Dias cinzas demais. 
Autoestima perecível rumo a esfarelar. 
Como que a gente fica bem? 
A gente se isolou. 
Mas nada mudou para quem já se isolava de si. 
Se mudou, foi para pior. Muita coisa piorou. 
Difícil demais colocar outra cor no sorriso que não seja amarelo.  
É só mais um dia. Outro. Mais um. 
Uma vitória por cada manhã vivida, tarde passada e dia finalizado. 
Gangorra emocional até o próximo despertar. 
Poucas horas de lazer infectadas por ideias que não deviam estar aqui. 
É ok não ficar bem, dizem. 
Dias de introspecção são armaduras até o próximo: “tá tudo bem?”  
Na obrigação de assumir os boletos sem fim a gente fantasia uma versão de quem somos. 
Queria fazer qualquer outra coisa, mas o meu querer está tão longe do poder. 
Então a gente disfarça. 
– Que bom que você tá bem 🙂 
Respostas que comprovam a alegoria do bem estar. 
Não quero contar muitos detalhes, é que nem eu os suporto. 
Vou te convencer que estou bem só pra gente mudar de assunto rápido e voltar a falar sobre coisas que não me animam, mas parecem tão apaixonantes para você. 
Dias cinzas demais. 
Difícil buscar nova perspectiva em dias tão iguais.  
Se viver é uma viagem a vista de toda manhã no meu espelho não inspira. 
Mas é preciso produzir. Falar com pessoas. Interagir com outras. Descontrair com algumas. 
Socializar, é o que dizem. 
Fim de mais uma reunião de vídeo e um grito de alívio. 
Pior que ainda assim, motivos para agradecer – com o abuso da pieguice. 
Um teto para proteger. Comida para aquecer. Prazeres para entreter. Pets para adormecer. 
As coisas não iam muito bem, hoje já nem sei mais para onde vão.
Sigo com as que restaram até aqui. 
Há, porém, um fiapo teimoso que evita o rebentar da corda que a gente segura e que, se voz tivesse, falaria: 
– Já passou por outras. É só mais uma. 
Há razão. Odeio dar uma fatal razão porque o sofrer, muitas vezes, conforta mais que o vão do otimismo. 
Mas esta é uma razão insuportavelmente verdadeira. Passamos por outras. 
Ano passado é um exemplo. Puts. Achei que não conseguiria. 
A gente aprende a desenvolver a habilidade de renovar limites a cada dia.
Passei por outras.
É só mais uma.


por Márcio Rodrigues.
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