Passa pela catraca com velocidade.
Me acelera, não vê a hora de descansar.
Esquecida, me pergunta se pode sentar-se na janela. Mas é claro que eu deixo.
Sentamos então.
Seguro sua bolsa e minha mochila. Quero te deixar confortável.
Você parece aflita de novidades! Vai me contando como foi o dia numa animação ímpar. Eu até penso em fazer umas intervenções em alguns momentos que não entendi muito bem. Mas deixo você continuar. Começamos então a falar de assuntos corriqueiros: a cara do pipoqueiro, o frio que faz, o jogo de hoje na TV, a quantidade de RT’s. Corriqueiros. Fazemos planos pro fim de semana. Sugiro irmos ao cinema ver aquele filme que venho falando a meses. Você prefere uma Sessão Gourmet, DVD & Pipoca. E óbvio, com um argumento desses, acaba me convencendo. Aceito com a condição de eu preparar o bolo desta vez.
Alguns poucos segundos de silêncio. Deito em seu colo. Estou cansado e essa roupa de trabalho me incomoda.
Volta a falar sobre coisa que leu e pessoas com quem conversou. Celebra uma lembrança importante e começa então a falar de um sonho que teve. Disse que viajávamos, duas mochilas, algum dinheiro e muita vontade de viver. Permanece radiante enquanto detalha o sonho.
Deitado de lado não consigo ver nada além do banco da frente, mas presto atenção em cada letra do que diz.
Me alerta que é hora de desembarcarmos. Peço compaixão pelo meu cansaço, reluto um pouco, mas me convenço de que temos mesmo que sair. Concordo lamentando e me invade uma saudade recente daquele lugar que fiquei quando deitei sem seu colo.
Desce na minha frente e me espera lá embaixo. Com certa dificuldade, consigo sair daquele mar de gente que congestiona a porta. Desço com um envelope na mão.
Ainda na rua peço para que abra, você não entende anda e me faz mil perguntas. Insisto para que abra.
São passagens aéreas para duas pessoas.
Comprei hoje na hora do meu almoço. Defini alguns poucos destinos e torço para que tenha gostado com sinceridade. Você não diz uma palavra sequer. Sem expressão, não tenho certeza se gostou.
Em silêncio e de forma abrupta larga a bolsa, as passagens, o envelope e me assalta com um abraço e um beijo de ternura.
Imagino que a mancha de delineador em minha camisa branca seja uma demonstração de felicidade.
Uma demonstração sua de felicidade.

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