Como é difícil encontrar uma pessoa nesse mundo na qual as ideias, ainda que diferentes, combinam com as nossas, né? Mais que isso, uma pessoa que fala o que a gente precisa ouvir, não o que a gente gostaria. Como é difícil encontrar uma pessoa que seja gratuitamente gentil com todas as outras; uma pessoa com tom de voz ameno e reconfortante. Como é difícil.

Você, meu amigo, era essa pessoa e talvez a pessoa mais pura e do bem que o meu coração teve o privilégio de encontrar. Mesmo me esforçando, eu não consigo identificar uma ocasião sequer em que você aumentou seu tom de voz, que você perdeu o controle, que desrespeitou alguém ou qualquer coisa do tipo. Eu tenho muita sorte de ser fã dos meus amigos como sou de você. Não conheço uma pessoa que te conheça e não tenha uma história boa ao seu lado. Olha o tamanho do efeito que você causou nesse mundo.

Você, porém, era meio enrolado com horários e roteiros do seu dia – mas até isso a gente achava fofo e não conseguia sentir exatamente raiva – porque você não fazia por mal. A palavra maldade nunca fez parte da sua vida. Quando você falava “vai se foder” era para se expressar por um refrão que você amava e me mandava para ouvir durante o dia. “Não consigo parar de ouvir! A gente poderia fazer umas músicas nessa onda, né?”. É.

Um “”””””defeito”””””” seu é minha maior inspiração: amar demais. Amar incondicionalmente. Provocar o coração a bater mais rápido e ser fiel às suas batidas. Amar tanto que não consegue enxergar os fatos. E, tirando toda a parte complicada em tanto amar, sempre ficava a minha admiração por ser alguém que gostava tanto de amar outro alguém.

Por essas e por outras que eu, na condição de amigo-filho-único-e-mais-velho, me via no papel de puxar suas orelhas. Você sempre me ouvia atentamente, argumentava e entendia. Sem me dar nenhuma aula, você me ensinou que me comunicar violentamente não me faria bem nenhum.

Nossa última conversa longa e franca foi para falar sobre mim. A gente trabalhava perto e eu fui de táxi te encontrar para almoçarmos juntos. Por ironia do destino, hoje eu trabalho ainda mais perto do seu trabalho. Fomos almoçar em um lugar bonito, à luz do sol, com saladas refrescantes e chá gostoso. “Aqui é único lugar com comida vegan que eu posso ir, então sempre venho” se justificava. Com baixa autoestima, fui te contar que andava triste porque “ser um cara legal” não estava me adiantando muito no que diz respeito a conhecer alguém especial. A gente se encontrava para falar sobre amor. Eu podia ter essas conversas com você, apesar do mundo esperar o contrário de homens. É que esse mesmo mundo ensinou a nós, homens, que ser sensível não é legal. A gente cresceu nos anos 90 com a obrigação de sermos durões, fortes e viris. A gente cresceu, por exemplo, com o pensamento de que o bacana era ostentar as garotas com quem saíamos como se fossem troféus. Só que a gente ignorou essas obrigações todas e conseguimos ser nós mesmos. A gente se encontrava para falar sobre amor. E, naquela ocasião em especial, você me falou o seguinte: “Mano, se você sabe que você é um cara legal, mas não se considera sei lá um cara atraente, porque você não foca primeiro em ser um cara legal? Tipo, porque você não coloca sua fortaleza a frente da sua fraqueza?” Eu me tornei absolutamente outra pessoa desde dia em diante. Você era inacreditável, meu amigo.

A gente se falava praticamente todos os dias, lembra?
Lembra das fotos de bulldog que a gente trocava? Que você chama o Teodoro de salame? E dos memes que a gente aplicava no grupo do Dina no Whatsapp e os caras não entendiam? É que só você e eu trabalhávamos num computador o dia todo, diferente dos outros dois. A gente ria junto do Peras ser um dedão de pastel digitando. A gente ria junto dos emojis diferentes que o Eric manda. O Peras me chama de “Cici”, o Eric de “Sinho” e você de “Zin” – sério, vocês são retardados. A gente se falava quase todos os dias e eu sempre chegava com ideias de posts para os canais da banda. “Vamos fazer um post assim e assado?” Dava meia hora e você aparecia com o post: “Te mandei 3 versões e vê qual você gosta e manda bala, beatcho”. Eu sempre te respondia “VSF AMEI TODAS E AGORA” e você ria. Nós fomos uma dupla e tanto, meu amigo.  Você na esquerda, eu na direita. Você Fender, eu Gibson. Você das imagens eu das palavras. Você vegan e eu vegetariano. Você destro e eu canhoto. Você lindo e eu legal (mas vsf você conseguia ser lindo e legal). Você era “nós somos” e eu “tudo o que temos”.

Nessa foto acima, em um fim de semana de show do Dinamite Club no Rio de Janeiro, a gente foi na festa Crush dos nossos amigos do Phone Trio e cantamos refrões que amamos – eu amo essa foto. Foi um dos dias mais legais de todos. Olha o que você ajudava a fazer: a gente foi fazer um show, mas alguns amigos nossos de São Paulo foram ao RJ só para passar um fim de semana com a gente também. Você ajudava a construir motivos para as pessoas se reunirem.

Você e eu filhos únicos sempre fomos irmãos.

Esse dia acima foi um dos melhores da nossa vida. Você lembra, né? Claro que lembra porque você achou a gráfica pra gente imprimir o banner do palco e eu fui buscar na hora do meu almoço – aliás não tinha uma mais perto, né?  Minha mãe foi a esse show, sua mãe também. Elas se conheceram. Nós dois, ambos filhos únicos, tocamos para as nossas mães. Isso foi mágico.
A gente correu tanto para organizar o que foi o show de lançamento do nosso disco novo. E tudo deu certo.
Que sorte que a Gabi (@gabrielaklein_) conseguiu registrar esse momento! E eu gostei tanto dessa foto que ela revelou e, carinhosamente, me deu em um quadro no meu aniversário. E eu dei para você depois que começou a se tratar. Essa foto explica muito de como eu me sentia com você. Um irmão mais velho, sempre checando se estava tudo bem, sempre querendo ficar pertinho e sempre ao seu lado nos palcos ou fora dele. A gente pulou muito pelos palcos desse Brasil. Nossa banda está longe de ser a melhor de todas, mas a gente sempre foi uma banda que se divertiu como nenhuma outra a cada palco que a gente subia. Foi como o Peras escreveu em “Puro”: “Quantas vezes eu me perguntei o que é que estava eu fazendo ali, só pra tocar pra meia-dúzia, só eu sei no que me envolvi.”

A gente nunca se importou com o tamanho do lugar e nem em quantas pessoas iam nos assistir, né? Sempre fizemos um show igual. Agitado, energético e, sobretudo, com muita, mas muita energia positiva para passar e tentar melhorar um pouco o dia de alguém que nos assistiria. No palco, você sempre foi meu porto seguro. Enquanto o Peras estava lá brilhando nos vocais e baixo ao mesmo tempo, o Eric sendo o melhor guitarrista baterista que a gente conhecia, a gente se olhava nas músicas e quase como um código pulávamos ao mesmo tempo. A gente se olhava e piscava um para o outro para garantir que o som tava bom e, se não estivesse, a gente se preocupava um com o outro. Você adorava os começos de show porque rolava um aquecimento enquanto o Peras cumprimentava o público, e aí você dava seus pulos e aqueles socos no ar que eu nunca soube fazer igual. Mano, você era demais tocando e eu sempre me sentia na melhor banda do mundo quando a gente estava fazendo um show. Ninguém poderia reclamar de falta de presença, de falta de entrega, de falta de amor a cada acorde. Meu amigo, nossa banda sempre fez um bem danado a nós e, com o tempo, especialmente nos últimos tempos, começou a fazer um bem incrível a outras pessoas.

Esta foto é muito emblemática.
Você tinha melhorado bastante no seu tratamento. A gente estava em plena tour com o Neck Deep pelo Brasil e você conseguiu participar do fim do show no Rio de Janeiro e do show todo em São Paulo (foto). Neste dia, eu usei a camiseta da minha banda preferida: Real Friends. E eles tem um bordão que eu amo: “Wow, what a great day”. Achei que combinava com a ocasião toda. Antes de tocarmos “Você é Maior”, você falou algumas palavras para aquele lugar lotado e, além de mim e os outros meninos da banda, pude ver lá de cima do palco, ao seu lado, muita gente emocionada com suas palavras e lições sobre otimismo e pensamento positivo. Cara, você era muito foda. Então, durante a “Você é Maior” eu me aproximei de você e, como essa foto registra, dividi o microfone no trecho: “Vai ter pressão, decepção, mas você é maior” – porque eu nunca imaginaria que essa letra que escrevi seria uma oração para você. E aqui, com a visão turva de tanto chorar escrevendo isso tudo (desculpa falar tanto mas você me conhece), eu fico parado olhando essa nossa foto e querendo voltar para este dia com você.

Hoje eu queria ouvir suas guitarras de novo. Queria você me chamando no Whatsapp para perguntar como eu estava, queria você me chamando assim “ow zin, se liga nesse som”. Queria você falando que tudo vai ficar bem e que era para eu ter paciência. Queria você perto, meu amigo.

Hoje você foi para um lugar diferente do nosso. Logo o mais enrolado de nós, foi o primeiro a ir. Por favor, checa se as tomadas são 110w para eu poder levar nossos amps?

Esses dias tem sido muito emocionantes. Muita gente escreveu coisas lindas sobre você e eu li tudo o que pude. As pessoas gostam da nossa banda, mano! As pessoas dizem que as músicas que fizemos melhoram a vida delas. Você tem ideia? Eu não sabia disso assim. As pessoas amam nossos shows! A tour com o The Story So Far e o Neck Deep fez muita gente se aproximar da gente. Como li por aí, você gostava tanto de pular que deu o pulo mais alto de todos. Eu sei que aí de cima você vai continuar pertinho da gente. Toda vez eu eu olhar para o céu eu vou encontrar um pulinho seu ou o começo daquela risada engraçada.

Obrigado por me ensinar tanto e até os seus minutos finais neste plano seguiu me ensinando. Você foi cura para muito dos meus dias. Você tem me feito pensar em muita coisa sobre meu jeito de levar minha vida. Eu reclamo demais de muita coisa pequena – a gente cai nessas, né? A rotina, o trânsito, o cansaço, o dinheiro que não sobra, o cabelo que não acorda bom, a série que termina, o show que é caro e por aí vai. E, você, nos últimos tempos, queria sei lá poder beber água… A gente faz questão de reclamar de tudo mas a gente nem percebe tanta reclamação. Você me ensinou que, mais do que isso estar errado, eu posso mudar isso para a minha vida e para as pessoas que amo. Eu te prometo honrar seu legado por aqui e tentar ser uma pessoa boa para outras assim como você era para todas. Vou levar para sempre comigo cada um dos abraços que a gente deu e dos soquinhos no palco antes de começarmos os shows. Eu vou cuidar do Peras e do Eric por aqui, tá? E entre eles vem todas as pessoas que sempre estavam com a gente. Vou ficar mais perto dos anjos que te cercaram durante toda essa fase. Obrigado por ser meu melhor amigo, meu parceiro, meu irmão e até o meu pai. Obrigado pela companhia, seja nos palcos, ensaios ou nos almoços corridos no meio do expediente. Você plantou tanta coisa boa neste mundo que cada pessoa que teve o privilégio de tocar em você carrega uma sementinha de amor puro e verdadeiro para colher em suas jornadas.

Você é o melhor, cara.

Como é difícil encontrar uma pessoa nesse mundo na qual as ideias, ainda que diferentes, combinam com as nossas, né? Ainda bem que te encontrei.

A você que leu tudo isso aqui, por favor, conte aos seus amigos o quantos os ama. Tente ficar perto deles. Cuide das pessoas que te fazem bem. Reveja sua prioridades e seus esforços.
A vida sempre vai estar correria mas a gente sempre pode dar um jeito de caminhar.

Eu te amo muito, Lele. E que bom que pude te falar isso muitas vezes.
Você é o maior. Você significa muito e nós sempre seremos tudo o que temos.

Com o maior amor que meu coração pode ter,
Márcio Rodrigues.
(ou “zin” para você).

ps: pensei em um post para o instagram do Dina, vou te mandar por e-mail.