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Eu tenho uma lembrança muito especial da gente assisitindo pica-pau juntos no SBT. “Vai começar pica-pau” você me avisava. Mas tenho outras memórias também. Lembro de você cortar o bife em 456 pedaços só para eu ter o mínimo trabalho de praticamente só engolir – fico pensando se te decepcionei quando me tornei vegetariano aos 14 anos. Acho que não. Eu lembro de quando cortava minha franja que já entrava nos olhos. Ficava de cócoras no banheiro e passava a tesoura. Ficava meio torto sim, mas eu não me importava muito. Teve aquela vez que você me ajudou a tirar o dente de leite. Eu chorava tanto. E o meu bigode? Apesar dos meninos na escola começarem a me zoar com aquela penugem, você avisava que era melhor eu não tirar porque se não eu teria que tirar sempre a partir dali. Mas teve um dia que tirei sim – estava muito feio! Inclusive quando me dava bronca você apontava para o bigode como um sinal de quem sabia do que estava falando, um sinal de respeito, um sinal de “me obedeça”. Que via pensava que era durão, mas nem era. Na rua, quando eu jogava bola com meus amigos, você assobiava no portão e lá de longe eu ouvia. Era o sinal para eu entrar em casa e, provavelmente, jantar. Teve uma vez que a gente foi comprar um chuteira nova pra eu ir pro treino de futebol na época. Tiveram esses e outros momentos que a gente viveu.

E teve toda a parte difícil também. Teve uma parte só minha toda difícil que ninguém faz ideia. Ninguém faz ideia. Teve a parte de eu chegar na rua de casa e ouvir vocês brigando. Aí eu sentava na calçada em frente o portão e chorava esperando acabar a briga pra entrar em casa. Uma vez eu ouvi a briga de longe e fui até o supermercado do bairro ficar dando voltas pra passar o tempo. Você não sabe, ninguém sabe, mas eu mesmo causava os meus espirros na madrugada só pra vocês pararem de brigar entre vocês e começarem a brigar comigo. Essas brigas me deixavam muito triste. Ver vocês assim me fazia muito mal só que eu não podia fazer muita coisa na época. E pelo menos vocês sempre se respeitaram e não houve episódios mais sérios. Ser filho único é bem complicado em momentos como esses. Ser filho único, de família minúscula, sem conhecer os avós, sem ter uma casa da tia na vizinhança. É muito difícil. Foi muito difícil. E foi aí que eu tive uma primeira grande lição na minha vida: foi vendo toda a parte ruim dessa convivência que, dia após dia, fui colocando uma vontade na cabeça de viver totalmente o contrário. Em teoria era para eu ser mais um a reproduzir todo o stress de vocês assim que eu crescesse, mas eu fui pelo contrário. Foi vendo cada dia de briga, cada noite mal dormida, cada dia que vocês mal se falavam – eu nunca vi um beijo de vocês – foi vendo tudo isso que hoje, aos 30 anos, eu tenho certeza de que sei fazer bem a alguém, tenho certeza de que o próximo beijo que eu der em alguém vai ser eu 100% de verdade ali querendo fazer bem a esse alguém; para a próxima namorada que eu tiver, noiva, esposa, tenho total certeza que sei fazer bem a alguém sempre que eu tiver essa chance. E só sei disso porque tive em casa muitos dias de duas pessoas se fazendo mal, onde eu me confundia sobre o que significava amor e fazer bem a alguém. E hoje vejo que amor é tudo o que eu sou nesse mundo e, por outro lado, eu sou amor porque vocês me criaram orientando sempre pelo certo da vida, formando meu caráter para que eu conseguisse vencer como vocês entendiam que não conseguiram. E apesar de tudo isso, você em especial, sempre me inspirou muito. Nunca vi faltar em um dia de trabalho por mais doente que estivesse. Dobrava o turno, fazia tudo, mas sempre estava lá: trabalhando dignamente e consquitando seu salário. Isso sempre foi muito incrível pra mim e lembro sempre! Pena que você gastava seu suado salário com outras coisas que não as contas em casa. E aí você passou a gostar de beber. E beber mais. Beber tanto e ajudar tão pouco que o melhor para vocês dois em casa foi mesmo se separar. Hoje eu não bebo. Eu não cresci com o referencial de que bebida é celebração. Não há exatamente um trauma clínico, mas eu não faço questão de beber, eu não vejo graça e não sinto vontade, mas respeito muito todos que gostam e apreciam, inclusive parte da nossa família, muitos dos meus amigos, minhas ex-namoradas e etc. Ou seja, veja você, além de vegetariano há 17 anos, eu não bebo álcool nem uso nenhum tipo de droga. Não foi algo que eu parei e pensei: “não quero beber” como fiz quando me tornei vegetariano, mas foi algo que não fazia sentido pra mim, daí eu só fui ignorando as possibilidades e não me arrependo. Ainda sobre lição mesmo sem ser a intenção, foi ao te ver bebendo tanto com as contas em casa pensando ainda mais, que eu fui pelo caminho contrário. Todas as contas podem pesar na minha vida sempre, mas não vai ser porque estou gastando o dinheiro com bebida.

Deixa eu te contar uma coisa aleatória que me disseram.
Conversando com uma garota uma vez, ela me falou que não sairia com um cara que não bebe. Eu ri e ela continuou: “gente, imagina? vou num bar beber uma cerveja e o cara bebe o quê? um suco?” Pois é. As pessoas tem dessas. Está difícil agradar e ser interessante. Parece que, nesse exemplo, para algumas pessoas é impossível ser legal se você não beber. Louco, né?

Retomando a história e dando um salto de anos entre traumas e pouquíssimo contato depois que você saiu de casa, nesses últimos meses eu tive a oportunidade de cuidar e me reaproximar de você, apesar do motivo não ser bom. Você estava muito doente. A bebida machucou nossa família, mas machucou ainda mais você por dentro e por fora. As pessoas não te reconheciam mais. Sua aparência mudou. Aquela sua energia vital de trabalhar por horas pareceu esgotar. E eu senti que devia passar por cima de qualquer sentimento ruim que eu pudesse ter sobre você por todas as coisas que passei – e passamos aqui em casa. Todas as noites minhas chorando secretamente. Todas as vezes que senti o clima péssimo. E todas as vezes que esfreguei o cobertor no nariz pra vocês brigarem comigo e pararem de brigar entre vocês. Eu nunca fui de guardar coisas ruins das pessoas, não seria assim com você. Mais do que sentir que eu queria fazer algo, percebi que eu devia fazer alguma coisa por você agora, tipo como você cortava o bife para eu comer. E não hesitei, não pensei duas vezes. Então a gente ficou mais perto. A gente começou a conversar mais e tentei cuidar de você o máximo que eu pude, entre documentos novos e remédios. Passeamos de carro, apesar do destino ser o hospital – você nem sabia que eu tinha carro. Nas despedidas eu beijava a sua testa e falava “fica bem”. Depois de algum tempo, encontrei um lugarzinho muito bacana, com muita gente do bem, silencioso e bonito para você se tratar e melhorar aos poucos. Eu sabia que qualquer melhora levaria meses ou anos. Na primeira visita, te perguntei se gostava de lá e você falou que sim. “Aqui tem cinco refeições”, comemorava. Você parecia estar melhor. Eu me sentia melhor. A nossa família se sentia melhor por saber onde você estava, diferente das vezes que nos perguntávamos do seu destino. Eu me sentia bem em te fazer bem – lembra da lição lá do começo? Me sentia bem em receber fotos suas. E, principalmente, me sentia grato pela oportunidade da gente se reproximar depois de tantos anos e de eu poder te ajudar. Parecia que eu passei esses anos todos me preparando para poder cuidar de você nesses últimos meses. Apesar de toda a sua dor e sofrimento pela saúde, tudo corria bem e com uma pequena melhora constante, até que nessa semana seu corpo não conseguiu resistir mais a tanto desgaste por causa da bebida e você partiu para descansar lá no céu, perto do vô e da vó – aqueles que eu nem cheguei a conhecer. Eu chorei com a notícia. Chorei muito. Chorei na frente das pessoas, chorei sozinho. Chorava, mas no fundo, por um lado, eu chorava pela gratidão de poder me reaproximar de você, de poder fazer alguma coisa para te fazer bem, chorava pelo alívio de uma vida sem remorsos ou mágoas entre nós dois, chorava porque eu sabia que você estava feliz por estar perto de mim de novo, tipo como quando respondeu agradecendo em áudio pelo seu aniversário mês passado.

Pai, você me ensinou muita coisa, até mesmo sem querer. Seus defeitos me ensinaram a aperfeiçoar minhas qualidades. Suas qualidades me ensinaram a melhorar meus defeitos. Eu sinto que o senhor está bem agora, que está descansando depois de passar tanta coisa nessa vida. Eu te agradeço por me dar a vida, te agradeço pela mulher que escolheu pra ser minha mãe, essa guerreira que veio com o senhor lá do interior do Piauí para vencer aos poucos aqui em São Paulo e segurar a minha mão todos os dias. O senhor tem um ótimo gosto para mulheres, sabia? (Outra lição aqui, viu? Também tenho bom gosto. Eu sou um privilegiado porque 100% das mulheres que já me relacionei na vida, em compromisso ou não, são mulheres maravilhosas!) Eu não guardo nada de ruim da gente, eu só guardo a sua imagem rindo sem os dentes da frente comendo o bolo que a tia te levou na primeira e única visita que pudemos te fazer. Você era um grande cara, com um coração gigante e que, ironicamente, justamente por toda essa grandeza que se perdeu na escolha de ser mais bondoso para desconhecidos em balcões de bar do que para a nossa família em casa com comida quente. Mas tudo bem, pai. Eu realmente não guardo nada de ruim, mas acho importante falar sobre coisas difíceis em detalhes pra gente saber que elas existem e que a vida não é colorida todos os dias. Hoje falo com tranquilidade sobre o que passamos, sobre o que passei por todos esses anos e últimos meses. É como se a minha vontade de ajudar a melhorar fosse maior que qualquer julgamento sobre seus erros. E, afinal, quem sou eu para julgar? Jamais.

Pai – e que delícia escrever “pai” sobre você depois de tantos anos -, de novo, te agradeço por tudo. Desculpe se falhei em não ser um filho perfeito, desculpe por jogar desodorante naquela carne descongelando na pia quando eu tinha 10 anos; nunca te falei mas fiz isso porque o senhor não me deixou jogar bola na rua, poxa. Seus netos um dia vão saber disso, viu?

E acredite em mim quando digo que acordo todos os dias tentando vencer na vida para honrar o seu “Rodrigues” do meu nome, a sua quarta série incompleta e hoje, mais do que nunca, acordo todos os dias para manter um sorriso no rosto da mulher que você escolheu para ser a mãe do seu único filho – e também da minha tia que mora com a gente que eu tanto amo.  Quando a gente tiver nossa casa própria eu te mostro, tá?
Aliás, essa nossa foto é de um aniversário meu na primeira casa que vocês moraram quando vieram do Piauí pra São Paulo e depois eu nasci.

Tô feliz que o senhor está em paz e descansando agora.
Eu só não vou sentir mais saudades suas porque eu sempre te levarei comigo.
Um dia a gente vai assistir pica-pau de novo.

Com todo o amor que eu posso sentir no meu coração,
do seu filho,

Márcio Rodrigues.

ps: fica bem e obrigado pela vida, eu cuido da mãe.

6 Comments

  1. Marcio,

    Não só você, mas eu (nós) que lemos seu blog temos que agradecer teu pai por ter um filho maravilhoso como você e com a maior certeza do universo ele teve muito orgulho disso!
    Não sei muito o que dizer, eu não aprendi a lidar com esse negocio de perder quem amamos, mas meus sentimentos a ti e família e luz para ele.

    Larissa.

  2. Eu chorei ao ler esse texto.
    Me senti muito comovido e só quem tem um alcolista na familia sabe a dor que isso representa pra todos. Minha mãe é alcolista desde os meus 7 anos e por conta disso eu vivi tudo o que não deveria ter vivido naquela época. Ela ainda vive, agora conseguiu uma recolocação no mercado de trabalho e depois de eu fazer muita terapia (e ainda continuar fazendo) parece que as coisas começaram a caminhar.

    Você é maravilhoso. Deve saber disso. Seu dom é incrível e eu como escritor venho aqui pra me inspirar em você.

    Com respeito, amo você. Amo poder ler sobre a sua vida e percepções. Que aquela força maior que rege todos os destinos te cubra nessa hora. E que as lágrimas cultivem uma vida maravilhosa.

    • Márcio Rodrigues

      29 de outubro de 2017 at 21:55

      Demorei, mas cheguei.
      Que incrível teu comentário, Flávio.
      Muito obrigado mesmo por tudo e tenho certeza que as coisas vão melhorar para você também. Acredite!

      abraços!

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