Eu disse que não estava pronto.
E disse pra mim antes de dizer para você.
Lembra?

Te contei de onde vinha, por onde meu coração tinha passado antes de você aparecer na minha vida. E te contei tudo para me proteger e proteger você. O plano era simples como o que a gente vivia: não nos envolvermos muito, estabelecer limites e preservar a calma.

Você, por coincidência, dizia viver o mesmo momento.
Por isso, tudo parecia bem alinhado: a gente levando isso tudo como lazer do que como futuro.

A minha cabeça estava uma bagunça.
A pessoa que passou por mim antes de você foi embora e deixou a porta aberta. O vento jogou tudo para o alto e eu me esforçava para organizar minhas prateleiras novamente. Que fase.

Exatamente por isso eu preferi te contar detalhes do meu momento. Eu não queria ser covarde e te fazer investir em algo que não teria retorno – eu já fiz isso antes, já fizeram isso comigo antes, eu já entendi. Reproduzir um erro é flertar com a tragédia.

O problema foi eu ter certeza demais.
Não dá pra gente calcular as batidas que o coração dá.
Não dá para eu dizer: “ei, não passe deste ponto”.
E o que aconteceu é que me vejo aqui, feito idiota, ansioso por uma nova mensagem sua e enfiado no jogo horroroso, justamente o jogo que eu temia, entre saber se eu acerto ao te procurar ou é melhor esperar por horas alguma mensagem sua puxando qualquer tipo de assunto.

Hoje, olha a minha cara caindo no chão, hoje eu sou tomado por ansiedade antes da gente se ver e fico triste quando a gente se despede. Eu tentei negar por muito tempo, mas eu já vi esse filme antes então posso cravar: estou envolvido.

Revisitei fotos que trocamos pelo Whatsapp. Mais de uma vez ouvi as músicas que mandou. Assisti os filmes que indicou. Comprei os livros que tão bem falou. Quando me dei conta já estava querendo entender mais do jeito que você vê o mundo para eu poder enxergar uma porta e pode entrar.

Essas coisas a gente não escolhe.
Meu erro foi acreditar tanto na teoria dos limites e nos papos batidos de não querer me envolver. Falei isso como se eu não me conhecesse; como se eu não soubesse que de tão bem que você passou a me fazer aos poucos, era natural eu querer que me fizesse ainda melhor cada vez mais.

Hoje eu estou aqui pagando a língua. Eu nem sei se notou diferença na minha postura. Não foi nada de mais eu brincar de onde a gente poderia morar quando a gente casasse… O pessoal enxerga cada coisa, viu? Eu só brinquei.

O combinado era não ser nada sério.
Eu só esqueci que meu coração não costuma levar combinados muito a sério.
E me enganar nem sempre é ruim.

Pode ser Júlia sim o nome da segunda filha.

por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com