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Um pouco de você em mim

Percebo um pouquinho por dia. 
Um eu que eu nem sabia que eu gostava tanto. 
Um eu, que aconteceu, depois que você apareceu. 
Mudei tanto. 
Há coisas em mim que antes eu nem sabia que precisava. 
E hoje parece que sempre estiveram aqui. 
Você normalizou o melhor de mim. 
Tem um pouco de você em mim em todas as coisas que eu faço. 
Ou em muitas das coisas que penso. 
 
Tem você na crença de que eu posso superar um dia ruim e na compreensão de quem tem dias que são uma bosta. 
Tem você nos filmes que eu torcia o nariz e hoje gosto de gostar. 
Tem você em mim nas manias, na conchinha-surpresa no meio da noite, na voz calma que acalma. 
E na confusão de chinelos saindo do sofá. 
 
Tem também um pouco de você em mim na companhia. 
A companhia que abrevia a solidão e que cobre o coração nos piores momentos; tantos e tão lentos. 
Companhia que pode ser dividida em cômodos pela casa ou assistindo a mesma coisa na TV. 
Ter um pouco de você em mim é admitir que eu não tenho tudo e que, do todo, eu sei tão pouco.  

É praticar o ouvir você e processar para o meu bem. Entender e respeitar como você enxerga as coisas, mesmo que a gente não enxergue algumas da mesma forma. Ter um pouco de você em mim é automatizar a lembrança de você. Comprar aquilo no supermercado por saber que você vai gostar, ainda que não tenha me pedido.
 
Tem muito de você nos meus planos; na vontade de experienciar e conquistar algumas coisas pra ver qual vai ser o tamanho do meu sorriso emendando com o seu. Tem você em mim na vontade de te ver vencer, de te ver sendo quem você gostaria de ser e ao reservar minutos do meu dia para te desejar o bem – no silêncio do meu pensamento. 

Ter um pouco de você em mim é rir sozinho repetindo coisas que você fala, me ver imitando seu jeito e entender que, apesar do mundo hostil lá fora, a gente constrói um mundo nosso blindado de qualquer energia ruim. 
 
É saber que a vida não é fácil, mas que ela facilita enquanto a gente se tem. 
Um pouco de você em mim por dia me faz melhorar muito. 
E você nem imagina. 

///
por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
@marciorodriguees

E se você enjoar de mim?

Se você esconder o sorriso que aparecia ao receber uma mensagem minha? Se a minha imagem na sua vida representar algum tipo de desconforto? Se os seus pensamentos sobre a gente não te animarem tanto mais? Se o prazer em ficar perto se transformar no alívio em ficar longe? Se passar a virar os olhos de saco cheio nos memes que eu te marcar? Se você não sentir mais o tesão que sentia? Se o beijo não funcionar mais? Se até a minha risada te incomodar?  
 
E se você enjoar de mim? 
 
Como resultado do que passe até aqui, sou uma ferida aberta que atende pelo nome de insegurança. Nessa ferida, há algumas histórias antes da nossa onde sempre vivi uma contagem regressiva à espera de tudo acabar. Nas entrelinhas, sempre era eu querendo continuar enquanto a outra pessoa queria terminar. 
 
Só que eu nunca sabia. A gente nunca sabe, a gente começa a perceber. 
E quando eu concluía, já era no capítulo final. 
O resultado disso é a minha autoestima remendada, receio em atrapalhar e uma relação de ansiedade com o futuro sobre quem está comigo. 
 
Essa ansiedade se manifesta em pensamentos como: há uma cadeira no cantinho de algum dos seus planos pra eu sentar? E quanto a mim, posso te contar sobre um lugar pra gente visitar um dia sem medo de te assustar? Eu posso sonhar altão demais com alguma coisa e te convidar pra viver comigo? Você vai dizer “sim” mesmo que de brincadeira? Ou vou parecer que quero estragar seus objetivos? Que quero protagonismo? Que quero tumultuar sua individualidade? 
 
Meu plano preferido é fazer parte dos seus. 
Te convidar para os meus. 
Realizar os nossos. 
Respeitar cada um. 

Mas e se você enjoar de mim?  
Você me avisa? Se houver algo que eu possa fazer, me dá algum sinal de que não está tudo bem? Porque aí eu posso ter o tempo que eu nunca tive; tempo de revisar, apagar e reescrever; fazer funcionar, motivar e mudar o que eu conseguir até você sentir que melhorou.

Eu não apareci para atrapalhar.
Eu sou alguém com vocação para ajudar.
E não que você seja alguém que precise, mas eu estou por aqui para te lembrar que tem força do lado de cá quando a sua parecer acabar.

///
por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

A boa notícia do dia

Será que a gente percebe a boa notícia do dia ou a gente só vive esperando a notícia que a gente quer? Será que a gente consegue ser sensível aos bons momentos de um dia comum ou tudo é chato demais se não acontecer aquilo que desejamos? Será que a gente vive alguma coisa boa num dia normal ou realmente é tudo ‘ok’ como a gente costuma sentir por conta, muitas vezes, de uma rotina acordar-trabalhar-dormir-acordar-trabalhar? 
 
Eu comecei a pensar nisso. 
Ansioso, tímido e sempre com baixa autoestima, sempre tive um montão de desejos para o universo. Por exemplo, me ocorreu agora, quando eu tinha por volta de 14 anos, veja bem, lembro de rezar por meses antes de dormir pedindo uma oportunidade de dar meu primeiro beijo. Sem muita habilidade de só mentalizar palavras, eu as falava em reza muito baixinho para os meus pais não ouvirem, uma vez que eu não tinha um quarto só meu – inclusive fui ter, pela primeira vez na vida, há 3 anos quando saí da casa que a minha mãe e tia moram – Estou com 34 anos. Engraçado o tipo de desejo que passa na nossa cabeça quando estamos na adolescência, né? Você deve lembrar de algum seu que hoje deve render risada. 
 
Aquele eu de 14 anos achava que a vida tinha que acontecer pra ontem. É que o papo de paciência, batalhar ou qualquer palavra do tipo, não entra na cabeça de alguém por volta de 14 anos. Eu jamais imaginaria como a minha vida social, profissional e afetiva ia se desenrolar lá daqueles 14 até hoje aos 34. E que bom. 
 
Hoje, a quarta coisa que mentalizo todos os dias é: saúde e paz – a primeira é “que sono”, a segunda é “vontade de dormir” e a terceira é “hoje vou dormir cedo”. Mas sério, essa mentalização ficou ainda mais forte depois que perdi um dos meus melhores amigos em 2018. Saúde e paz é uma dupla que permite a gente levantar de manhã e ver como vai ser o dia. Comecei a focar muito nisso, especialmente por já ter vivido e/ou convivido com episódios de saúde instável e pouca paz. 
 
Mas tem outra que comecei a mentalizar, especialmente nessa recém virada de 2020 para 2021: boas notícias. Comecei a pensar bastante no quanto estou prestando atenção nas boas notícias do meu dia ou se estou sempre franzindo a testa reclamando de alguma coisa, de alguma pessoa ou do que quer que seja. Toda reclamação é uma inércia onde a gente começa e não para mais, aí o “próximo motivo” aparece e a gente só repete a reclamação, uma vez que já reclamamos anteriormente. Se a gente encontrar alguém que valide nossa reclamação, aí pronto, é ladeira abaixo. Eu não estou dizendo que não devemos reclamar – até porque, né, seria ingenuidade demais pois: impossível –, mas comecei a pensar se eu também reparo quando algo bom acontece na mesma medida que reparo algo não tão legal. E a conclusão é óbvia: não reparo. Assim, concluí que grande parte das palavras do meu dia são sobre algum tipo de reclamação: da demora do delivery à quantidade de pelos dos gatos na roupa.  

Eu não estava/estou sendo generoso comigo. 

Por isso o meu desejo aqui é simples: saúde, paz e boas notícias. Que a gente consiga prestar mais atenção em cada boa notícia do dia mais comum que a gente viver. Depois de um cansativo dia de trabalho, você senta no sofá, abre qualquer serviço de streaming e: “olha esse filme que estreou!”. É uma boa notícia. Se você for pedir delivery e conseguir um desconto no produto ou no frete. Outra boa notícia. Se você encontrar uma peça de roupa que procurava há dias: outra boa notícia. Se você teve uma conversa gostosa om algum amigo. Mais uma. Se você conheceu uma parte nova daquela pessoa que tem conversado há dias. Uma boa notícia. Se você completou mais um dia acordando com alguém especial na mesma cama. Uma boa notícia e tanto. Se você conseguiu começar a tirar aquele desejo do papel se inscrevendo num curso ou algo do tipo, mais uma. Se conhecer uma música nova que não sai da sua cabeça. Uma. Se bater um ventinho fresco na sua janela numa noite quente de verão. Outra. Se você arriscar a fazer um prato novo e ele ficar ‘ok para comer’. Uma grande boa notícia. Se você descobrir um canal novo no youtube, se você passar a seguir uma pessoa que te inspira, se você conseguir não pular a rotina de skincare antes de dormir, se você praticar alguma atividade física, se tem dificuldade para se concentrar em ler mas conseguir ler uma página nova por dia – esta é uma notícia enorme. 
 
O ponto aqui é: todo dia tem uma boa notícia, mas a gente precisa prestar atenção nelas. É claro que em meio a uma pandemia deste tamanho, a melhor notícia vai ser uma vacina que permita evitar que mais pessoas morram, mas me permito aqui e me referir a boa notícia corriqueira, do seu dia a dia, aquela que você chama de “normal” mas que perde espaço na hora de comparar com a primeira reclamação que vier pela frente. Acho que é possível afirmar que, numa rotina de vida com o privilégio de ter saúde e paz, há pelo menos uma boa notícia por dia – se considerar saúde e paz, já começa o dia com duas.  

 
Em 2021, portanto, te convido a ser uma pessoa mais generosa com você; convido a cuidar mais dos momentos que você vive durante o dia ao ter um olhar mais carinhoso por tudo o que você faz, fala, age e experimenta. A gente sabe que nem todos os dias são bons, mas e todos os outros? Celebrar apenas um dia perfeito é desperdiçar vida.  
 
A melhor notícia sobre isso é: não custa 1 real e depende de 1 passo seu. 
 
Saúde, paz e boas notícias. 
(hoje, por exemplo, consegui pregar uns 10 pregos que estavam entortando e achei que não conseguiria). 
 
Um beijo. 
Márcio Rodrigues. 
@marciorodriguees 

Perder para valorizar

Eu percebi só depois. 
Depois que a gente parou de se falar eu comecei a perceber um monte de coisa. 
Comecei a sentir um monte de falta. 
Falta de dos seus elogios carinhosos sem motivos aparentes; das suas propostas para o que fazer no fim de semana; de todas as vezes em que fez questão de fazer a pipoca. 
São essas coisas que ficam na cabeça da gente. 
Tem também a falta do beijo, tem a falta da cama, mas a falta da pessoa é a que mais machuca. 
Porque se trata da falta de um jeito. No caso, do seu jeito. 

Eu estou aqui para assumir que só depois que a gente se transformou em fim que eu percebi como queria voltar para aquele primeiro dia do sim. 
 
Aquele dia que a gente começou. 
E a gente foi se descobrindo. 
Um pouquinho por segundo. 
 
É um desafio lembrar das partes boas quando a gente está influenciado pelas ruins para tomar uma decisão. Me apeguei demais aos nossos desgastes que culminarem no fim. Na minha cabeça, no entanto, a melhor decisão seria a gente se afastar porque não estava funcionando. Eu nem exatamente me arrependo disso porque foi algo que eu senti que faria sentido, o problema foi colocar na balança só alguns sentimentos de uma história inteira. 
 
A nossa história terminou por uma porção de coisas que se resumem em desgaste e pouca energia para manutenção. Mas eu erraria se tentasse resumir nossa história a isso. A gente foi mais. E é desse mais que hoje eu, um pouquinho por segundo, eu sinto falta. 
 
Das mensagens. Das trocas de memes. Dos shows que a gente foi. 
De como você parecia colocar cor na minha rotina cinza. Depois do fim comecei a perceber que os melhores momentos dos meus dias nos últimos meses tiveram relação direta ou indiretamente com você.  
 
As pessoas que passaram pela minha vida antes de você também me deixaram lembranças boas e algumas faltas – e acho que é natural. O ponto aqui é que estou sentindo muita falta de como você é e, de fato, de como eu sou quando estou com você. É o tipo de coisa que eu não lembro mais direto como me senti com outras pessoas – vai ver porque o seu papel na minha vida era mostrar que o lugar do passado é no passado, e assim, evitar qualquer comparação. 
 
Não vou conseguir te comparar. 
A falta que sinto hoje não lembro muito de sentir antes. 
O alívio que senti pelo fim do desgaste perdeu lugar para um vazio de querer você aqui de novo. 
Eu não sei muito bem como vai dar esse assunto, mas se tem uma coisa que aprendi com você foi: “não guarde dentro de você uma coisa boa sobre alguém porque o que alimenta também apodrece.”  
Então eu vou te contar. 
Que eu percebi só depois. 
O valor que você tem e como você sempre soube me dar valor. Eu é que estava em outra frequência e na época fazia sentido.
Só não faz mais.

///
por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

Quando a gente sente que superou?

Quando que você não vai mais ser dor em mim? 
Quando que vou conseguir ouvir uma música sem lembrar de você cantando junto? 
Quando vou parar de me sentir mal pensando que a culpa foi só minha?  
Quando vou começar a ter mais carinho por mim? 
Eu acordo procurando com respostas como essas no teto da minha cama. 
Mas só tem você. 
Doendo. 

Queria pular para o dia que o que a gente viveu vai virar passado. 
Pular para o dia que vou me referir a você como “uma história que eu tive”. 
Quando a gente sente que superou? 
Em que página do calendário eu encontro isso? 
O horóscopo vai me dar dicas sobre quando vai ser sua partida da minha cabeça? 

Estou tentando me ajudar. 
Me distanciar dos gatilhos que me levam a você.  
Aquela série que a gente começou eu não pretendo terminar.  
Aqueles lugares que a gente visitou não planejo voltar. 
Os amigos que eram mais seus que meus, eu tento não me estender ao conversar. 
Não agora. 
 
Preciso dar espaço para a minha cabeça respirar. 
Organizar tudo o que estou sentindo. 
Preciso me desvencilhar da angústia de me derramar tanto em você e depois te ver partir. 
Um sentimento estranho de transbordar minha vida na sua sem poder conversar mais. 
Também preciso encontrar um lugar na minha vida para deixar as coisas que me disse sobre você. 
Os detalhes da sua família. Planos no trabalho. Suas queixas sobre a vida. 
Não posso levar comigo toda essa carga; por isso preciso encontrar um lugar para deixar. 
 
Porque te esquecer, na verdade, não sei se é o que preciso. 
Preciso aprender a conviver com o que a gente viveu, mas rezar para te esquecer não; isso seria ignorar as lições de tudo isso que tiro para mim. 
Eu só queria saber quando acaba. 
Quando vou sentir que superei. 
Quando vou sentir. 
Quando. 
Enquanto isso, estou me apegando ao fato de que cada dia mais longe de você é um dia mais perto de uma nova história, um novo alguém, um novo eu e novos planos.  
Hoje está doendo mas amanhã vai doer menos.

por Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

O problema foi você mesmo

Precisei passar por muitas coisas antes de você para que pudesse ser mais fácil entender os motivos pelos quais a gente terminou. 
É que o meu eu de antes, tranquilamente, colocaria toda a culpa em mim. 
Puts. Tantas vezes. E, sim, em algumas delas foi mesmo.
Mas a gente tem uma tendência a quase torcer contra nós mesmos. 
Dessa vez não, dessa vez está bem claro: o problema foi você mesmo.  

Você não se deu bem com o que mais gosto em mim. 

E eu, basicamente, não posso fazer nada a não ser respeitar.  
Veja, antes de ter toda essa certeza, avaliei para entender se era algum excesso e, mais que isso, se era alguma coisa de fato prejudicial no pior sentido intencional da palavra, mas depois de um, dois, três, vários episódios, é tudo sobre uma questão de afinidade. Algumas das coisas que mais gosto em mim simplesmente não combinam com você. 

Parece que te assustava, por exemplo, meu jeito de tomar iniciativa. Entenda, antes de você, eu era quem esperava muita das pessoas e toda essa espera sempre me fez mais mal do que bem. Por isso que não espero mais. É bem chato ter uma relação burocrática onde a gente tem que medir os passos porque a outra pessoa pode se sentir acoada. Eu sempre quis fazer tudo com você, mas você parecia querer as coisas só no seu tempo. E isso é injusto.  

Outro exemplo, meu jeito de cuidar. Eu gosto de me colocar à disposição para ajudar, gosto de dar alternativas para resolver as coisas, gosto de perguntar se está tudo bem. Mas, aparentemente, tudo isso parecia algum tipo de perseguição a você; sei lá, parecia que, de alguma forma, violava sua privacidade – pelo menos é o que você demonstrava quando reagia com rispidez. Ou seja, se pra mim é uma gentileza mandar uma mensagem para saber se precisa de alguma coisa que eu posso ajudar, e você não reage bem a isso, é um sinal de desarmonia.  
 
E em todas as vezes que precisamos conversar sobre a gente? Ou você fugia ou ironizava: “tá bom, tá bom, vamos falar então sobre a gente, tá feliz agora?” E a gente só precisava conversar. Ouvir e falar sobre o que não está indo bem e que podemos melhorar. A gente só precisava se alinhar. Você nunca gostou de falar sobre a gente. 

E ainda tem uma coisa que parece detalhe, mas só parece: você não gostava muito de curtir minhas vitórias. Sempre deixei claro o quanto gosto de celebrar uma boa notícia, um dia bom, uma boa surpresa. E o celebrar é só sobre comer em algum lugar diferente ou algo do tipo. Tentei algumas vezes, mas você sempre torcia o nariz. “Precisa mesmo?” Perguntava. Tudo parecia um trabalho grande; um grande esforço. E é esquisito porque era sobre uma notícia boa, um momento bom. 
 
Sabe, nada disso significa que estou sempre com razão. Eu falo disso aqui recortando um pedaço da nossa rotina. Percebi aos poucos que o desalinhamento ficava agudo justamente quando eu fazia as coisas que mais gosto: me preocupar com você, tentar te ajudar, te chamar para comemorar comigo e por aí vai. E, justamente essas coisas, eu não quero mudar – a não ser que alguém me diga que faz mal, o que nunca aconteceu. 
 
Já me culpei demais por coisas que eu simplesmente não tinha culpa. Essa dor eu não vivo mais. Você não se deu bem com algumas das coisas que mais gosto em mim. Este é o fato. E tudo bem, mas vou continuar dando o meu melhor para fazer bem a quem estiver comigo. Com você não funcionou. 

//
por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com

Percebi você desistindo da gente

Havia uma corda. 
Fixada de maneira forte o bastante para aguentar qualquer mudança de clima. 
Dias de sol e outros de temporal. 
Ela se mantinha lá. 
Até que ela foi se fragilizando. Ela cedia um pouco por dia por um lado. 
O lado em que estava você. 
No outro estava eu tentando segurar. 
 
Você foi me dando sinais que só me fizeram sentido quando os olhei de forma única. 
Primeiro, parecia impaciente até com as minhas piadas. 
A gente não dava mais risada um com o outro. 
Não havia mais série pra gente assistir juntos. 
E eu tentava te surpreender, mas o que antes era incrível para você passou a ser ok. 
 
Passou, também, a demorar para responder minhas mensagens. 
Muitas vezes nem sequer respondia. 
– “Dia corrido” 
Os emojis e figurinhas foram extintos. 
E o “eu também” se tornou protocolar. 
– “Saudades” 
– “Eu também” 
Apesar de tudo, lá estava eu sempre com um “tudo bem” ao alcance do bolso. 
Pouco a pouco fui colecionando exemplos de como você não queria mais ser a gente. 
 
Mais de uma vez, perguntei o que estava acontecendo, mas você que já não gostava de conversar, passou a rejeitar meu acesso. Maldita percepção negativa que criaram para os diálogos sobre as relações. 
Tentei te contornar. Não me cabe a ideia de não tentar tudo até que nada mais funcionasse. 
Você não reagia. 
Marcar de ver meus amigos te parecia a pior a notícia. 
E quando a gente estava com os seus eu parecia não estar no mesmo lugar. 
A gente parou de funcionar, mas eu não queria. 
Todo dia aparecia um novo furo na canoa e eu tentava tampá-los para não afundar. 
Percebi, então, duas coisas: 
1. Você, de verdade, estava desistindo da gente; 
2. Eu estava com uma vontade incompatível com a sua; 
 
Queria continuar, mas não queria o trabalho todo. 
A nossa parceria se transformou em uma empresa pra gente administrar. 
Almoços familiares. Aniversários inadiáveis. A gente participava, mas a sua vontade passou a ser obrigação. Você não dizia, mas também não precisava. 
Sentia falta do carinho mínimo. 
Suas pernas enroscando com as minhas no sofá. 
– Vou fazer pipoca, pausa o filme? 
Essas coisas. 
A gente foi se despedindo sem conversar. 
 
E o que era a gente passou a ser você e eu, com nome e sobrenome. 
Seus sinais se mostraram reais e sua parte da corda caiu no chão. 
2. Eu estava com uma vontade incompatível com a sua; 
E ela permanece aqui. Uma vontade de me revisar, repensar meus erros, me reinventar, tentar ser um eu diferente, conversar, buscar maneiras para ficar tudo bem, maneiras para melhorar o que é bom. 
Uma vontade de continuar. 
Agora não mais com você. 
Que deixou espaço para outra pessoa chegar. 
Ainda há uma corda.


por Márcio Rodrigues.
umtravesseiroparadois@gmail.com
 
 
 

Quando a gente se conhecer

Termina assim: 
Chega um dia que um beijo é o último. 
E aí a pessoa sai da nossa vida. 
E o sofá fica grande para um. 
A risada vira perseguição. 
Quando a rotina vira evento a gente vira vento. 
Desprendidos do sentir. Um grande tanto faz. 
É isso. Outro fim. 
 
Eu já vivi tantos outros assim. 
Não sei quantificar e é menos sobre a quantidade. 
A gente se acostuma. A dor é terna.  
Mas eu cansei do antes porque me anima demais o que virá. 

Fico pensando como vai ser quando a gente se conhecer. 
Ando me descobrindo um pouco mais por dia. 
Precisava melhorar, estava puxado ser do mesmo jeito.
Mas o plano é pegar leve comigo.
Eu nem te conheço ainda mas fico pensando:
Será que você vai gostar de mim?
 
Vivo uma ansiedade boa de sentir. 
É a ansiedade para mergulhar em uma vida diferente da nossa; de trocar as experiências e as lições que a gente aprendeu. 
Por exemplo, aprendi a demonstrar. 
Porque antes eu não o fazia. Tinha tanto medo de parecer grudento demais. 
Ouvi gente dizer que eu deveria “jogar o jogo” mas eu nunca entendi. 
Sinal que sempre perdi. 
Hoje eu não me importo não; talvez, se a gente se der bem e rápido, você se afaste de mim caso eu decida te contar o quanto me faz bem. Tem gente que transforma boa notícia em ruim. Quando a gente pode só conversar. 
Desse medo eu não morro mais. 
Quando a gente se conhecer você não vai ter dúvidas das coisas que eu sinto. 
Do que eu não gostar ou do que amar, você vai saber. 
 
Já senti muita falta de ser ouvido. 
Me envolvi com gente que não queria se envolver de tanto que falava de si. 
Não havia espaço para perguntas de tantas respostas que apareciam. 
A gente não se descobria.  
Abreviado, percebi que era uma história entre duas pessoas vivida por uma. 
Teve outras vezes também que vivi sozinho. Já gostei demais por dois. 
Quando a gente se conhecer eu quero te contar sobre mim, como penso e como quero saber a sua opinião sobre as coisas.
Qualquer coisa. A gente não precisa concordar. 
Desde que seja evidente que lugar do arroz é embaixo do feijão.
 
Você ainda não é verdade.
Eu sou vontade.
A gente é um plano.
Mas estou empolgado demais com a possibilidade do futuro ser bom.

Começa assim: 
Chega um dia que um beijo é o primeiro. 
E aí a pessoa entra na nossa vida 
E o sofá fica pequeno para dois. 
A risada vira refrão. 
Quando a rotina vira vento viver junto vira alento. 
Empolgados em sentir. Um grande tão bem que faz. 
É bom isso. Outro sim. 
Quando a gente se conhecer. 

///
por Márcio Rodrigues
marciorodriguees@gmail.com

Ainda bem que você existe

Tem sido difícil acordar. 
O desanimo nasce com as primeiras notícias do dia. 
Como assim isolamento? Por quanto tempo? 
Planos sem previsão para retomar. 
Vaidade escoa pelo ralo durante o banho. 
Dias difíceis demais. 
Mas ainda bem que você existe. 
O problema é que talvez eu não esteja sendo tão legal com você ultimamente. 
Pelo menos não como merece.  
Por isso e por qualquer outra implicância minha, quero me desculpar. 
E dizer que eu não sei como seria sem você aqui para me equilibrar. 
A cabeça de todos deu um nó. Sumiram os parafusos que pouco existiam. 
Encontrar lado positivo em tudo isso é privilégio demais. 
E o meu é ter a sua companhia. 
Sua companhia para eu despejar as frustrações do trabalho e a minha síndrome de impostor. 
Aquela que me faz acreditar que eu não sou bom em nada. 
Te alugo contando as mesmas histórias em dias diferentes. 
E você sempre me ouve atentamente, foca em se colocar no meu lugar e me lembrar que talvez eu esteja sendo injusto comigo. 
Eu esqueço dessa possibilidade. 
Puts. 
Ainda bem que você existe. 
Esse ano me ensinou duas coisas até agora: 
1. O que é quarentena – e não gostei de aprender. 
2. A importância de agradecer. 
A segunda lição é onde estou tentando focar. 
Preciso respirar mais – respirar faz muito bem – e não deixar de te agradecer por todas as vezes que me perguntou se estou bem, como foi meu dia e se eu preciso de alguma coisa. 
Andei pensando que preciso colaborar mais comigo, e assim, com você. 
Preciso aprender a escolher melhor onde colocar minha energia. 
Gasto tempo demais falando sobre coisas e pessoas que não vão fazer a minha vida melhor. 
Tempo demais gastando tempo com coisas que só me desgastam. 
Scrolls por feeds infinitos, para exemplificar. 
Ando me alimentando do que me faz mal e, em tempos como esses, é decisivo entender o que nos alimenta. 
Ainda bem que você existe. 
Para jogar meus olhos para outros lugares, outras coisas, outras pessoas e, todas elas, capazes de me manter de pé. 
Desculpe por te incomodar, por alguma impaciência ou qualquer outra coisa que não te fez bem. 
Seria tolice usar desses tempos que vivemos para justificar. Eu percebi que venho errando. Este é o ponto. 
Mas, para a minha sorte, ainda bem que você existe. 
Este isolamento tem impedido o sol de encontrar a minha pele, mas sua companhia não me deixa esfriar.

//
por Márcio Rodrigues.
@umtravesseiroparadois (textos exclusivos)
umtravesseiroparadois@gmail.com

Coração em isolamento emocional

“Esse filme é bom mesmo? Ouvi muita gente falar mal”. 
Semanas passaram e a resposta nunca veio. 
Foi só mais uma mensagem não respondida, apesar de visualizada. 
Me leva a crer, desse modo, que acabei sendo só mais uma mensagem para você ler com cara de “puts, que preguiça”. 
Acabou por aqui minha entrada na sua história pelos seus stories. 
Pra mim foi mais uma vez que enfrentei o inimigo da autoestima e me expus ao tentar um diálogo. 
Já devia ter me acostumado. 
É que tem tanta gente falando sobre novo normal. 
 

Esses tempos tem me revelado a importância de cuidar melhor do meu tempo. 
Sem poder ir à rua eu não me exponho tanto. É uma vantagem para quem tem autoestima como inimiga. Na segunda fala com alguém que não conheço eu já acho que falei algo errado. Mas o tempo precisa cuidar de mim também para o bem-estar funcionar. 
 
E tanto tempo dentro de casa, administrando a inércia dos momentos de ociosidade, percebi que tenho ficado mais imerso no celular, e assim, apesar de não encontrar ninguém fisicamente para conversar, ainda é possível me machucar com trocas de mensagens e, principalmente, com a falta delas; com os fins que nem chegaram a começar. 
 
Nasce, portanto, uma oportunidade de me proteger.
Isolar não só o meu corpo como o meu sentir. Rever minha relação com as minhas interações, as motivações da minha ansiedade (esperar resposta?) e toda manifestação que me faz sentir em dívida, em prejuízo e que colabora com a destruição da minha confiança. Essa reflexão tem me acalmado, não a ponto de me sentir seguro, mas o bastante para que eu possa pegar mais leve comigo. 

Resetar a mania de perseguição que tenho a mim mesmo.  
Sem poder sair para qualquer atividade social, acabo retomando grande parte do controle do meu coração e isso me parece uma oportunidade para blindá-lo aos poucos. 
A vida social escancara feridas que ainda ardem. Ir a um show é também aumentar a chance de encontrar alguém que já me fez mal. Pegar o ônibus para o trabalho é também passar perto dos lugares que eu fui antes com alguém – reservando aqui o privilégio de não precisar sair de casa para trabalhar. 
 
A verdade é que nosso coração também se isolou. 
E quando menciono retomar o controle, é saber que as horas nas timelines é de responsabilidade exclusivamente nossa. Se o que há de contato hoje é virtual, que seja evitado aqueles que possam dar gatilhos e fazer mal. Este isolamento forçou a importância de cuidarmos da gente.  
 
Esta rotina com a presença, exclusivamente em vídeo, de poucos alguéns, provoca um aspecto sensível que vamos aprender a lidar aos poucos ao final de tudo isso, mas tem um lado positivo sobre o resgate de nós mesmos, a reflexão sobre equilíbrio sentimental e, acima de tudo, proteção. Como é importante gostar da nossa própria companhia antes de qualquer outra.
 
Ninguém gostaria que nada disso existisse, mas agora que é uma realidade, cabe à gente encontrar maneiras diferentes de fazer os dias menos piores. Ficar em casa. Isolar. Cuidar. São alguns termos e palavras que num contexto de cuidado pessoal estendem os benefícios da saúde para o nosso coração.
 
Quanto ao filme, nem é tudo isso. Assisti e não recomendo.  


por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

(aos que chegaram agora: assim como a maioria dos textos deste blog, este texto não reproduz a minha vida pessoal; eventualmente pode ser inspirado em algum momento, mas a maior parte do conteúdo é fictícia)

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