoldurar a vida em uma estratégia de fotos para que QUANDO AS PESSOAS ABRIREM SEUS APPS, VEJAM SUA FOTO E CLIQUEM NA TELA DEMONSTRANDO QUE GOSTOU DAQUELE MOMENTO TAMBÉM. As coisas andam estranhas.

Longe de mim querer entrar no mérito das superficialidades, afinal, cada pessoa tem a sua – inclusive eu.
O meu apelo aqui é pra gente pegar mais leve com nós mesmos.
Tem ficado cada vez mais difícil viver esse troço de felicidade pelo significado que a gente tem dado a ela. É estranho até responder o que é ser feliz pra gente, porque a gente pode cair na armadilha de dizer coisas que não seguimos, sabe? É óbvio que a gente falaria que ser feliz é aproveitar as pequenas coisas ou algo do tipo, mas será que a gente tem conseguido aproveitar as pequenas coisas mesmo? Eu não sei.

A gente quer encontrar paixão em tudo.
Tem uma parte nobre nisso que é uma busca pelo retorno do sentimento bom que a gente deposita. Mas isso carrega também um perigo enorme. Não é bem por aí.
Sabe o frio na barriga do primeiro amor?
Aquele sentimento escandaloso que atravessa nosso coração e faz a gente estremecer de ouvir o nome da pessoa? Veja, parece que a gente quer encontrar esse sentimento em basicamente tudo na nossa vida. Quando a gente acorda e o cabelo não está bom, PLAU, já um motivo do dia ser uma bosta. Se alguém demora para responder uma mensagem nossa então, deusmelivre. Se “””””não tem o que vestir hoje””””””””, se o time perde, se o ingresso é caro, se um monte de coisa. O que está acontecendo?

Eu quero te pedir para pegar leve com você.
Não vou me atrever a dizer como a vida deve ser vivida porque ninguém tem essa resposta, mas eu gostaria de pedir para que você tire um pouco o peso das suas próprias costas; quero pedir para que releve um pouco mais você de si mesm@. A gente tem invertido os valores da vida e as coisas andam confusas demais; os gatilhos para ansiedade são cada vez menores e acaba sendo natural a gente ter dias cada vez menos legais.

Toma cuidado com você. Vai ver a sua felicidade tem sido algo nem você mesmo conseguirá alcançar. Já parou para pensar nisso?

De novo e por favor: pega leve com você.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

Eternizando os momentos bons

Como é difícil encontrar uma pessoa nesse mundo na qual as ideias, ainda que diferentes, combinam com as nossas, né? Mais que isso, uma pessoa que fala o que a gente precisa ouvir, não o que a gente gostaria. Como é difícil encontrar uma pessoa que seja gratuitamente gentil com todas as outras; uma pessoa com tom de voz ameno e reconfortante. Como é difícil.

Você, meu amigo, era essa pessoa e talvez a pessoa mais pura e do bem que o meu coração teve o privilégio de encontrar. Mesmo me esforçando, eu não consigo identificar uma ocasião sequer em que você aumentou seu tom de voz, que você perdeu o controle, que desrespeitou alguém ou qualquer coisa do tipo. Eu tenho muita sorte de ser fã dos meus amigos como sou de você. Não conheço uma pessoa que te conheça e não tenha uma história boa ao seu lado. Olha o tamanho do efeito que você causou nesse mundo.

Você, porém, era meio enrolado com horários e roteiros do seu dia – mas até isso a gente achava fofo e não conseguia sentir exatamente raiva – porque você não fazia por mal. A palavra maldade nunca fez parte da sua vida. Quando você falava “vai se foder” era para se expressar por um refrão que você amava e me mandava para ouvir durante o dia. “Não consigo parar de ouvir! A gente poderia fazer umas músicas nessa onda, né?”. É.

Um “”””””defeito”””””” seu é minha maior inspiração: amar demais. Amar incondicionalmente. Provocar o coração a bater mais rápido e ser fiel às suas batidas. Amar tanto que não consegue enxergar os fatos. E, tirando toda a parte complicada em tanto amar, sempre ficava a minha admiração por ser alguém que gostava tanto de amar outro alguém.

Por essas e por outras que eu, na condição de amigo-filho-único-e-mais-velho, me via no papel de puxar suas orelhas. Você sempre me ouvia atentamente, argumentava e entendia. Sem me dar nenhuma aula, você me ensinou que me comunicar violentamente não me faria bem nenhum.

Nossa última conversa longa e franca foi para falar sobre mim. A gente trabalhava perto e eu fui de táxi te encontrar para almoçarmos juntos. Por ironia do destino, hoje eu trabalho ainda mais perto do seu trabalho. Fomos almoçar em um lugar bonito, à luz do sol, com saladas refrescantes e chá gostoso. “Aqui é único lugar com comida vegan que eu posso ir, então sempre venho” se justificava. Com baixa autoestima, fui te contar que andava triste porque “ser um cara legal” não estava me adiantando muito no que diz respeito a conhecer alguém especial. A gente se encontrava para falar sobre amor. Eu podia ter essas conversas com você, apesar do mundo esperar o contrário de homens. É que esse mesmo mundo ensinou a nós, homens, que ser sensível não é legal. A gente cresceu nos anos 90 com a obrigação de sermos durões, fortes e viris. A gente cresceu, por exemplo, com o pensamento de que o bacana era ostentar as garotas com quem saíamos como se fossem troféus. Só que a gente ignorou essas obrigações todas e conseguimos ser nós mesmos. A gente se encontrava para falar sobre amor. E, naquela ocasião em especial, você me falou o seguinte: “Mano, se você sabe que você é um cara legal, mas não se considera sei lá um cara atraente, porque você não foca primeiro em ser um cara legal? Tipo, porque você não coloca sua fortaleza a frente da sua fraqueza?” Eu me tornei absolutamente outra pessoa desde dia em diante. Você era inacreditável, meu amigo.

A gente se falava praticamente todos os dias, lembra?
Lembra das fotos de bulldog que a gente trocava? Que você chama o Teodoro de salame? E dos memes que a gente aplicava no grupo do Dina no Whatsapp e os caras não entendiam? É que só você e eu trabalhávamos num computador o dia todo, diferente dos outros dois. A gente ria junto do Peras ser um dedão de pastel digitando. A gente ria junto dos emojis diferentes que o Eric manda. O Peras me chama de “Cici”, o Eric de “Sinho” e você de “Zin” – sério, vocês são retardados. A gente se falava quase todos os dias e eu sempre chegava com ideias de posts para os canais da banda. “Vamos fazer um post assim e assado?” Dava meia hora e você aparecia com o post: “Te mandei 3 versões e vê qual você gosta e manda bala, beatcho”. Eu sempre te respondia “VSF AMEI TODAS E AGORA” e você ria. Nós fomos uma dupla e tanto, meu amigo.  Você na esquerda, eu na direita. Você Fender, eu Gibson. Você das imagens eu das palavras. Você vegan e eu vegetariano. Você destro e eu canhoto. Você lindo e eu legal (mas vsf você conseguia ser lindo e legal). Você era “nós somos” e eu “tudo o que temos”.

Nessa foto acima, em um fim de semana de show do Dinamite Club no Rio de Janeiro, a gente foi na festa Crush dos nossos amigos do Phone Trio e cantamos refrões que amamos – eu amo essa foto. Foi um dos dias mais legais de todos. Olha o que você ajudava a fazer: a gente foi fazer um show, mas alguns amigos nossos de São Paulo foram ao RJ só para passar um fim de semana com a gente também. Você ajudava a construir motivos para as pessoas se reunirem.

Você e eu filhos únicos sempre fomos irmãos.

Esse dia acima foi um dos melhores da nossa vida. Você lembra, né? Claro que lembra porque você achou a gráfica pra gente imprimir o banner do palco e eu fui buscar na hora do meu almoço – aliás não tinha uma mais perto, né?  Minha mãe foi a esse show, sua mãe também. Elas se conheceram. Nós dois, ambos filhos únicos, tocamos para as nossas mães. Isso foi mágico.
A gente correu tanto para organizar o que foi o show de lançamento do nosso disco novo. E tudo deu certo.
Que sorte que a Gabi (@gabrielaklein_) conseguiu registrar esse momento! E eu gostei tanto dessa foto que ela revelou e, carinhosamente, me deu em um quadro no meu aniversário. E eu dei para você depois que começou a se tratar. Essa foto explica muito de como eu me sentia com você. Um irmão mais velho, sempre checando se estava tudo bem, sempre querendo ficar pertinho e sempre ao seu lado nos palcos ou fora dele. A gente pulou muito pelos palcos desse Brasil. Nossa banda está longe de ser a melhor de todas, mas a gente sempre foi uma banda que se divertiu como nenhuma outra a cada palco que a gente subia. Foi como o Peras escreveu em “Puro”: “Quantas vezes eu me perguntei o que é que estava eu fazendo ali, só pra tocar pra meia-dúzia, só eu sei no que me envolvi.”

A gente nunca se importou com o tamanho do lugar e nem em quantas pessoas iam nos assistir, né? Sempre fizemos um show igual. Agitado, energético e, sobretudo, com muita, mas muita energia positiva para passar e tentar melhorar um pouco o dia de alguém que nos assistiria. No palco, você sempre foi meu porto seguro. Enquanto o Peras estava lá brilhando nos vocais e baixo ao mesmo tempo, o Eric sendo o melhor guitarrista baterista que a gente conhecia, a gente se olhava nas músicas e quase como um código pulávamos ao mesmo tempo. A gente se olhava e piscava um para o outro para garantir que o som tava bom e, se não estivesse, a gente se preocupava um com o outro. Você adorava os começos de show porque rolava um aquecimento enquanto o Peras cumprimentava o público, e aí você dava seus pulos e aqueles socos no ar que eu nunca soube fazer igual. Mano, você era demais tocando e eu sempre me sentia na melhor banda do mundo quando a gente estava fazendo um show. Ninguém poderia reclamar de falta de presença, de falta de entrega, de falta de amor a cada acorde. Meu amigo, nossa banda sempre fez um bem danado a nós e, com o tempo, especialmente nos últimos tempos, começou a fazer um bem incrível a outras pessoas.

Esta foto é muito emblemática.
Você tinha melhorado bastante no seu tratamento. A gente estava em plena tour com o Neck Deep pelo Brasil e você conseguiu participar do fim do show no Rio de Janeiro e do show todo em São Paulo (foto). Neste dia, eu usei a camiseta da minha banda preferida: Real Friends. E eles tem um bordão que eu amo: “Wow, what a great day”. Achei que combinava com a ocasião toda. Antes de tocarmos “Você é Maior”, você falou algumas palavras para aquele lugar lotado e, além de mim e os outros meninos da banda, pude ver lá de cima do palco, ao seu lado, muita gente emocionada com suas palavras e lições sobre otimismo e pensamento positivo. Cara, você era muito foda. Então, durante a “Você é Maior” eu me aproximei de você e, como essa foto registra, dividi o microfone no trecho: “Vai ter pressão, decepção, mas você é maior” – porque eu nunca imaginaria que essa letra que escrevi seria uma oração para você. E aqui, com a visão turva de tanto chorar escrevendo isso tudo (desculpa falar tanto mas você me conhece), eu fico parado olhando essa nossa foto e querendo voltar para este dia com você.

Hoje eu queria ouvir suas guitarras de novo. Queria você me chamando no Whatsapp para perguntar como eu estava, queria você me chamando assim “ow zin, se liga nesse som”. Queria você falando que tudo vai ficar bem e que era para eu ter paciência. Queria você perto, meu amigo.

Hoje você foi para um lugar diferente do nosso. Logo o mais enrolado de nós, foi o primeiro a ir. Por favor, checa se as tomadas são 110w para eu poder levar nossos amps?

Esses dias tem sido muito emocionantes. Muita gente escreveu coisas lindas sobre você e eu li tudo o que pude. As pessoas gostam da nossa banda, mano! As pessoas dizem que as músicas que fizemos melhoram a vida delas. Você tem ideia? Eu não sabia disso assim. As pessoas amam nossos shows! A tour com o The Story So Far e o Neck Deep fez muita gente se aproximar da gente. Como li por aí, você gostava tanto de pular que deu o pulo mais alto de todos. Eu sei que aí de cima você vai continuar pertinho da gente. Toda vez eu eu olhar para o céu eu vou encontrar um pulinho seu ou o começo daquela risada engraçada.

Obrigado por me ensinar tanto e até os seus minutos finais neste plano seguiu me ensinando. Você foi cura para muito dos meus dias. Você tem me feito pensar em muita coisa sobre meu jeito de levar minha vida. Eu reclamo demais de muita coisa pequena – a gente cai nessas, né? A rotina, o trânsito, o cansaço, o dinheiro que não sobra, o cabelo que não acorda bom, a série que termina, o show que é caro e por aí vai. E, você, nos últimos tempos, queria sei lá poder beber água… A gente faz questão de reclamar de tudo mas a gente nem percebe tanta reclamação. Você me ensinou que, mais do que isso estar errado, eu posso mudar isso para a minha vida e para as pessoas que amo. Eu te prometo honrar seu legado por aqui e tentar ser uma pessoa boa para outras assim como você era para todas. Vou levar para sempre comigo cada um dos abraços que a gente deu e dos soquinhos no palco antes de começarmos os shows. Eu vou cuidar do Peras e do Eric por aqui, tá? E entre eles vem todas as pessoas que sempre estavam com a gente. Vou ficar mais perto dos anjos que te cercaram durante toda essa fase. Obrigado por ser meu melhor amigo, meu parceiro, meu irmão e até o meu pai. Obrigado pela companhia, seja nos palcos, ensaios ou nos almoços corridos no meio do expediente. Você plantou tanta coisa boa neste mundo que cada pessoa que teve o privilégio de tocar em você carrega uma sementinha de amor puro e verdadeiro para colher em suas jornadas.

Você é o melhor, cara.

Como é difícil encontrar uma pessoa nesse mundo na qual as ideias, ainda que diferentes, combinam com as nossas, né? Ainda bem que te encontrei.

A você que leu tudo isso aqui, por favor, conte aos seus amigos o quantos os ama. Tente ficar perto deles. Cuide das pessoas que te fazem bem. Reveja sua prioridades e seus esforços.
A vida sempre vai estar correria mas a gente sempre pode dar um jeito de caminhar.

Eu te amo muito, Lele. E que bom que pude te falar isso muitas vezes.
Você é o maior. Você significa muito e nós sempre seremos tudo o que temos.

Com o maior amor que meu coração pode ter,
Márcio Rodrigues.
(ou “zin” para você).

ps: pensei em um post para o instagram do Dina, vou te mandar por e-mail.

 

O que os seus pés gelados me ensinam sobre a vida

Meia noite e trinta e três.
A gente resolve dormir.

“Vou ficar de lado, tá?”
“Tá, vou ficar na conchinha. Depois a gente reveza, hein?
“Tá”.

E aí vem você e esse seu pé gelado.
Gelado que chega a doer. Meu corpo até treme.
Eu poderia reclamar. Eu poderia te criticar.
Eu poderia sugerir colocar uma meia. Sugerir que se afastasse de mim.
Poderia protestar em tom de brincadeira.
Mas eu só os sinto e foco em te aquecer.
Você, antecipadamente, me adverte:

“Ai meu deus, meu pé tá muito gelado”
E eu: “tudo bem”.

Acho que dá pra gente aprender muita coisa na lógica dos pés gelados ao dormir.
Pensa comigo: é uma situação adversa e que não traz nenhum tipo de conforto.
É um confronto ao meu corpo, ou seja, algo que eu gostaria de rechaçar, me afastar.
E eu poderia fazer isso recorrentemente.
Como se seus pés gelados fossem um desejo seu.

Mas, entre tantos problemas que a vida já tem, eu não vou criar mais um ao reclamar dos seus pés gelados.
Eu escolho te aquecer. Fazer alguma coisa para isso.
Escolho dimensionar o tamanho do problema e não me apegar a ele.

Será que a gente não perde muito tempo reclamando dos problemas da vida ao invés de tomar alguma iniciativa para tentar resolvê-los? Será que não estamos transformando pés gelados em dias tristes? Será que entre as escolhas da vida a gente precisa mesmo priorizar as reclamações? Será que eu faço errado quando escolho colocar meus pés nos seus para te aquecer ao invés de reclamar de como eles estão frios?

Eu prefiro garantir a nossa noite juntos do que gastar nosso tempo para criticar seus pés.
Será que a gente não pode preferir conversar antes de virar discussão? Inclusive um pé aquecendo outro é, tecnicamente, um processo de conversa. Será que a gente não pode pensar antes de falar? E mais, ouvir mais do que só falar?

Todos os dias que a gente dorme são iguais: a gente se enrosca no edredom e começa a contagem regressiva dos seus pés de ALASCA chegando perto dos meus. Aí eu respiro, aceito e ao ouvir você se antecipar e reclamar de si, eu coloco meus pés no seu e foco na nossa noite juntos.

Talvez a gente esteja transformando simples pés gelados pela vida em problemas que tiram nossa noite de sono.

Isso tudo é só pra gente pensar nos motivos pelos quais temos tem gastado nossa energia e tempo.

Seus pés são gelados e eu vou aquecê-los.
É sobre isso.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

Eu não me entendo

A coisa que eu mais entendi na vida até hoje é que eu preciso começar a me entender.
Preciso que as minhas vontades sejam claras para mim antes de esperar que sejam para alguém.
Esses dias revi minhas histórias e comecei a enxergar melhor o meu papel nelas.
Antes eu mal conseguia entender de que maneira eu colaborava para as coisas que aconteciam comigo, e aí o que acontecia era que eu me apoiava nas pessoas que passavam pela minha vida e as usava como justificava para os fatos. Era sempre culpa delas.

Eu não fui o que posso chamar de uma pessoa justa. E estou começando a entender.
Lembro que questionei alguém por não manifestar saudade, mas quando a pessoa fazia eu sentia que ela estava grude demais. Em outra história, eu pedi mais espaço para as minhas próprias coisas, e aí quando tive eu fiquei mal pela pessoa ter se afastado de mim.

Eu não fazia sentido pra mim.
E como é que eu poderia esperar fazer para alguém?
Não enxergava como usava o argumento de que “esse é meu jeito”  como muleta para justificar o meus defeitos para as pessoas. Era como se eu me recusasse a mudar alguma coisa em mim para ser uma pessoa melhor.

Eu não me entendo. Ainda. Será que alguém se entende?
A pessoa mais difícil de conhecer no mundo somos nós mesmos. Criamos nossas próprias armadilhas e aumentamos o tamanho dos problema – inclusive, em algumas vezes, o problema somos nós.
Ainda me vejo escorregando sem me entender direito.
Me vejo fazendo cara de preguiça quando alguém puxa assunto comigo, a diferença é que hoje eu entro em parafuso por justamente reclamar de não ter uma pessoa, por exemplo. Também reclamo quando alguém que eu saio não me procura no outro dia, mas eu também não procuro ninguém. Tem vezes que sinto vontade de sair de novo com alguém que já saí um dia, mas acabo não falando nada, a pessoa acabando não sabendo de nada e a gente acaba não saindo mais nenhuma vez. Tipo, um dia eu quero, no outro não. Num dia é saudade, no outro é preguiça. Meus amigos falam, e com razão, que eu tenho deixado as pessoas loucas. Sempre discordei mas hoje esse tipo de coisa tem martelado minha cabeça.

Mudar não vai ser simples. Talvez eu nunca me entenda de fato, mas eu tenho me sentido melhor ao conseguir enxergar como eu era e, principalmente, ao conseguir imaginar como eu quero ser.

A gente sempre vai se cobrar. Eu sempre vou querer mais, mas agora, antes de querer alguma coisa eu começo parando para pensar. Pensar mais tem me feito entender melhor. Antes eu era muito oito ou oitenta mas o tempo – e alguns tapas da vida, é bem verdade – me fez ver que eu era quem mais perdia no fim.

A melhora vai ser constante.
Acho que ainda vou decepcionar. Acho que ainda vou me arrepender.
Mas hoje em dia eu tenho pensado nisso, não com a garantia de evitar, mas para refletir sobre a minha responsabilidade nos dias da minha vida, principalmente nos tristes.

Eu não me entendo, mas estou tentando começar.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

O problema não é o fim, mas sim o que sobra pra mim

[ CONVITE IMPORTANTE ANTES DE LER ]

Você de São Paulo, sábado que vem dia 04 de Agosto, que tal a gente se encontrar pessoalmente para conversar sobre os nossos sentimentos?
Acesse e saiba mais: https://www.facebook.com/events/390841801440130/

—– TEXTO NOVO ——

É que ninguém sabe o que sobra pra gente quando tudo termina.
Por isso que o problema não é terminar, porque eu sei que isso vai acontecer muitas vezes. O problema é tudo o que sobra pra mim depois que a pessoa vai embora da minha vida.

Ela volta aos dias normais dela antes de eu aparecer, já eu volto para os meus dias tentando remendar todo o buraco que a pessoa deixou. É um processo de reconstrução lento e doloroso.

O que sobra pra mim é a tentativa diária de tentar te encaixar na minha vida num lugar diferente daquele que ocupava. O que sobra pra mim é deletar as nossas fotos. É deixar de ouvir aquelas músicas que me ensinou a gostar. É evitar os filmes. É odiar o meu encontro com o seu perfume em outro alguém no metrô.

É óbvio que há muita coisa boa nisso tudo, muita coisa que me fez crescer e todo aquele papo, mas aqui eu me refiro a parte ruim e os problemas que vem com ela. Me refiro aqui aos episódios em que pessoas terminam com a gente, não o contrário – mas a reflexão serve para todos os nós.

Parece que não, mas toda essa parte ruim e dolorida que sobra pra mim se transforma em trava para eu começar uma nova história. A gente se vê sem chão.

Eu não sei lidar bem com o que me resta quando alguém vai embora.
Demoro demais para não te procurar mais e não ter a sua visita nos meus pensamentos em horários em que não preciso, afinal, você passa a não me procura mais só no vidro do metrô na volta pra casa, você me procura durante o trabalho, você tira a minha fome do almoço, você me faz dormir mal. A sua lembrança vai sugando minha energia se tornando uma batalha difícil demais de ganhar.

O que sobra pra mim depois do fim é a cilada que me encontro ao reler conversas nossas antigas. O Whatsapp vira uma arma terrível. Eu me vejo lá revendo nossas fotos das rotinas sem filtro, relendo nossas conversas e dá para perceber pelo fim dos envios de emojis quando as coisas mudaram.

Tudo o que sobra pra mim depois do fim é pesado demais para aguentar.
Eu não sei o que seria de mim se não fossem aqueles meus amigos que dizem as coisas que preciso ouvir, não as que eu gostaria. A gente fica cego sobre verdades e dormimos na esperança de acordar e tudo não passar de um mal entendido.

Sair da vida de alguém deixa marcas que talvez nunca saiam também.
E a gente vai sendo obrigado a ter que lidar com cada uma delas. É como se tentássemos parar de olhar tatuagens em lugares aparentes. Não dá. Eu acabo vendo você nas menores coisas das quais até um toque de de celular me faz lembrar como era o seu.

Isso tudo é para a gente ter mais cuidado ao entrar na vida de alguém.
Porque quando a gente entra, a gente não faz ideia do que vamos deixar depois de ir embora.
Muitas vezes, inclusive, a gente vai embora levando coisas que não são nossas.
E isso nunca vai ser bom.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois
@marciorodriguees

Nossa história não vai além do sexo

Passei um tempo pensando no porquê da gente não avançar.
Me questionei muito, afinal, a gente se dá muito bem e isso parece ser um bom componente para, pelo menos, tentar ver até onde a história vai dar. Acabou que eu entendi o porquê.

Nossa história não vai além do sexo.

O nosso sexo é o que nos une – pelo menos para a minha parte. E eu não quero que isso pareça algum tipo de joguinho, tendo em vista que ambos ganham com o sexo. Eu só refleti e cheguei a uma conclusão que fez sentido para mim sobre a gente – e você tem o direito de discordar.

A gente está nessa há tanto tempo porque quando a gente se encontra a gente se conecta. A gente se dá bem, especificamente na cama. Eu não sei o quão estranho parece eu falar isso dessa maneira, o quanto você pode me considerar uma pessoa fria, mas no fundo, a verdade é que a nossa história não vai além do sexo.

Não dá para forçar gostar de alguém. Eu tentei te ver de formas novas para não ser uma pessoa injusta, mas eu não consegui e isso começou a me machucar porque eu não entendia, no fim das contas, porque a gente ainda tinha alguma ligação. Mas tudo isso fez sentido depois que entendi que o nosso forte é o sexo.

Eu não estou dizendo que sexo é algo simples, tampouco reduzo que não o valorizo. O que estou dizendo é que entre todos os pilares que sustentam uma relação, eu só enxergo o sexo entre a gente capaz de dar alguma base. É claro que há respeito, claro que há carinho e afinidade, mas o que mais existe é tesão carnal. A gente conversa muito, só que a conversa fica melhor depois de transar. A gente troca conselhos e pontos de vista sobre vida, mas em geral, depois de transar. É quase como se a gente só funcionasse bem quando tiver sexo envolvido. E eu sei que isso não é uma coisa boa de ouvir, mas me parece uma grande verdade e difícil demais de segurar. Eu não consigo enxergar outra coisa para ainda estarmos “”””juntos”””” além da nossa vocação para transar.

Não quero que pense que isso é objetificação. Ninguém entre nós está usando um ou outro. As pessoas tem mania de relacionar o sexo com “alguém que usa alguém e se beneficia disso” quando nem sempre é assim, afinal, desde que nenhum sentimento além seja conscientemente cultivado sem ser correspondido, trata-se de duas pessoas que gostam de dormir juntas eventualmente. Talvez a gente precisa ser um pouco mais literal na vida para ver se as dores precisam doer tanto assim. Em outras palavras, um pouco de racionalidade é fundamental para saber proteger tudo o que é de emocional dentro da gente.

Então, entre a hipótese de haver amor ou algum outro tipo de atração afetiva, ficou mais clara pra mim a possibilidade da gente se dar bem porque a gente gosta muito do nosso sexo.

Isso não é uma despedida, não estou falando que vou embora ou te pedindo para me deixar, eu só estou dizendo tudo isso para que possamos ter posição sobre o que estamos vivendo, principalmente por estarmos saindo há tanto tempo e nos mesmos moldes: um chama o outro no  Whatsapp, um convite surge e uma noite muito boa acontece. Parece frio demais falando assim, mas eu vejo como algo alinhado e que faz bem para nós.

O mais importante nisso tudo é a gente saber a mesma coisa que ambos sentem e pensam. A gente precisa conversar sempre para entender que nome dar para os sentimentos e ninguém aqui se machucar. É claro que eu não sei exatamente o que você sente com isso tudo, mas estou contando a minha parte que é a outra metade fundamental para algo acontecer entre nós.

Eu não sei o que vai ser da nossa história amanhã, mas hoje eu sei que é sexo. Pelo menos pra mim.

E isso, desde que combinado, não significa algo exatamente ruim.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois
@marciorodriguees

E se a gente não desistir da gente?

Nós dois sabemos dos nossos problemas e não quero trazê-los à tona aqui.
Sabemos como as coisas não andam boas.
Eu tenho meus motivos para reclamar assim como você tem os seus.
A paciência parece ter esgotado e não encontramos lugar para renovar nossa disposição.
Não é exatamente o momento para discutir causas ou culpados, o fato é que a gente parece não se encaixar mais direito. É complicado. Queria ter outro assunto para pensar nos meus dias, mas a nossa história tem me feito mal, ou melhor, o jeito que a nossa história está hoje.

É por isso e, principalmente, por tudo o que já vivemos que eu queria saber de você: e se a gente não desistir da gente?

E se a gente conversar sobre maneiras para melhorar?
Eu sei que já conversamos mil vezes, mas e se a gente conversar mais 10mil? Claro, é modo de dizer.
Se você não quiser mais nada eu vou entender. A minha proposta aqui é a gente refletir se ainda podemos insistir na gente.

Eu não tenho resposta de onde isso pode dar, sabe? Realmente não sei.
Mas o que fico pensando todos os dias é: “e se a gente não desistir da gente?” E se a gente pensar com calma em cada um dos momentos, dos ruins aos bons – principalmente os bons. Se a gente colocar tudo na balança para ver o que sentimos no fim?

Não gostaria que isso tudo se transformasse em algo ruim. Não gostaria de ver a nossa história nos machucando. Não gostaria de ver um de nós tendo que fazer algo que não quer. Em outras palavras, não gostaria que a gente tentasse coisas que não acreditamos. O que eu gostaria aqui é de fazer uma proposta: e se a gente não desistir da gente?

Será que não existe mesmo nenhuma força escondida no intervalo entre um momento bom e outro que a gente viveu? Sabe? Será que a gente não vai descobrir uma motivação diferente se a gente pensar de um jeito, sei lá, novo? Se a gente tentar pensar de mais de uma maneira? Será?

Cada um de nós sabemos o bem que fizemos um pelo outro até aqui. E, claro, posso falar mais exatamente por mim. No meio desse caos todo que nossa história se tornou, eu já tenho pensado em tudo o que fizemos e compreendido melhor uma porção dos meus erros. Acho que eu nunca havia parado para pensar assim com calma antes. Estou certo das minhas qualidades e das coisas que aprendi com você, mas tem me doído muito enxergar meus defeitos e as coisas que eu fazia e que não te faziam bem. Este exercício me chocou. E foi nesse momento, isto é, ao reconhecer todas as merdas que eu fiz e todo o meu jeito que te incomodava, que eu parei para pensar se eu poderia mudar alguma coisa em mim para você perceber.

É por isso que fica o meu apelo: será que daria pra gente pensar na gente mais uma vez? Será que daria pra gente reconsiderar todos os problemas e lembrar da parte boa? Não concordo com quem diz que “esse é meu jeito e não vou mudar”, mas eu entendo sim que é difícil demais mudar quem somos. Por outro lado, eu acredito que a gente sempre pode evoluir, a gente sempre pode pensar um pouco, pensar melhor, pensar duas vezes, especialmente se a gente gosta de quem está sofrendo com o jeito que somos. Talvez eu esteja dando muitas voltas aqui para dizer uma coisa que já disse, mas o fato, portanto, é: eu não queria desistir da gente, não agora.  Eu queria te convidar a refletir se a gente consegue um suspiro novo na nossa história.

Eu não queria concordar com o fim sem ter tentado continuar.

É claro, tudo isso envolve um desejo que deve existir em você também. Eu só trouxe o assunto e gostaria de saber sua opinião sobre tudo.

Você ainda tem energia para ver se a gente pode melhorar e continuar?
E se a gente não desistir da gente?
Pelo menos não agora?

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois
@marciorodriguees

Você me fez não querer mais

Não foi um desejo meu.
Se a escolha fosse uma opção, eu preferiria ter tentado um pouco mais, apesar de sentir ter tentado tudo.
Você lembra?
Eu fui embora querendo ficar, mas fui porque pra mim não dava mais.
Cada minuto a mais que eu ficasse, seria um minuto a mais sem me reconhecer mais.
Percebi que comecei a aceitar coisas que eu não concordava só para você vencer as conversas. Porque parecia isso mesmo, você queria porque queria ganhar todas, me esfregar meus erros, destacar meus defeitos e sair por cima de todas as questões que a gente tinha.

Você queria competir enquanto eu não me importava em perder. Vê a diferença?

Você se esforçou muito para eu não querer mais que a gente continuasse.

Eu não quero que isso tudo se transforme em lavagem de roupa suja, eu só quero expor a minha parte da nossa história. Não quero que pareça que estou apontado o dedo para você e me colocando numa posição superior ou algo do tipo. Eu me sinto mal em entender que fui embora porque você não me deu outra alternativa. Não sei onde acabaria isso tudo se a gente continuasse.

O que está claro para mim é o que a minha cabeça conversa com meu coração. E a conclusão disso é que não dava mais para eu continuar e me submeter a lembrar tanto de você que só se esquecia de mim. Seria injusto para mim entrar na estatística que diz “mas a gente se gosta tanto”.

A gente se gosta sim. E muito.
Eu ainda sinto as mesmas coisas.
Eu não te deletei da minha cabeça – e nem quero.

Eu só não conseguia mais me sentir à vontade com a gente. Pelo contrário, muitas vezes eu me senti mal demais. Desde quando você aumentava a voz ou me xingava e depois falava que “perdeu a cabeça”, até você se importar tão pouco comigo e com as minhas coisas. A gente parou de funcionar e eu comecei a estranhar quando deixei de te admirar.

Você me fez não querer mais e a minha saída da sua vida foi uma escolha racional. Eu decidi isso. Fria e calculadamente, entendi que seria melhor eu seguir com meus defeitos e qualidades, mas sem você. Até porque você parecia não se empolgar mais comigo. Minhas vitórias nem tinham tanta graça. Minhas mudanças no visual passavam despercebidas, meus pedidos de opinião tinham recheio de grosseria. Isso não é o tipo de coisa que alguém de fora pode confirmar, isso é algo que eu comecei a observar e sentir com a gente. Demorei um pouco mas entendi que eu não preciso aceitar manter uma história sem um pilar que eu entendo como fundamental. O respeito acabou e depois que percebi eu fui embora – apesar de amar ter ficado por esse tempo.

De novo, isso tudo não é para te deixar mal ou me colocar numa posição melhor, eu só estou contando meus motivos para não querer mais, tendo em vista que entre todos nossos pontos positivos e negativos, foram os pertencentes ao segundo grupo que me fizeram ir embora.

Achei que tentei mais do que eu conseguiria mas você conseguiu me fazer não querer mais.

A gente tem coisas a aprender com isso tudo porque nossa história vai estar marcada nas nossas vidas, mas hoje eu já levo o orgulho de consegui me desvincular a tempo de não abrir minhas feridas e, você, quem sabe vai poder pensar com calma na parte que te cabe sobre manter alguém na sua vida, porque no começo eu queria, mas você me fez não querer mais.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois
@marciorodriguees

Eu te fiz ir embora

Foram vários motivos para o fim, mas a maioria deles são exclusivamente provocados por mim.
O problema é que eu demorei muito para enxergar.
Eu te fiz ir embora.
Abri mão de você logo depois que abriu seu coração para mim.
Me acomodei, sei lá, não soube lidar com nós dois.
Havia me acostumado tanto em te ter que pensei que jamais você partiria.
Eu errei de uma maneira que eu tenho até vergonha de assumir.

No seu lugar eu aguentaria muito menos.
Não ia conseguir te ouvir falar as coisas que te falei.
E não ia conseguir aceitar qualquer desculpas, como tantas minhas que aceitou.

Hoje está muito claro para mim o tamanho do nosso fim.
Comecei a me esbarrar com uma saudade sua nos lugares mais básicos.
Do nada passei a encontrar sua lembrança na fila da padaria, na estreia do cinema no refrão que eu amava.
Aliás, eu passei a odiar refrões que você me ensinou a amar – e a culpa é minha.

Eu que te fiz ir embora.
Você fez o certo em escolher ir.
É claro que eu mereço uma pessoa maravilhosa, jamais diria que não merecia alguém como você, o problema é que eu não consegui te valorizar completamente.

Quando a gente tem uma coisa a gente não se imagina sem ela, né?

Você aguentou demais.
Você me esperou demais. Você tentou demais e me deu tantas chances que eu não conseguia perceber.
Ontem eu reli algumas conversas nossas antigas e nelas eu encontrei uma versão minha que desconhecia.
Encontrei impaciência, encontrei grosseria, encontrei ciúmes que aleguei nunca sentir.
Encontrei em mim as coisas que eu te dizia odiar nas pessoas. Veja só.

É por isso que para mim eu que te fiz ir embora.
Te afastei de mim. Com tanta energia nos defeitos, te fiz esquecer das minhas qualidades.
Eu não sei exatamente o que aconteceu, não houve nada específico, algum motivo exatamente tangível.
Você não me fez especificamente algo que me fizesse descontar tanta coisa.
Te fiz ir embora porque eu não parecia mais gostar de quando você ficava. Olha o tamanho da merda.
Entre tantos erros meus, os piores foram os menores.
Passei a te tratar de um jeito que me arrependo tanto. Como que eu pude falar coisas tão horríveis e de um jeito tão péssimo para alguém que eu respondia “também” ao ouvir que gostava muito de mim?

Eu mereci você mas não soube te administrar e me perdi.
Você foi embora por motivos nos quais concordo completamente.
Incrível ter aguentado tanto tempo.

Queria poder voltar atrás, mas seria muito confortável para mim apagar tudo feito borracha – ao contrário de você. Mas vai saber, quem sabe a gente não se encontra de novo para eu te contar das lições que aprendi depois da sua ida, porque no minuto seguinte que me senti sem você eu percebi a falta que isso me faria.

E ainda faz.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois

@marciorodriguees

Gostar e ser recíproco

 

A gente foca tanto em gostar que esquecemos de como é bom quando gostam de volta.
E vira um grande “tanto faz”; a gente simplesmente não se importa.
Pelo menos no começo enquanto tudo é novo e excitante.
Quando a gente esquece da importância do gostar de volta, a gente alega várias coisas.
A gente pensa algo como “ah, nós somos pessoas diferentes, ué” A gente pensa também em algo como “Poxa, eu não posso cobrar que a pessoa mude o jeito dela, né?”
A verdade, de fato, é que a gente sabe quando não sentimos que estão gostando da gente também.
Ou se não sentimos, a gente deveria começar a perceber melhor.

Gostar e ser recíproco talvez seja a regra número um em uma relação afetiva.
É fundamental que a gente sinta que a outra pessoa goste da gente também. E eu não estou falando que a outra pessoa deva gostar da gente da mesma maneira. Muita gente tem mania de transformar as relações em competições. Eu estou falando que a gente precisa se convencer de que existe um sentimento pela gente vindo da outra pessoa. A gente precisa da segurança dos passos que damos de mãos dadas.

Só que na prática é meio complicado.
O problema é que a gente evita encarar a parte ruim das coisas. A gente tem uma tendência a postergar a solução de problemas e isso só os fazem ficar ainda maiores.
O fato é que, muitas vezes, pra gente tudo bem a pessoa só demonstrar preocupação uma vez ou outra; tudo bem a pessoa só contar o que sente de vez em quando; completamente ok a pessoa esquecer das coisas que a gente diz sobre o que a gente sente; isso quando pra gente não é normal a pessoa ser um freezer de tão fria.
A gente demora para acreditar que estamos gostando de alguém que não gosta da gente.

É por isso que eu gostaria que a gente cuidasse mais disso.
Não é sobre sair exigindo que as pessoas mudem suas formas de se expressar, mas sim, sobre a gente refletir no quanto nutrimos um sentimento por alguém que não se importa muito com ele – por vários motivos. Muitas vezes a pessoa nem sabe o porquê. Pode ser que ela ainda goste de outra pessoa. Pode ser que ela tenha vergonha de se expressar. Pode ser que ela tenha medo de te assustar. Pode ser que ela nem sinta nada mesmo e tenha receio de te fazer ficar triste. Pode ser um monte de coisa, mas o que não pode é a gente permitir cultivar um sentimento em um lugar venenoso, isto é, dedicar carinho e atenção a alguém que é indiferente, a alguém que nos coloca em dúvida e nos faz questionar sobre quem somos – esta, pra mim, é a maior merda. Quando você passa a questionar de todo o seu sentimento bom é porque, talvez, ele não tem sido reconhecido como tal.

Gostar e ser recíproco. A gente precisa perseguir essa lógica para garantir um coração tranquilo.
Não é sobre a pessoas criarem demonstrações mirabolantes, é sobre a pessoa nos convencer e nos lembrar de que ela também sente algo bom pela gente o suficiente para que mantenhamos essa história toda.

Presta atenção na sua história.
E não aceita nada menos do que você merece que é proporcional ao quanto você se dedica.
A gente precisa abrir os olhos dos acomodados porque planta que não se rega morre.
Essa conversa de “esse é meu jeito” não tá com nada.

Eu entendo muitas dúvidas da vida, mas entre as certezas é que a gente precisa saber o que o coração da outra pessoa sente pelo nosso.

Gostar e ser recíproco.
Foca nisso.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

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