Eu sou para casar

Eu e você.
A gente vivendo junto por um tempo até escolhermos deixar as coisas, digamos, mais oficiais. E aí a gente casa, tá?
Avisamos os familiares e amigos mais próximos. Reunimos quem amamos para testemunhar o que sentimos e então, lá somos nós oficialmente dois vivendo um para o outro. Com algum esforço, a gente encontra uma casa para morar e vamos montando como gostamos. Entre móveis, quadros e potes para guardar temperos, vamos deixando o nosso cantinho cada vez mais nosso. Os começos, meios e fins de semana ganham sentidos diferentes e, mais do que nunca, nos vemos apaixonados pela companhia um do outro e pelas noites de pipoca se perdendo no edredom enquanto assistimos séries.

Eu e você.
Meu dia. Acordo mais cedo, procuro os chinelos, visto uma roupa qualquer e vou até a padaria comprar nosso café da manhã. Quando volto, às vezes você está dormindo ainda e às vezes já levantada com o rosto cheio da marcas dos travesseiros montando a mesa. Um beijo na sua testa de bom dia e sentamos. Talheres coloridos. Você é detalhista. Acessamos as redes sociais. “Te marquei num vídeo, vê depois”.

Eu e você.
Dias difíceis. O trabalho anda complicado e o mundo parece pesar demais. A gente briga. Nos desentendemos e ficamos um tempinho em silêncio – é bom respeitar o espaço. Mas logo voltamos a conversar, nosso foco é sempre em consertar e ficamos bem. Dormir brigado não é uma opção. Você chora ao falar dos seus problemas – eu choro te ouvindo falar e contando os meus. Parece que não vamos aguentar, mas a gente se ajuda. Como se encontrássemos forças onde os olhos não alcançam, nos abraçamos e repetimos que tudo vai dar certo – da mesma maneira que prometemos um ao outro desde o nosso primeiro sim.

Eu e você.
Meses de trabalho e cansaço até encontrarmos espaço para planejarmos as férias, apesar de todo fim de semana ser um descanso particular. A gente curte se curtir. Vamos entendendo o jeito um e do outro. Um mais planejado, outro nem tanto. Acho que essa é a graça, né? A vantagem da diferença é que elas se tornam igualdade quando combinadas.

Eu e você.
Uma loja de bugigangas. A gente ama decorar nossas casa. “Olha essa almofada!”, “Vi um quadro novo em uma loja na rua de trás”, “Vou te mandar o link da oferta daquela poltrona que falamos!”. A gente parcela em mil vezes, não tem problema quando temos um ao outro.

Eu e você.
Sempre que dá, a gente reúne os amigos. A gente gosta de dar risada alta. A gente gosta de lembrar de dias legais. A gente prioriza viver dias legais. A gente gosta de estar perto de quem gosta da gente. A gente concorda que compartilhar alegria é redobrar.

Eu e você.
Conchinha quente no frio do inverno. Meia por cima da calça de moletom. Camiseta velha GG para confortar. Sexta-feira a noite para desligar o despertador. Uma respiração no pescoço. Clarão no celular com notificação da bateria descarregando. Puxa a mão no abraço e coloca em volta do corpo. O braço fica dormente mas tudo bem. Dias de agasalho. Uma caneca gordinha com bebida quente daquelas de embaçar o óculos. Manga da blusa cobrindo as mãos.

Eu e você.
Ventilador no 3 no verão. Calor é foda. Pernas desenroscadas e mal da para encostar um no outro. “Aff, tô morrendo de calor”. Pernilongos. “Ligou o aparelho?”. Dias de Sol. Açaí de 500ml. Andar de bicicleta no parque e assistir TV sentados no chão gelado. “Tá sujo aqui, precisamos limpar depois”, “Precisa comprar VEJA”.

Eu e você.
“Deu positivo”, “Sério mesmo?”, “Espera, senta com cuidado aqui!”, “E se for menino? Ou menina?” Nossos pais sabendo e chorando que serão avós. A gente andando na rua e só encontrando casais grávidos. Na TV, só anúncio de coisa para nenê. “Olha seu e-mail, te mandei vários blogs com dicas legais sobre primeiro filho”. Nasceu. A cabeça vira a chave. Agora somos três – pelo menos por enquanto. A gente pensou que já sentia muito amor e aí descobrimos que tinha mais, sempre tem mais, que sempre dá para sentir mais coisas boas.

Eu e você.
Nossos filhos se casaram – isso, nossos, vieram outros. E voltamos a ser nós dois. Grecin 5 no cabelo. “Vamos conhecer a Itália, benhê?”. Feira no bairro e macarronada no domingo. Programas de receitas na TV. “Como assim seremos avós?”. A vida fica ainda mais divertida. E nós continuamos nós, trocando conchinhas no inverno e picolés no verão.

A vida vai ficando mais colorida um pouquinho por dia quando a gente casa. Não é fácil, mas dá tudo certo. Talvez não tenha exatamente uma receita, mas há um modo de fazer com quem seja mais leve e gostoso: sendo um para o outro aquilo que sempre quisemos que fossem para a gente. Se só essa regrinha for seguida, metade da felicidade está garantida – a outra metade depende de pagar os boletos.

Eu e você ainda nem existimos. Não te conheço e você não faz ideia de quem eu sou. Você ainda não apareceu e não sei quando virá. O que eu sei é que sou para casar e quero ficar com você do dia em diante depois daquele que eu te conhecer, tá?

Tá.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

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2 Comments

  1. Preciso te dizer que tenho um carinho especial por teu blog a anos. E que amei muito esse texto, me parece mais que foi escrito por mim, ou para mim. Fantástico.

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