Precisei passar por muitas coisas antes de você para que pudesse ser mais fácil entender os motivos pelos quais a gente terminou. 
É que o meu eu de antes, tranquilamente, colocaria toda a culpa em mim. 
Puts. Tantas vezes. E, sim, em algumas delas foi mesmo.
Mas a gente tem uma tendência a quase torcer contra nós mesmos. 
Dessa vez não, dessa vez está bem claro: o problema foi você mesmo.  

Você não se deu bem com o que mais gosto em mim. 

E eu, basicamente, não posso fazer nada a não ser respeitar.  
Veja, antes de ter toda essa certeza, avaliei para entender se era algum excesso e, mais que isso, se era alguma coisa de fato prejudicial no pior sentido intencional da palavra, mas depois de um, dois, três, vários episódios, é tudo sobre uma questão de afinidade. Algumas das coisas que mais gosto em mim simplesmente não combinam com você. 

Parece que te assustava, por exemplo, meu jeito de tomar iniciativa. Entenda, antes de você, eu era quem esperava muita das pessoas e toda essa espera sempre me fez mais mal do que bem. Por isso que não espero mais. É bem chato ter uma relação burocrática onde a gente tem que medir os passos porque a outra pessoa pode se sentir acoada. Eu sempre quis fazer tudo com você, mas você parecia querer as coisas só no seu tempo. E isso é injusto.  

Outro exemplo, meu jeito de cuidar. Eu gosto de me colocar à disposição para ajudar, gosto de dar alternativas para resolver as coisas, gosto de perguntar se está tudo bem. Mas, aparentemente, tudo isso parecia algum tipo de perseguição a você; sei lá, parecia que, de alguma forma, violava sua privacidade – pelo menos é o que você demonstrava quando reagia com rispidez. Ou seja, se pra mim é uma gentileza mandar uma mensagem para saber se precisa de alguma coisa que eu posso ajudar, e você não reage bem a isso, é um sinal de desarmonia.  
 
E em todas as vezes que precisamos conversar sobre a gente? Ou você fugia ou ironizava: “tá bom, tá bom, vamos falar então sobre a gente, tá feliz agora?” E a gente só precisava conversar. Ouvir e falar sobre o que não está indo bem e que podemos melhorar. A gente só precisava se alinhar. Você nunca gostou de falar sobre a gente. 

E ainda tem uma coisa que parece detalhe, mas só parece: você não gostava muito de curtir minhas vitórias. Sempre deixei claro o quanto gosto de celebrar uma boa notícia, um dia bom, uma boa surpresa. E o celebrar é só sobre comer em algum lugar diferente ou algo do tipo. Tentei algumas vezes, mas você sempre torcia o nariz. “Precisa mesmo?” Perguntava. Tudo parecia um trabalho grande; um grande esforço. E é esquisito porque era sobre uma notícia boa, um momento bom. 
 
Sabe, nada disso significa que estou sempre com razão. Eu falo disso aqui recortando um pedaço da nossa rotina. Percebi aos poucos que o desalinhamento ficava agudo justamente quando eu fazia as coisas que mais gosto: me preocupar com você, tentar te ajudar, te chamar para comemorar comigo e por aí vai. E, justamente essas coisas, eu não quero mudar – a não ser que alguém me diga que faz mal, o que nunca aconteceu. 
 
Já me culpei demais por coisas que eu simplesmente não tinha culpa. Essa dor eu não vivo mais. Você não se deu bem com algumas das coisas que mais gosto em mim. Este é o fato. E tudo bem, mas vou continuar dando o meu melhor para fazer bem a quem estiver comigo. Com você não funcionou. 

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por Márcio Rodrigues.
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