Raiva porque nunca aprendo.
Meu histórico de fracasso inclui algum apreço acidental em me machucar.
Sigo falhando por não conseguir esperar nada.
Talvez porque parte de mim receia em me automatizar.
Frear o que sinto vai fazer eu me odiar.
Mas já fui pior.
Sempre fui o primeiro a me posicionar.
Contra todas as indicações, eu sempre fui vocal.
“Adorei hoje :)”.
Entendi que eu posso estragar tudo.
Que foram inventados jogos e, o maior deles, talvez seja não demonstrar o que sinto.
Muito menos falar como sempre fiz.
Passei a jogar o jogo esperando um resultado diferente que não aconteceu.
Seguir as regras não vai garantir que a gente vença, mas pode dar mais clareza do motivo da derrota.
Pelo menos era o que eu pensava depois que entendi que não posso criar expectativas.
Muito se fala sobre o problema de criar essas expectativas.
Mas muito pouco sobre quem as alimenta.
Você poderia ignorá-las, deixá-las morrer por arco natural do esfriamento das emoções.
Mas pelo contrário, você sempre demonstrou afeto por meio da reciprocidade.
E eu me vi preso nessa teia de retribuição.
Clicava e segurava na mensagem para reagir com o emoji ideal pra você.
Ouvia as músicas que me indicava.
E gostava dos seus POVs sobre as minhas.
Dava segundas chances para os filmes que eu odiava mas sabia que você gostava.
Eu tentava demostrar cuidado e intenção.
Enquanto você me devolvia curiosidade.
Sobre o que achei do filme, sobre a minha busca por comer mais saudável, sobre as metas de idas à academia, sobre a rotina do trabalho.
E eu gostava de ouvir seu interesse que me convencia ser legítimo.
Minha vida era um assunto que te importava.
E eu afirmo porque você sempre declarou. Não foi uma impressão que fabriquei.
Até cairmos no vale das incertezas.
Um espaço no tempo no qual as horas passam devagar para uma pessoa e rápido para outra.
Uma demora calculada em interagir.
Imprevistos que passaram a ser recorrentes.
Pouco a pouco a nossa conversa foi descendo na tela inicial do Whatsapp.
Digitei interrogações demais.
Não deu tempo de a gente ser futuro.
Eu voltei pra exata volta que o mundo dava antes de te conhecer.
Uma pessoa da agricultura das expectativas.
Enquanto você corta o bem pela raiz. Bem antes de florescer.
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Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com
@umtravesseiroparadois

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