Diferente de você que nem quis me conhecer, eu me conheço.
A forma que esse fim torto aconteceu vai me deixar mal.
Meus amigos vão falar pra eu ficar bem.
Mas eu vou ficar mal – e eles me conhecem bem.
Até porque não tem um botão ficar bem/ficar mal.
Eu vou F I C A R M A L.
Mas só vou ficar por um tempo; menos do que imagino.
Diferente de você que nem quis me conhecer, eu me conheço.
Já mencionei que eu vou ficar mal?

Vai ser mal do tipo ter suadeira só de ouvir um nome igual o seu na padaria.
Sei lá, vai que é você.
Vai ser mal do tipo pedir para meus amigos não mencionarem certos filmes e bandas – tampouco alguns lugares que você gosta e que aceitam delivery.

É possível que eu perca apetite. E essa é a pior parte. Você nem chegou a me conhecer como fico quando não consigo comer. Eu amo comer.
E assim eu vou perder um peso – mas vou procurar ajuda pra cuidar de mim e me reequilibrar.

Certamente vou parar de seguir alguns perfis no TikTok.
Aqueles que você me indicou e que eu passei a amar. Que inferno.
Durante um tempo não vou conseguir dissociar de você as coisas que me fazem bem – que, de fato, passou a me fazer mal.

E cheiro?
Cheiro vai ser complicado.
Minha cabeça me leva exatamente para o lugar da melhor lembrança ao sentir determinados cheiros – lugares e pessoas. E a gente meio que teve os dois, ou seja, alguns lugares que fomos juntos não vou conseguir ir por um tempo.

Isso tudo vai acontecer; bem mais que isso vai acontecer. Eu vou ficar mal.
Mas não vai ser por muito tempo não.
Primeiro porque eu tenho clareza dos motivos que me farão mal, de cada detalhe pequeno. Mas vai rolar um alívio também de pensar que fiz tudo o que pude. Então, vou aprender a lidar aos poucos, sem me pressionar.
Segundo porque eu sou legal demais para sofrer por você.
Falando assim parece que me acho, né?
Não é totalmente errado isso não.

É que tenho muita vontade de fazer bem a quem me faz também.
Eu sou meio incontrolável nesse sentido.
Tenho um monte de planos possíveis de viver sozinho mas melhores ainda de viver com alguém. E o primeiro plano é realizar os planos desse alguém.

Eu topo tudo. Desde que não envolva altura. Tenho pavor.
Não tem tempo ruim pra mim porque é legal demais ter alguém para acompanhar. Eu vou aos shows de artistas que não conheço – ou nem gosto tanto assim. Eu assisto a filmes que não fazem o meu tipo. Eu experimento comidas que, de cara, sei que não vou gostar. Eu gosto de acompanhar. E todo mundo, em algum momento da vida, gosta de ter companhia. E o saldo de tudo é me fazer um pouquinho mais interessante do que antes.

Também gosto de opinar, quando a minha opinião é solicitada. Tenho disposição para ouvir, buscar entender e contribuir com o meu jeito de ver as coisas – mesmo que não seja o mesmo jeito da pessoa que está comigo. Também sou aberto a crítica; a entender que talvez eu esteja mais errando do que acertando. Sacodes bons de levar da vida.

Então assim: eu vou ficar mal.
Vai rolar uma nova fornada de pão amassado pelo diabo para comer.
Já consigo imaginar o pote de sorvete na minha barriga e o app de streaming me perguntando se ainda estou assistindo.
E isso tudo faz parte, né? O que a gente teve estava legal demais para não me chatear com o fim.

Mas esse meu mal-estar também vai ter fim.
E a parte de fazer alguém ficar bem é a minha preferida.
Eu gosto de tentar ser legal.
É que ao contrário de você que nem chegou a me conhecer direito, eu me conheço.

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por márcio rodrigues
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