Autor: Márcio Rodrigues (Page 69 of 71)

Quer Que Eu Segure Sua Bolsa?

“Você comprou um cachecol azul. Achei bem bonito, combinou bastante.”
Qualquer dia, especificamente quando eu tiver coragem, prometo te revelar algumas coisas que penso sobre você. E eu sei tanto de você. Me prendi tão rapidamente e não é na mesma velocidade que quero te perder. Apesar de nunca ter te tido. Ainda.
Com uma precisão implacável, nos vemos todos os dias na mesma hora.
Saio de casa, estendo a toalha no varal e coloco meus amigos fones de ouvido. Religiosamente todas as manhãs, me pego reclamando do frio e da preguiça, contudo, logo esses sentimentos dão lugar a uma ansiedade estranha. Eu poderia traduzir a ansiedade de hoje, por exemplo, em algo como: “Hoje é sexta-feira, um dia mais descolado, acho que estará usando aquela blusinha branca com grafismos moderninhos! Sei o quanto adora!” Eu sei tanto sobre você, tanto que sei até que roupa provalvemente usará em determinados dias da semana. E sempre acerto. Hoje não foi diferente.
Absolutamente você não faz ideia, mas carrego lenços de papel comigo pra em uma oportunidade de você estar resfriada eu prontamente te oferecer ajuda, mas você é muito organizada e sempre carrega seus próprios lenços. Vivo na torcida que sua memória falhe. Quando está chateada, envia Mensagens de Texto para os amigos digitando numa velocidade surreal. Quando está feliz, cruza as penas e toca Bateria Imaginária em seu próprio corpo. (Em tempo: Você também tem amigos chamados Fones de Ouvido”).
No total, você possui 12 sapatilhas das mais diversas cores e modelos. Gosta de usar alguma de cor mais séria na segunda-feira, como se tentasse transmitir uma impressão de “seriedade e convicção”. Tolinha, sei bem como é.
Um dia desses atrás, pensei que seria a hora de falar com você. Eu lia Hutoz, romancista europeu, e notei que você tentava me acompanhar na leitura. A cada página por mim virada, era uma respiração de reprovação por sua parte. Comecei a ler mais devagar desde então.
Aprendi a odiar os fins de semana, responsáveis por quebrar nossa rotina. No domingo, sou o primeiro em casa a arrumar as roupas do tão esperado, pelo menos por mim, dia seguinte.
Fico um pouco aflito quando não está no lugar de sempre, daí no outro dia vem com uma expressão febril. Não gosto de te ver doente. Aqui do meu mundo eu passo meu dia te mandando energias do bem pra que se cure logo . É tão mais bonito te ver pra cima, alto astral, com sua meia fil 70 e a sua “Sandália do Dia”.
Sem querer e sem saber, você me dá uma razão diferente para os meus dias, ou pelo menos para os primeiros minutos de cada um deles. Me faz feliz saber que vou te encontrar em uma nova manhã, no mesmo banco, com a mesma forma de sentar, na mesma hora, no mesmo ônibus. E nem me importo dele ficar lotado e eu ter que segurar a bolsa de algúem. Mesmo sem nunca sequer ter falado com você, sentar ao lado e sentir como está seu humor já faz parte do meu dia a dia.
Quem sabe um dia eu te convenço que é melhor não dormir com a cabeça encostada no vidro. Quem sabe um dia descubro seu nome.

Supresa de Outono

“Qualquer bebida, contanto que seja quente…”
Você me pede então bocejando dominada pela preguiça enquanto muda os canais da TV.
Com uma certa dificuldade no caminhar ocasionada pela não combinação de “Meias + Chinelos” vou até a cozinha preparar algo.
Optei por um chocolate quente, achei mais apropriado pro frio que está fazendo.
“Amoor, vem correndo ver esse esse trailer!” Te ouço me gritar lá da sala e eu saio em disparada deixando cair achocolatado no chão. Combinamos de ser o próximo filme que assistiremos no cinema! Dei um beijo em sua testa e voltei pra cozinha, agora além de preparar algo quente e gostoso ainda preciso limpar a sujeira que fiz. “Você só me apronta” resmungo com carinho solitário.

Leite, achocolatado, 1:15 de aquecimento no microondas e a sua caneca de sempre.
Eu, dessa vez optei pelo chá. Depois de encher as canecas, tendo o cuidado de medir a temperatura pra que não queimasse seus dedos, peguei um bandeja e voltei pra sala com a mesma dificuldade com as meias. Quando cheguei percebi que tinha adormecido.
Coloquei a bandeja na mesinha de centro e me deitei rapidamente ao seu lado. Cobri as partes que teu corpo reclamava de frio. Não queria te acordar. Em direção a TV vi a fumaça do seu chocolate quente e do meu chá. Fumaças que se entrelaçavam.
Então você despertou. Resmungando, mas despertou!
Te lembrei que eu tinha ido preparar algo pra gente, como você havia pedido, mas quando voltei você tinha dormido.
Subitamente e sem resposta, puxou pela camiseta pra perto de você. De lado me abraçou, repousou a cabeça em meu ombro, respirou e me apertou mais forte. Eu estava meio assustado, não sabia se estava sonolenta ou completamente embriaga pelo sono, rs. Até que…

“Eu vi pela sua sombra você vindo da cozinha segurando essa bandeja. Vi as duas canecas, a fumacinha e a sua dificuldade de andar de chinelo com meias. Em uma fração de segundo me perguntei se eu merecia tudo isso que faz por mim, se eu estava retribuindo da maneira certa, se você se sentia realmente feliz comigo. E a conclusão foi que eu vou fazer mais por nós dois. Por favor, não diz nada, só ouve. Eu quero fazer mais! Eu quero ser menos irritante, mandona e quero ser mais paciente. Você faz tudo que eu quero e já me disse mil vezes que não espera nada em troca da minha parte. No entanto, eu quero fazer algo. E eu vou fazer tudo que estiver ao meu alcance pra um dia te dar a certeza de que eu não consigo seguir com a minha vida sem a sua, ok? Agora pega ali meu chocolate que já está esfriando…”

Semáforo Amigo

A gente gosta de sair andando por aí.
Podemos ver a paisagem, ver mães passeando com seus bebês dentro dos carrinhos, podemos nos encontrar também com algumas árvores bem especiais, e eventualmente, encontramos algum amigo.
Tem dias que a gente prefere o caminho mais longo até a padaria mais próxima só pra podermos ter mais tempo vivendo juntos.
Distraídos, ás vezes esquecemos de detalhes básicos como olhar para o chão por exemplo, e costumo eu ser a vítima dessa nossa falha quando percebo que pisei nas sujeiras dos cachorros. Adoramos cachorros, mas nem tanto o que eles deixam pelas ruas, ou melhor, o que seus donos deixam deles pelas ruas e calçadas. Nessa horas, gosto muito mais das graminhas em beira de calçada. Não existe melhor produto pra limpar a sola do tênis.
Aí a gente para.
Há fases na vida que somos obrigados a parar e repensar o que estamos fazendo. E pra nós, nos nossos passeios, essa fase se chama Semáforo.
Não temos muita sorte com o sinal verde pra gente, algo que aliás, tem seu ponto positivo. Por todas as esquinas que passamos nos deparamos com a vez dos carros passarem. E a gente tem que esperar. Mas eu prefiro pensar que  é um dos nossos momentos mais íntimos.
Ainda no caminhar, coloco  meu braço em volta do seu pescoço e você coloca o seu em volta das minhas costas. Paramos no sinal vermelho para pedestres e nos abraçamos.
Quando não apenas nos abraçamos ou somos incomodados pela buzinas de engraçadinhos dentro dos carros,  inventamos alguma brincadeira. Seja eu te ensinando a tocar guitarra imaginária ou você querendo me ensinar uma dança. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. Nos divertimos e nem ligamos pros carros passando ou pras pessoas que chegam ao nosso lado esperando a vez de atravessar a rua. Confesso que se estivéssemos sendo filmados eu ficaria com um pouco de vergonha de ver como ficamos bobos juntos. Mas eu gosto tanto disso. No sinal vermelho é que damos valor a 1 minuto desse mundo. É um minuto relativamente longo quando não se está fazendo nada só observando o relógio, mas é um minuto depressa quando se está o aproveitando. E a gente faz isso muito bem.
Sinal verde. Os carros param.
Começamos a atravessar a faixa de pedestre e novamente inventamos um brincadeira: contar as faixas e pular com os dois pés em cada uma. Parecemos loucos. Vez ou outra, eu, sempre eu, mais desajeitado impossível, acabo escorregando e caindo. Você ri da cena mas me salva a seguir. Relevo sua risada porque quando você pisa no cadarço do tênis ou tropeça pelas calçadas meu estômago até dói de tanto rir. A gente vai se divertindo e vivendo juntos assim; aproveitando literalmente cada passo que damos, cada intervenção nos nossos momentos, cada ralada de joelho numa queda boba, cada susto de cachorro nos portões das casas. Vivemos tudo. E isso é especial.
Me deixa particularmente realizado o fato de eu ter grandes amigos a quem contar, ao mesmo tempo que penso ser sempre bom fazer novas amizades. Mas de tantos amigos em comum que temos, ás vezes, eu tenho o meu preferido e ele se chama…  Semáforo! Com todo o seu talento de nos presentear com alguns minutos especiais só nossos. Se ele tivesse voz, falaria pra gente: “Dá pra vocês ficarem aí juntos um pouquinho? Sei lá, façam qualquer coisa menos continuar andando”.
Uma imagem de um aparelho com um bonequinho com luz vermelha acesa vale mais do que mil palavras.

Nunca Mais Lavei Aquela Camisa

Passa pela catraca com velocidade.
Me acelera, não vê a hora de descansar.
Esquecida, me pergunta se pode sentar-se na janela. Mas é claro que eu deixo.
Sentamos então.
Seguro sua bolsa e minha mochila. Quero te deixar confortável.
Você parece aflita de novidades! Vai me contando como foi o dia numa animação ímpar. Eu até penso em fazer umas intervenções em alguns momentos que não entendi muito bem. Mas deixo você continuar. Começamos então a falar de assuntos corriqueiros: a cara do pipoqueiro, o frio que faz, o jogo de hoje na TV, a quantidade de RT’s. Corriqueiros. Fazemos planos pro fim de semana. Sugiro irmos ao cinema ver aquele filme que venho falando a meses. Você prefere uma Sessão Gourmet, DVD & Pipoca. E óbvio, com um argumento desses, acaba me convencendo. Aceito com a condição de eu preparar o bolo desta vez.
Alguns poucos segundos de silêncio. Deito em seu colo. Estou cansado e essa roupa de trabalho me incomoda.
Volta a falar sobre coisa que leu e pessoas com quem conversou. Celebra uma lembrança importante e começa então a falar de um sonho que teve. Disse que viajávamos, duas mochilas, algum dinheiro e muita vontade de viver. Permanece radiante enquanto detalha o sonho.
Deitado de lado não consigo ver nada além do banco da frente, mas presto atenção em cada letra do que diz.
Me alerta que é hora de desembarcarmos. Peço compaixão pelo meu cansaço, reluto um pouco, mas me convenço de que temos mesmo que sair. Concordo lamentando e me invade uma saudade recente daquele lugar que fiquei quando deitei sem seu colo.
Desce na minha frente e me espera lá embaixo. Com certa dificuldade, consigo sair daquele mar de gente que congestiona a porta. Desço com um envelope na mão.
Ainda na rua peço para que abra, você não entende anda e me faz mil perguntas. Insisto para que abra.
São passagens aéreas para duas pessoas.
Comprei hoje na hora do meu almoço. Defini alguns poucos destinos e torço para que tenha gostado com sinceridade. Você não diz uma palavra sequer. Sem expressão, não tenho certeza se gostou.
Em silêncio e de forma abrupta larga a bolsa, as passagens, o envelope e me assalta com um abraço e um beijo de ternura.

Imagino que a mancha de delineador em minha camisa branca seja uma demonstração de felicidade.
Uma demonstração sua de felicidade.

Trusty Chords

Daquele tempo até aqui eu já passei por mais estações de metrô do que imagina.
Em algumas delas, confesso, cheguei a imaginar se você estaria por perto.
Fugi um pouco da noite que eu pensei nunca ser minha amiga. Fugi pra não correr o risco de te encontrar com outro sorriso. Tolice minha, gosto tanto dessa mesma noite e, no fundo, até me fazia bem o frio na barriga com a possibilidade de te encontrar numa pista qualquer.
É engraçado lembrar que cheguei a te ver até em outros rostos. Era como se você tivesse me chamando por todo esse tempo.
Nunca te falei, mas fiz questão de te deixar guardada igual minha gaveta de meias. Lá no fundo, pra quando eu me sentisse disposto e pra quando a minha vontade fosse maior do que a minha razão, eu pudesse buscá-la. Qualquer dia explico melhor.
Eu não lembro da receita do bolo mas está me fazendo muito bem cortar esse pedaço ao teu lado. Jajá ele vai acabar, eu sei, mas enquanto isso eu prefiro dar o máximo de mastigadas possível.
Os dias correram e você se tornou fã de listras e algumas pequenas bolinhas no vestido. Ou na verdade sempre foi, mas só agora eu comecei a reparar nisso? Poder ser, pode ser.
E tem sido bem a nossa cara: ESTRANHOS. Eu todo do meu jeito que você finje não entender e você do seu jeito que eu finjo também não entender. Mas gostamos assim, estamos gostando assim. É interessante porque consegui me entregar denovo.
Ah se você soubesse a cara que eu faço e as músicas que eu canto todas a noites nessa rua sem fim. Ignoro a letra e canto os acordes. Alguns deles aliás me levam até você num trocar de marchas. Quanta responsabilidade! Mas acredito.
Ultrapasso o sinal vermelho sem nem perceber. Eventualmente faço uma ligação ou outra a procura de um par de ouvidos disposto a ouvir os detalhes dos nossos últimos minutos. Sempre encontro o mesmo par. Encerro a chamada e olho o banco do passageiro que ainda guarda seu perfume que, por sinal, continua o mesmo, delicado e estarrecedor de anos atrás. Pelo lado que eu gostava tanto, você não mudou nada. E isso é tão bom, sabia?
Bom, é mais ou menos isso então. Vamos por aí, estou sem pressa e até ousado demais em querer de menos. Tenho aprendido a surpreender. É excitante.

Enviando…

///
Baseado numa história real.
Título e Conceito “Trusty Chords” inspirado na música da banda Hot Water Music.

Por Você, Tudo Bem

Eu odeio esperar.
Sei bem como são seus horários, a gente marca as 13h e você me aparece as 14h com um cardápio de desculpas pra eu escolher.
Elegante, prefiro evitar discussões pra gente sair logo. Geralmente espero de pé e geralmente minhas pernas quase se partem ao meio de dor. Só por você mesmo, né.
Mas dessa vez você está exagerando, já faz mais de UMA HORA E MEIA que te espero aqui e nada!
Li todos os contatos do meu celular, mandei mensagens pra alguns. Já contei quantas pessoas passam por mim. Já reparei que neste Outono as botas estão em alta com as mulheres! Notei também que os homens estão se entregando ao cachecol. Já li o anúncio de restaurante aqui na minha frente umas 30 vezes. Até já encontrei um amigo de muito tempo perdido por aqui.
E nada de você.
E nada de você atender o celular pra me dar uma posição.
Começo a pensar groselha. Penso que provavelmente se perdeu entre o mar de gente, ou pior, que se esqueceu que marcamos de nos encontrar. Das mais de mil músicas que tenho no iPod já não aguento ouvir nenhuma.
Espero que, pelo menos, você seja sensata o suficiente para me trazer chocolates de consolação.
Mais uma dezena de minutos depois, eis que vem você. A minha vontade é de virar as costas andando, ou de fixar meus olhos nos teus pra demonstrar o tamanho da minha raiva. Paro na vontade.
Não aguento te ver de longe tentando organizar a bolsa toda desajeitada. Não aguento te ver de longe dando mais uma volta do echarpe. Não aguento te ver de longe me procurando parecendo não lembrar que eu estou no lugar de sempre.
Eu quero e até acharia justo, mas não consigo ter raiva de você!
Se aproxima, exibe um olhar de súplica pelo atraso, não falamos nada. E eu, elegante, prefiro evitar discussões pra gente sair logo.

Mal sabe você que o que acontece toda vez é que eu fico sem palavras pra te explicar como me faz bem te encontrar. No fim, eu acabo tendo raiva de mim por não conseguir ter raiva de você.

Ninguém Nunca Vai Entender.

Oitenta e três.
Esse é o número de piscadas de olhos que você dá por minuto quando a gente se olha fixamente.
Cento e cinquenta e cinco.
Esse é o número de batimentos que o meu coração soma por minuto quando estou perto de você.
Ninguém nunca vai entender como eu vejo essas coisas. Não nasci pra dar explicação também.
E você aí preguiçosamente deitada, requer alguns serviços meus. Como o “alinhar de cabelos”, ou a “dobrada no edredon”, coisas assim que eu aprendi a fazer com uma pessoa aí.
Vira o rosto pra mim e não diz uma palavra sequer. Percebo, mas não retribuo teu olhar, estou ocupado demais vendo se seus pés estão devidamente cobertos na ponta da cama. E não estão.
Uma meia se anarquizou.
Como já sei o caminho, parto em busca de uma substituta nas suas gavetas. E são tantas!
Gaveta estranha, eu não tenho tanta habilidade com coisas desse tipo. Acabo prendendo meu dedo e isso dó um bocado.
E você ri do meu jeito sem-jeito.
Dou uma vigiada rápida como se eu dissesse “posso saber do que a senhorita está rindo?” Mas prefiro não falar nada.
Achei!
Peguei uma azul, espero que não tenha problema. Foi a única que não tinha par.
Você sente agonia com a minha mão nos seus pés, isso porque elas são quentes, se fossem frias talvez nem deixaria eu tentar te ajudar.
Eu te cuido.
Pronto! Pés devidamente aquecidos novamente, hora de embrulhá-los no edredon.
Fica bem, pega o controle remoto!
Vou até a cozinha, trouxe chocolate de casa, pensei em preparar um bolo! Se eu não voltar dentro de uma hora, disque o 193, deixei o telefone ao seu alcance. Os bombeiros são importantes nessas horas.
Se precisar de alguma coisa aumente o volume da TV que vou perceber. Só não vale me enganar na hora em que passar teu vídeo-clipe preferido, ok?

Sobre Um “Oi” Especial

“Oi”
É assim que as grandes histórias começam. É assim que as boas vindas são dadas.
A gente abre caminho pra vida com o “Oi”. Já, o “Tchau”, nos lembra que é importante aproveitar os momentos enquanto momentos.
Distribuo e recebo muitos “oi’s” por aí, mas nenhum se compara com os que você me dá.
Diz “Oi” antes do “Bom dia”, ou antes do “Hmmm”, quando acordamos juntos, entre lençóis, colocando a mão no cabelo, boçejando na velocidade das nuvens e coçando o olho cheio de algunas pequenas sujeirinhas lindas.
Diz “Oi” quando me telefona, espera a retribuição, me surpreende e me saúda. Teu nome e tua foto no celular me fazem feliz, mas ouvir a tua voz e a pequena sílaba fazem meus dias serem melhores.
Me diz “Oi” quando conversamos virtualmente, entre uma chuva de links fúteis, coisas que eu acho engraçado mas que você não vê a mínima graça. 
Diz “Oi” até quando não dá pra dizer nada. Quando nos encontramos e nos avistamos de longe, vem você então com o sorriso discreto, mas sempre sincero, celebrando com a minha cara de “ganhei o dia” o nosso mais novo encontro. Até quando não tem palavras eu sinto o seu “Oi”. Até quando não me diz eu ouço teu “Oi”, até quando não estamos juntos eu começo a ouvir teu “Oi” por aí. Ouço teu “Oi” no barulho da cidade, na música do meu fone de ouvido, nas conversas alheias.
Me faz tão bem te encontrar denovo e denovo. Eu conto os segundos pra ver seu rosto, e eu posso até adivinhar a roupa que estará usando, mas jamais saberei como será o seu próximo “Oi”, e por mais normal que possa ser, pra mim, sempre e pra sempre é especial.

Fica Assim

Posso deitar no seu colo?
Eu gosto tanto de ficar aqui, sabe.
Confesso que há uma segunda intenção: Eu torço pra que você faça carinho em meu cabelo! rs. Gosto tanto.
Você fica sentada tipo indiozinho e eu deito no meio de suas pernas. Aí te olho debaixo pra cima. Teu cabelo vem sobre meus olhos me causando uma rápida agonia, mas eu gosto tanto. Te elogio comentando que teu novo shampoo tem um cheiro inexplicável.
Gosto quando coloca suas mãos em volta do meu rosto, quando faz círculos em minhas bochechas e quando me presenteia com um beijo. Ainda que de ponta-cabeça.
Por mim, eu ficaria horas e mais horas nessa posição. Me sinto seguro aqui em você.
Não passei por tantas coisas assim nessa vida, mas todas essas poucas coisas me deixaram grandes marcas. Eu tenho medo de me entregar. Eu tenho medo de você partir amanhã do nada. Já aconteceu comigo outras vezes. Eu tenho medo desse Agora que vivemos terminar. Por favor, me desculpa por falar essas coisas agora do nada, não condiz com o momento, mas eu não pude evitar. Me faz tão bem ficar aqui com você, me faz tão bem olhar minha mão direita e lembrar que carrego comigo um pedaço da nossa história por todos os lugares onde ando.
Não gosto muito quando tem a ideia de espremer alguns dos meus cravos. Dói um pouco, mas sei lá porque eu deixo você continuar com isso. Sou estranho. Acho que minha pele reage diferente quando entra em contato com a sua. Eu transpiro mais. Fico mais quente, me dá mais calor. Mas isso não é ruim, é ótimo! É especial!
Gosto tanto do seu colo. É o ingresso pra entrar num mundo irreal, um mundo onde só a gente vive.
Não fica brava comigo se entre um carinho ou outro seu no meu cabelo, eu acidentalmente, adormecer. É uma situação inevitável, você detém o controle das minhas forças.

Por favor, promete pra mim que estará aqui todas ás vezes que eu precisar tirar alguns danados de cravos do meu rosto?
Eu só quero poder deitar no teu colo amanhã.
E depois de amanhã.
E sempre.
Pra sempre.

Céu Azul

Acordei com a tua mensagem no meu celular.
Fiquei feliz, você só disse um “Bom dia, saudades!”. É muito bom saber que alguém sente saudade da gente.
Me levantei e fiz os procedimentos normais de toda a manhã. Mas desta vez eu preparei apenas um lanche com creme de avelã.
Me arrumei rapidamente e saí de casa. Desligado, tive que voltar e pegar meu celular, ora, justo o celular!
Na minha segunda saída de casa me dei conta do céu que fazia. Era umas 22hs.
A impressão que eu tive foi que alguém havia colocado uma imagem artificial, uma espécie de pintura, algo que simulasse o céu, tamanha a perfeição com que as nuvens dançavam. Não poderia ser algo natural, era algo representativo demais. Assisti o degradê com uma mão protegendo os olhos do Sol.
O dia vai ser de preguiça. Não quero muitos compromissos. Cancelei encontros e posterguei contas pra pagar. Hoje eu estou a fim de ficar vivendo.

Hoje eu estou a fim de dar um bom dia e ter um bom dia com a pessoa que me deu o melhor bom dia dos últimos dias.

Um bom dia simples e natural. Tipo a dança das nuvens que apostam corrida e aparecem quando querem. Eu agora aposto corrida com o relógio pra te encontrar denovo o quanto antes.
Não vou levar mimos dessa vez, o lado bom é que poderemos preparar juntos especial só pra gente. Embora tenho certeza que irá discordar, sugiro que façamos um mousse sabor alguma-coisa-gostosa.
De qualquer maneira, sob a bênção desse céu e do belíssimo dia que se faz hoje, estou levando o creme de avelã.

Conceito do texto/título inspirado na música inédita:
“Céu Azul” – Charlie Brown Jr.

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