A gente funciona.
Ou a gente parece funcionar.
Uns gostos diferentes, mas todos os parecidos pesam mais.
Os mesmos planos individuais sobre o futuro, filmes preferidos e aqueles nem tão bons assim.
A noite parece terminar rápido demais.
Corpo selado de suór. Roupa no chão. Tantas vezes.
Dormir e acordar bem no encaixe da conchinha.

Tudo muito bem.
Mas.
Para algo mais sério, não.

Sem motivo aparente mas a minha insegurança imagina que seja a minha aparência. Esse mundo desequilibrado faz a gente se apegar a coisas pequenas demais – e a culpa não é minha.

A gente passa dias conversando.
Combinamos de sair na sexta.
Comer alguma coisa.
Ir para a casa de um de nós.
Se dar conta que o tempo passou e domingo chegou.
Fins de semana diferentes de roteiros iguais.

Mas.
Para algo mais sério, não.

Você nunca exatamente me disse que não.
Mas você não reage ao meu sinal de sim.
Inevitavelmente me vejo como um passa-tempo para te ocupar.
Eu existo até que alguém passe a existir.
Eu sou por enquanto enquanto você busca alguém para sempre.

Acredito na ideia de que conversar é sempre a melhor a saída, mas eu não sei o quanto puxar esse assunto com você só vai me expor a algo que eu já tenho percebido há muito tempo. E aí me vejo numa emboscada: gosto tanto que não quero correr o risco de acabar, mas não sei se quero continuar gostando só do jeito que eu gosto.

E o problema aumenta nas vezes que você diz gostar de mim.
Quando você me chama por apelidos.
Quando você me convida para ir a alguns lugares.
Quando me faz sentir ter um papel de verdade na sua vida.

Porque só eu sei o que sinto quando você manda mensagem dizendo estar com saudade. Eu só não faço ideia do que você sente ao escrever.

No final das contas, o que fica é a conclusão de que gosta de mim, mas não para algo mais sério. É só eu me aproximar de um assunto parecido, mencionar algum casal de amigos ou coisa do tipo que você se afasta; você parece ter encontrado um lugar para eu morar na sua vida mas esqueceu de perguntar se eu gostaria dessa ideia.

E aí, em uma das tantas noites que passamos juntos, eu me vejo te vendo dormir e pensando: “qual é o problema comigo?” Pior que nem sei se é comigo, pode ser só com você e nem você tem exatamente culpa, mas como que a gente administra essas fantasmas?

E nem sei direito se quero saber.
No fundo, eu quero. No fundo, eu preciso. Preciso saber o que pensa para eu saber se penso igual. Porque o tempo que gastamos juntos eu poderia estar aproveitando com quem quer como eu.

Acho que você me convenceu que te faço bem, mas você precisa ver sua cara quando eu falo que gostaria de fazer mais.

Você gosta de mim mas não o bastante para algo mais sério.
Né?
Repito isso pra mim a cada sim que respondo para um novo convite seu sobre fazer algo.


por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com