Você produz um sentimento específico em mim.
Esse sentimento nasce de um momento.
Dá vontade morar no segundinho quando ele vem.
Congelar o tempo.
Toda vez minha barrinha de energia aumenta.
Se eu falar que me arrepio eu vou mentir, mas é bom mesmo assim.
Ironicamente é um momento curto e raro.
E tecnicamente impossível de planejar.
Talvez por isso ele seja tão bom.
Quando acaba, nunca sei quando vai começar de novo.
Essa parte é ruim.
Porque eu queria te dar um botão pra apertar escrito “de novo” até porquê ele é bom pra você também.
Ainda que eu me esforce criando um cenário favorável pra esse momento acontecer, é impossível garantir que acontecerá.
Chamar esse sentimento de alegria não justifica bem.
É algo mais preciso.
E que talvez não exista nome.
Ou eu que não seja bom em dar nome para as coisas.
Esse sentimento me lembra algumas cenas.
Barriguinha pelada de gato.
Silêncio calmante da madrugada.
O amarelo do sol atravessando a cortina às 15h53.
Pé com meia e calça de moletom no inverno.
Refrão preferido no box do chuveiro completamente opaco pelo ar quente.
Também me lembra cheiros.
Refogado de cebola, alho e azeite.
Saquinho de pão aberto pra não murchar quando estão quentinhos – não é um cheiro mas vida que segue.
Dia que o pano com produto de limpeza encontra o chão de casa.
Óleo de banho.
Essas associações não exatamente definem esse sentimento, mas ajudam a ilustrá-lo.
Estou falando de como me sinto quando te ouço.
Dar risada.
Não é quando te vejo sorrir, é quando te ouço dar risada. É mais definido.
(te ver sorrir é bom demais, veja bem, só quis dizer que é outra coisa)
Sorrisos podem ser disfarçados. É uma ótima ferramenta de distração, convencimento e até mentira.
Uma risada não tem como ser fake.
Existe risada feia.
Mas não é o caso da sua.
A sua tem ritmo. São quase acordes.
Tem uma construção simétrica harmoniosa entre a letra agá e a letra a.
Além de ser muito bem pronunciada.
Conheço gente com sérias patologias em dicções de risadas.
As suas também revelam uma descarga boa de emoção.
O mais louco é que a minha primeira reação ao te ouvir dando risada é falar o quanto gosto dela. Não sei se já reparou.
Às vezes eu faço isso no exato momento que também estou rindo com você.
“Que risada boa”.
Se me chama atenção assim é porque já conheci risadas horríveis.
A maldição de ter uma risada feia, inclusive, eu não desejo pra ninguém e mal consigo imaginar as portas fechadas da vida por conta dessa comorbidade.
Obviamente não sou a primeira pessoa do mundo a comentar que a risada de alguém é gostosa.
Mas eu gostaria de ser a pessoa do mundo que mais vai dizer isso sobre a sua.
Também queria ser quem sempre te dá motivo pra dar risada.
Engraçado que “dar risada” sugere a transferência de posse para alguém.
Ou seja, o privilégio é sempre de quem ouve.
E o meu é de colecionar as suas.
Algumas delas ajudo a florescer.
Mas a grande maioria são disparadas depois que você vê uma cena engraçada dos gatos em casa.
Ou quando você está deitada no quarto, no escuro, com a luz branca do celular iluminando seu rosto, assistindo acidentes ou caretas de outros gatos.
Nesses momentos, eu não te vejo dar risada.
Mas te ouço de outro lugar da casa.
“Que risada boa”.
Eu sempre comento, ainda que você nem sempre ouça.
Não é alegria, nem satisfação, felicidade, euforia ou coisas do tipo.
Tem que dar mais uma volta no parafuso.
É “como eu me sinto toda vez que te ouço dar risada”
Este é o sentimento que exclusivamente você produz em mim.
E que reforça como eu gosto de gostar de você.


Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com