Teve um dia que alguém começou a contar histórias sobre um casal enlouquecidamente apaixonado.
Até aí tudo bem. Tem dias assim.
O problema nasceu quando essas histórias começaram a ser tão repetidas que passaram a se tornar ideal do que é ter uma história com alguém.
As novelas, os filmes, refrões, os livros e, mais recentemente, os textos de internet começaram a se apoiar na ideia de felicidade com alguém por meio de um amor inexplicável, recheado de demonstrações incríveis, pétalas de rosas e juras infinitas.

“Juras de amor”. Puts, quem inventou isso?

A não ser que você seja algum tipo de entidade com autoridade no assunto, a gente não pode afirmar o que é o amor, mas a gente consegue viver experiências que nos mostram como ele não é – e ponto de partida é simples: se te faz mal, não é amor.

Eu obviamente não sou contra o amor, mas eu me preocupo com o impacto da ideia de um amor perfeito e inalcançável na vida das pessoas. É que pensa assim, uma vez que a história com alguém não for parecida como a novela das nove mostra, a sua cabeça vai começar a pensar que a sua história não é tudo isso. E aí você vai começar a se prender mais nas falhas do que nos feitos e os defeitos vão pesar mais que as qualidades.

Isso quer dizer que tudo bem se, por exemplo, a pessoa não souber falar uma palavra bonita ou não fazer alguma demonstração apaixonada de que “vocês são para sempre”, na real, dane-se isso, o que importa e sempre vai importar é se a pessoa se importa com você, se te faz bem e se você sente que ela faz bem a você também.

Amor romântico é uma muleta criada por sei lá quem pra gente se apoiar, mas que, como toda muleta, pode quebrar e te machucar.

O amor tem dias ruins.
Uma história com alguém pode ter um monte de capítulo péssimo e ainda assim ser uma história linda. Você pode conhecer uma pessoa com vários defeitos, mas que ainda assim pode ser a melhor pessoa que já conheceu na vida. A vida real é isso.

O amor romântico não existe porque na rotina de segunda a segunda o buraco é bem mais embaixo do que no refrão da música que fala do amor incrível.
A gente precisa sempre ter clareza de que não é só de notícia boa que a vida é feita, mas que isso não significa que a vida seja ruim.

Estou conseguindo me explicar? Você pode discordar, mas eu gostaria que refletisse um pouco sobre isso comigo.

Andei lendo também alguns textos do tipo: “namore alguém que”.
Eu fico pensando: como alguém pode abrir o computador e escrever como é a pessoa que eu devo namorar?

Gente. Sério. Como assim?
Tá vendo o papo do amor romântico sendo projetado para todos nós? Estímulos como os de textos que disse acima, projetam na nossa cabeça a ideia do que é alguém ideal pra gente.

Namore quem você quer e também te quer.
Ou nem namore.
E tudo bem.

Discordar da ideia do amor romântico não faz de ninguém como alguém insensível. Uma coisa em nada tem a ver com a outra. O ponto principal aqui é não alimentar esse papo de perfeição, declarações românticas, frases lindas, flores infinitas, tatuagens juntos, fotos iguais nos perfis das redes sociais e por aí vai. É perigoso acreditar que são esses os índices que demonstram que uma pessoa gosta da gente.

O amor é muito do caralho. Viver uma história com alguém que te faz bem é uma das coisas mais gostosas desse mundo, mas isso não pode ser de um tamanho maior do que é. Viver com alguém é estar bem com um compromisso de ser a sua melhor versão para outra pessoa; é estar bem em aceitar desculpas e admitir que também erra e erra muito; é harmonizar os prós e contras e acreditar que sempre dá para melhorar. Você pode até discordar, mas no mínimo faz sentido.

O amor pode ser muita coisa, mas só não é esse céu azul infinito limpinho e cheio de passarinhos branquinhos cantando, sei lá, Djavan. Acho especial a gente se inspirar com esses exemplos perfeitos, mas acho completamente responsável a gente entender que dias assim não são o padrão. Setar isso na nossa cabeça é importante pra gente não se machucar e, principalmente, não deixar que nos machuquem.

Tá tudo bem amar alguém, só toma cuidado para não jogar uma responsabilidade nesse amor a ponto de estragar tudo.

Não acredite no amor romântico.
O que existe é uma história com alguém em que entre lápis quebrados e folhas rasgadas, a gente consegue ter sabedoria e sensibilidade para virar a página e continuar escrevendo.

E, é importante frisar, neste exato momento pode existir alguém tentando escrever uma história com você que você não deixa.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com