Havia uma corda. 
Fixada de maneira forte o bastante para aguentar qualquer mudança de clima. 
Dias de sol e outros de temporal. 
Ela se mantinha lá. 
Até que ela foi se fragilizando. Ela cedia um pouco por dia por um lado. 
O lado em que estava você. 
No outro estava eu tentando segurar. 
 
Você foi me dando sinais que só me fizeram sentido quando os olhei de forma única. 
Primeiro, parecia impaciente até com as minhas piadas. 
A gente não dava mais risada um com o outro. 
Não havia mais série pra gente assistir juntos. 
E eu tentava te surpreender, mas o que antes era incrível para você passou a ser ok. 
 
Passou, também, a demorar para responder minhas mensagens. 
Muitas vezes nem sequer respondia. 
– “Dia corrido” 
Os emojis e figurinhas foram extintos. 
E o “eu também” se tornou protocolar. 
– “Saudades” 
– “Eu também” 
Apesar de tudo, lá estava eu sempre com um “tudo bem” ao alcance do bolso. 
Pouco a pouco fui colecionando exemplos de como você não queria mais ser a gente. 
 
Mais de uma vez, perguntei o que estava acontecendo, mas você que já não gostava de conversar, passou a rejeitar meu acesso. Maldita percepção negativa que criaram para os diálogos sobre as relações. 
Tentei te contornar. Não me cabe a ideia de não tentar tudo até que nada mais funcionasse. 
Você não reagia. 
Marcar de ver meus amigos te parecia a pior a notícia. 
E quando a gente estava com os seus eu parecia não estar no mesmo lugar. 
A gente parou de funcionar, mas eu não queria. 
Todo dia aparecia um novo furo na canoa e eu tentava tampá-los para não afundar. 
Percebi, então, duas coisas: 
1. Você, de verdade, estava desistindo da gente; 
2. Eu estava com uma vontade incompatível com a sua; 
 
Queria continuar, mas não queria o trabalho todo. 
A nossa parceria se transformou em uma empresa pra gente administrar. 
Almoços familiares. Aniversários inadiáveis. A gente participava, mas a sua vontade passou a ser obrigação. Você não dizia, mas também não precisava. 
Sentia falta do carinho mínimo. 
Suas pernas enroscando com as minhas no sofá. 
– Vou fazer pipoca, pausa o filme? 
Essas coisas. 
A gente foi se despedindo sem conversar. 
 
E o que era a gente passou a ser você e eu, com nome e sobrenome. 
Seus sinais se mostraram reais e sua parte da corda caiu no chão. 
2. Eu estava com uma vontade incompatível com a sua; 
E ela permanece aqui. Uma vontade de me revisar, repensar meus erros, me reinventar, tentar ser um eu diferente, conversar, buscar maneiras para ficar tudo bem, maneiras para melhorar o que é bom. 
Uma vontade de continuar. 
Agora não mais com você. 
Que deixou espaço para outra pessoa chegar. 
Ainda há uma corda.


por Márcio Rodrigues.
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