“Oi, tudo bem? :)”
“Tudo e você?”
“Tudo :)”
E agora?
O que dizer? Como fazer para que a pessoa tenha vontade de conversar com a gente? Como fazer manter a pessoa interessada em falar mais dela pra gente? E como falarmos de nós? Que dilema.

No fundo, a gente sabe bem que 98% das pessoas do planeta começam uma conversa com “tudo bem?” e, só por sabermos disso, a gente já poderia começar evitando aumentar esse número. É que entre tantas pessoas, a gente não vai conseguir chamar a atenção se fizermos o que praticamente o mundo inteiro faz. E, no exemplo deste cumprimento, vê se concorda, é uma pergunta que resulta numa resposta não tão sincera assim, sabe? Explico: O “Oi, tudo bem?” quase sempre é respondido com “Tudo e você?” e, neste momento, é como se a pessoa que respondeu quisesse logo pular essa parte e aí ela só define “tudo”, como se de fato estivesse tudo bem. Pensa aqui, se esse fosse realmente um modo interessante de começar uma conversa, provavelmente a resposta da pessoa seria mais sincera, algo como: “Olha, bem, bem, não está. Os boletos não param de chegar, o salário não aumenta e ainda me apareceu uma espinha no meio da cara, então não sei dizer mesmo se está TUDO BEM como você perguntou”. Imagina a nossa cara ao ler uma resposta dessa? Não dá nem para imaginar o que responder, mas então por que a gente insiste em começar assim? É óbvio que esta é uma pergunta necessária com o efeito de introduzir o diálogo, mas, talvez ela seja uma pergunta não para começar uma conversa, sabe? Talvez ela funcione no meio, a fim de resgatar o bom tom da conversa, quase que como soasse “Ah, até esqueci, tudo bem com você?”. É importante perguntar sim, até porque há pessoas que podem reagir de maneiras tipo: “Que louco/a, nem perguntou se está tudo bem e já foi falando”. Por isso, esta pergunta deve ser feita, o ponto é em qual momento de uma conversa. Uma vez recebi um e-mail que a pessoa falou assim: “Oi, quero saber como está a sua vida! :)” – e só dela falar diferente eu já dei uma atenção a mais do que se fosse: “Oi, tudo bem?”

Talvez a gente pudesse pensar em provocar alguma reação na pessoa, fazê-la sentir-se intrigada com o jeito que a chamamos para conversar. Talvez a gente pudesse começar sem nem perguntar se está tudo bem, mas encontrar algum assunto que possa interessar à pessoa com quem vamos conversar, afinal, em geral e sobre sentimentos, quando você tem dúvida sobre como puxar um assunto com alguém, já há um interesse especial naquele alguém. Tendo isso em vista, teoricamente você já deveria conhecer um pouco desse alguém que te interessa; as músicas que a pessoa posta, as fotos, os lugares que frequenta, as séries que comenta e mais outras coisas. A gente não percebe, mas os conteúdos que postamos em nossos perfis nas redes sociais são pedaços do que somos, gostamos ou queremos ser; pode ser algo também que almejamos viver, isto é, por este pensamento já é possível compreender que talvez a abordagem resumida no “Ei, tudo bem?” não seja a melhor forma de começar a falar com alguém.

Nos tornamos pessoas preguiçosas. Pouca gente tem vontade de surpreender alguém, ainda mais em uma simples conversa pela internet – que é por onde, atualmente, a maior parte das pessoas conversam. A gente segue padrões. A gente nem pensa que talvez estejamos agindo da mesma forma que todas as pessoas agiram antes de nós e, só por isso, seremos só mais um clamando por atenção. A gente nem pensa e o problema é esse mesmo: nem pensar.

Eu acho que é hora de sermos mais cuidadosos uns com os outros em tudo na vida e, no exemplo da conversa, sobre como puxar o assunto, é necessário termos ainda mais cuidado sobre como queremos ter essa atenção de alguém, uma vez que é preciso poucos segundos até que sejamos esquecidos e nos tornemos só mais uma janela de conversa fechada seguida de um comentário no dia seguinte do tipo “Demoro para responder, mas respondo” – mentira, né? A gente sabe que se a conversa for boa, a pessoa vai dar um jeito de conversar, ou se não puder, vai nos avisar. Sermos cuidadosos nesse caso tem a ver com tentar ser o menos óbvio possível, tentar mostrar um olhar diferente, tentar fazer a pessoa nos perceber – até porque se hoje somos quem tem dúvidas sobre como puxar assunto, amanhã será alguém com a mesma dúvida com relação a gente.

Ninguém vai errar se escolher arriscar. O “tudo bem?” não é arriscar, é um jogo seguro, um procedimento social natural. É algo que nosso cérebro já espera, e a resposta “tudo e você?” já nasce meio que sem perceber que foi digitada.

É claro que este texto é mais sobre puxar o assunto pela internet, agora, na vida real, os processos são mais arquitetados, uma vez que é necessário avaliar a receptividade da pessoa para todo e qualquer assunto para que então a gente possa ganhar atenção. No entanto, a premissa de tentar não ser igual a todo mundo é a mesma.

Portanto, não há exatamente uma forma, receita, tutorial ou coisa que o valha sobre como puxar assunto com alguém, mas sempre vai ser um acerto escolher agir de uma maneira que essa pessoa não espera, ainda que seja sobre assuntos que todo mundo fala, isto é, não há problema em aproveitar a música que a pessoa postou para chamar no chat e falar sobre, só que ao invés de “Oi, tudo bem?”, “Tudo e você?”, “Que bom! Tudo também. Então, essa música que você postou é muito legal!”; poderia ser algo como: “Olha, só vim aqui dizer que não consigo parar de repetir a música que você postou”. Isso é dizer a mesma coisa só que de outra forma. É a mesma intenção de um jeito que provoca uma interação não convencional da pessoa, pois, no primeiro exemplo, ela talvez responderia: “Ahh, legal né? Adoro!”, já no segundo, ela tem chances de responder “Hahahaha sei como é, vicia mesmo! Não paro de ouvir há dias” – e aí a conversa continua. Isso faz sentido para você que está lendo isso? Não é um guia, não é uma certeza, mas acreditemos em uma coisa: só de evitarmos ser como a maior parte das pessoas são, já estaremos sendo de um jeito que todos esperam que sejamos: menos óbvios e mais interessantes.

Se a gente tentar não ser clichê, aumentam as chances de sermos especiais.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
umtravesseiroparadois@gmail.com