Page 22 of 71

Quando a gente volta para casa

Independente do que a gente possa ter vivido no dia, é quando a gente volta para casa que a gente pensa melhor. É um tempo nosso. Um tempo para ver se a ficha cai, independente do que a gente possa ter vivido. Nos dias ruins, a volta para casa parece demorar ainda mais. Os semáforos insistem em vermelhar feito o sangue que escorre do nosso coração machucado. Nos dias bons, por sua vez, nada é problema e tudo a gente pode esperar. Tudo bem se o semáforo vermelhar, tudo bem até se o ônibus quebrar. Tudo se torna ainda mais histórias para contar quando a gente chega em casa.

A volta para casa é um ritual que todos passamos. Pode você morar na cobertura do bairro nobre voltando dentro do seu carro 2.0 que esmaga o asfalto; pode você morar no puxadinho de alvenaria alugado lá na periferia, voltando esmagado no ônibus, metrô, trem e uma caminhada. Todo mundo volta para casa no fim do dia.

Tem muita gente que tem medo de si mesmo. São pessoas que não gostam das suas próprias companhias. Fogem de almoços desacompanhados e de qualquer outra atividade a ser feita sem ninguém. Elas só não podem fugir, porém, das voltas para a casa. Ainda que um dia e outro tenham companhia, haverá aquele dia em que ninguém estará ao lado para conversar. E isso não é problema, porque já concordamos com a verdade de que, por melhor que seja a companhia de alguém para você, você sempre será a sua melhor companhia.

Nas voltas para a casa, em geral, a gente coloca uma música. E aí a gente se vê no reflexo do vidro do metrô com os nomes das estações passando mais rápido que os olhos podem acompanhar; a gente se vê na janela do ônibus refletindo os braços esticados de tão apertado.

Quando a gente volta pra casa a gente pensa se manda a mensagem ou não, a gente também começa a ler as recebidas. Quando a volta pra casa é feliz, a gente até esquece que estamos com outras pessoas por perto e cantamos os refrões que beijam nossos ouvidos. Quando a volta é triste, porém, a gente quer se esconder, fugir e não ver ninguém. Quando a volta pra casa é triste a gente não quer que conhecidos nos encontrem perdidos.

Se o destino não intervir, você sempre vai voltar para casa. Nas segundas, sextas ou sábados de manhã. Você vai voltar. Seja morando com os pais ou sem ninguém. Se não for do tipo que se distrai lendo ou ouvindo música, use alguma dessas voltas para pensar na sua vida, nos seus planos e no seu passado recente. Reflita como foi seu dia e onde que poderia ter sido melhor. Comemore o segundo feliz, aquele #1minuto1sorriso que viveu.
Uma das maiores grandezas é reconhecer quando somos pequenos. Presta atenção na sua volta para casa. Coloca uma música que te faça relaxar, nem feliz nem triste, só relaxar.

Já voltei pra casa sorrindo sozinho que não lembrava que as pessoas me viam no metrô. Já voltei pra casa chorando ao volante cortando a Avenida Paulista da mesma maneira que meu peito foi cortado naquela noite. Já dei voltas no Shopping só pra cabeça esfriar antes de ter que voltar. E mesmo quando eu não tinha muito o que fazer para demorar a voltar, eu chegava em casa e me escondia de mim. Me calava e me deixava transbordar tudo aquilo que me fez chegar àquele ponto. Só que hoje eu volto pra casa agradecendo por voltar, feliz por ter saído e certo de que vou sair todos os dias determinado em escrever alguma página nova da minha vida. Não é só viver mais um dia, é viver uma vida inteira em um dia.

Boa volta pra casa para você que está lendo e voltando, para vocês outros, boa próxima volta para casa. Esqueça da vida mas não esqueça de você e, se caso se esquecer, na volta pra casa você vai lembrar. É preciso se apaixonar pela própria solidão para saber lidar com os motivos tristes nas voltas para casa.

Márcio Rodrigues.
instagram: @marciorodriguees

“Vamos ver um filme em casa?”

O que você vai fazer hoje?
Eu vou ficar sozinho em casa e, sei lá, tem um filme que todo mundo está falando super bem que tem no Netflix. Pensei em te chamar para assistir. Se não estiver com vontade de filme, a gente pode fazer uma maratona de alguma série. Que tal? É que de qualquer forma eu faria isso sozinho, a diferença é que estou te convidando para me acompanhar.

Ah, para vai, qual o problema de ser de hoje para hoje? O legal da vida não é a gente viver coisas boas sem planejar? Eu vou te buscar e te levo de volta quando quiser. Já abri o Waze, me fala seu endereço para eu estudar o caminho. Coloquei o tênis. Tá, se não quiser que eu vá até aí, está rolando desconto da 99TAXIS. Viu como parece que tudo está ajudando?

Ok, se não fora exatamente agora a gente combina uma hora boa para você, mas não precisa se preocupar em ir embora logo, ninguém vai chegar tão cedo. Oito horas? Nove e meia?Tudo bem para você dormir fora? É que eu sou meio viciado assim em séries, então bem capaz que eu não veja problema em emendar a noite toda.

Ué, se você dormir rápido a gente dorme. Isso, dorme. Sério! Dorme. O que você está insinuando, hein? Para mim a única intenção aqui é convidar uma pessoa bacana pra ver um filme comigo. Até porque, convenhamos, você não vai fazer nada hoje além de perder horas subindo e descendo a timeline do Facebook, revezando com likes no Instagram, views no Snapchat e voltando para a timeline.

A gente pode pedir algo para comer.
Tem uma pizzaria aqui que eu sempre peço que é muito boa. O que você acha?
Como assim? Hahaha, você fala de um jeito como eu fosse a pior pessoa do mundo, uma ameaça como se você corresse o risco de eu te sequestrar. É bem mais longe disso, vai.

Tipo, traz roupa para dormir.
Explico: é só para você ficar mais confortável no sofá e não amassar sua roupa. E, claro, além disso, também já facilita caso você pegue no sono.
Tá bom, tá bom, tudo bem. Não precisa trazer nada. Te empresto uma camiseta velha CASO precise.

Vem?
Aqui não vai ter nada que não te faça bem. E a minha intenção é só te fazer se sentir melhor ainda. Tipo, então, quero dizer que se quiser comer outra coisa que não comida eu posso pegar pra gente. O que importa é ter comida, né?

Acho que hoje é uma oportunidade pra gente fazer algo legal juntos. E sim, eu sei que isso pode acontecer outro dia, eu sei que “a gente pode combinar qualquer dia”, eu sei. Mas e por quê não hoje? Por quê não nessa noite? Por quê a gente vai esperar outra noite chegar se essa já chegou? Hoje tem tudo pra gente lembrar amanhã. E é só ver um seriado. Né? Ficar de meia no tapete. Deitar nas almofadas.

O que você vai fazer hoje? Viu só? Você sabe que não tem coisa melhor.
Mas a gente pode fazer muita coisa juntos hoje.
Tipo ver um filme ou um seriado.
E só.
Né?

Márcio Rodrigues.
@marciorodrigues

 

É sobre você, mas você nem vai saber

Te percebi e imaginei como seria a sua vida e se teria espaço para eu me encaixar nela.
Fiquei pensando como seria ser sua companhia; como seria pra mim te ver indecisa passando a mão no cabelo enquanto escolhe o que pedir na cafeteria. Como seria? Será que a gente teria assuntos para nos distrair? É sobre você, mas você nunca vai saber.

Me transportei para as primeiras horas do seu dia só para imaginar um pouco mais do seu mundo. Lá, pensei no jeito que você acorda. Será que coloca o celular no lado direito ou esquerdo da cama? Será que, quando levanta, também fica procurando os chinelos com os pés como eu faço? No banheiro, antes de lavar o rosto, será que prende o cabelo em um rabo de cavalo ou só separa em duas metades atrás das orelhas? No café da manhã, será que escolhe no saquinho dos pães os mais branquinhos ou queimadinhos? Manteiga ou requeijão? Um Snap ou uma foto no Instagram? É sobre você, mas você nunca vai saber.

Pensei em como escolheu essa sua roupa que te vejo vestir hoje.
Ao planejar chegar tarde em casa, checa o celular para confirmar a previsão do tempo para o dia. Confirma o sol pelo teaser das primeiras horas da manhã. Abre o guarda-roupa, coloca as mãos na cintura e pensa: “Não tenho o que vestir!” mesmo tendo quinhentas e setenta e quatro peças para escolher. É oficial: Um vestido florido, daqueles coloridos que harmonizam com a luz do sol, e um tênis, sapatilha ou sandália, a definir, para acompanhar. Um shorts cauteloso por baixo para se proteger das rajadas de vento. É sobre você, mas você nunca vai saber.

Será que hoje vai ao cinema? Será que prefere as poltronas do meio ou as laterais no cinema? – me pergunto.
É como se eu tentasse descobrir a sua vida sem saber quem você é. O que será que vai fazer nesse dia de sol? Algumas peças mais para o guarda-roupa ou alguma paz do parque para o coração?

Quando volta pra casa, cansada mas feliz, será que escolhe mais um episódio do seriado ou um filme esquecido para assistir? No banho, o frasco do shampoo na mão direita derramando na esquerda. Ou o contrário? Enxágua já embaixo d’água ou tira a cabeça para ter tempo de massagear? Um sabonete preferido para beijar a pele. Fecha o registro do chuveiro, gotas finais no pescoço. Alcança a toalha e a envolve no corpo, da direita para a esquerda, uma volta e meia, pouco acima dos seios. De cabelos lavados, escolhe outra toalha para fazer um turbante secador. É sobre você, mas você nunca vai saber.

Um pijama limpo para relaxar, edredom enroscado nos pés, metade dos joelhos para fora. Checa o despertador, vira de bruços. Até amanhã.

Te percebi e imaginei como seria a sua vida e se teria espaço para eu me encaixar nela. Me atrevi a imaginar cada minutinho do seu dia. Te percebi e olhei para as minhas mãos para ver se combinaria ao andar com a sua. Te percebi mas por você passei despercebido. Por isso é sobre você, mas você nem vai saber.

Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

Eu vou cuidar de você

Não por você já ter sofrido antes, não por isso. Até porque eu também já sofri um bocado. Eu vou cuidar de você porque eu quero te manter bem, se você quiser. E porque você possui uma energia bonita demais para perder sorrisos do rosto.

Provavelmente vou falhar na tentativa de te fazer invencível, mas pelo menos uma das mãos que vai te levantar será a minha.

O mundo anda muito estranho.
O pedaço de músculo que as pessoas carregam no peito nunca esteve tão longe de ser um coração, mas eu quero te lembrar sempre do seu e de como ele faz bem por onde passa.

Eu vou cuidar de você, não porque você não consegue se cuidar sozinha, mas porque a gente nunca é bom o bastante que outro alguém não possa nos ajudar e ser melhor.

Vou cuidar de você deixando a cortina fechada mais tempo de manhã aos fins de semana. Vou cuidar de você buscando na cozinha os talheres que esquecer na hora de jantar. Vou cuidar de você lembrando de desligar o despertador na sexta a noite e de ligar na noite de domingo. Vou cuidar de você colocando no carrinho do supermercado o que você gosta de comer. Eu vou cuidar de você no que você me deixar participar da sua vida. Eu não quero mudar seu jeito, não quero te fazer seguir o meu, mas eu quero estar por perto te emprestando um abraço quando seus braços cruzados não aliviarem o frio no inverno; quero estar por perto para te oferecer do meu sorvete quando o seu acabar no verão. Eu vou cuidar de você para destacar a sincronia entre seu perfume e o cheiro das flores que espalha pela casa.

Acho que as pessoas não querem muito ser cuidadas hoje em dia. Ou elas não sabem explicar até onde elas querem ser cuidadas. E tudo isso se confunde, sobretudo, com cuidar da vida da pessoa. E não é sobre isso, é sobre cuidar da pessoa, não da vida dela. Quando a gente cuida da vida, a gente impõe regras que julgamos certas para a pessoa ser feliz; quando a gente cuida da pessoa, a gente fica perto, opina e apoia as regras que a pessoa julga certas para ser feliz, ainda que não concordemos tanto assim.

E este é quem eu quero ser para você.

Quero cuidar de você porque essa viagem da vida é longa demais pra percorrer sem companhia. Talvez não seja eu quem estará com você até o fim, mas sou eu hoje quem quer caminhar até onde a gente conseguir.

Eu vou cuidar de você para você não sentir medo. Tenho um par de ouvidos descansados para ouvir seus receios e lamentos. Seria bobagem eu dizer que comigo a vida é sem medo, mas é certeza dizer que comigo a gente enfrenta qualquer medo. E o medo sente medo de quando estamos juntos.

Eu vou cuidar de você porque, ao mesmo tempo, você estará cuidando de mim. A sua energia transborda a minha. Você é a enchente de sentimento bom que a minha vida sentia falta. Eu vou cuidar de você porque a gente cuida de quem a gente gosta.

Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

Você se machuca demais

Ironicamente, um dos seus grandes problemas é também uma grande virtude: você tenta até cansar. E mesmo quando cansa, você vai lá e tenta de novo. Você insiste sempre. Você não sabe muito bem que papo é esse de limite. Você encontra uma maneira de tentar diferente. “E se eu puxar assunto sobre x coisa?”reflete sozinho. Você cava oportunidades e estuda um jeito que não seja intromissivo.

Só que o fato de você não ver a hora de parar é o que tanto te machuca.

E menos pior é a dor que a gente sabe como é causada, pois, certamente pior é quando a solução está fora do nosso alcance.

A sua teimosia em insistir até não poder mais é o que te corta o peito.

Não. Essa pessoa que não sai da sua cabeça não vai te responder. Você não vai conseguir ter a resposta que deseja, sequer uma resposta qualquer uma que seja. E pior, essa pessoa pode responder todos a sua volta, menos você. Você pode passar a ser invísvel para essa pessoa. Passará a ser algum objetivo decorativo no qual ela olha quando lembra que existe. É horrível, né?

Horrível e brutalmente verdadeiro.
Você se machuca demais porque apesar das experiências te mostrarem como é se foder nas mãos de alguém, na próxima oportundiade você se fode de novo. Repete os erros feito dias na semana. É só aparecer alguém novo na sua vida que lá está você fazendo tudo que sabe que é errado: Lá vai você se atropelando, lá vai você sufocando, lá você metendo os pés pelas mãos. E nessas horas, devo te dizer, não adianta a intenção ser boa se o resultado é péssimo.

Eu gostaria que você respirasse um pouco mais e procurasse se preservar. E que procurasse também mudar o foco da sua energia, cuidando da sua saúde, família e dos seus amigos. As coisas não vão dar tão certo sempre e se despesperar não vai cortar caminho.

Você não é uma má pessoa. E as outras também não são.
Só que para que tudo funcione é preciso haver sincronia. E isso é difícil, sabe? Leva um tempo até a vida organizar relógios iguais de pulsos diferentes. Leva um tempo até a gente encontrar quem termine a nossa frase. Fácil nunca será.

Você é inteligente o bastante para entender o que quero dizer e, além disso, já possui experiência para confirmar essas coisas.

Está tudo bem. Não tem problema a vida ter uma ou outra curva. Acontece.
Mas procure tirar férias de você. Férias dos seus desejos. Tire uns dias para o seu coração. Valorize o intervalo entre os beijos em bocas diferentes. E, bem além disso, na próxima vez que tiver olhos tão perto de você a ponto de te refletir os seus, seja por inteiro para que este alguém veja você como alguém para transbordar. Ainda que você sufocando, se atropelando, sendo quem você é.

Você se machuca demais e, por favor, não se esqueça: muita da nossa dor é causada por nós mesmos.

Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

Se a gente contar ninguém acredita

Lá no começo, antes da gente ser a gente, eu não reparava muito em você. Tá, até que eu te achava alguém bacana, mas meu interesse acabava aí. Eu nem tinha a intenção de te ver de outra maneira – assim como qualquer pessoa que não espera outra pessoa entrar na vida.

Lembra que eu te motivei a correr atrás daquela garota?
Você parecia empolgado e, pelo pouco que te conhecia, eu me sentia no dever de te falar que você deveria sim ir atrás dela antes de se arrepender. Até porquê, eu no seu lugar faria isso.

Mas você não foi. Você preferiu ficar. E foi ficando outros dias também.

E aqui você está na minha vida até hoje. Em pensar que nesse momento era outra boca que você estaria beijando no lugar da minha. Olha essa vida como ela é.

Acho que no fundo a gente não era pra ser a gente não.

Explico: foram tantas dificuldades e forças contra nós dois, que passou pela minha cabeça estar insistindo em algo que não deveria acontecer.

O que eu não esperava, porém, é que nasceria algo em mim e em você que fizesse a gente ser a gente, de um jeito ou de outro. Seja você, aos poucos, se importando comigo e abrindo mão das suas coisas pelas minhas; seja eu, me deixando levar e permitindo você destrancar o meu coração que eu já tinha até perdido as chaves.

Teve gente que quis que a gente se fodesse sim. Desse jeito, com essas letras. Teve gente que, apesar de não torcer contra, também não facilitou a favor. Teve gente que criou problemas. Teve de tudo e toda gente, mas teve muito da gente e continua tendo. Hoje, alguns anos depois, nós somos além do que já imaginamos. Hoje eu lembro das vezes que chorou vendo nossos planos irem por água abaixo por motivos fora do nosso controle e penso: só não era aquela outra, mas será outra.

Se a gente contar ninguém acredita porque eu mesmo não acreditava na gente no começo. Muito além dos clichês sobre começos inesperados, eu praticamente te empurrei para outra pessoas, mas você acabou voltando pra mim. Acho que era a vida dando um sinal que toda a minha segurança se tornaria pó perto do peso que o coração tem nessas horas.

Lá no começo, antes da gente ser a gente, eu não reparava muito em você. Hoje que a gente é a gente, eu não reparo em ninguém além de você.

Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

 

Seu amor passou e você não viu

Disfarçado de uma esbarrada nos corredores do metrô, seu amor passou e você não viu. Escondido na multidão no meio do show, seu amor passou e você não viu. Ignorado no deslizar do dedo, entre um sim e um não de um app de celular, seu amor passou e você não viu. Inclusive, seu amor pode ter passado por você hoje mesmo. Ontem talvez. E na fila pra pagar o pão e enquanto você esbravejava para desenroscar o carrinho de supermercado, lá do seu lado, seu amor passou e você não viu.

Você anda tão cansado, né?

O salário é baixo, as contas são altas. O esforço é muito, o retorno é pouco.
As coisas parecem não entrarem nos eixos. A vida anda estranha.

Só que pelo menos ela anda, ainda que dando dois passos pra trás e um pra frente às vezes. E você?

Você continua aí parado. Lê menos do que gostaria, come mais do que deveria. Cuida menos do corpo do que precisa e mais se as roupas estão ou não bonitas. Você é só alguém normal, tá tudo bem. Até porque, a vida não tem esse negócio de buscar ser diferente; a gente tem que viver o que a gente acha que deve.

Só que nessas o amor da gente passa e a gente não vê, tipo como aconteceu com você hoje. E como resolver, afinal? Como não perder essas oportunidades de novo? Como fazer pra gente ver o amor da nossa vida? Não tem como. Só que a gente pode melhorar vivendo diferente. A gente pode olhar e valorizar mais o que importa. A gente pode fazer muita coisa para nós mesmos até que nossos olhos se abram pra ver o nosso amor antes de ir embora.

Seu amor passou e passa por um monte de lugares, basicamente porque seu amor está no que você emana por onde anda. Seu amor é você. Você deve cuidar de si, de quem gosta e do seu mundo, para reparar quando seu amor estiver por perto. E o jeito que você cuida está amarrado em cada coisinha da sua vida. Presta atenção, tá?

Quando falo que o amor da sua vida passou e você não viu, quero dizer que você pode passar a abrir mais a porta desse seu coração ao invés de deixá-la assim tão fechada e, com isso, você pode observar mais e explicar menos. O amor da sua vida é você – e o que você deseja viver. Você precisa ver antes de passar.

Disfarçado de uma esbarrada nos corredores do metrô, presta atenção amanhã na hora de ir trabalhar.

Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

 

Me abraça?

Só fica aqui.
Fica aqui e me deixa deitar no teu peito para eu ver se ainda sei contar as batidas que seu coração dá.

Agora não é sobre sexo ou beijo, é sobre abraço.
É sobre tudo que a gente pode viver dentro de um abraço. É sobre o quanto eu me sinto bem dentro de um abraço e sobre o quanto eu gosto de abraçar.

Se nós dois fizermos bem um ao outro, nós dois venceremos no início, meio e fim.

Me abraça e fica aqui por um tempo, sem pressa de ir embora. Eu sei que tem um monte de problemas para resolver lá fora, sei que é muito simples reduzir a vida a abraços, mas de todo esse resto eu não quero saber agora. Eu só quero perder as horas dentro do seu abraço.

Eu me sinto tão mais seguro dentro de um abraço. Parece um escudo a me proteger das energias ruins e, ao mesmo, uma fortaleza para erguer a peteca que eu não consigo segurar. Por essas e por outras, me abraça?

Me abraça pra eu te abraçar também. Ninguém consegue abraçar sozinho.

Me abraça pra eu fazer com você o que eu gostaria que fizessem por mim, afinal, eu sei bem como fazer bem a outro alguém. Vem aqui pra eu te abraçar e fingir que o relógio parou, só pra você se sentir melhor do peso todo da vida em suas costas.

Me abraça do seu jeito. Seja colocando um abraço acima de um dos ombros ou dos dois pela cintura. Ou até com um braço só. Me abraça no trovão e no nascer do sol. Deixa eu me enroscar nesse nó que é o nosso abraço. Respira devagar em meu pescoço. Cola teu coração no meu. Deixa eu colocar uma das minhas mãos na sua nuca e circular meus dedos em seu cabelo. Pode ser em pé, pode ser sentado, pode ser deitado. Pode ser de qualquer jeito, desde que esse jeito seja um abraço.

Eu não sou quem vai resolver seus problemas, mal sei lidar com os meus. E talvez isso seja algo que descobrirá sozinha, mas te garanto que um abraço nosso por dia, um meu para você, um seu pra mim, um abraço de nós dois, te garanto que tudo isso pode fazer a gente enfrentar melhor a parte ruim de viver. Um abraço que combine o nosso cheiro.

Talvez você não entenda, talvez nem eu mesmo entenda e talvez a graça seja não entender nada mesmo. Não é sobre entender algo, é sobre fazer algo. Não quero te apontar o dedo e dizer o quanto falhou, não quero esgotar sua energia que a vida tanto suga, eu quero que a gente se abrace. Quero falar por detrás do seu ouvido. Quero a beleza cega de um abraço de olhos fechados. E quero por nós dois.

Me abraça? Eu quero te abraçar mais. Quando a gente se encontrar, quando a gente se despedir, quando a gente dormir, quando a gente se esbarrar no corredor entre a sala e o banheiro e quando a gente viajar. Eu quero te abraçar.

Não quero a vida sem o grande valor do pouco que é um abraço.

Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

A gente não vale nada

Ou vale? A gente vale o que a gente fala?
A gente vale o que a gente posta? E o que a gente critica? E a opinião do outro que a gente não tolera? Isso vale?

A gente nem aproveita o começo da semana só esperando chegar o fim dela. É como se a gente vivesse numa acelerada caminhada até o fim da vida, cada dia um pouco mais perto da morte, como se a vida só fosse boa no fim – e como algo que chegou ao final pudesse ser bom -. O raciocínio faz sentido?

A gente não vale nada.
O problema é que a nossa visão sobre o que é viver é reduzida demais.
A gente se apega a coisas e pessoas que vem a vão das nossa vida. Seja pela marca bacana para exibir entre outros humanos cheios de ossos iguais aos nossos; seja por uma boca que já beijamos e que largamos mão da nossa vida pela vontade de beijar de novo – como se adiantassa algo. E a gente não precisa levar isso pra sempre.

A lembrança já é um lugar grande o bastante para guardar quem passa pela gente.

A gente não vale nada porque a gente se machuca demais.

Respondemos quando sabemos que não devemos e ignoramos quando sabemos que machucaremos. Isso só pra exemplificar.

E o quanto a gente reclama, né?
É o cabelo que não acordou bom. O ônibus que demorou. O salário que não aumentou. O crush que não respondeu. O match que não vingou. O sexo que “já acabou”. A ressaca que chegou. Nada tá bom. Tudo tá ruim. Tudo. Absolutamente a gente reclama de tudo, de um ângulo ou de outro. E mesmo quando não temos do que reclamar, a gente: caça algo pra reclamar. Pode ser alguém perfeito até a gente encontrar algum defeito [não existe alguém perfeito, mas a gente procura]. Pode até ser uma boa intenção até a gente chamar de segunda.

As coisas estão invertidas e por isso a gente não tá valendo nada. A gente quer o valor das coisas mas não damos valor a elas.

Primeiro porque a gente é quem cria parte dos nossos problemas – e daí a gente reclama mais e mais. Fabricamos parte daquilo que odiamos. Fazemos com o outro o que detestamos que façam com a gente. E nisso seguimos num ciclo de energia não proveitosa. A gente meio que acumula sentimentos que não queremos. Isso acontece desde a resposta atravessada para os nossos pais até o “vamos combinar qualquer dia sim” que respondemos para nos esquivar. A gente não vale nada mas reclamamos que as pessoas não valem nada, ou seja, a gente vale mais que elas?

Como a gente quer tudo se não estamos valendo nada?

Ou será que a gente vale?
Ou o que vale pra gente é o que vale na vitrine?

A gente aperta o coração com um abraço ou com rancor?

O louco é que a gente sabe o que vale nesse mundo. A gente sabe bem. A gente sabe separar o valor do preço das coisas. Então, pergunto, o que falta pra gente valer? E pra gente fazer valer a pena?

Márcio Rodrigues.
@marciorodriguees

Bem que me alertaram sobre você

Das lições que aprendi na vida, a minha atual fase tem revivido uma: devemos viver as coisas do jeito que achamos certo, ou seja, se alguém diz que você deve fazer x ou y para dar certo, ainda que diga com “a experiencia de já ter passado por isso”, você não tem a menor obrigação de concordar e seguir. Isso não significa, porém, que não devemos levar em consideração as opiniões de quem se preocupa com a gente. E aí que chego em você.

Já tinha ouvido falar algumas coisas sobre você. As pessoas falam muito, né?

É que sempre foi fácil saber, uma vez que nossos amigos em comum ultrapassam as dezenas. Frequentamos os mesmos shows e só aí já diminui o círculo de amizades. Só que eu nunca me apeguei à isso, porque pra mim funciona assim: preciso viver, pra depois dizer o que achei.

Então eu fui te dando a atenção que eu tinha, com toda a minha segurança que ostentei a vida inteira.

E a gente foi construindo uma rotina de contato quase que contratual. Falávamos do despertar do dia até momentos antes de dormir. Chat no Facebook, Whatsapp e qualquer outro meio. Eu curtia e comentava suas fotos e posts e meio que automaticamente você fazia o mesmo comigo. Conversávamos sobre tudo o que acontecia em nosso dia. E claro que isso foi alimentando algo dentro da minha cabeça.

Passei a acreditar que havia alguma coisa aí. Até lembrei das histórias que me contaram sobre você, mas nada que pudesse me influenciar a ponto de mudar o rumo que a história estava seguindo. Pelo menos eu achava que era uma história. Este é o ponto.

Exatamente da mesma forma que passamos a nos falar fomos nos distanciando, ou melhor, você foi. Aquelas mensagens, por exemplo, que levavam segundos para serem respondidas até hoje não tiveram respostas após meus novos envios. E o pior é que passei a me questionar: Será que exagerei em algo? Será que assustei com as minhas brincadeiras? Será que…? A gente tem dessas, né? Quando uma coisa começa a dar errado a gente passa a achar que o problema somos nós. Eu até acho que isso faz sentido, porque é uma humildade sentimental. Tem a ver com se colocar no lugar do outro, repensar e concluir que: ops, também erramos. Mas nosso caso – “caso” é o único nome que posso dar para isso – não era bem esse. Não que eu eventualmente não tenha errado, mas certamente não o bastante para ruir com tudo.

 

E aí você, basicamente, cagou pra mim e sumiu. Comecei a ver cada uma das peças desse jogo se encaixarem. Relembrei de tudo que ouvi sobre você e me senti mais uma vítima – que coisa estranha de dizer. Me senti mais um alguém que dedicou atenção e carinho para você que, por sua vez, dedicava atenção e carinho para outras vinte pessoas. Ou mais? E nada contra também, eu só não precisava ser mais um número.

 

Não chego a te considerar uma má pessoa, mas concluí que não é uma pessoa boa para mim. Nosso jeito não combina. Você lida com as pessoas de um jeito diferente do meu. E o curioso é que ainda penso em você porque me faz pouco sentido o seu jogo da vida. Me pergunto como que alguém pode ficar de mimimi por tanto tempo, tantos dias, tantas horas, para sumir na velocidade com que aparece o duplo tique de mensagem visualizada? Como? Será que eu que romantizo demais as pessoas? Ou é a minha vontade que falou mais alto que a verdade? É bem estranho de entender.

 

Bem, o fato é que você pode continuar postando suas selfies ansiosas por elogios sedentos por você. Pode continuar jogando iscas por aí para esperar outro morder como se não fizesse de propósito. Pode continuar exatamente do jeito que sempre foi – a mesma armadilha que caí – pois agora eu que estou cagando para você. Só toma cuidado porque o mundo dá milhões de voltas e você pode encontrar muitas pessoas em uma delas. Tipo eu.

Márcio Rodrigues
instagram: @marciorodriguees

 

« Older posts Newer posts »