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Fazendo das Pequenas as Melhores Coisas

10h13.
Invadem o quarto alguns insistentes raios de sol.
Quando me dei conta que realmente acordei percebi que você continuava dormindo. Recalculei meus movimentos para não te atrapalhar.
Delicadamente retirei sua perna de cima das minhas e sua mão do meu peito e levantei da cama até a janela para juntar as cortinas, e assim pode esconder um pouco da luz do sol para prolongar aquele climinha de madrugada.
Voltei para a cama.
Não sei se você estava acordada ou se eram movimentos involuntários, mas você entendeu que eu havia voltado e prontamente recolocou suas pernas sobre as minhas e usou meu peito como travesseiro.
Com uma mão atrás da cabeça, escolhi não mudar esse cenário e fiquei olhando pro teto. Naquela altura, o maior som era o da minha respiração e eu conseguia te ver levantando e abaixando em meu peito.
Procurei me certificar que seus pés estavam cobertos. E não estavam. Pausadamente os cobri novamente fazendo dos meus pés meus braços.
Voltei para a primeira posição mas eu já não tinha sono para voltar a dormir, já você, parecia que estava apenas começando a entrar em sono profundo.

Os melhores carinhos são os que a gente menos espera.

Continuei com uma mão entre minha cabeça e o travesseiro, mas coloquei a outra em seu cabelo. Separava uma porção de fios para trás da orelha; ia para o rosto e fazia pequenos círculos com efeito de massagem. Quando você se retorcia, aparentemente acordando, eu parava. Então, após perceber que eram movimentos em sono, voltava para o meu trabalho.

A felicidade tem imprevisível data de validade.

11h23.
Percebi que já tinha passado muito tempo desde que acordei e eu continuava ali: querendo continuar ali. Os bons modos dizem que é importante acordar cedo para o dia render mais, mas quem disse que eu meu não estava rendendo? Eu não me importava com o que eu a gente ia fazer no resto do dia, só queria continuar ali naquele momento.
Então você se movimentou, levando minha mão para si indicando que ficaria de costas, mas que gostaria da presença do meu abraço. Não hesitei.
Fechei a conchinha e por ali ficamos. Como de costume, nossas pernas flexionadas se encaixaram perfeitamente e partir daquele momento, fisicamente, éramos um só. Envolvi meu braço por cima do seu corpo até chegar próximo ao seu rosto e encontrar suas duas mãos que ocupavam um pequeno lugar entre parte da sua bochecha e o travesseiro. Lugar, no entanto, com espaço o bastante para caber uma das minha mãos. E por ali ficamos.

Quando estamos deitados, nossos corpos atuam como atalho para o encontro dos nossos corações. Não é só deitar juntos, é sentir um ao outro.

Nossas cabeças estavam praticamente coladas e eu encaixei meu rosto atrás do seu pescoço, fazendo com que você sentisse detalhadamente a minha respiração pausada.
Meu ângulo não favorecia com que eu continuasse observando o relógio, portanto, não consegui mais ver os minutos passando, e ao mesmo tempo, não conseguia embalar no mesmo sono que você. Só que eu também não queria sair dali.
A sensação de te ter assim tão perto, de sentir a maior quantidade de células possíveis do seu corpo é algo que me arrepiava ao passo que me trazia solitários e tímidos sorrisos.
Me afastei um pouco deixando meu braço na região da sua barriga. É que eu queria ver seu corpo melhor.
Impressionante como você parece ter sido projetada centímetro por centímetro, tamanha a simetria de curvas com o tom de pele. É possível enxergar tua sensibilidade exalando por todo o corpo.

Eu gosto tanto de te ver dormir.
Gosto tanto de te ver.
Gosto tanto.

Aos olhos de fora, estávamos apenas deitados, mas para mim, estávamos ali unidos, materializando tudo o que acreditamos como importante para nós: a cumplicidade de um para o outro. E dentro disso, todos os movimentos fazem sentido. Seu jeito de deitar em meu peito como se procurasse refúgio; minha mão no seu cabelo e no seu rosto como se eu falasse “Estou aqui!”; sua atitude em mudar de posição e me levar para ainda mais perto de você; meu braço por cima do seu corpo até o seu rosto no maior gesto de segurança. Tudo faz sentido.

Mudando a forma de ver, a gente vive diferente.
E eu nunca vi nossos gestos e nossos momentos como algo meramente normal.
Pra mim, cada segundo que você tem influência na minha vida é um segundo que eu considero especial.
Da sua mensagem de saudade ao seu jeito de me pedir conchinha.

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Não Vejo a Menor Graça em Ser Assim

Leia ouvindo:
[youtube http://www.youtube.com/watch?v=zNK_r2QAXAo&w=420&h=315]

Funciona da seguinte maneira: A gente raramente sabe como agir, e quando sabemos, na verdade nem sempre sentimos o que achamos que sentíamos. Esse negócio de lidar com alguém em nossa vida não é algo que podemos chamar de fácil, o que não significa, claro, que não seja algo que podemos chamar de bom.

Só que a vida parece mais fácil nos filmes.

Eu não sei bem o que aconteceu comigo nos últimos anos, mas o fato é que pouca coisa me brilha os olhos, pouca coisa me encanta e pouca, mas bem pouca coisa mesmo me impressiona, sendo assim, eu fico triste em não conseguir retribuir os sentimentos que pra mim são direcionados, e o pior, isso não é de hoje, já faz muito tempo que eu não me reconheço muito bem e não sei até que ponto isso me faz bem.

Eu simplesmente não consigo sentir o mesmo.
É uma merda porque acabo saindo das histórias como a pessoa insensível e isso não é verdade, só que sei lá, eu não consigo fingir algo que eu não sinto, não consigo dizer que amo se ainda estou apenas gostando, não consigo dizer que sinto falta quando na verdade estou bem vivendo a saudade saudável.

Minha sinceridade é o meu pior defeito.

E só eu sei como eu fico quando chego em casa e me vejo dentro dessa situação. Sem conseguir demonstrar qualquer sentimento, ou melhor, até demonstrando uma certa indiferença que por mais surreal que pareça, jamais é na maldade ou com o objetivo de esconder algum outro sentimento.
Nesse sentido, eu poderia encontrar aqui mil possibilidades que justifiquem como a vida tem sido pra mim, mas eu acho que consigo resumir em uma só coisa: Está tudo estranho, ou talvez eu seja uma pessoa estranha demais. Vai saber.

Poucos sabem, até por eu não demonstrar praticamente nada, mas eu fico feliz com os finais felizes dos filmes e com as histórias de amor que ouço por aí, sendo assim, é claro que eu gostaria de viver algo parecido, sei lá, sentir esse tal de frio na barriga antes de encontrar alguém especial, querer mandar SMS carinhosas e coisas do tipo, mas eu não consigo. Do contrário, eu fico na minha sem ver a necessidade de muito esforço e quando me dou conta estou fazendo uma pessoa sofrer de novo. Já perdi as contas de quantas vezes eu tentei parar tudo e entender como eu sou – ou tenho sido, sei lá – mas eu nunca consegui explicar o que nem eu consigo entender.

Se eu pudesse, eu não seria quem eu sou.

Sem querer me prolongar demais, mas talvez faça sentido a tese de que me tornei uma pessoa próxima ao gelo tamanha a sensibilidade, devido as experiências que coleciono nessa vida. Não são tantas a ponto de completar um álbum, mas nem sempre quantidade significa intensidade, na verdade, quase nunca.

Inevitavelmente, eu penso em algumas coisas que já passei desde a adolescência, alguns problemas que pareciam pequenos para algumas pessoas enquanto pra mim era a maior das gotas d’água. Isso envolve uma questão de subvalorização de mim mesmo, onde me via inferior à maioria dos meus amigos e onde parecia que o mundo girava mais devagar pra mim. Só pra mim.
Talvez por isso, pouco a pouco eu fui me distanciando do senso comum de gostar de alguém, fui me distanciando da tal necessidade de ter alguém pra dividir as coisas do dia a dia. O lado bom é que acabei aprendendo a dar um valor inestimável à mim mesmo, que serei, pra sempre, a minha própria companhia.

Reparei que quando a gente depende de alguém, a gente acaba esquecendo de ser nós mesmos.

Posso nunca ter sido a pessoa ideal nos meus relacionamentos, mas nunca poderei ser questionado por falta de sinceridade. Nunca enganei ninguém, e se eu vivi histórias que acabaram da noite pro dia, foi porque me vi numa situação que não era honesta comigo, quanto menos com a pessoa com quem eu estava.

A perda é igual pra todos, o que muda é a forma que ela se manifesta e seus efeitos.

Histórias, talvez traumas, da infância fazem sentido em uma linha de raciocínio ao tentar explicar o que eu me tornei hoje, bem como eu sei que fui fundamental para que muitas das pessoas que já compartilhei beijos, abraços e noites no edredom aprendessem a considerar todos os tipos de pessoas, inclusive, aquelas que não conseguem demonstrar direito os próprios sentimentos. Tipo eu.

Ainda a respeito das lições da vida, outra muito boa que aprendi é que as coisas mudam, quer queira, quer não. O mundo dá voltas iguais de formas diferentes. Os dias não nascem iguais, o canto dos pássaros nunca é o mesmo e as formas das nuvens também são diferentes umas das outras, isto é, eu sei que eu posso mudar e muito ainda, que amanhã posso ser uma pessoa completamente diferente em milhares de sentidos que hoje me norteiam como consolidados. E quer saber? Se isso realmente acontecer eu vou achar maravilhoso, porque se tem uma coisa que eu gosto nessa vida e demonstro pro mundo o quanto gosto, é de aprender alguma coisa. Primeiro porque eu evoluo com isso, segundo que eu posso compartilhar com mais alguém esses meus aprendizados.

Está vendo, eu sinto muitas coisas e consigo demonstrar, só não consigo forçar tudo isso.

Ele já foi inundado por tanta lágrima que ao invés de secarem, o transformaram em gelo. Mas de qualquer maneira o que eu tenho aqui continua sendo um coração.

Que só espera pra ser despertado na hora que ele quiser.
As coisas já tem mudado, comecei a me permitir mais.