Meia noite e trinta e três.
A gente resolve dormir.

“Vou ficar de lado, tá?”
“Tá, vou ficar na conchinha. Depois a gente reveza, hein?
“Tá”.

E aí vem você e esse seu pé gelado.
Gelado que chega a doer. Meu corpo até treme.
Eu poderia reclamar. Eu poderia te criticar.
Eu poderia sugerir colocar uma meia. Sugerir que se afastasse de mim.
Poderia protestar em tom de brincadeira.
Mas eu só os sinto e foco em te aquecer.
Você, antecipadamente, me adverte:

“Ai meu deus, meu pé tá muito gelado”
E eu: “tudo bem”.

Acho que dá pra gente aprender muita coisa na lógica dos pés gelados ao dormir.
Pensa comigo: é uma situação adversa e que não traz nenhum tipo de conforto.
É um confronto ao meu corpo, ou seja, algo que eu gostaria de rechaçar, me afastar.
E eu poderia fazer isso recorrentemente.
Como se seus pés gelados fossem um desejo seu.

Mas, entre tantos problemas que a vida já tem, eu não vou criar mais um ao reclamar dos seus pés gelados.
Eu escolho te aquecer. Fazer alguma coisa para isso.
Escolho dimensionar o tamanho do problema e não me apegar a ele.

Será que a gente não perde muito tempo reclamando dos problemas da vida ao invés de tomar alguma iniciativa para tentar resolvê-los? Será que não estamos transformando pés gelados em dias tristes? Será que entre as escolhas da vida a gente precisa mesmo priorizar as reclamações? Será que eu faço errado quando escolho colocar meus pés nos seus para te aquecer ao invés de reclamar de como eles estão frios?

Eu prefiro garantir a nossa noite juntos do que gastar nosso tempo para criticar seus pés.
Será que a gente não pode preferir conversar antes de virar discussão? Inclusive um pé aquecendo outro é, tecnicamente, um processo de conversa. Será que a gente não pode pensar antes de falar? E mais, ouvir mais do que só falar?

Todos os dias que a gente dorme são iguais: a gente se enrosca no edredom e começa a contagem regressiva dos seus pés de ALASCA chegando perto dos meus. Aí eu respiro, aceito e ao ouvir você se antecipar e reclamar de si, eu coloco meus pés no seu e foco na nossa noite juntos.

Talvez a gente esteja transformando simples pés gelados pela vida em problemas que tiram nossa noite de sono.

Isso tudo é só pra gente pensar nos motivos pelos quais temos tem gastado nossa energia e tempo.

Seus pés são gelados e eu vou aquecê-los.
É sobre isso.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees