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Parcelei em 3 Vezes

Faz tempo que eu olho essa vitrine.
Esse shopping está no meu caminho de volta pra casa e ás vezes dou uma passada pra ir ao banheiro ou pra tomar um sorvete.
Só não gosto muito de vir aqui sem você. Sei lá, tem tanto casal andando junto por aí e isso me deixa meio deprê, mas esqueço disso rapidinho quando olho pro celular pra ver as horas e ganho uma mensagem sua.
Mas então, hoje eu resolvi ficar mais tempo nesse shopping. Você tem aula essa noite.
Antes de qualquer coisa mereço uma parada especial naquele restaurante colorido que tem tudo que a gente gosta, tipo: arroz a grega, salada de ervilha com milho e refrigerante citrus. Ops, nada de refrigerante mas sim suco de laranja sem açúcar pra ajudar no regime de guloseimas, haha.
Faz tempo que eu olho essa vitrine. É estranho. Parece que aquele vestido tem o teu nome, parece que você já me falou dele em algum lugar, sei lá não lembro direito. O fato é que eu não consigo imaginar esse vestido em outra pessoa que não seja você.
Entrei na loja e me aterrorizei com o preço. Não a toa não estava exposto na tal vitrine. Andando pelos cabideiros me perguntei porque roupa de mulher custa tão caro. Logo na sequência notei a resposta na lotação da loja e na alegria com que as mulheres vão embora. Mulheres não se importam com o dinheiro e sim com o bem que ele pode proporcionar, ou seja, comprar roupas não tem preço.
Ok, fui atendido pela vendedora simpática que tentou fazer eu levar a loja inteira. Resisti e peguei apenas o teu novo vestido. “Crédito, por favor!” – Passei o cartão na maquininha como se fosse uma foice no meu peito. Acho que eu nunca comprei nada com tantos zeros, haha.
Saí feliz do shopping e adorei a embalagem do presente. Gosto de embalagens.
Dois ônibus, avenida movimentada e fiquei na porta do teu curso.
Um pouco de atraso-clássico e você sai com cara de “o que raios você está fazendo aqui do nada? adorei!”
Sem te deixar falar uma palavra eu digo:
“Oi, como você tá? Olha, Feliz Dia Qualquer. Hoje não é nada demais, nenhuma data, nenhum marco em nossa vida. Sei lá, Feliz Hoje! Espero que goste.”
Você adorou! Fiquei extremamente recompensado pela tua reação!
Tudo lindo, tudo especial!
Mas.
Ok.  Tivemos que voltar no dia seguinte no mesmo shopping pra trocar o tamanho P pelo M.
Esqueci que o regime ainda não surtiu o efeito que deseja.

Onde Vamos Sentar?

Hoje eu tenho um encontro!
Ansioso, acordei bem cedo, mais do que deveria, tudo pra poder escolher a roupa ideal. Por sorte, tenho uma camiseta que comprei e nunca usei por não encontrar o “momento ideal”, sabe? Chegou esse momento!
Um almoço rápido e já posso sair. Mas antes, uma conferida no meu saldo em minha conta bancária via internet. É, a coisa não está tão boa assim, mas com um esforço aqui e outro ali vou poder gastar alguma coisa hoje. Mereço!
Eu tenho um perfume super caro. Só uso aos fins de semana quando as ocasiões são mais especiais. Ok, a intenção real é economizá-lo. Hoje é fim de semana. Logo?
Combinamos às 17h em frente a bilheteria do cinema. Cheguei às 16:40. Tem muitas pessoas aqui, vários casais, família inteiras, adolescentes desbravando os corredores. Acho uma boa ir na livraria me atualizar quanto as revistas do mês.
“Heeey, me desculpa, estou chegandoo, não briga cmg!” Leio tua mensagem de texto e me tranquilizo.
Volto pro local de encontro e às 17:20 você chega. Linda. Extremamente deslumbrante! Eu nem sei como está minha cara, se meu cabelo está horrível, eu não sei de nada, que vergonha, mas você está linda. Te confesso.
Entramos na fila do cinema. Já tínhamos escolhido o filme.
“Nota Fiscal Paulista?” – “Não, obrigado!” Bilhetes comprados.
Você sugere comermos algo antes do filme, diz que não é muito fã de pipoca na poltrona. Eu, óbviamente, aceito. E lá se vai me seu salário tentando te impressionar com restaurantes legais.
Subimos pra sala. Entramos, e chega o momento que dará a letra dos outros que virão a seguir: Onde sentaremos? Deixo a escolha em suas mãos e você opta por um cantinho da sala.
O filme começa, o filme termina. E nós continuamos da mesma forma que começamos. Amigos. Vamos embora. Você parece contente, não para de falar como o filme é bom, como era inesperado! Fiquei feliz com tua reação.
Saímos do shopping e me prontifiquei em levá-la ao ponto de ônibus.
A partir desse momento meu peito começa a formigar, eu não consigo pensar em nada decente pra te falar, não consigo falar do filme, não consigo falar sobre como eu gostei de hoje, não consigo! E como eu odeio isso!
Fiquei de costas para os ônibus na avenida, não quero imaginar você indo embora, não quero imaginar esse dia acabando.
“É, lá vem meu ônibus…” Você me corta o peito com essa frase.
Penso que essa é a hora, chega, preciso parar de tanta vergonha, vou falar alguma coisa, sei lá, vou fazer alguma coisa, mas vou ter alguma atitude.
Me beija, me abraça e diz “Obrigada por hoje, fica bem!”
Você parte.
E me parte.
Sem a mínima culpa da situação toda. Não existem culpados.
Eu não consigo nem te olhar entrando no ônibus pra dar um último tchau. Saio caminhando sem olhar pra trás. Sem olhar pra trás. Ora, óbvio que você não tem culpa de “não querer nada comigo”, até porque, você nem sabia que eu queria algo… Como eu fui covarde COMIGO MESMO! Queria voltar, queria pegar o próximo ônibus e ir atrás de vocês. Nessas horas a coragem vem.
Mas tudo bem, sem problemas, foi a primeira vez que saímos juntos, essas coisas acontecem.
Não sei se haverá uma segunda vez com você, nem tenho ideia de onde te chamar pra ir, mas eu tenho certeza de uma coisa: eu nunca mais vou deixar de ouvir e atender aos gritos do meu coração lunático e sincero.

“Espero que esteja bem, adorei hoje, de verdade, e ah, você estava tão bonitinho :)… bjo”

Mensagem de texto recebida.
Eu li essa frase durante as 5 horas seguintes.

No Meio Do Caminho Tinha Uma Pedra

Erramos, sabemos disso.
Provavelmente erraremos outras dezenas de vezes, mas tenho certeza que não pelos mesmos motivos. A lição dói como uma pedrada no peito, no entanto se faz presente em sua verdade absoluta. Nos faz repensar em todas as nossas atitudes.
Eu gosto tanto de você. Sou a favor que nos cobremos menos, não somos culpados assim pela velocidade que os dias passam. Mais dias passando, são mais momentos vivendo juntos. Não somos culpados, não temos como controlar, a menos que colocássemos algemas em nossos corações. Difícil.
Tem muita coisa boa pra acontecer ainda, sabemos disso. Tudo está no início, podemos nos ajudar muito ainda. Temos direcionamentos diferentes pra vida, nossas idades automaticamente impõem isso, mas temos desejos e sonhos parecidos e acredito que se alinharmos nossos pensamentos, e mais, se nos somarmos, conseguiremos tudo o que queremos na hora certa.
Deslizes acontecem. Não somos imunes a eles, a gente considera tudo, contudo, mais do que tudo, temos muita energia do bem pra direcionarmos a melhor resposta de todas. Tudo vai ficar bem, estamos crescendo com as experiências. Não vejo a hora dessa angústia toda acabar da melhor maneira para que nós finalmente possamos fazer nossas compras preferidas. Você gosta de chás e eu de creme de avelã. Estou ansioso também para que possamos inciar nossos passeios gastronômicos. Você é uma profunda conhecedora de temperos, e eu um mero degustador, com um certo gosto específico.
Vem cá, me dê sua mão, sente o calor aqui, é 1% do que tenho a oferecer. Traz teu rosto pra perto, fica a vontade pra utilizar meu ombro de travesseiro. Um travesseiro.
Conte comigo, tudo vai ficar bem, pensa nisso comigo, a tempestade vai dizer adeus, precisamos que passe, reservei duas diárias num hotel no litoral para comemorarmos o “Dia Sem Motivo Especial”.
 

Bolso Vazio, Coração Cheio

Celebramos todos dos dias. Celebramos toda a vida.
Aprendi a comemorar o fato de eu estar vivo. Hoje, além da minha própria felicidade me preocupo com a sua que está comigo.
Estamos a algum tempo dividindo as mesmas preocupações. Estas, que não me cabe julgar importância. São preocupações que passeiam entre a Cor do Esmalte ao Desânimo Com o Atual Emprego.
Cumplicidade. Aprendi a respeitar e valorizar este sentimento que ás vezes esquecemos perante alguns que, teoricamente, se sobressaem, ou que eventualmente nos são impostos a acreditar que são mais importantes. O comércio em geral nos condiciona a crer em um sentimento vendável.
Você odeia o comércio.
E você odeia tanta coisa: despertador, quando acaba o achocolatado, odeia dividir pedaço de pudim, odeia quando chove e molhe suas meias. Ranzinza, se faz de difícil pra si mesma. E eu sou sua plateia num show de humor.
Sou eu quem enxerga beleza na forma que diz “Não me enche!” ou quando sorri e anuncia: “Isso é demais!”.
Odiamos datas. Não somos fã da aparência vã que alguns casais fazem questão de ostentar por aí. Acho que não somos normais. E aí está o encanto.
Você ama ser estranha.
E penso ser verdade quando revela que me ama, mesmo eu sendo tão estranho quanto. Talvez eu possua uma estranheza que te excite. Vai saber.
Hoje é mais uma data comum do mundo. Todavia, como não somos “comuns”, não consideramos o dia de hoje como algo surreal. Praticamos o que sentimos todos os segundos que podemos.
Eu até pensei em te comprar alguma coisa, quase me rendi a pressão da TV, pensei naquele livro que tanto quer ou aquela blusinha daquela loja que suga meu pouco salário em uma fração de segundos. Os vendedores de lá me amam por motivos óbvios.
Mas eu não vou te dar nada hoje. Eu quero que se dane o tal “Dia dos Namorados” e eu tenho certeza que você também não está preocupada com isso. Não é uma data que vai fazer com que todos os outros dias do ano sejam melhores. Nós fazemos isso!
Hoje é domingo, dia especial, gostamos de domingos. Macarrão, sorvete de creme e flocos e filmes no DVD. Não temos dinheiro pro cinema, não temos dinheiro pra pipoca de microondas. Temos milho, panelas e um fogão.
Cumplicidade. A gente transforma os nossos momentos.
Tanto você, como eu, não somos obrigados a gastar rios de dinheiros com algum presente por aí pra provarmos um ao outro quão importantes somos um ao outro.
Preciso de você pra enxugar minha lágrima quando eu precisar e pra dividir um sorriso quando eu estiver feliz. E você é capaz de muito mais que imagina. Eu também.
“Você Não Faz Ideia do Quanto”. Aluguei esse filme, embora bobo parece legal, se não for, tudo bem, a gente devolve o DVD e continuamos o filme da nossa história da forma que acharmos conveniente. Já temos todo o roteiro.
Podemos jogar STOP também.
Podemos tudo.

Tudo e Você?

É pra ser só mais uma ligação pra saber como foi o seu dia.
Mas nunca é. A gente sempre faz questão de prolongar todos os assuntos.
É automático! Nem que tenhamos conversado durante todo o dia, a noite, na última conversa antes de dormir, relembramos alguns momentos de horas atrás e lembramos de coisas novas pra contar.
A primeira coisa que faço antes de te ligar é procurar uma posição confortável no sofá. Arrasto pra perto de mim um puff que gosto muito – aquele que adora também -, repouso meus pés, quando faz frio pego um edredon, no calor não faço nada.
Durante a conversa alguns assuntos polêmicos surgem, como o debate sobre “Qual Cor do Esmalte Você Deve Passar Ainda Hoje”, mas são coisas que com muita destreza nos ultrapassamos. Conversamos também sobre outras amenidades como “Estou Sem Dinheiro Mas Estou Louco Pra Viajar, Você Fecharia Fazer Uma Loucura Comigo?” e seguimos um ouvindo o outro. Quando a conversa chega numa ponto desses, eu já estou de ponta-cabeça no sofá, com os pés na parede. O controle remoto da TV já foi para “O Mundo dos Controles Remotos de TV”.
Ás vezes me bate uma fome. Vou até a cozinha preparar algo enquanto revela sua fúria com o seu chefe. Respondo com “uhum” confirmando que estou ouvindo tudo. Não falo mais nenhuma palavra por simplesmente estar impossibilitado de dizer algo devido as bolachas que eventualmente como enquanto desabafa.
Vou até o banheiro, faço xixi. Lavo e seco as mãos, saio do banheiro. Tudo isso com o telefone. Muito provavelmente você também está mudando de posição freneticamente, de repente enroscada com teu edredon, ou se olhando no espelho fazendo caretas ao tentar estourar uma espinha danada.
Chega uma hora que as orelhas começam a arder mas não o suficiente pra diminuir nossa vontade de conversar com o outro, de nos certificarmos que está tudo bem, de fazermos planos pro fim de semana, de até brigarmos ás vezes. Mas sempre nos falamos.
Você não faz ideia de como me faz bem te ouvir falar qualquer coisa. Gosto da ideia de ser o escolhido pras suas revelações, ou até mesmo para sua queixa sobre o metrô lotado de todos os dias. Gosto de saber que você conta comigo. E é meio óbvio que sinto o mesmo por você, né? De maneira alguma eu passaria fáceis 2 horas no telefone com alguém que não fizesse sentido pra mim.
Tem dias que eu passo as horas ansioso em chegar a noite e eu finalmente poder saber como foi teu dia. Gosto de ser quem te recomenda comer melhor, quem te lembra do remédio de 8 em 8 horas.
No final, o que menos vai me importar é se terei dinheiro pra pagar a fatura do telefone no fim do mês. Com um esforço aqui, outro ali, e um corte de leve na quantidade de filmes que a gente aluga, eu consigo pagar.

Açúcar ou Adoçante?

Essa mania que eu tenho de achar graça na forma que tira o cabelo do rosto.
Desde o nosso primeiro “oi” comecei a achar graça em coisas que sempre considerei bobas. Revi meu conceito sobre consideração das coisas, especialmente das coisas bobas.
A gente senta numa cafeteria qualquer, fazemos nosso pedido e enquanto esperamos, você se aproxima de mim. Nos encostamos no balcão, você com seu cotovelo sobre a mesa coloca a mão em meu cabelo e começa a fazer círculos com os fios. Comento de um assunto qualquer, do frio que está fazendo hoje, e então somos interrompidos pelo garçom e a chegada do nosso pedido.
Dois cafés.
Você segura a asa da xícara com extremo cuidado para não queimar os dedos. Enquanto tomo o meu café, de rabo de olho observo tua dificuldade em fazer o teu esfriar. Se irrita com tanta fumaça. E eu rio.

E eu rio.

Comemora o fato das mãos agora já não estarem mais frias demonstrando a nova temperatura ao acariciar meu rosto. E eu sempre fecho os olhos quando passa a mão sobre meu rosto. Não tenho resposta para isso, acho que é uma das coisas bobas que aprendi a gostar também.
Pedimos a conta, pagamos e partimos.
Te deixo sair primeiro pela porta e quando saio você me surpreende com um abraço não-convencional. “Feliz hora do café!”  – é o que me diz.
Sem ententeder muito bem, ou melhor, sem entender nada, eu concordo e retribuo sua sincera felicitação. Você é estranha, mas gosto disso. Será que sou tão estranho quanto?
Saímos pela calçada, teu braço envolvendo minhas costas, e o meu sobre seus ombros. Partimos selados.
Chutamos folhas secas do Outono, brincamos com cachorros e eventualmente até apostamos corridas. Pregamos peças nas pessoas nas ruas ao apontarmos as coberturas dos edifícios como se realmente estivesse acontecendo algo. Todos olham. Nós rimos, rimos feito bobos. E a coisa boba se faz presente denovo entre nós.
Obrigado. Talvez seja algo nesse sentido que eu deva te falar por me fazer sentir tão especial, por sei lá, delimitar as coisas e a forma que eu falo (nunca achei que seria necessário, mas hoje sei que é). Obrigado por ser você.
Qualquer dia te conto sobre o que penso de você, de repente seria uma boa oportunidade pra isso acontecer quando voltarmos a cafeteria, e eu mais uma vez, poder ver como fica seu rosto quando se irrita com a fumaça do café.
Coisa boba que eu gosto tanto.

 

Quer Que Eu Segure Sua Bolsa?

“Você comprou um cachecol azul. Achei bem bonito, combinou bastante.”
Qualquer dia, especificamente quando eu tiver coragem, prometo te revelar algumas coisas que penso sobre você. E eu sei tanto de você. Me prendi tão rapidamente e não é na mesma velocidade que quero te perder. Apesar de nunca ter te tido. Ainda.
Com uma precisão implacável, nos vemos todos os dias na mesma hora.
Saio de casa, estendo a toalha no varal e coloco meus amigos fones de ouvido. Religiosamente todas as manhãs, me pego reclamando do frio e da preguiça, contudo, logo esses sentimentos dão lugar a uma ansiedade estranha. Eu poderia traduzir a ansiedade de hoje, por exemplo, em algo como: “Hoje é sexta-feira, um dia mais descolado, acho que estará usando aquela blusinha branca com grafismos moderninhos! Sei o quanto adora!” Eu sei tanto sobre você, tanto que sei até que roupa provalvemente usará em determinados dias da semana. E sempre acerto. Hoje não foi diferente.
Absolutamente você não faz ideia, mas carrego lenços de papel comigo pra em uma oportunidade de você estar resfriada eu prontamente te oferecer ajuda, mas você é muito organizada e sempre carrega seus próprios lenços. Vivo na torcida que sua memória falhe. Quando está chateada, envia Mensagens de Texto para os amigos digitando numa velocidade surreal. Quando está feliz, cruza as penas e toca Bateria Imaginária em seu próprio corpo. (Em tempo: Você também tem amigos chamados Fones de Ouvido”).
No total, você possui 12 sapatilhas das mais diversas cores e modelos. Gosta de usar alguma de cor mais séria na segunda-feira, como se tentasse transmitir uma impressão de “seriedade e convicção”. Tolinha, sei bem como é.
Um dia desses atrás, pensei que seria a hora de falar com você. Eu lia Hutoz, romancista europeu, e notei que você tentava me acompanhar na leitura. A cada página por mim virada, era uma respiração de reprovação por sua parte. Comecei a ler mais devagar desde então.
Aprendi a odiar os fins de semana, responsáveis por quebrar nossa rotina. No domingo, sou o primeiro em casa a arrumar as roupas do tão esperado, pelo menos por mim, dia seguinte.
Fico um pouco aflito quando não está no lugar de sempre, daí no outro dia vem com uma expressão febril. Não gosto de te ver doente. Aqui do meu mundo eu passo meu dia te mandando energias do bem pra que se cure logo . É tão mais bonito te ver pra cima, alto astral, com sua meia fil 70 e a sua “Sandália do Dia”.
Sem querer e sem saber, você me dá uma razão diferente para os meus dias, ou pelo menos para os primeiros minutos de cada um deles. Me faz feliz saber que vou te encontrar em uma nova manhã, no mesmo banco, com a mesma forma de sentar, na mesma hora, no mesmo ônibus. E nem me importo dele ficar lotado e eu ter que segurar a bolsa de algúem. Mesmo sem nunca sequer ter falado com você, sentar ao lado e sentir como está seu humor já faz parte do meu dia a dia.
Quem sabe um dia eu te convenço que é melhor não dormir com a cabeça encostada no vidro. Quem sabe um dia descubro seu nome.

Supresa de Outono

“Qualquer bebida, contanto que seja quente…”
Você me pede então bocejando dominada pela preguiça enquanto muda os canais da TV.
Com uma certa dificuldade no caminhar ocasionada pela não combinação de “Meias + Chinelos” vou até a cozinha preparar algo.
Optei por um chocolate quente, achei mais apropriado pro frio que está fazendo.
“Amoor, vem correndo ver esse esse trailer!” Te ouço me gritar lá da sala e eu saio em disparada deixando cair achocolatado no chão. Combinamos de ser o próximo filme que assistiremos no cinema! Dei um beijo em sua testa e voltei pra cozinha, agora além de preparar algo quente e gostoso ainda preciso limpar a sujeira que fiz. “Você só me apronta” resmungo com carinho solitário.

Leite, achocolatado, 1:15 de aquecimento no microondas e a sua caneca de sempre.
Eu, dessa vez optei pelo chá. Depois de encher as canecas, tendo o cuidado de medir a temperatura pra que não queimasse seus dedos, peguei um bandeja e voltei pra sala com a mesma dificuldade com as meias. Quando cheguei percebi que tinha adormecido.
Coloquei a bandeja na mesinha de centro e me deitei rapidamente ao seu lado. Cobri as partes que teu corpo reclamava de frio. Não queria te acordar. Em direção a TV vi a fumaça do seu chocolate quente e do meu chá. Fumaças que se entrelaçavam.
Então você despertou. Resmungando, mas despertou!
Te lembrei que eu tinha ido preparar algo pra gente, como você havia pedido, mas quando voltei você tinha dormido.
Subitamente e sem resposta, puxou pela camiseta pra perto de você. De lado me abraçou, repousou a cabeça em meu ombro, respirou e me apertou mais forte. Eu estava meio assustado, não sabia se estava sonolenta ou completamente embriaga pelo sono, rs. Até que…

“Eu vi pela sua sombra você vindo da cozinha segurando essa bandeja. Vi as duas canecas, a fumacinha e a sua dificuldade de andar de chinelo com meias. Em uma fração de segundo me perguntei se eu merecia tudo isso que faz por mim, se eu estava retribuindo da maneira certa, se você se sentia realmente feliz comigo. E a conclusão foi que eu vou fazer mais por nós dois. Por favor, não diz nada, só ouve. Eu quero fazer mais! Eu quero ser menos irritante, mandona e quero ser mais paciente. Você faz tudo que eu quero e já me disse mil vezes que não espera nada em troca da minha parte. No entanto, eu quero fazer algo. E eu vou fazer tudo que estiver ao meu alcance pra um dia te dar a certeza de que eu não consigo seguir com a minha vida sem a sua, ok? Agora pega ali meu chocolate que já está esfriando…”

Semáforo Amigo

A gente gosta de sair andando por aí.
Podemos ver a paisagem, ver mães passeando com seus bebês dentro dos carrinhos, podemos nos encontrar também com algumas árvores bem especiais, e eventualmente, encontramos algum amigo.
Tem dias que a gente prefere o caminho mais longo até a padaria mais próxima só pra podermos ter mais tempo vivendo juntos.
Distraídos, ás vezes esquecemos de detalhes básicos como olhar para o chão por exemplo, e costumo eu ser a vítima dessa nossa falha quando percebo que pisei nas sujeiras dos cachorros. Adoramos cachorros, mas nem tanto o que eles deixam pelas ruas, ou melhor, o que seus donos deixam deles pelas ruas e calçadas. Nessa horas, gosto muito mais das graminhas em beira de calçada. Não existe melhor produto pra limpar a sola do tênis.
Aí a gente para.
Há fases na vida que somos obrigados a parar e repensar o que estamos fazendo. E pra nós, nos nossos passeios, essa fase se chama Semáforo.
Não temos muita sorte com o sinal verde pra gente, algo que aliás, tem seu ponto positivo. Por todas as esquinas que passamos nos deparamos com a vez dos carros passarem. E a gente tem que esperar. Mas eu prefiro pensar que  é um dos nossos momentos mais íntimos.
Ainda no caminhar, coloco  meu braço em volta do seu pescoço e você coloca o seu em volta das minhas costas. Paramos no sinal vermelho para pedestres e nos abraçamos.
Quando não apenas nos abraçamos ou somos incomodados pela buzinas de engraçadinhos dentro dos carros,  inventamos alguma brincadeira. Seja eu te ensinando a tocar guitarra imaginária ou você querendo me ensinar uma dança. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. Nos divertimos e nem ligamos pros carros passando ou pras pessoas que chegam ao nosso lado esperando a vez de atravessar a rua. Confesso que se estivéssemos sendo filmados eu ficaria com um pouco de vergonha de ver como ficamos bobos juntos. Mas eu gosto tanto disso. No sinal vermelho é que damos valor a 1 minuto desse mundo. É um minuto relativamente longo quando não se está fazendo nada só observando o relógio, mas é um minuto depressa quando se está o aproveitando. E a gente faz isso muito bem.
Sinal verde. Os carros param.
Começamos a atravessar a faixa de pedestre e novamente inventamos um brincadeira: contar as faixas e pular com os dois pés em cada uma. Parecemos loucos. Vez ou outra, eu, sempre eu, mais desajeitado impossível, acabo escorregando e caindo. Você ri da cena mas me salva a seguir. Relevo sua risada porque quando você pisa no cadarço do tênis ou tropeça pelas calçadas meu estômago até dói de tanto rir. A gente vai se divertindo e vivendo juntos assim; aproveitando literalmente cada passo que damos, cada intervenção nos nossos momentos, cada ralada de joelho numa queda boba, cada susto de cachorro nos portões das casas. Vivemos tudo. E isso é especial.
Me deixa particularmente realizado o fato de eu ter grandes amigos a quem contar, ao mesmo tempo que penso ser sempre bom fazer novas amizades. Mas de tantos amigos em comum que temos, ás vezes, eu tenho o meu preferido e ele se chama…  Semáforo! Com todo o seu talento de nos presentear com alguns minutos especiais só nossos. Se ele tivesse voz, falaria pra gente: “Dá pra vocês ficarem aí juntos um pouquinho? Sei lá, façam qualquer coisa menos continuar andando”.
Uma imagem de um aparelho com um bonequinho com luz vermelha acesa vale mais do que mil palavras.

Nunca Mais Lavei Aquela Camisa

Passa pela catraca com velocidade.
Me acelera, não vê a hora de descansar.
Esquecida, me pergunta se pode sentar-se na janela. Mas é claro que eu deixo.
Sentamos então.
Seguro sua bolsa e minha mochila. Quero te deixar confortável.
Você parece aflita de novidades! Vai me contando como foi o dia numa animação ímpar. Eu até penso em fazer umas intervenções em alguns momentos que não entendi muito bem. Mas deixo você continuar. Começamos então a falar de assuntos corriqueiros: a cara do pipoqueiro, o frio que faz, o jogo de hoje na TV, a quantidade de RT’s. Corriqueiros. Fazemos planos pro fim de semana. Sugiro irmos ao cinema ver aquele filme que venho falando a meses. Você prefere uma Sessão Gourmet, DVD & Pipoca. E óbvio, com um argumento desses, acaba me convencendo. Aceito com a condição de eu preparar o bolo desta vez.
Alguns poucos segundos de silêncio. Deito em seu colo. Estou cansado e essa roupa de trabalho me incomoda.
Volta a falar sobre coisa que leu e pessoas com quem conversou. Celebra uma lembrança importante e começa então a falar de um sonho que teve. Disse que viajávamos, duas mochilas, algum dinheiro e muita vontade de viver. Permanece radiante enquanto detalha o sonho.
Deitado de lado não consigo ver nada além do banco da frente, mas presto atenção em cada letra do que diz.
Me alerta que é hora de desembarcarmos. Peço compaixão pelo meu cansaço, reluto um pouco, mas me convenço de que temos mesmo que sair. Concordo lamentando e me invade uma saudade recente daquele lugar que fiquei quando deitei sem seu colo.
Desce na minha frente e me espera lá embaixo. Com certa dificuldade, consigo sair daquele mar de gente que congestiona a porta. Desço com um envelope na mão.
Ainda na rua peço para que abra, você não entende anda e me faz mil perguntas. Insisto para que abra.
São passagens aéreas para duas pessoas.
Comprei hoje na hora do meu almoço. Defini alguns poucos destinos e torço para que tenha gostado com sinceridade. Você não diz uma palavra sequer. Sem expressão, não tenho certeza se gostou.
Em silêncio e de forma abrupta larga a bolsa, as passagens, o envelope e me assalta com um abraço e um beijo de ternura.

Imagino que a mancha de delineador em minha camisa branca seja uma demonstração de felicidade.
Uma demonstração sua de felicidade.

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