Leia ouvindo:

Mas eu nunca te vi.
Pelo menos não com olhos novos.
Mas também, pudera, as circunstâncias não eram favoráveis para te ver diferente. A gente vivia voltas completamente diferentes do mesmo mundo e o lugar que poderíamos ocupar na vida um do outro não ultrapassava o limite de trocar algumas verdades sobre dias bosta e dias ruins, especialmente envolvendo pessoas que se envolviam nos nossos sentimentos. Em outras palavras, a gente entendeu que funcionávamos bem ajudando um ao outro a desenroscar os nós da vida.

Todo mundo tem um lugar na vida de alguém.

Eu tinha um lugar muito meu na sua e você um bem seu na minha. Bons lugares. Um quentinho que dava segurança quando algum de nós chamava o outro para alguma atualização da rotina sentimental – e assim seguíamos. Tudo parecia bem. Tudo parecia normal.

Começou a mudar quando comecei a sentir um coisa nova com seu nome aparecendo na notificação Whatsapp no celular. Uma coisa nova bem difícil de explicar. No começo, confesso, preferi me afastar um pouco para confirmar se era mais uma vez um problema meu de tradução com o meu coração ou se, dessa vez, era ele sendo objetivo para me impressionar.

Nosso coração fala sozinho, não adianta querer puxar conversa. Uma hora ele toca no assunto e começa a fazer a gente pensar.

E eu comecei a pensar. Comecei a pensar no quebra-cabeça da sua vida e eu como eu tenho peças para te ajudar a completar. E nessas de começar a pensar veio esse novo olhar meu sobre você. Comecei a te perceber. Você sempre esteve ali, eu sempre estive aqui só que estava difícil da gente se encontrar.

Eu sempre te via, mas nunca te olhava.
E e este olhar é um passear timidamente pelo seu rosto. Esse sorriso, por exemplo, sempre esteve aí mesmo? Você tem certeza? Como que eu não via assim antes? E as pessoas que estavam mais perto dele do que eu? Elas falavam sobre o que ele faz a gente sentir? Deixa eu falar um pouco disso?

É que eu percebi que seu sorriso é o farol do seu coração.
E não é a toa que ele é tão bonito.

É um pedacinho do que há de melhor ainda mais dentro de você. É um feixo de luz tipo aquele de sol de outono que invade o quarto nas tardes pela cortina. Pela primeira vez eu percebi seu sorriso e até revi umas fotos para confirmar. E, de vez em quando, esse seu sorriso aparece sem sorrir, tipo esticam-se os lábios mas sem mostrar os dentes.

Entre aneis, pulseiras e chokers, não foi somente no cuidado com a escolha dos acessórios que comecei a te olhar. Eu percebi como a sua risada emendava a minha e vice-versa. Mas será que sempre foi assim e eu não via? Será que eu já tive sinais assim antes e ignorei todos? É bem estranho tanta coisa fazer algum sentido hoje sendo que antes eu nem dava atenção.

Eu comecei a analisar seu jeito. O jeito de amarrar o cabelo, a combinação da meia calça ora com shorts ora com saia. Comecei a entender os momentos que você coloca um gíria no meio de uma frase – e comecei a ver graça nisso tudo. É que talvez tenha sido eu encontrando em você coisas que eu só enxergava em mim ou, além disso, talvez tenha sido e esteja sendo eu encontrado em você coisas que eu não encontrava em nenhum lugar. Sei lá, tipo o seu cuidado em comentar as coisas que te digo só para não me deixar com a sensação de que falta uma resposta. Isso não é normal. As pessoas não se importam.

Por favor, não se assuste com essas coisas que estou te contando. As pessoas boas precisam saber o quanto elas são. E eu não trouxe nenhum contrato para você assinar, mas trouxe uma visão minha sobre coisas em você que talvez não saiba o quanto são bonitas.

A luta pelo seu sonho começou a fazer sentido pra mim; o espírito de liderança e zelo com sua família parecem sincronizar com o que estou desenvolvendo aqui em casa. Percebi que você mudou. Percebi que você escolheu sofrer menos uma dor e optou por deixar acontecer ou como diz a música gotta let it happen. Parece que a nossa consciência – ou pelo menos a minha – resolveu perguntar: “Vocês já perceberam o quanto buscam as mesmas coisas em pessoas que não conhecem enquanto essas coisas estão em vocês dois?”

Dá um medo, né? Como é que ontem a gente era uma coisa e hoje a gente meio que fala na possibilidade de ser outra? Meu medo só não é maior porque eu tenho confiança de quem você é de como seu coração ainda carrega os mesmos curativos que o meu. A gente sabe o que passou. E essa confiança me faz relaxar para, por exemplo, encaixar uma conchinha em você tipo aquele dia – apesar de tudo meio novo e inesperado, lembra?

Eu confio no que eu conheço de você e me empolgo com tudo o que ainda não sei. É uma empolgação que não é sobre encontrar semelhanças, mas sobre combinar nossas diferenças e temperar nossos dias com um sentimento ao nosso gosto – que eu nem sei o nome que vai ser.

Eu gostei de visitar o seu abraço, mas e se eu quiser morar nos seus braços?
O seu cheiro de futuro bom harmoniza com o meu desejo de proporcionar e dividir felicidade.

Apesar da gente poder passear esse mundo inteiro se a gente quiser, eu não vim a esse mundo a passeio. A verdade é que pra mim felicidade é coisa séria; é a dedicação que eu gosto de ter para fazer alguém verdadeiramente feliz; é cruzar nossos sonhos e planos e encontrar rotas para percorrer acompanhados um pelo outro. E aí eu provoco: e se esse alguém for você que estava aqui o tempo todo? E se o seu alguém agora for eu? E se o nosso nós for a gente?

Você estava aqui o tempo todo.
Mas eu nunca te vi.
E agora não quero parar de te olhar.

 

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees
umtravesseiroparadois@gmail.com