Author: Márcio Rodrigues (page 1 of 68)

hoje você não me reconheceria

Eu estou bem.
Parece que consegui me equilibrar na corda bamba da vida.
A mesma corda que você balançava propositalmente para me desestabilizar.
Eu me senti tão mal. Puts. Muito.
E eu nem percebia que me sentia mal; eu não entendia.
Eu só continuava. Esperava uma mensagem sua; me acostumava com um não seu.
Tudo era uma grande miragem em que eu avistava você gotejar esperanças que evaporavam antes que pudessem tocar minha pele.
E nas poucas vezes que uma esperança tocava, era sempre em forma de beijo com sabor de adeus.
Porque eu nunca sabia quando a gente ia acontecer novamente.

Houve vezes em que pensei que a gente estava funcionando.
Coisas que você me disse me comoveram como poucas.
Coisa que eu te disse nunca ninguém tinha ouvido antes.
Eu destranquei uma porta no meu coração só para você entrar enquanto te explicava como demorei para arrumar a bagunça, mas você arrombou a fechadura.

Me rejeitou disfarçando se importar.
“Saudade da gente”, “Queria te ver”.
Queria coisa nenhuma.
Injetou ansiedade em demonstrações de carinho que eu tinha sede para receber. No seu colo no sofá, enquanto circulava o dedo no meu rosto deitado em uma almofada sobre as suas pernas, eu pensava se isso significava um convite para conhecer o seu mundo. Mas era um trailer de você destruindo o meu; porque no mesmo sofá eu chorei muita raiva sua.

Eu não sabia que era um jogo; que o sorriso que aparecia no seu rosto depois do nosso ‘boa noite’ era fruto da satisfação de uma estratégia de ilusão. Eu não tinha como saber de nada e só me cabia imaginar. Não sabia que antes e depois da nossa conversa no WhatsApp, haviam outras para você priorizar na mesma medida e, provavelmente, copiar a colar as mesmas coisas que me dizia.

Eu fiquei tão mal.
E quando a gente fica muito mal, a gente só quer uma garantia de que vai ficar tudo bem – mas não há garantias na vida. Quando a gente chega no fundo poço, parece que ele vira um túnel. Quando a gente acha que não vai passar, passa tanta coisa pela esmagando a nossa cabeça.

Mas hoje, contrariando a minha própria expectativa, eu estou bem.
Esses detalhes que contei estão guardados na minha cabeça porque entendi que não posso romper com o meu passado; o tempo é um HD daqueles que a gente esquece onde guardou – mas que, se procurar bem, encontra. Foi importante dissecar cada sensação ruim que você me causou e aí é só não vigiar a ferida fechar.

Hoje você não me reconheceria porque nem eu mesmo me reconheço.
E isso é estranhamente bom.
Acho que consegui elevar um pouco a régua do que é bom para mim.
Porque na nossa época, ou melhor, na época que te conheci, eu me tratei mal demais. Você então, nem se fala.
Muitas coisas mudaram em mim, mas um delas é que fiz um combinado comigo: quanto mais eu conseguir me priorizar, menos a dor vai doer. Esse combinado envolve um limite que eu mesmo dei para a minha vida ao conhecer a de outra pessoa. Limites importam porque protegem.

Eu não posso garantir que vou conseguir ser sempre assim, mas ter um plano é atalho para felicidade.

Hoje você não me reconheceria também por outro motivo: eu não quero.

///
por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois







você é a saudade de alguém

O cheiro que sai da panela.
Perfume que não sai da roupa.
Refrão que sabe decór — e a contra gosto.
Risada que contagia.
Calor quando faz frio.
Frio do pé no edredom.

Fazer questão ao invés de fazer de conta.
Um chocolate na volta do supermercado.
Sonhos individuais e planos juntos.

A temporada que estreou.
O show que foi anunciado.
A viagem que te contaram.
A cor preferida.

Voz falha ao acordar.
O barulho da rotina do outro lado da janela.
Lugar pra ir aos sábados.
Abraço para ficar aos domingos.

Eu te contei o que fiquei sabendo?
Que horas a gente marca?
A gente combinou algo neste fim de semana?
Viu o que aquela pessoa postou?

Você é saudade na vida de alguém mas talvez ninguém admita.
Tem um espacinho na vida de alguém que daria para colocar o seu nome e sobrenome pra chamar de seu – mesmo que outra nome esteja alugando agora.

Você visita a vida de alguém a partir do menor gatilho.
O sabor de um doce.
O pedaço do papel.
Uma letra parecida com a sua.

Mas para todas essas lembranças se tornarem saudade você precisa ter feito a sua parte ao inv´´és de partir alguém.
A gente se acostumou mal a ser “ok” pra alguém.
Mas também pudera, no mundo de hoje, com plena carência do básico, não ser uma pessoa lixo já é ser uma pessoa incrível.

Mas e ser uma pessoa impossível de esquecer?
A gente esqueceu como é gostoso ser?

Você não precisa ser saudade a ponto de alguém te ligar e pedir para recomeçar.
É possível ser a saudade que visita naquele sorriso de canto de boca ao lembrar.

“O que você tá pensando com essa cara boba?”
“Ahh haha nada, isso me lembrou uma pessoa”


A saudade de um dia.
E dos dias que nem existiram.
E até mesmo a saudade do último dia.
Aquele que amanheceu sem avisar que seria o último.
É possível ser saudade a ponto de alguém não se incomodar em lembrar.
Alguém que a gente até lembra a roupa que usava quando conheceu.

Você é a saudade de alguém se marcou mais do que deixou marcas.
Deixar marca é machucar.
Marcar é deixar um pedaço de você.

Você é a saudade de alguém se consegue dormir sabendo que fez o que podia. É a saudade de alguém se consegue andar pela rua sem receio de reencontrar sem querer, afinal, se você é um motivo para atravessar a rua, deve ser tudo, menos saudade.

Periga você pensar que é a saudade de alguém quando é só dor.
Vontade de deletar.
Voltar a desconhecer.
É um risco se você não reflete sobre o papel que a sua vida teve em outra.

Aquela loja de roupa.
Jeito engraçado de comer.
Som com o nariz.
Mania de atraso.
Pontualidade irritante.

Ser a saudade de alguém é a busca por preencher algum segundo da vida de outra pessoa com uma intenção boa.

A gente precisa ser mais intencional.
Demanda mais energia, mas o retorno é maior.

No começo a gente é saudade de ver de novo.
E quando chega no fim, é comum a gente só lembrar da parte ruim.
Mas o importante é no meio; enquanto a história ainda existe e o que você tem feito para ser a saudade de alguém.

Não feito para alguém.
Mas para alguém lembrar de como foi.

por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois











você me conheceu numa fase estranha

E o problema é que ninguém tem culpa.
É mais grave do que resumir com ‘pessoa certa, na hora errada’.
Eu não sei dizer se você seria a pessoa certa.
Eu não sei dizer se eu seria.
Eu sei que eu não estava bem para te fazer bem.

Essa não é uma conclusão que mira ganhar algum tipo de biscoito; não quero que pareça uma análise mais inteligente do que o fato: eu não estava vivendo os meus melhores dias.
Também não é algo que tem a ver com força de vontade; não era apenas sobre querer. Eu não me reconhecia muito bem para conhecer mais de você. Todas as perguntas que eu não te fiz tem a ver com todas as perguntas sobre mim que eu não conseguia responder. Era um espiral: quanto mais confusão a minha cabeça sentia, menos eu conseguiria inspirar alguma coisa boa para alguém. Eu eu estava mal.

Você me conheceu numa fase que eu não conseguia conhecer ninguém; uma fase estranha, daquelas que a gente só sente, mas não sabe dar nome. Uma fase que eu não gostava de mim, que eu não conseguia ver lado bom de nada.

Até hoje eu lembro de como você lidou com meus sinais.
Contei como eu me sentia.
Fui me afastando para proteger a mim e a você.
Me mostrei difícil de acessar para não te machucar.
E você me deu o que eu não conseguia encontrar: tempo e espaço.

Você me deu respeito.
Reforçou que estava a uma mensagem de texto de distância, mas que o tempo para essa mensagem dependeria de mim.
Acho que a forma que reagiu foi inesperada pra mim.
Se você não entendeu nada, você fingiu muito bem.

E eu abri uma pasta na minha mente com o seu nome por você ter sido uma das únicas pessoas – e talvez a mais improvável – a me deixar respirar; uma das únicas pessoas a imaginar como estava sendo pra mim ao invés de simplificar e me dizer o que fazer.

Você entendeu que eu não entendia.
E não me forçou a encontrar resposta enquanto eu também só perguntava.
Percebeu que eu não estava funcionando.
E que a minha fase poderia tumultuar a sua.

E por ter sido desse jeito, você foi parte da minha cura.
Foi parte do motivação que me fez encontrar energia.
Longe de você eu gostava de lembrar das vezes que ficamos perto.
Porque você foi associando a sua imagem a um momento bom; eu sempre tinha algo bom para falar sobre o que você falava ou até mesmo do seu silêncio.
Enquanto muita gente me perguntava, você me ouvia.

Você me conheceu numa fase estranha, mas você foi um dos motivos que fizeram a fase melhorar. Foi a vontade de viver as coisas que a gente só comentava que também me ajudou. Foi a delícia de imaginar o meu melhor te ajudando a melhorar que me incentivou.

A fase era estranha, mas você fez parecer só uma fase.
Me conheceu por baixo, mas não viveu o alto comigo.
E que bom que você ainda está por aqui.
Que bom que ainda tenho um pouco do que você me deu: tempo.

Tempo para você me conhecer como eu gostaria de me apresentar.

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por Márcio Rodrigues.
@umtravesseiroparadois
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a última pessoa que gostei

Eu lembro de cada detalhe dessa pessoa.
E o mais importante é que não sofro ao lembrar.
Eu lembro de tudo, mas o segredo é que me apego ao que foi bom.
(e haja terapia pra me ajudar nisso).

Lembro de como começamos, continuamos e terminamos.
Aconteceu tanta coisa legal.
Eu poderia elencar motivos, apontar culpas e o que mais for necessário para estabelecer uma relação vilão-herói para o fim da história, mas esse não é o meu interesse.

A última pessoa que gostei foi embora da minha vida de um jeito diferente que entrou. Ela chegou devagar e foi embora depressa; tão depressa que eu demorei um tempão para conseguir conviver com o fim.

Ela foi uma boa pessoa; me ajudou a ser alguém melhor.
Influenciou a minha vida para o bem e de jeitos não planejados.
Me fez gostar de coisas que eu apostaria que jamais gostaria.
É como se ela tivesse criado um marco de antes e depois da minha vida.
Acho que histórias boas são as que a gente deixam mais saudades do que marcas, né? A nossa não aconteceu na ansiedade da paixão, mas sim, na calma do coração – que é mais saudável quando constante do que quando em picos.

Foi uma pessoa que me ensinou a não ter “vergonha” de errar.
Essa “vergonha”, assim com aspas, no fundo, significava um tremendo medo de me mostrar alguém fraco; inseguro.
Também foi uma pessoa responsável por me fazer desacelerar.
Eu vivia tão rápido que eu não conseguia prestar atenção nos meios; só nos começos e fins. E aí eu não conseguia fazer a coisa mais deliciosa da vida: aproveitar. Eu só me cobrava, portanto, em começar e recomeçar. Tudo.

A última pessoa que eu gostei não foi perfeita – até porque, se perfeita fosse, não seria a última, mas sim a atual rs. Mas falando sério, não foi sobre uma olimpíada de erros e acertos, foi sobre aprender a abraçar o imperfeito.

Eu não sou tudo o que eu posso ser.
Não tenho ainda tudo o que posso conquistar.
Ainda não vivi tudo o que eu quero.
E não gostei de alguém de toda a forma que posso conseguir.
Essa ideia de ‘ainda não’ me empolga a descobrir um novo eu.
Porque a gente gosta de alguém para sempre até gostar de alguém de novo.
E a última pessoa que eu gostei também me fez pensar nisso: se eu me concentrar no agora, o pra sempre vai ser só um capricho, n˜ão um plano. E eu posso ficar mais calmo.

Eu não sei quem vai ser a próxima que eu vou gostar, mas pela parte boa da minha lembrança com a última, eu me sinto pronto.

///
por Márcio Rodrigues
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@umtravesseiroparadois
@marciorodriguees

lembra o quanto eu quis?

Eu lembro de cada vez.
Cada uma de toda as vezes que eu deixei claro pra você o quanto eu queria.
E lembrar disso, também me evita esquecer de cada uma das vezes que você me despistou, e quando não pior, se afastou.

Pra me proteger, eu escolhi fingir costume.
Acordar um outro dia, responder uma nova mensagem sua como se nenhuma conversa tivesse acontecido na noite anterior.
Com muito cansaço em questionar, comecei a demonstrar que não me importava.

Mas isso também te incomodava.
Você só gostava quando o controle estava na sua mão.
É aquilo né: a piada só é boa quando todo mundo ri – mas eu não ria dos seus jogos e você não se esforçava muito em me entender.
Até que eu comecei a fazer como você.
E você se chateou.
Questionou minha distância. Comentou que eu passei a demorar para te responder.
Você percebeu que eu fui te despriorizando da minha vida.
Cabia qualquer outra coisa antes de caber você.
Meus dias também ficaram corridos pra gente se encontrar.
Lembrei de compromissos nos mesmos dias que marcamos de sair.
Trabalhei até tarde algumas vezes.
Tudo do jeito que você fazia e que fazia eu me sentir um peso.
Eu sou zero a favor de vingança, mas eu precisava te fazer sentir o mesmo que eu uma vez que te explicar não estava adiantando.
E tudo, principalmente, tudo porque você não tinha coragem de conversar comigo e me responder:

“Você quer ter alguma coisa?”

Agora, você lembra o quanto eu quis?
Lembra que eu quis mais de uma vez?
Lembra que usei da direta e da indireta?
Você lembra porque você é muito inteligente.
Você só fez uma escolha: não se importar.
Até começar a ver que eu, que sempre estive presente, comecei a ser passado.

Quando a certeza do meu beijo passou a ser dúvida de um abraço, você começou a reparar que a nossa relação também envolvia a minha vontade.

Eu quis muito.
E por querer tanto, não é o tipo de coisa que vou apertar o botão e falar que passou. Mas também, por eu querer tanto, é exatamente o tipo de coisa que me ajuda a concentrar melhor minha energia: vou lutar menos para te esquecer e mais para lembrar de mim.

Lembra o quanto eu quis a gente?
Talvez você lembre quando for sua vez de querer alguém também.


e seu te falar que gostei de ontem?

Eu pensei nisso no nosso tchau.
Enquanto eu voltava pra casa fiquei pensando como foi bom conhecer a sua.
E aí pensei em qual seria o nosso próximo passo depois de ontem.

Será que eu e você fomos nós só uma vez?
Será que eu e você conseguiremos ficar a sós mais uma vez?

Eu poderia simplesmente te perguntar sobre isso.
Mas não foi o que deu certo na última vez que aconteceu.
E nem na penúltima.
O dia seguinte de um dia bom saindo com alguém parece ser o pior.
As pessoas criaram um desconforto nessa fase, um constrangimento onde contar como se sentiu pode ser um grande problema. E aí é preciso jogar.

Aguardar quem vai mandar a primeira mensagem nova.
Entender quanto tempo vai levar para a resposta.
Responder rápido pode representar ansiedade; responder devagar, desinteresse.

E a sensação é de estar numa armadilha que nunca vai soltar.

Mas que inferno, eu só queria te contar que gostei.
Que eu gostei de como me senti com você.
Que eu gostei de entender um pouco mais dos seus gostos, do seu carinho e cuidado.
Gostei de como a gente cuidou um do outro durante aquelas horas.

Queria te contar que não exatamente a gente precisa ter algo sério agora, mas que eu realmente gostaria de ter mais dias com você pra gente ver o que vai acontecer. Queria te contar que eu estou com vontade de tentar.

Mas eu tenho um tremendo medo de te assustar.
Ouvir de você que a gente precisa ir mais devagar.
E entender que o meu menor gesto de que gostei pode parecer a maior ameaça.

E com isso, te afastar.
Ver o seu tempo para responder demorando dias.
Ler que “os dias estão corridos” quando eu te convidar pra alguma coisa.
E, pouco a pouco, me sentir saindo da sua vida sem nem ter conseguido entrar.

E se eu te contar que gostei de ontem?
Como que vai ser pra você?

Como conversamos ontem sobre passado, eu conheci algumas pessoas antes de você. Parte delas é culpada pelos receios que tenho hoje; sobre como me tornei prisioneiro de todas as minhas emoções e passei a esconder o que sinto só para não me machucar ao saber que assustei alguém.

Mas essas não são as pessoas que eu quero guardar na minha vida.
Você eu quero.
Eu quero que você saiba que ontem foi bom ainda que não exista amanhã.
É justo que você saiba como é uma boa pessoa e como é gostoso ficar perto de você. Gostaria que soubesse que a gente viveu momentos t˜ão legais que eu vou gostar de lembrar mesmo que a gente não se veja mais.

Se eu te falar que gostei de ontem eu não sei como vai ser pra você, mas pra mim vai ser bom poder falar pra alguém como esse alguém me fez sentir diferente.

E falar como eu estava com saudade disso.

///
por Márcio Rodrigues
@marciorodriguees
@umtravesseiroparadois

alguém que eu não pude ser pra você

Eu não pude ser a pessoa que você precisava.
Você me dava sinais e até mesmo me falava do que sentia falta na vida.
Um carinho quando o dia é ruim, uma companhia quando o dia promete.
Coisas assim.
Mas eu não pude ser essa pessoa pra você.
Porque a gente se desencontrou e concluí ter sido o que eu mais temia: a pessoa certa na hora errada.

Eu tinha muita vontade, mas você tinha muito medo – ou algum bloqueio, por assim dizer.
A gente até tentou uma vez ou outra, mas a gente não emplacou.
Notei como já fazíamos parte das nossas próprias rotinas por meio das longas conversas pelo Whatsapp.
Conversas que começavam pela manhã.
Preenchiam o dia de trabalho.
Faziam companhia no metrô na volta pra casa.
E findavam até a hora de dormir.
Eu lembro de cada conquista minha de um “hahaha” seu.
Mas, apesar de tudo isso significar uma tendência, não foi isso o que aconteceu.
E a gente se dispersou.

Notei também que eu ocupava um lugar esquisito na sua vida.
Um lugar de hora vaga, uma coisa meio “é o que tem pra hoje”, algo assim indefinido.
Ficou bem claro como eu era sempre “sim” pra qualquer convite seu, enquanto você era um “tá corrido” para as minhas ideias.

No fundo, o meu plano era um só: te convencer que você não precisava ser convencida de nada; que havia pressão demais no mundo sobre quem você deveria ser e o que você deveria sentir, mas só você deveria saber.

E eu tentei te fazer bem de formas que me superei. Entre um chocolate inesperado e uma companhia, eu gostava que a minha presença representava a garantia de um momento bom e conversa boa. É que eu me empolgava com a chance de ocupar um lugar especial na sua vida como ninguém antes ocupara. E assim, vai saber, você conseguiria ver em mim mais alguém do que alguém legal. Você poderia ver um futuro.

Mas eu não pude ser a pessoa que você precisava.
No começo, por você não se interessar na mesma medida que eu, depois, porque a gente se desligou, nosso tempo passou e a nossa vida encontrou outros interesses e pessoas interessantes – como estávamos sujeitos a todo momento.

A gente é quem define qual hora é a certa.

Na normalidade de termos sido um quase, hoje eu me sinto bem.
Fui alguém que não conseguiu ser a pessoa que você precisava e concluo que talvez não fosse de mim ou de alguém qualquer que você precisava. Hoje é claro pra mim que, apesar de eu querer tanto, naquela época você precisava de você.

A gente seguiu a viagem da vida longe um do outro.
E numa das paradas, meu coração foi acolhido por alguém que ´é exatamente quem eu precisava.
Nas últimas notícias que soube de você, parece que você também conheceu alguém bom.

Ninguém obrigatoriamente precisa de alguém, mas nem a mais desconfiada pessoa pode negar como é bom quando a gente tem alguém que torce e faz a gente se sentir bem.
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por Márcio Rodrigues
@umtravesseiroparadois
umtravesseiroparadois@gmail.com

ele me ajudou mais do que imagina

(leia ouvindo essa música)

Minha vida tem vários aspectos padrões.
Um deles diz respeito a minha autoestima que, assim como a de muitas pessoas, nunca foi boa.
E continua não sendo, apesar de eu me considerar uma pessoa até cuidadosa.

Quando a autoestima está em colapso, é difícil ver lado bom de qualquer coisa.
E a falta da companhia de alguém, piora ladeira abaixo.

Durante muito tempo eu tive problemas para me relacionar.
Hoje, pensando friamente, a maior parte deles eram criados por mim.
Eu costumava ser o tipo de pessoa que, ao notar alguém interessante olhando pra mim no metrô, por exemplo, pensava estar com pasta de dente escorrendo na camiseta e tratava de assegurar se era isso mesmo.
Nunca era.

Ainda adolescente, lembro de, literalmente, rezar para ter uma namorada.
Eu queria viver aquelas cenas que os filmes e novelas mostravam.
Queria falar “deixa só eu ver com a minha namorada” só pela experiência de falar isso.
Lembro bem como foi o meu primeiro pedido de namoro: contratei uma tele-mensagem – e aqui sou eu sublinhando minha idade. Mas antes de achar cafona, que fique claro: mandar uma tele-mensagem no início dos anos 2000 era muito trend, viu?
Ainda bem que ela aceitou.

Tempos depois daquele primeiro sim, tive alguns outros.
Apesar disso, muitos ‘nãos’ ainda me assombravam: “não sou atraente”, “não sou bonito” e por aí vai. Muito a ver com o modo competitivo e comparativo em que cresci tendo como referencial de sucesso a quantidade de biletes recebidos de pretendentes.

Nunca recebi nenhum.

Inclusive, lembro de episódios como:
– “Então, você fala pra ela que eu gosto dela?” eu pedia.
– “Claro, vou te falar e te aviso” uma amiga me respondia.
– “Então, ela também gosta de você!” ela me retornava.
– “Nossa, sério?” custava a acreditar.
– “Sério, poxa!”
E aí começava uma jornada pessoal: eu imaginava nós dois juntos e nos via em cada um dos refrões bonitos do pagode 90’s que eu ouvia. Foi uma (pré) adolescência e tanto.
Mas o fato é que nunca tive coragem de falar com ela.
Nem com as outras em todas as outras vezes que aconteceu algo parecido.
Me bastava a ideia de alguém se interessar por mim. Eu não sabia qual próximo passo dar.

Hoje, de novo, pensando friamente, é louco pensar como eu pensava desse jeito.
E só fica mais louco porque parte desse pensamento seguiu comigo por anos.
Como nunca me senti uma pessoa atraente, não fazia sentido que alguém se interessaria por mim.

E aí chegou o dia que contei isso pra um dos meus melhores amigos.
Contei como isso me incomodava,
Ele, sempre atencioso e com um tom de voz calmo que mora numa pastinha na minha cabeça, transformou a minha vida inteira com poucas palavras; colocou sentido do dia daquela tele-mensagem, até a última hora atrás escrevendo esse texto.
Expliquei que era difícil eu me conectar com quem eu me interessava porque eu já partia do princípio que, definitivamente, a pessoa nem ia me notar, afinal, existem tantos outros caras estilosos, bonitos e atraentes por aí. Eu sempre fui um cara qualquer piorado pelo fato de estar cheio de inseguranças físicas e psicológicas.

Então, durante o nosso papo naquele almoço em dia de semana, no meio de expediente, você falou algo como:
– “Eu entendo você se sentir inseguro por isso, mas você se acha uma pessoa legal?” questionou.
– “Ah, sim… Acho que sim, tenho facilidade pra falar com as pessoas e trocar umas risadas” pensei um pouco mas respondi.
– “Então, sabe o que eu acho? Você devia inverter essa ordem na sua vida: coloca na frente de você tudo o que você acha que tem de bom, tipo ser uma pessoa muito legal. Aí, você coloca lá no fundo o fato de você não se considerar um cara bonito, atraente ou algo do tipo. Se apegue ao que você gosta em você e tenta esquecer um pouco o que não gosta”.

Lembro como se fosse hoje. Se eu forçar, inclusive, lembro até o que almoçamos. Lembro onde você trabalhava e eu também. Lembro de pegar o táxi pra te encontrar. Lembro de você estar animado por começar naquele trabalho que parecia promissor e era o que você imaginava.

E lembro de te responder:
– “Ah, pra você é fácil falar assim, já que você é 1) um dos caras mais legais do mundo e 2) lindo – ao mesmo tempo”

Rimos muito.

E você negava com aquela sua risada de labrador.

Apesar de eu lembrar de várias coisas desse dia, eu não lembro se te agradeci como devia.
A partir daquele dia, a minha autoestima foi profundamente reconfigurada.
Você fez uma cirúrgia na minha energia vital.
Eu ainda não me sinto atraente, mas eu me sinto muito mais seguro porque aprendi a conviver com a parte que não gosto tanto em mim.
Aprendi que as pessoas vão se aproximar de mim porque eu sou uma pessoa legal de se aproximar. Aprendi que é possível viver histórias com pessoas que veem em mim mais do que o meu espelho me mostra todo dia. Aprendi a ser mais legal comigo que tanto gosto de ser legal com as pessoas.
E aprendi tudo isso graças a você; que nem está mais neste mundo hoje pra me ouvir te agradecer mais.

Eu conto dessa nossa conversa pra muitas pessoas.
Queria te ver ouvindo a reação delas; como faz sentido pra todas.
E queria que elas vissem e ouvissem você dando risada tímido.
Poderia ser só “um toque de amigo” ou algo de tamanho parecido, mas eu sempre falo:

“ele me ajudou mais do que imagina”

E “imagina”, assim no presente, que é como sinto você comigo sempre que me ajuda aí de cima – aliás, viu minha guitarra nova?

Obrigado por ter transformado a minha vida em um almoço.
Estou tentando ser legal com outras pessoas como você sempre foi comigo.

///
por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

parece que não, mas você está conseguindo

(leia ouvindo “your power”)


Existe um monte de fantasma na sua cabeça.
Alguns surgiram quando você ainda era criança, outros nas últimas semanas.
Fantasmas pesados, que roubam sua energia e complicam a execução das menores tarefas.
Esse peso todo dentro da sua cabeça, inclusive, te complica até de levantar de manhã.
Também é o tipo de coisa que pesa tanto, que faz doer e te questionar sobre você. Assim, você acaba se cobrando cada vez mais e nada nunca parece bom o bastante.
Essa dor também te provoca reclusão; uma vontade única de ficar com a própria companhia que, aliás, já é barulhenta demais.
É difícil garantir que tudo isso suma da sua vida, mas é completamente certo de que a cada dia novo que termina é mais um dia em que você se torna mais forte pra administrar.

Todo ontem vivido é uma nova vitória.
Parece que não, mas você está conseguindo.

Você está conseguindo identificar o peso das coisas, e assim, consegue também entender o quanto de energia vai demandar. E isso é diferente de você de anos atrás onde qualquer menor problema parecia a maior tragédia. Tudo ainda existe, mas hoje você consegue identificar mais vezes quando é problema e quando é tragédia. E, talvez, o mais importante: entre problemas e tragédias, você consegue, a cada dia que passa, passar por tudo.

Por outro lado, terminar um dia, muitas vezes, representa o recomeço do medo do amanhã. Não tem como ficar feliz com um dia acabando quando a gente sabe que tem outro chegando pela manhã; e essa nova chegada representa os mesmos desafios e ansiedades de um dia antes. É uma sensação de ciclo venenoso.
Já te ouvi falar sobre algo parecido e consigo imaginar como ´e tóxico.

O que eu quero destacar, porém, é que você tem passado por tantos fins e começos de dia que acho que nem parou para perceber. Você tem superado tanta coisa que há anos atrás te tiraria o sono – e não que o sono, hoje, esteja uma coisa maravilhosa, mas isso é outro assunto. Você tem descoberto que você funciona em muitas coisas que eram incógnitas um tempo atrás. Ou seja, parece que não, mas você está conseguindo.

Está conseguindo levantar com joelho ralado depois de cada tombo. Está conseguindo dar o seu máximo e ter reconhecimento por isso. Porque reconhecimento é fundamental; é ferramenta de autoestima e motiva a gente continuar tentando – e se equilibrando no mix de acertar e errar.

Você está conseguindo se tornar quem mais queria: alguém que consegue administrar; não a preço baixo, é bem verdade, pois essa administração tem o custo de muita energia vital, mas veja só, diferente de alguns atrás, você está conseguindo ter energia para o que nunca imaginaria ter.

Tem dias que são uma bosta, mas pra cada um desses, tem outros com algum momento bom pra ter valido viver – ainda que o momento seja uma música que te faz bem.

Eu só queria te convidar a pensar em como você era há 05 anos. Muita coisa que parecia impossível agora é um fato para você. Muita coisa que parecia impensável agora é pensada e construída por você. Muita coisa que parecia distante agora está tão perto que parece que sempre existiu. Espelhar esse passado com tudo o que você conseguiu e tem conseguido pode ser um jeito de pegar mais leve com você. Mas também, vou te falar, se for pra pegar pesado, não haveria outra época melhor do que agora, nessa sua recente versão, cheia de curativos e também de força pra passar por cima – nem que seja a força do ódio.

Os fantasmas, todos eles, ainda estão por aí.
Algumas batalhas são eles que vencem.
Mas, agora, quem deve ter medo do amanhecer são eles porque a cada novo dia, é você um pouquinho mais inteligente misturando coragem pra enfrentar e desdém para não ser importar – ou se importar menos, o que já é uma conquista.

De verdade, parece que não, mas você está conseguindo.

///
por Márcio Rodrigues
@marciorodriguees
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alguém bom de lembrar

Alguém bom, sabe?
Nem precisa ser alguém ideal.
(porque o ideal ainda é cogitado?)
Mas ser alguém bom.
Alguém bom de lembrar; de fazer parte da sua vida.
Alguém que você não vai ficar brava quando vir a cabeça.
Alguém que você vai abrir um pequeno sorriso ao lembrar.
Porque é alguém legal.
Alguém que você gosta do quanto te faz bem.

Eu quero ser alguém assim para você.
Alguém bom para você relacionar em um assunto qualquer aos seus amigos.
– “Não, e detalhe, ela ainda faz isso e aquilo. Legal, né?”
Alguém para você gostar de citar como exemplo, nem que o exemplo seja o pé chato. (tudo bem que não e só o pé que é chato né, hehe)
E ser alguém para buscar exemplos com você.
Exemplo de viagem boa.
Exemplo de planos gostosos.
Exemplo de descoberta de comida nova.
Exemplo de co-criação de momento bom.
Mesmo que não seja assim um exemplo de pessoa em organização, por exemplo.
Mas, alguém legal de lembrar, sabe?

Alguém com mais intenção em construir do que destruir. Porque a destruição já pesa demais por ser um acidente da vida.
Eu quero ser alguém para te ajudar a reconstruir a casa quando ela cair.
Porque ela vai cair.
E a minha também.
E eu vou gostar de estar lá e de ter você lá na minha vez.
Primeiro porque eu não consigo sem ninguém, segundo porque você faz parecer fácil.
No silêncio da companhia ou no som do coração abraçado.

Alguém bom de lembrar.
Eu quero ser alguém bom de lembrar.
A gente precisa ser alguém bom de lembrar.
Porque já tem muita coisa boa de esquecer.
Quero ser o destino quando você voltar para casa com tanto para falar.
Ser também quem opina que você errou. E quem valoriza quando essa é a sua opinião.

Sei lá, alguém para ser uma pequena parte boa do seu dia ruim.
Não alguém para tumultuar ou para te colocar para baixo.
Mas alguém para ajudar a procurar respostas e para te lembrar que você consegue.
Não que você dependa dessa lembrança.
Mas não há ninguém que outro alguém não possa ajudar de alguma maneira boa.

Alguém bom de lembrar.
Se acaso eu sair da sua vida antes do planejado, que eu seja uma pessoa boa de lembrar.
Se acaso eu partir desse mundo antes de você, que eu seja uma lembrança boa de contar.
Se você gostar de outra pessoa, que eu seja alguém que estabeleceu um parâmetro de jeito bom de viver com alguém.
Alguém para diminuir alguma vontade sua de ter outro tipo de alguém.
Alguém bom para você para você lembrar.
De como é bom quando a gente tem alguém especial de lembrar.
E para eu te lembrar também da minha marca preferida de chocolate; porque você esquece toda vez.
Mas ainda assim você lembra de mim.
O que te faz impossível de esquecer.

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