“Esse filme é bom mesmo? Ouvi muita gente falar mal”. 
Semanas passaram e a resposta nunca veio. 
Foi só mais uma mensagem não respondida, apesar de visualizada. 
Me leva a crer, desse modo, que acabei sendo só mais uma mensagem para você ler com cara de “puts, que preguiça”. 
Acabou por aqui minha entrada na sua história pelos seus stories. 
Pra mim foi mais uma vez que enfrentei o inimigo da autoestima e me expus ao tentar um diálogo. 
Já devia ter me acostumado. 
É que tem tanta gente falando sobre novo normal. 
 

Esses tempos tem me revelado a importância de cuidar melhor do meu tempo. 
Sem poder ir à rua eu não me exponho tanto. É uma vantagem para quem tem autoestima como inimiga. Na segunda fala com alguém que não conheço eu já acho que falei algo errado. Mas o tempo precisa cuidar de mim também para o bem-estar funcionar. 
 
E tanto tempo dentro de casa, administrando a inércia dos momentos de ociosidade, percebi que tenho ficado mais imerso no celular, e assim, apesar de não encontrar ninguém fisicamente para conversar, ainda é possível me machucar com trocas de mensagens e, principalmente, com a falta delas; com os fins que nem chegaram a começar. 
 
Nasce, portanto, uma oportunidade de me proteger.
Isolar não só o meu corpo como o meu sentir. Rever minha relação com as minhas interações, as motivações da minha ansiedade (esperar resposta?) e toda manifestação que me faz sentir em dívida, em prejuízo e que colabora com a destruição da minha confiança. Essa reflexão tem me acalmado, não a ponto de me sentir seguro, mas o bastante para que eu possa pegar mais leve comigo. 

Resetar a mania de perseguição que tenho a mim mesmo.  
Sem poder sair para qualquer atividade social, acabo retomando grande parte do controle do meu coração e isso me parece uma oportunidade para blindá-lo aos poucos. 
A vida social escancara feridas que ainda ardem. Ir a um show é também aumentar a chance de encontrar alguém que já me fez mal. Pegar o ônibus para o trabalho é também passar perto dos lugares que eu fui antes com alguém – reservando aqui o privilégio de não precisar sair de casa para trabalhar. 
 
A verdade é que nosso coração também se isolou. 
E quando menciono retomar o controle, é saber que as horas nas timelines é de responsabilidade exclusivamente nossa. Se o que há de contato hoje é virtual, que seja evitado aqueles que possam dar gatilhos e fazer mal. Este isolamento forçou a importância de cuidarmos da gente.  
 
Esta rotina com a presença, exclusivamente em vídeo, de poucos alguéns, provoca um aspecto sensível que vamos aprender a lidar aos poucos ao final de tudo isso, mas tem um lado positivo sobre o resgate de nós mesmos, a reflexão sobre equilíbrio sentimental e, acima de tudo, proteção. Como é importante gostar da nossa própria companhia antes de qualquer outra.
 
Ninguém gostaria que nada disso existisse, mas agora que é uma realidade, cabe à gente encontrar maneiras diferentes de fazer os dias menos piores. Ficar em casa. Isolar. Cuidar. São alguns termos e palavras que num contexto de cuidado pessoal estendem os benefícios da saúde para o nosso coração.
 
Quanto ao filme, nem é tudo isso. Assisti e não recomendo.  


por Márcio Rodrigues
umtravesseiroparadois@gmail.com

(aos que chegaram agora: assim como a maioria dos textos deste blog, este texto não reproduz a minha vida pessoal; eventualmente pode ser inspirado em algum momento, mas a maior parte do conteúdo é fictícia)